Mau nos dribles

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/02/2017)

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                                Daniel Oliveira

Nem sempre, mas o que corre mal na comunicação social costuma ter alguma relação com a realidade. É o caso da novela da administração da Caixa: houve meias-verdades, meias-mentiras e, ao que parece, compromissos informais nunca assumidos. Se Mário Centeno não mentiu, enganou. Cairia se não fosse o resto da realidade: o défice mais baixo desde o 25 de Abril e, no último trimestre do ano passado, o melhor crescimento desde 2013. Isto, além de andar a limpar o lixo bancário que a troika e Albuquerque varreram para debaixo do tapete para garantir a saída limpa. Uma mentira bem mais dispendiosa. Neste contexto, era impensável demitir o ministro das Finanças. Os resultados económicos e financeiros não são mais reais do que os disparates na Caixa. Mas são mais relevantes.

Qual é o segredo de uma boa oposição perante um governo bem sucedido no que mais interessa às pessoas? Que o ambiente mediático não reflita essa parte da realidade, escondendo-a em camadas de ruído e confusão. Quando os números económicos e financeiros foram conhecidos estava no palco, há dois meses e com sucesso de bilheteira, a novela da Caixa. Uma novela que está a fazer Centeno em picadinho. Ao ponto de ter sido obrigado a ir pedir a bênção a Marcelo. Para se safar das suas próprias responsabilidades, o Presidente explicou porque não demitia um ministro que a ele não tem de responder e mandou-o fazer uma conferência de imprensa no pior momento possível. A oposição, contando com um deslize da geringonça, tentou esticar a corda: queria que a comissão de inquérito criada para investigar anos de gestão da CGD, e que não está a correr muito bem ao PSD, tivesse acesso aos SMS do ministro. O comportamento de Centeno é a todos os títulos reprovável, mas não devemos perder o sentido das proporções. Mesmo perante histeria hiperbólica da oposição, que quer prolongar o espetáculo o máximo de tempo possível. Um órgão de soberania aceder aos SMS de um ministro tem implicações tais que só poderia acontecer numa situação extrema e numa comissão de inquérito criada para investigar este caso. Felizmente, BE e PCP travaram um perigoso precedente que corresponderia ao início de mais um plano inclinado na política. Já todos percebemos que não havia acordo assinado, mas havia compromisso informal e que o ministro fica fragilizado por não o ter assumido. Não precisávamos de vasculhar SMS para isso. Agora, o objetivo é apenas prolongar um folhetim.

Não vale a pena os socialistas queixarem-se da estratégia do PSD e do CDS. Se, como eles, se estivessem a afundar nas sondagens fariam o mesmo. Não vale a pena queixarem-se de Marques Mendes. Se uma televisão lhes desse direito a tão solitário e exposto tempo de antena também o aproveitariam. Não vale a pena queixarem-se de Marcelo. Foi Costa que lhe ofereceu o cordeiro. Têm de se queixar de Mário Centeno, por ter negociado o que não devia, ter escondido o que era óbvio e ter andado dois meses a brincar com as palavras.

A política também é a arte de vencer este jogo entre o que é relevante e o que passa na televisão. E um político que oferece de bandeja, aos seus opositores, todo o poder sobre a agenda mediática só se pode queixar de si mesmo. É o mal de escolher técnicos para cargos políticos. Podem saber onde está a baliza mas perdem-se nos dribles.

As mensagens de SMS e os direitos fundamentais ou uma República de polícias e bufos

(Por Miguel Reis, in Facebook, 19/02/2017)

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A questão das mensagens de SMS trocadas entre o ministro das Finanças português, Mário Centeno e um gestor bancário convidada pelo governo para a administração da Caixa Geral de Depósitos suscita sérios problemas no plano dos direitos fundamentais.
É certo que o artº 178º,5 da Constituição da República determina, sem margem para dúvidas, que “as comissões parlamentares de inquérito gozam de poderes de investigação próprios das autoridades judiciais”.
Mas é mais do que duvidoso que, por isso mesmo, possam violar o sigilo das comunicações privadas.
As autoridades judiciais não têm poderes para tanto, exceto num quadro muito limitado, a benefício da investigação criminal de crimes graves.
O artº 134º,1 da Constituição é inequívoco no sentido de que “o domicílio e o sigilo da correspondência e dos outros meios de comunicação privada são invioláveis.er jurisprudência”
O nº 2 dispõe que “a entrada no domicílio dos cidadãos contra a sua vontade só pode ser ordenada pela autoridade judicial competente, nos casos e segundo as formas previstos na lei.”
O nº 3 do mesmo artº 134º determina que “ninguém (nenhuma autoridade) pode entrar durante a noite no domicílio de qualquer pessoa sem o seu consentimento, salvo em situação de flagrante delito ou mediante autorização judicial em casos de criminalidade especialmente violenta ou altamente organizada, incluindo o terrorismo e o tráfico de pessoas, de armas e de estupefacientes, nos termos previstos na lei.er jurisprudência”
Na mesma linha, norma da mesma família, a do número 4, estabelece que “é proibida toda a ingerência das autoridades públicas na correspondência, nas telecomunicações e nos demais meios de comunicação, salvos os casos previstos na lei em matéria de processo criminal”.er jurisprudência
O Código de Processo Penal define, com extrema precisão os quadros em que podem ser excecionadas essas regras constitucionais.
O artº 177º do CPP regula as buscas domiciliárias, determinando que elas só podem realizar-se entre as 7 e as 21 horas e que têm que ser ordenadas ou autorizadas por um juiz, sem prejuízo dos quadros referidos na parte final do nº 3 do artº 134º da Constituição.
A intercepção das comunicações telefónicas suscita especiais problemas no plano da privacidade com quem a pessoa alvo esteja a comunicar.
Nos termos do artº 187º,1 do Código de Processo Penal, “a interceção e a gravação de conversações ou comunicações telefónicas só podem ser autorizadas durante o inquérito, se houver razões para crer que a diligência é indispensável para a descoberta da verdade ou que a prova seria, de outra forma, impossível ou muito difícil de obter, por despacho fundamentado do juiz de instrução e mediante requerimento do Ministério Público”, quanto a um grupo de crimes graves, referenciados nesse normativo.
O artº 189º do mesmo CPP determina que o disposto nos artº 187º e 188º é aplicável “às conversações ou comunicações transmitidas por qualquer meio técnico diferente do telefone, designadamente correio electrónico ou outras formas de transmissão de dados por via telemática, mesmo que se encontrem guardadas em suporte digital, e à intercepção das comunicações entre presentes. “
Nos termos do disposto no artº 156º,f da Constituição da República, os deputados têm poderes para requerer a constituição de comissões parlamentares de inquérito, determinando o artº 178º,5 da mesma lei fundamental “as comissões parlamentares de inquérito gozam de poderes de investigação próprios das autoridades judiciais”.
O texto constitucional é manifestamente infeliz, na medida em que permite sugerir uma espécie de apropriação de poderes que pertencem ao judiciário mas, sobretudo, na medida em que pode ser interpretado numa lógica antidemocrática ou mesmo numa lógica totalitária.
Todos aqueles direitos fundamentais são, em princípio, invioláveis, só podendo ser excecionados por decisão judicial fundamentada com o estrito objetivo da investigação criminal.
Não há, nem na lei nem na constituição nenhuma norma que permita violar aqueles direitos fundamentais sem que haja necessidade de investigar e punir a prática de um crime daquele grupo que legislador excecionou.
É certo que a Constituição determina que as comissões parlamentares de inquérito gozam dos “poderes de investigação próprios das autoridades judiciais”
Só que não é isso que está em causa.
O que está em causa é a adoção de práticas que ofendem direitos fundamentais sem que estejam preenchidos os pressupostos que justificariam tais ofensas e que são, como atrás se referiu, a absoluta necessidade da quebra da garantia constitucional para investigar a prática de crimes.
No nosso edifício constitucional, os direitos fundamentais podem ser afetados em certas circunstâncias, a beneficio de outros direitos ou de outros imperativos constitucionais, como é o caso da investigação criminal.
A concordância prática justifica que uns direitos se reduzam na estrita medida do necessário para que outros sobrevivam.
Não há nenhum indício de crime nas mensagens privadas que o ministro das Finanças e o gestor bancário trocaram.
Tanto quanto se sabe, não combinaram entre si nenhuma operação de branqueamento de capitais, nenhum esquema de corrupção nem nenhuma operação de favorecimento pessoal.
Se o tivesse feito ou se disso houvesse indício, poderiam ser apreendidas as mensagens de SMS; mas não era pela comissão parlamentar. Teria que ser um juiz a ordená-lo em despacho fundamentado.
É que, embora a Constituição confira às comissões parlamentares de inquérito os mesmos poderes de investigação “próprios das autoridades judiciais” o certo é que determina que o sigilo das comunicações é inviolável e que só pode ser quebrado no quadro da investigação criminal e com os limites impostos na lei.
Importa relevar, para além de tudo isso, os direitos dos demais cidadãos.
É evidente que o acesso a mensagens de SMS recebidas ou enviadas por uma pessoa não é cognoscível por via de mera cópia das mesmas, importando, necessariamente um acesso ou aos registos das contas telefónicas do emissor e do recetor ou um acesso aos telefones de ambos.
Tal tipo de acessos só é viável no quadro da investigação criminal e se isso for absolutamente necessário para a investigação de crimes tão graves como são os previstos na lei: crimes puníveis com pena de prisão superior, no seu máximo, a 3 anos; crimes relativos ao tráfico de estupefacientes; crimes de detenção de arma proibida e de tráfico de armas; crimes de contrabando; crimes de injúria, de ameaça, de coação, de devassa da vida privada e perturbação da paz e do sossego, quando cometidos através de telefone; crimes de ameaça com prática de crime ou de abuso e simulação de sinais de perigo; ou de evasão, quando o arguido haja sido condenado por algum dos crimes previstos nas alíneas anteriores.
Ora, ao que parece, a única razão que justifica a apetência da devassa dos referidos SMS é, segundo os media, uma espécie de crime político, não previsto na lei nem tipificado e, inquestionavelmente, sem nenhuma consequência jurídica, se eventualmente se viesse a provar que o ministro tivesse dito que o gestor seria dispensado de apresentar a declaração de património.
É por demais óbvio que o SMS não teria nenhum valor jurídico, ou teria que ser interpretado como uma declaração negocial nula a todos os títulos.
Mas há outros problemas que tanto a devassa como a divulgação dos SMS suscitam.
Todos os cidadãos são titulares de direitos que asseguram a privacidade da sua vida privada, nomeadamente da vida familiar e da vida sexual. Esses valores jurídicos são protegidos pelo artº 192º do Código Penal, que incrimina da devassa da vida privada.
Na mesma linha, o artº 194º do Código Penal incrimina da violação da correspondência e das telecomunicações, punindo quem tomar conhecimento de mensagens que não lhe são dirigidas.

Fora dos quadros legais em que a lei permite a violação da privacidade do domicilio e das comunicações não é admissível qualquer devassa, maxime por motivos políticos.
Os deputados não são polícias e é inaceitável que, num estado democrático de direito, se comportem como agente de recuperação de uma intolerável bufaria.

É prudente que não falemos ao telefone. E é, ainda mais prudente, que não enviemos mensagens de SMS e que apaguemos as que recebemos.
Os fascistas, em comparação com esta canalha, eram uns meninos do coro…

Milénicos. A última geração do século XX

(Reportagem de Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 18/02/2017)

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Podiam ser apocalípticos, mas deixaram isso para a geração anterior, a individualista, sombria e hedonista X. Cresceram com a internet, levaram com a crise financeira de 2008 em cheio nas expectativas e logo a seguir com a do euro. Tanto os dizem hipernarcisistas como mais gregários, conformados ou empreendedores, apolíticos ou ativistas, alheados ou otimistas, os mais “bem preparados de sempre” ou os mais pretensiosos. Quem são afinal os milénicos?

“A minha geração”. É o nome de uma célebre canção que começa assim: “As pessoas tentam fazer-nos sentir mal / Falando da minha geração / Só porque andamos por aí / Falando da minha geração / Espero morrer antes de ficar velho/ Falando da minha geração.”

A canção tem 46 anos. O homem que a escreveu, Pete Townshend, da banda britânica The Who, tem mais de 70; não morreu antes de ficar velho. É talvez uma forma estranha de começar um texto sobre uma geração com idade para ser neta dele. Ou não: talvez seja preciso lembrar que todas as pessoas a dada altura foram a “nova geração”. Todas sentiram que aquilo que sentiam era iniciático, que vinham para mudar alguma coisa. Ou tudo. E que quem já cá estava não percebia, não podia perceber. Precisamos disso – de sentir que somos parte de uma mudança. Que somos a novidade, a estrear.

“Sentimos que tudo nos é devido”

Como Inês Herédia, de 27 anos, que fez um vídeo a falar disso – da sua geração. “Tinha ido para Londres estudar teatro entre 2012 e 2014 e quando voltei, depois de uma breve experiência com La Féria e de, por ser um pouco mais gordinha, apesar de vir de um dos melhores cursos de atores do mundo não ter sorte nenhuma nas audições, decidi procurar trabalho na área da consultoria, na qual se usa muito a criatividade. E pensei fazer um vídeo de apresentação para responder à pergunta que nos fazem nas entrevistas de emprego: porquê tu, porque te havemos de contratar a ti?”

Contra um fundo cinza, uma Inês deolhos no alvo e num inglês de impecável sotaque british traça um breve retrato das pessoas da sua idade que frisa a importância da tecnologia digital: “Sabem porque dizem que somos a geração mais criativa de sempre? Porque os nossos cérebros veem o que a internet vê. Não veem limites. Estamos neste mundo de abundância e com acesso a tudo, sedentos de conhecimento. Aceitamos as diferenças e somos especialistas em marketing. E fazemos tudo isto muito mais depressa que qualquer geração antes de nós. Temos uma perceção holística do mundo, somos esponjas a beber de tudo . (…) Isto é a minha geração. Não nos contentamos com o fácil. Estamos cá para fazer a diferença.”

Não por acaso, houve quem quisesse crismá-la de igeração – não pegou, porém. Começaram por denominá-la de Y (a letra do alfabeto que se segue ao X, de Geração X, d”après o célebre livro-retrato de Douglas Coupland) mas foi “millennials”, de milénio, que pegou. A respetiva definição temporal, variando bastante (ver texto nestas páginas), inclui seguramente os nascidos entre 1980 e 2000, como é o caso de Inês, e a ligação com a tecnologia digital e este mundo sem fronteiras, fluído e simultaneamente infinito e mais finito (porque mais abarcável, mais alcançável) que a internet criou é sem dúvida a característica mais distintiva. Com tudo o que isso traz de bem mas também de menos bom.

“Porque há o reverso”, diz Inês, que mandou tatuar nas costas “the book of disquiet” (O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa/Bernardo Soares). “A minha geração tem imensos defeitos. Não se consegue concentrar, hoje quer uma coisa amanhã outra. Acho que vem precisamente de termos acesso a tantas opções. E com o facto de termos crescido com a ideia de que vais conseguir fazer tudo aquilo que quiseres. Há um sentimento de entitlement: de que temos direito, merecemos, tudo nos é devido. Muitos amigos meus têm as mesmas oportunidades que eu e esperam que lhes caiam as coisas no colo. Ou trabalham duas horas e ficam cansados.”

Mais uma vez, Inês menciona algo que surge muito frequentemente nas caracterizações desta geração – vamos chamar-lhes milénicos – como um dos seus traços mais negativos: a ideia de merecimento automático, a expectativa de sucesso instantâneo, o não lidar bem com a frustração e com tarefas maçadoras, horários e obrigações. Assevera-se por exemplo a dificuldade de manter funcionários desta geração – estão sempre à procura de um sítio melhor, da coisa que vai mesmo interessar-lhes, fazê-los felizes. Aspetos que podem ser associados a mimalhos – há muito a ideia de que a “culpa” é dos pais, que os apaparicaram demasiado e lhes deram demasiada auto-confiança.

“Vivemos vidas editadas”

Filipa Neto, 26 anos, vê outras explicações. “Acho que precisamos de mais propósito do que a geração dos nossos pais. Pensamos numa missão.” Esse aspeto está, crê, relacionado com o facto de se ter consciência da “grande volatilidade da vida”: “Há pais que estiveram na mesma empresa 20 anos e foram despedidos. Não há nada garantido. As coisas que eram tidas como verdades económicas já não são. E as pessoas pensam: “Já que o meu salário não é muito bom, e se calhar nunca vai ser, tem de haver felicidade no trabalho: fazer uma coisa de que goste ou que me diga algo.”

Por exemplo inventando de raiz: Filipa fundou, com a amiga Lara Vidreiro, da mesma idade, a empresa Chic by Choice, que aluga vestuário “para ocasiões especiais”. A ideia surgiu às duas estudantes de Gestão a partir da sua própria experiência. “Havia uma festa e queríamos uma roupa nova mas não tínhamos coragem de pedir dinheiro aos nossos pais. E ao mesmo tempo estávamos a aprender a teoria da utilidade marginal: que à primeira vez que usávamos o vestido era fantástico mas à terceira já não tinha tanto impacto. Percebemos que o ideal era poder usar e devolver.” Perceberam que esse tipo de negócio já existia no Reino Unido e resolveram lançar-se. No ano passado, certifica, cresceram 100 por cento, sobretudo a partir do mercado britânico. “O cliente escolhe entre milhares de peças, indica data do evento e tamanho, dois dias antes recebe o que escolheu em dois tamanhos – o indicado e o acima – e no dia seguinte um estafeta vai buscá-las.” Chama-se “fast fashion” e tem a ver com a ideia base da moda, a da novidade, aliada a algo que se considera uma característica (mais uma) dos milénicos: estarem mais interessados na experiência que na posse. Há até estudos que garantem que se trata de uma geração “menos consumista”.

Filipa acha que pode não ser bem assim. “As necessidades mudaram. Somos uma geração Instagram e Facebook, vemos vidas editadas, somos completamente influenciados por isso. A aspiração é: “Se o meu amigo vai a estes sítios todos eu também quero ir.” É mais importante o que outro vê de mim na rede social que o que efetivamente faço. Há uma noção muito diferente do que é o mínimo de rendimento necessário para ser autónomo, por exemplo. Vejo os meus amigos a fazer contas a quantas vezes podem sair, jantar fora, beber copos, viajar, se saírem de casa dos pais.”

Fronteiras abolidas, o mundo ao dispor

Consumistas sim, mas mais de experiências, menos de “coisas”. A não ser, claro, que sejam gadgets: o último smartphone, o último tablet – é o que acha Carlos Silva, 37 anos. “As pessoas podem ter deixado de ter carro ou de pensar em comprar casa mas querem ter o último iphone.” Situado sobre a linha temporal que separa os milénicos e a Geração X, Carlos hesita na generalização: “Tenho sempre alergia a falar de gerações, porque são compostas por indivíduos. Mas existem tendências que têm a ver com o contexto em que as pessoas crescem.” E Carlos cresceu nos computadores. Aos seis/sete anos o pai ofereceu-lhe um Spectrum. Mais tarde, perguntou-lhe se queria um leitor de CD ou um modem como presente. “Comecei a funcionar com a internet muito cedo. E acho que isso é mesmo fundamental para caracterizar esta geração. A ideia de uma sociedade não necessariamente física, amigos no mundo inteiro, acesso à informação muito imediato. Isso muda a forma como as pessoas pensam – acabou o “tirei este curso e vou fazer disto a minha vida”.”

Licenciado em engenharia informática, Carlos estava a fazer um MBA [mestrado em gestão] quando o banco americano Lehman Brothers ruiu, em setembro de 2008, desencadeando a pior crise financeira mundial desde 1929. Mas viu na catástrofe uma oportunidade. “As pessoas perceberam que as ações em que investiam e que achavam muito seguras não eram. Desenvolveu-se desconfiança em relação às instituições tradicionais.” Começou a trabalhar na ideia de uma plataforma de investimento através da net, tendo como inspiração projetos de crowdfunding para o terceiro mundo. “Somos o que se chama uma plataforma de investimento colaborativo, a primeira a nível mundial com autorização para operar.” Funciona assim: “Um empreendedor apresenta um projeto e diz de quanto precisa e qualquer pessoa pode investir. Se no final não atingir o valor o dinheiro é devolvido aos investidores.” Chama-se Seedrs e arrancou em 2012, a partir do Reino Unido. Desde então já investiu mais de 200 milhões em mais de 400 “campanhas” e abriu escritórios em Berlim e Amesterdão. O retorno financeiro, diz o presidente e co-fundador, é “interessante” mas atribui o sucesso da iniciativa também ao facto de os investidores gostarem de “alocar dinheiro a projetos que possam ter impacto .” Uma espécie de fábula: se as pessoas ganharam aversão ao que é grande e opaco e impessoal, regressar ao básico, ao essencial da ideia de investimento – e de comunidade. Um cruzamento entre ativismo e especulação, ou como derrubar fronteiras, baralhar e dar de novo.

Autoconfiança demais ou resiliência?

Não, caramba, não é tudo mau. Os milénicos também são descritos como menos preconceituosos, com uma maior preocupação com a igualdade, nomeadamente de género, muito alerta em relação aos problemas ambientais e, sobretudo, empenhados em que o que fazem, profissionalmente e não só, se relacione com causas que apoiam, com um propósito “maior”. João Wengorovius, ex CEO da BBDO Portugal e agora na consultora Wengorovius & Bidarra, vê uma geração que “apanhou com muitas dificuldades mas é muito empoderada. Com a noção do eu como marca, de que estão muito expostos, muito conscientes dos seus talentos e muito empenhados em usá-los. E muito educados, claro: não basta ter o curso superior, é preciso ter um mestrado e talvez um doutoramento.” Importante também, crê, é a ideia paradoxal de que “a experiência só se vive se for partilhada.”

Jack Mackenzie, presidente de uma companhia de marketing que analisa tendências geracionais citado pelo New York Times, completa o perfil: “Desconfiam da autoridade, são genericamente tolerantes, próximos dos pais, têm vontade de estabelecer compromissos, encontrar terreno comum. E um nível de otimismo que a maioria das pessoas acha quase idiota.”

Otimismo. Como pode a geração que levou com o 11 de Setembro nas ventas mais a crise financeira mundial de 2008 (e, na Europa, com a crise do euro, materializada em Portugal na entrada da troika) ser otimista? Isto para não falar dos últimos desenvolvimentos – hecatombe das revoluções no Médio Oriente, refugiados, ascensão da extrema direita, vitória de Trump. Pode ser mesmo por isso, adverte a escritora Judith Warner, num artigo do NYT com sete anos. Intitulado “The why-worry generation” (a geração do porquê ralarmo-nos), o texto menciona um consenso arrasador de “avaliação psicológica”: “São uma geração de chalados, profundamente narcisistas e destituídos de autocontrolo pelos seus pais hiper-ansiosos e demasiado protetores.” Cita dados sobre a percentagem de empregos recusados pelos licenciados americanos numa altura de desemprego muito elevado – “Apesar de não estarem em condições de impor condições, muitos afirmam não estarem para trabalhar mais de 40 horas por semana. (…) 41% dos licenciados que procuram trabalho recusaram propostas, a mesma percentagem que o fez em 2007, antes da crise”. E dá a palavra a Jean Twenge, a professora de psicologia que escreveu Generation Me (livro de 2007, revisto em 2012, sobre, precisamente, os milénicos): “Não é confiança, é super confiança. E quando chega a este nível, é problemática.”

Uma espécie de incapacidade coletiva de lidar com a realidade? Uma patologia geracional? Warner reflete: “Entrevistei nove estudantes universitários que me foram indicados por professores. E fiquei com o retrato de jovens adultos capazes de não sucumbir à dúvida sobre si próprios e ao desencorajamento. Muitos estavam desempregados, outros estavam insatisfeitos com o seu trabalho ou com as escolhas escolares que tinham feito. Mas não se culpavam. Não punham em causa as suas opções e competências. (…) É difícil para alguém com 40 e tal anos compreender isto, esta ideia de merecimento, esta falta de humildade. Mas não estão necessariamente mal adaptados aos tempos. (…) Pode ser que esta resiliência – esta irritante e no entanto admirável capacidade de manter um espírito positivo em tempos deprimentes e assustadores – não tenha nada a ver com os pais deles e a educação que lhes deram. Talvez seja o resultado, como alguns observadores desta geração têm sugerido, de crescer numa era de ansiedade (…). Talvez a insegurança crónica tenha simplesmente aumentado a capacidade desta geração de resistir ao stress, deixando-a particularmente bem preparada para lidar com a incerteza. Talvez ter um ego super musculado sirva mesmo para enfrentar a adversidade. Exatamente como os gurus da autoestima sempre disseram.”

Geração nondescript?

Ego em esteróides ou ganas de fazer o que dá gozo e a coragem de não transigir? Perguntemos a Joana Barrios. Aos 31 anos, grávida do segundo filho e sem aquilo a que se pode chamar “um emprego”, é tida como paradigma da geração milénica: estão sempre a convidá-la para, nessa capacidade, participar em palestras e workshops. “Chamam-me porque sou “uma mulher de sucesso com profissão indefinida e mãe, porque pertenço a uma companhia de teatro disruptiva [os Praga] e tenho um blogue [de moda, o Trashédia]”.” Ri. “A primeira coisa que faço quando lá chego é insultar quem me chama por esses motivos ridículos. E também acho sempre estranho ser a única rapariga. Os outros são sempre rapazes empreendedores, geralmente de fatinho.” Joana nasceu e viveu a adolescência no Alentejo, onde os pais estão radicados, entrou em Direito mas saiu para o Conservatório, fez um mestrado em crítica de cinema e música pop em Barcelona enquanto trabalhava em lojas vintage, foi a Paris trabalhar com um encenador num espetáculo de vaudeville, no qual se ocupou do guarda-roupa, voltou para Portugal porque “queria trabalhar em português”, entregou o currículo aos Praga e de repente “aconteceu a crise e deixou de haver dinheiro para a cultura.” Resultado? Foi trabalhar como porteira na discoteca Lux-Frágil. “Estive lá de 2010 a 2013. Foi difícil porque era quinta, sexta e sábado da meia noite às sete da manhã. Mas pelo menos assegurei que não morria de fome.” Suspira. “Uma das coisas mais cruéis como porteira foi descobrir que de mês a mês havia mais alguém que vinha fazer a festa de despedida porque ia para Paris ou Berlim. Os arquitectos, os designers, as maquilhadoras, toda a gente foi embora.”

Ela ficou, e mais que isso. Engravidou e decidiu ter a criança, uma menina hoje com dois anos: “Não fui capaz de abortar, apesar de não ser religiosa. De repente não tinha trabalho, não tinha nada, e pensei: “A parte difícil é estar feito e já está feito.” Sou uma pessoa de muita coragem, segundo dizem. Percebo que teoricamente seja muito assustador ter filhos. Mas consigo, entre tudo o que faço – o blogue também é uma fonte de rendimento – ter, em conjunto com o meu marido, que é fotógrafo, que chegue para pagar as contas, a escola, a renda.”

Joana não sabe se é exemplo, mas tem uma ideia ou duas sobre o que define a sua geração: “Em contraste com as anteriores temos pais com capacidade de perceber que houve mudanças muito drásticas na forma como funciona o trabalho – e encorajam-te a procurar aquilo de que gostas.” Um encorajamento que passa muito por apoio financeiro e por não cortar o cordão umbilical. “Regra geral as pessoas da minha idade estão a viver em casa dos pais ou precisam de ajuda porque o que ganham não lhes chega.” E outra coisa, na qual de algum modo os milénicos contrastam também com gerações anteriores: “Do ponto de vista do look uma super característica é quererem integrar-se. Passar despercebidos. Mas podes ter um exterior super normalizante e ao mesmo tempo teres um interior totalmente disruptivo.”

Quando se olha à volta num bar ou num concerto, no meio de uma mole de milénicos, o que é que se vê? A expressão certa existe em inglês: nondescript. Querendo dizer que não há nada de distintivo ou facilmente descritível, aquilo que se reconhece como “um estilo próprio”. A não ser que o estilo seja isso , o de não ser facilmente rotulado, identificado, fichado, fixado. Vera Marmelo, 32 anos, engenheira hidráulica e fotógrafa de concertos, vai por aí. “Acho hoje em dia muito mais piada a causar essa confusão. Não poderem identificar-me logo pela forma como estou vestida. Não preciso de ser classificada, encontro algum gozo em não ser encaixada.” Enquanto a liberdade em gerações anteriores passou por afirmar pela roupa, pose, cabelo, a pertença a um grupo o mais “diferente” possível da norma ou em exprimir um individualismo radical, ofensivo até, estabelecendo uma demarcação clara entre o nós e o eles, a liberdade agora pode ser isto, ser parte da multidão, não chamar a atenção – como quem guarda um segredo. Um certo ar baldas, de quem agarra a primeira coisa que aparece e que lhe é confortável.

A mesma atitude, diz Vera, em relação à música: “Quando éramos mais novos éramos mais dedicados a uma cena específica. Agora, as pessoas que me rodeiam ouvem coisas muito diferentes.” Muito entrosada no meio musical português, Vera reconhece, nos últimos dez anos, um boom de projetos interessantes. “Comecei a fotografar mais a sério em 2006. Foi o ano em que conheci o B Fachada, que acho que tem feito um trabalho incrível na revelação de temas que têm a ver connosco como geração. E houve a viragem do cantar em inglês para o cantar em português e isso ser fixe.” Cita também os Linda Martini e a Capicua: “Sinto que fala por mim e revejo-me nas suas palavras.” Tem uma explicação para esta explosão: “Em 2005 toda a gente que faz música consegue libertar-se de uma editora porque tem computadores em que consegue gravar e plataformas, como o Myspace [que, criada em 2003, em 2008 ultrapassou os 100 milhões de utilizadores], para partilhar o que grava. Tornou-se muito mais fácil encontrar pessoas que são os teus pares, de quem gostas.”

“A política vai ter de regressar”

Luís Nunes, 30 anos, músico, tempera o entusiasmo: “Somos a última geração a lembrar-se de um mundo sem internet e sem telemóveis. E obviamente que a internet é fantástica mas mudou completamente a noção do tempo. Imprime ao mundo um ritmo alucinante. Toda a gente está sempre a fazer montes de coisas ao mesmo tempo, e também te é exigido que o faças. É uma coisa que muda o chip – para a minha avó,por exemplo, é uma coisa mística – e que criou várias assimetrias. Destruiu a indústria discográfica, a indústria do jornalismo e está a destruir a dos táxis.”

Mais conhecido como Benjamim (o nome da sua banda desde 2014, quando começou a cantar em português -antes cantava em inglês e era Walter Benjamin), Luís, que em várias entrevistas afirmou querer “fazer uma banda sonora para a minha geração”, beneficiou muito dessa mudança de planeta. “Um tipo como eu pode competir no mesmo trabalho com um inglês. É muito bom para um país periférico. Mas tem outros lados: além de escrever canções e de tocar instrumentos, tens de saber gravar a tua música. E fazer o teu próprio marketing, o que não é nada evidente.”

O acesso a tudo, sem guias nem intermediários, é um bem inestimável mas pode também significar uma espécie de equalização sem espessura nem noção histórica: “A grande coisa foi quando surgiu o Napster [serviço de streaming de música lançado em 1999]; com a ajuda de um amigo, sacava os discos todos. Mas isso permite coisas como o Kanye West [rapper americano] ter feito em 2015 uma música com o Paul McCartney [dos Beatles] e haver comentários a dizer que não sabiam quem era o McCartney mas que ele tinha futuro.” Ri. “Antigamente as pessoas podiam ser ignorantes, tinham desculpa. Agora não sabem porque não querem. Teres a biblioteca não quer dizer que leias os livros. O acesso à informação não impede a ignorância.” Pelo contrário, acha; há um efeito paradoxal. “A minha geração tem muitas distrações, muitas comodidades. É mole. Já nascemos no planeta democracia e é assustador ver pessoas que nasceram nele a pôr a hipótese de voltar para um sistema não democrático. E a quantidade de malta da minha idade que acha normal haver gente a morrer a dar à costa no Mediterrâneo, sem sequer refletir sobre os motivos? Tinham obrigação de ter estudado melhor história. Toda a gente que nasceu depois da segunda guerra mundial tem essa obrigação.”

Ah, a história. Houve até quem tivesse anunciado o seu fim. “Surgimos quando parecia que se tinham resolvido todos os problemas”, conclui Luís. “Daí sermos uma geração tão desinteressada em termos políticos. Havia a ideia de que a política tinha morrido. Mas vai ter de regressar.” E à bruta, parece.