O papel das banalidades e da ignorância na luta de classes

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 24/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Todos os dias se repetem pseudo-argumentos, falsas evidências, mentiras, banalidades para usar nos conflitos sociais, a variante, em linguagem asséptica, da luta de classes. Uma das coisas que Trump percebeu muito bem é que, em períodos de conflito, esta forma de envenenamento da opinião, cresce exponencialmente e que as “redes sociais” são um excelente veículo para a sua circulação.

Durante os anos de lixo do “ajustamento” circulou um número anormal deste tipo de fake news para servirem de argumentário de combate social, por exemplo, contra os mais velhos, os reformados e os pensionistas. Uma parte eram argumentos neo-malthusianos para justificar cortes de pensões e reformas em nome de uma “justiça geracional” para os mais novos.

Nem os falsos argumentos neo-malthusianos eram sustentáveis – por exemplo falar das curvas demográficas na segurança social, omitindo a produtividade -, nem a distribuição dos recursos era corrigida “socialmente” a favor dos mais novos. Não era dos avós e dos pais para os filhos e os netos, era a favor de alguns avós e alguns pais e contra tudo o resto.

Um dos argumentos usados contra os professores (e há muitos que podiam ser usados com mais rigor, como os que têm a ver com a avaliação) é perguntar como é que podem “entrar” mais professores quando diminui o número dos alunos. É um tipo de argumento banal e redutor. Sim, pode haver redução do número de alunos e ser necessário haver mais professores se queremos combater muito dos factores de atraso e ineficácia do sistema de ensino e da qualificação dos portugueses. Como partimos de uma situação de atraso, o esforço para o colmatar pode implicar maior número de professores, turmas mais pequenas, diferentes formas de acompanhamento, escolas mais próximas. Não quer dizer que os efeitos positivos decorram apenas de haver mais professores, mas apenas que dizer que o número de professores deve diminuir com o número de alunos é superficial e banal.

Sabe qual é o problema dos fogos?…
Responde uma senhora estrangeira: “Estas pessoas são pobres e vão continuar a ser”…

Estou um pouco farto de repetir a mesma coisa, sabendo inclusive que não tem qualquer resultado: as tragédias dão excelente televisão, grandes audiências, e quanto maiores forem mais podem ser exploradas. Os fogos do ano passado são disso um exemplo. Uma das suas consequências é má política, medidas apressadas e atabalhoadas, gastos desnecessários, respostas destinadas apenas a aliviar a pressão para se fazer alguma coisa e por isso, a prazo, mais tragédias. Há uma sobriedade a ter com estas matérias, uma grande contenção na exibição da dor, um enorme cuidado em avançar com propostas mal estudadas e com a obsessão dos “meios”, diz a “voz que clama no deserto”.

Mas não vale a pena, aquilo a que tenho chamado, com uma expressão incómoda, “masturbação da dor” é a regra, com entrevistas a vítimas, exibição de feridas, telejornais transmitidos dos locais dos incêndios, audição de gente séria misturada com “aproveitadores” (uma espécie que cresce nestes ambientes) autoridades apascentadas pelo senhor Presidente da República em exercícios ou de negação ou de justificação, ou de promessas sobre promessas. Este é caldo de cultura para a asneira, muita emoção e pouca racionalidade. Se alguém pensa que isto ajuda a resolver os problemas dos fogos, ou o ressuscitar de terras que estavam quase mortas e vão continua a estar, está muito enganado. Ouvi apenas uma voz dizer coisas acertadas, e era um sotaque estrangeiro, num português com sotaque: “Sabe qual é o problema? É a pobreza, estas pessoas eram pobres.”

Como deve a comunicação social lidar com políticos como Trump, que usam a mentira de forma operacional? 
Nos EUA há uma enorme discussão sobre como é que a comunicação social deve lidar com pessoas como Trump e os seus servos do Partido Republicano, que inundam o espaço público de mentiras flagrantes, repetidas, repetidas, repetidas. O efeito de repetição torna essas mentiras operacionais e, a seu modo, eficazes. E a comunicação social séria, acaba por ter um papel nessa operacionalidade. Algumas propostas são muito criativas e levam a pensar duas vezes. Por exemplo, um especialista do efeito psicológico da comunicação, sugere que os jornalistas que cobrem as declarações de Trump e as conferências de imprensa da Casa Branca, devem ser estagiários e não os repórteres mais conceituados. Na verdade, se ali só há mentiras não tem sentido fazer um upgrade da cobertura.

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