Bruno de Carvalho, O Grande

(Nuno Godinho de Matos, 25/05/2018)

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A classe dirigente nacional, urbana, sediada nos grandes centros, como Lisboa e Porto, desde Madame Thatcher e Ronald Reagan, adoptou, com fé, convicção, zelo, militantismo e sistematicamente, os valores de gestão praticados nos USA. Traduzidos para português, por Anglo-Saxónicos, dado serem uma expressão do mais elevado grau educacional, que recordam a aristocrática e loira “Albion” e não a América resultado do labor de emigrantes Irlandeses, mal educados e consumidores de cerveja, em doses ausentes de moderação.

Valores esses que se resumem a:

Regra de ouro: 1.ª) precariedade no emprego, se possível, a recibo verde;

2.ª) “Up or out” – ou sobes ou vais para a rua e lixa-te!

3.ª) “either you invoice, or out”. ou facturas e cobras ou vais para a rua e lixa-te.

Esta trilogia que, nas reuniões de “governance” das “corporations”, substitui a Santíssima Trindade, nunca é assumida, devido à sua chocante brutalidade e por isso é traduzida pela perífrase: “regras de gestão e racionalidade na tomada de decisões”.

Isto por que, as pessoas educadas e de bem nunca usam termos, ou expressões que revelem o seu egoísmo e a sua subordinação a um único valor: o ganho, o lucro, a facturação eficazmente cobrada.

Aliás até pagam, para que outros lhes proporcionem serviços de solidariedade social; a fim de, quando necessário e se necessário, poderem invocar e citar essas prestações de preocupação com os “pobrezinhos e desvalidos”.

Isto é. Traduzido em português corrente, nas organizações que praticam os métodos de gestão decorrentes dos belos princípios de Reagan pai, segue-se a metodologia: ou produzes e dás lucro ou vais-te embora e trata da tua vida que estás a mais.

O Grande Bruno de Carvalho, seguindo os princípios atrás expostos, aplicou esta “metodologia de direcção, gestão e condução de empresas”, ao clube de “pontapé na bola” da elite nacional, prestando-lhe um grande serviço, para seu imenso prazer e satisfação. Para o comprovar basta ver quem o acompanha, nas fotografias públicas, até há dois meses atrás.

Sucede, porém, que Bruno de Carvalho, “o Grande”, depois de praticar estes princípios durante anos, quando confrontado com as desapropriadas discordâncias do mal educado do treinador e de alguns jogadores, influenciados pelo primeiro, decidiu pensar pela sua cabeça e aplicou uma outra regra que, os seus bem pensantes mentores, convictos adeptos da Loira Albion, igualmente, lhe ensinaram, segundo a qual: “The most important is to hold on and pursuit.” Ou, como diria Salazar, responsável pela divulgação da regra, no todo nacional, “il faut tenir”.

E, aí, dado ser uma pessoa com deficiências educacionais, isto é, dado, ser um principiante na prática da hipocrisia, característica dos dirigentes bem pensantes e colocados em lugares de direcção, pensou que o melhor seria contratar uns jagunços e mandar distribuir uma carga de pancada sobre os seus opositores, para resolver a questão, mostrando quem manda.

O individuo em causa cometeu um único erro: ter-se esquecido que, quando se opta por um caminho formal e substancialmente ilegal, mandam as regras de gestão praticados na América do Norte (ai, perdão) Anglo-Saxónicas, que jamais se deixe rasto, assinatura, ou qualquer possibilidade de identificar o mandante.

Ele foi grosseiro e, em vez de escolher uma tribo de ciganos, vinda do estrangeiro e imediatamente a seguir exportada, para outro território, com outro governo soberano, para praticar os desacatos, socorreu-se da “Juve-Leo”.

Naturalmente, como dois mais dois são quatro, toda a sociedade nacional compreendeu o que tinha sucedido.

Contudo, realmente ele não é um facínora Ele é um escrupuloso seguidor das muito Nobres e Distintas regras de gestão seguidas na América do tio Reagan, peço desculpa, regras de matriz Anglo-Saxónica, só que, ainda, com pouca educação e deficiente prática da hipocrisia, com a qual se gerem os interesses.

Ele, a quem estava destinada uma estátua, a ser colocada, exactamente no Marquês de Pombal, com o pé sobre o Leão, retirando da mesma o tolo do Iluminista (o qual mandou cortar algumas cabeças, mas, no Século XVIII, os primeiros ministros podiam ordená-lo aos tribunais) acaba por ser destituído, arrasado e destruído, sendo, agora, repete-se, agora e somente agora, tratado por toda a classe dirigente, educada, bem pensante, de boas famílias e melhores relações, como um facínora.

Passou de herói, a vilão, homem a abater, esquecer e condenar às profundezas do opróbrio. E isto, somente, por não saber aplicar a dose de hipocrisia necessária ao triunfo e não ter sabido aconselhar-se com quem lha podia ensinar.

Agora que se destruiu a si próprio, aplicando os critérios daqueles a quem serviu durante anos, é fácil cuspir-lhe em cima. Só que, o acto de lhe cuspir na cara, neste momento, não revela, nem grande coragem, nem grandes princípios. Revela, como sempre, a singela, real e Santa Madre: hipocrisia.

Trump, crianças, fotos antigas e “a culpa é do Obama”

(José Soeiro, in Expresso Diário, 22/06/2018)

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José Soeiro

“A FOTO DA CRIANÇA É UMA MANIPULAÇÃO”

Foram hoje aprovados por unanimidade no Parlamento vários votos de condenação à política de Trump de separação das crianças migrantes dos seus pais. Ainda bem que, em Portugal, há um consenso sobre isto. Trata-se de uma linha vermelha que não podemos deixar passar. Mas ainda assim, apesar do consenso institucional, uma visita a alguns jornais e às redes sociais mostra como há ainda gente a relativizar a barbárie de Trump contra as crianças.

Nalguns casos, fazem-no invocando o facto de haver uma imagem que circulou que era de uma criança numa manifestação e não numa gaiola real. Também prefiro quando as fotos têm legenda, com o local, a data e o contexto e acho que temos direito a essa informação. Mas não desvalorizo os mortos da guerra civil espanhola pelo facto de a Guernica ser um quadro cubista. Quando um oficial nazi, ao ver a pintura, perguntou a Picasso: “Foi o senhor que fez isto?”, ele terá respondido: “Não. Foram vocês”. O facto de haver uma representação propositada da realidade não torna essa realidade uma ficção. E a separação das crianças e a sua colocação em gaiolas não é uma ficção: está, de facto, a ter lugar.

“ESSA LEI É DO OBAMA”

Noutros casos, a relativização do que está a acontecer recorre a um argumento cínico: com Obama a política de imigração norte-americana já era cruel contra os migrantes. Ora, esta é a parte de verdade de uma manipulação perigosa. E é essa que me importa discutir.

A confusão talvez se tenha instalado, também, com uma troca de fotografias. Jon Favreau, o ex-porta-voz de Obama, partilhou uma imagem de crianças em gaiolas para ilustrar a sua indignação com o que estava a acontecer em 2018. Mas afinal – aproveitaram os apoiantes de Trump para acusar – a foto era de 2014, ou seja, a política já vinha de antes. Sim, explicou depois Favreau, a foto era antiga mas além da semelhança haveria também uma diferença: as crianças estavam ali temporariamente por terem aparecido na fronteira desacompanhadas, e o esforço do Governo Obama era procurar a sua família para as reagrupar. Agora, argumentou Favreau, as crianças eram enviadas para as gaiolas por terem sido separadas das famílias pelo Governo: era Trump quem as tornara crianças desacompanhadas, quem estava a criar o problema, em vez de o resolver.

É possível que sim, e Favreau terá provavelmente razão. Mas o caso embaraçou os democratas. Porque a diferença verdadeira escondia também uma semelhança de verdade. As leis que Trump estava a mobilizar não viriam, de facto, de antes? Sim e não.

AFINAL, O QUE MUDOU COM TRUMP?

Trump promoveu várias alterações importantes nas políticas de imigração dos democratas. Revogou um decreto de Obama que protegia os “Dreamers”, isto é, que dava aos menores indocumentados que entrassem nos EUA uma autorização temporária para residirem, estudarem e trabalharem. Trump aprovou também um abominável decreto que ficou conhecido como o “Muslim Ban”, que proibiu a entrada nos EUA de cidadãos do Irão, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen, mesmo que refugiados e mesmo que viessem ter com a família, levando a que muitos que estavam fora e procuraram regressar ficassem pendurados no aeroporto. Além disso, Trump limitou o critério da reunificação familiar para a concessão de vistos. Propõe, ainda, desviar 25 mil milhões de dólares do Orçamento para que o seu famoso muro separe definitivamente o México dos EUA. E fez mais: com a sua política de “tolerância zero”, toda e qualquer entrada ilegal nos Estados Unidos passou a ser tratada como um crime federal, tornado o modo como as autoridades lidam com as migrações indistinto do modo como lidam com um crime. Daí a multiplicação das abjetas separações das crianças.

É certo, dir-se-á, que a lógica de criminalização da imigração vem de trás. Vem mesmo. Não foi Trump que a inventou. Na verdade, as perseguições por entrada ilegal aconteciam com Clinton, Bush ou Obama. Sim, a administração Obama também deportou dos Estados Unidos milhares de migrantes a quem não foi reconhecido o estatuto de refugiados e até abriu um centro de detenção, longe de onde estavam os advogados defensores dos migrantes, que foi descrito pela New York Times Magazine como um cenário dantesco e desumano. A diferença é que Trump passou a tratar a questão não por via de centros de detenção (onde as famílias permanecem juntas), mas de prisões (onde evidentemente os menores não estão). A solução de Trump foi por isso utilizar a possibilidade de criminalização que já lá estava como forma de normalizar qualquer horror, incluindo o da separação das crianças, e de, por essa via de instalação do terror, tentar dissuadir os fluxos migratórios.

A INDIGNAÇÃO, SEM ARMADILHAS

É evidente que estas políticas, além de violarem direitos humanos básicos, não contêm os fluxos de quem foge da guerra ou da miséria. O facto de mais pessoas se estarem a aperceber da sua irrazoabilidade é muito positivo. A indignação contra um sistema de policiamento de fronteiras e de criminalização da imigração que republicanos e democratas foram construindo, e que agora Trump radicaliza, é muito importante. Na realidade, a política de “tolerância zero” de Trump revela não apenas a obscenidade do Presidente e o seu desprezo pelos outros, mas também quão más eram as normas que já lá estavam. A aplicação implacável dessas normas põe a nu a sua barbaridade.

Aproveitemos então o momento evitando duas armadilhas: a de protestarmos apenas contra as características psicológicas da personagem Trump, e a de menorizarmos a barbárie em curso pelo facto de haver leis que já vinham de trás. Agora que a monstruosidade destas práticas está a ser exposta, indignemo-nos contra as leis que autorizam esta separação e, já agora, contra a criminalização da imigração e a violação quotidiana dos direitos humanos das crianças e dos migrantes. Nos Estados Unidos, na Europa, e onde quer que seja.

O papel das banalidades e da ignorância na luta de classes

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 24/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Todos os dias se repetem pseudo-argumentos, falsas evidências, mentiras, banalidades para usar nos conflitos sociais, a variante, em linguagem asséptica, da luta de classes. Uma das coisas que Trump percebeu muito bem é que, em períodos de conflito, esta forma de envenenamento da opinião, cresce exponencialmente e que as “redes sociais” são um excelente veículo para a sua circulação.

Durante os anos de lixo do “ajustamento” circulou um número anormal deste tipo de fake news para servirem de argumentário de combate social, por exemplo, contra os mais velhos, os reformados e os pensionistas. Uma parte eram argumentos neo-malthusianos para justificar cortes de pensões e reformas em nome de uma “justiça geracional” para os mais novos.

Nem os falsos argumentos neo-malthusianos eram sustentáveis – por exemplo falar das curvas demográficas na segurança social, omitindo a produtividade -, nem a distribuição dos recursos era corrigida “socialmente” a favor dos mais novos. Não era dos avós e dos pais para os filhos e os netos, era a favor de alguns avós e alguns pais e contra tudo o resto.

Um dos argumentos usados contra os professores (e há muitos que podiam ser usados com mais rigor, como os que têm a ver com a avaliação) é perguntar como é que podem “entrar” mais professores quando diminui o número dos alunos. É um tipo de argumento banal e redutor. Sim, pode haver redução do número de alunos e ser necessário haver mais professores se queremos combater muito dos factores de atraso e ineficácia do sistema de ensino e da qualificação dos portugueses. Como partimos de uma situação de atraso, o esforço para o colmatar pode implicar maior número de professores, turmas mais pequenas, diferentes formas de acompanhamento, escolas mais próximas. Não quer dizer que os efeitos positivos decorram apenas de haver mais professores, mas apenas que dizer que o número de professores deve diminuir com o número de alunos é superficial e banal.

Sabe qual é o problema dos fogos?…
Responde uma senhora estrangeira: “Estas pessoas são pobres e vão continuar a ser”…

Estou um pouco farto de repetir a mesma coisa, sabendo inclusive que não tem qualquer resultado: as tragédias dão excelente televisão, grandes audiências, e quanto maiores forem mais podem ser exploradas. Os fogos do ano passado são disso um exemplo. Uma das suas consequências é má política, medidas apressadas e atabalhoadas, gastos desnecessários, respostas destinadas apenas a aliviar a pressão para se fazer alguma coisa e por isso, a prazo, mais tragédias. Há uma sobriedade a ter com estas matérias, uma grande contenção na exibição da dor, um enorme cuidado em avançar com propostas mal estudadas e com a obsessão dos “meios”, diz a “voz que clama no deserto”.

Mas não vale a pena, aquilo a que tenho chamado, com uma expressão incómoda, “masturbação da dor” é a regra, com entrevistas a vítimas, exibição de feridas, telejornais transmitidos dos locais dos incêndios, audição de gente séria misturada com “aproveitadores” (uma espécie que cresce nestes ambientes) autoridades apascentadas pelo senhor Presidente da República em exercícios ou de negação ou de justificação, ou de promessas sobre promessas. Este é caldo de cultura para a asneira, muita emoção e pouca racionalidade. Se alguém pensa que isto ajuda a resolver os problemas dos fogos, ou o ressuscitar de terras que estavam quase mortas e vão continua a estar, está muito enganado. Ouvi apenas uma voz dizer coisas acertadas, e era um sotaque estrangeiro, num português com sotaque: “Sabe qual é o problema? É a pobreza, estas pessoas eram pobres.”

Como deve a comunicação social lidar com políticos como Trump, que usam a mentira de forma operacional? 
Nos EUA há uma enorme discussão sobre como é que a comunicação social deve lidar com pessoas como Trump e os seus servos do Partido Republicano, que inundam o espaço público de mentiras flagrantes, repetidas, repetidas, repetidas. O efeito de repetição torna essas mentiras operacionais e, a seu modo, eficazes. E a comunicação social séria, acaba por ter um papel nessa operacionalidade. Algumas propostas são muito criativas e levam a pensar duas vezes. Por exemplo, um especialista do efeito psicológico da comunicação, sugere que os jornalistas que cobrem as declarações de Trump e as conferências de imprensa da Casa Branca, devem ser estagiários e não os repórteres mais conceituados. Na verdade, se ali só há mentiras não tem sentido fazer um upgrade da cobertura.