A geração delapidada

 (António Guerreiro, in Público, 12/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções.


Anunciando a intenção de perscrutar o futuro, de “saber o que aí vem e quem serão os grandes protagonistas das mudanças que se seguem”, e evocando a seguir uma sabedoria antiga segundo a qual “os velhos dão invariavelmente lugar aos novos”, publicou o Expresso, na sua última edição, o resultado de um desafio lançado “aos nossos consagrados” para identificarem uma figura que seja uma promessa que no futuro se irá cumprir. Este exercício é um entretenimento, um jogo que só não é tão inocente como parece porque sabemos bem que esta corrida para não falhar a nova época é uma forma de nos roubar o tempo, transformando-o imediatamente em história.

No jogo, notei que dois dos “nossos consagrados”, António Lobo Antunes e António Barreto, apostaram respectivamente no poeta João Luís Barreto Guimarães, que nasceu em 1967 (tem 50 anos), e no historiador, ex-deputado europeu e fundador do Livre, Rui Tavares, que nasceu em 1972 (tem 45 anos); notei ainda que o artista Igor Jesus, que ainda não tem 30 anos, apostou no consagrado Rui Chafes, que nasceu em 1966, invertendo assim os papéis; notei que Jorge Silva Melo levou o jogo a sério e apostou em três jovens (“gente decidida, tenaz, inventiva”, isto é, com qualidades próprias de um espírito juvenil) que “estão a começar, claro, não têm casa, não têm dinheiro, não têm nada” (são eles João Pedro Mamede, Nuno Gonçalo Rodrigues e Catarina Salgueiro); notei ainda que o professor Carlos Fiolhais escolheu uma bióloga de 44 anos, Mónica Bettencourt Dias, que já é directora do Instituto Gulbenkian de Ciência.

A julgar pelos resultados deste “jogo”, que tem a eloquência dos sintomas, a não ser no teatro o futuro não pertence aos jovens. Há uma geração inteira de espoliados e obrigados ao silêncio que, em dia de festa (o Expresso fazia 45 anos), pode ter direito a ser nomeada por um patriarca que selecciona algum dos seus elementos para ilustração dos filisteus. E quando os patriarcas escolhidos para a missão envergam a máscara da “experiência”, da maturidade, da razão e da boa vontade (poderosa ideologia!), então não aparece sequer um exemplar jovem no horizonte e todo o filistinismo surge encarnado na personagem de um velho (a velhice que não tem idade), para o qual o futuro só pode pertencer a um “realista sensato” (é assim que António Barreto define Rui Tavares, que já não é jovem e envelhece bastante neste retrato) ou a um poeta que, pelo que nos diz António Lobo Antunes, é um homem com qualidades, adorável, modesto e quente (foi esta a impressão que deixou ao Grande Escritor, quando o visitou em Lisboa, acompanhado pela mulher e pela filha).

Eis como de um jogo inocente se chega a um assunto sério: há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções. É uma geração privada de época, de sonhos, de projecções de um futuro possível.

Apetece evocar as palavras que serviram ao linguista russo Roman Jakobson para definir o que aconteceu aos poetas russos dos anos 1920, Maiakovski, Blok, Essenine e outros. Eles pertenceram a uma “geração que delapidou os seus poetas” — aqueles que, tendo participado na revolução, foram capazes de compreender, com uma consciência trágica, o rumo que esta tinha seguido. Morreram todos entre os trinta e os quarenta anos. A esta juventude de hoje, delapidada, rasurada, silenciada, já não é concedido o sentido do trágico, nem sequer a vontade de gritar que “a pátria da criação é o futuro, de onde sopra o vento dos deuses do verbo” (Maiakovski).

 

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Mas qual é o mal do passado?

(José Pacheco Pereira, in Público, 09/12/2017)

JPP

Pacheco Pereira

O passado tem má imprensa, o presente é o melhor que há e o futuro então não se fala, é o período da felicidade perfeita, tanto mais perfeita quando todos já estaremos mortos.


No início de um livro de L. P. Hartley há uma frase que eu cito bastante e vou fazê-lo de novo: “O passado é um país estrangeiro, lá fazem-se as coisas de forma diferente”. Em inglês é ainda melhor: “The past is a foreign country; they do things differently there“. E cito-a pela obsessão absurda que existe nos dias de hoje na política e na comunicação social, de achar que “voltar ao passado” é um coisa tenebrosa e um insulto. Este tipo de frases são o pão nosso de cada dia na competição eleitoral no PSD, em que cada candidato atira ao outro ou aos seus apoiantes a acusação de que são o passado. Na verdade, o candidato mais do passado é que o faz com mais denodo e falta de vergonha, tanto mais que os “jovens” que apresenta são infinitamente mais velhos do que os “velhos” que eles atacam de senectude. Presumo que eles acham que tem um DeLorean ao seu dispor, visto que a probabilidade de entenderem alguma coisa do passado, presente e futuro dificilmente passa do Back to the Future.

Mas se fosse só nestes conflitos de menores, passávamos bem. Mas é no debate parlamentar, no comentário, na moda, e nessa ecologia em que vivemos no tempo presente e que se chama “comunicação social”. A obsessão pela “novidade” da comunicação social, é da mesma natureza destes jogos retóricos. Estão sempre a descobrir génios jovens e prometedores cuja fama não dura um ano, e que em muitos casos são os amigos deles, ou noutros são os que estão na “moda”, essa tenebrosa forma de identidade fugaz, cujas raízes no passado são aliás sempre mais importantes do que as folhas do presente. Resumindo e concluindo: o passado tem má imprensa, o presente é o melhor que há e o futuro então não se fala, é o período da felicidade perfeita, tanto mais perfeita quando todos já estaremos mortos.

Mas ainda me hão-de explicar o que é que tem de fascinante o presente, e como é que sabem que o futuro vai ser melhor. Nem o presente é brilhante, o que acontece é que estamos presos nele, temos que viver nele, e nem ninguém sabe o que vai ser o futuro porque a essência da história é a surpresa. Pelo contrário, no passado podemos escolher algum proveito e exemplo, mesmo que saibamos que ele nunca se repete, e se se repete, como dizia Marx, tem sempre tendência para ser como comédia. Corrijo aqui o velho Karl, nos nossos dias há uma alta probabilidade de começar como comédia e acabar como tragédia outra vez. Veja-se Donald Trump.

O passado tem imensas virtualidades, exactamente porque nós vivemos no presente e podemos escolher as “formas diferentes” como se faziam as coisas nesse “país estrangeiro”, usando a frase de Hartley. E é porque o passado transporta, no seu uso, a possibilidade de uma moral, de uma escolha, que é tão incómodo para aqueles que pensam que apenas podem beneficiar do presente, sem essa maçada de ter limites às suas acções. Os limites são aquelas coisas malditas como seja o saber, em vez da ignorância, a virtude em vez do vale tudo, a prudência em vez do meia bola e força, e o parar para pensar em vez do imediato e do “já” que cada vez mais pesa numa sociedade onde a adolescência se prolonga pelo Facebook e ersatzes de vida similares.

Não admira por isso que haja nos nossos dias algo que não tem precedente na nossa civilização ocidental, a que nos fez e ainda remotamente nos faz, que é o ataque aos mais velhos. Nos anos do “ajustamento”, os pseudo-jovens que tiveram a sua oportunidade nesses anos de lixo, dedicaram-se a querer empobrecer os seus avós e os seus pais, em nome de uns longínquos e putativos filhos e netos, pelos quais mostravam tanto mais amor quanto na realidade o que faziam era tirar a uns pais e avós para dar a outros pais e avós, só que da classe certa.

Tudo quanto é argumento neo-malthusiano foi usado para explicar a “injustiça geracional”, em que pais e avós hipotecam o futuro dos filhos e netos, para viverem bem no presente. Eles que eram “passado” viviam bem no presente e punham em causa o futuro. E o futuro destinado aos jovens era não ter casa, nem emprego, nem dinheiro, nem pensões, nem reformas, porque os malvados dos pais e avós não queriam perder os “direitos adquiridos”, nem as leis que protegiam o emprego, nem as suas reformas, nem o Estado Providência. Todo um argumentário conservador, que desaguava depois nos excessos da direita radical, se desenvolveu para dar um lugar ao sol não a todos os jovens, porque continuavam a ser precisos soldadores, mecânicos de automóveis, electricistas, padeiros e empregados de mesa, mas aqueles que nas elites se sentiam deserdados de um estatuto ou de um poder que lhes parecia devido, por família ou riqueza natural, ou aqueles que invejavam este estatuto de poder. Já repararam como este argumentário tem sucesso ou em jovens políticos profissionais das “jotas”, ou em pessoas que participam em “think tanks” de fundações e universidades bem providas, ou em pessoas com empregos como “consultores”, “assessores”, jovens advogados de negócios, e jornalistas da imprensa económica ou colaboradores dessa mesma imprensa ou afim. Há excepções, mas não invalidam a regra.

Um dos aspectos desta nova forma de luta de classes, na verdade a mesma de sempre, foi a minimização do saber e da experiência, tudo coisas que vem com a vida e o trabalho árduo, combate que assumiu e assume todo o seu esplendor naqueles que vivem nas chamadas “redes sociais” onde há uma ideia igualitária sobre o conhecimento, ou seja, uma apologia da ignorância. Se todos se podem pronunciar sobre tudo e por isso mesmo tudo o que dizem tem o mesmo valor, não vale a pena estudar, nem trabalhar para conhecer uma determinada matéria, basta só escrevinhar umas frases que pretendem ser engraçadas. Esta nova forma de ignorância agressiva, tem sido um instrumento para minimizar não só as hierarquias profissionais e académicas, como para dar o mesmo papel na sociedade a exercícios vulgares e superficiais mais ou menos intuitivos que se tornam virais e pela comunidade cultural entre as “jotas” políticas e as “jotas” jornalísticas que usam as “redes sociais” deles, os seus Facebooks e Twitters para “interpretar” movimentos colectivos que são dos mesmos de sempre, sendo esses mesmos muito poucos.

Há igualmente um ataque à memória, com o encolhimento sistemático do que se lembra no presente a um passado de escassos meses e anos. No limite, apenas ao que se encontra nas pesquisas do Google, ou está na Internet. O que acontece é que esse “passado” para além de ser considerado arqueológico, e portanto inútil de lembrar, afunda-se nas trevas do esquecimento. Por sobre esta memória de passarinho, crescem mitos, falsidades e memórias selectivas quase sempre instrumentais para as necessidades dos conflitos do presente. Os mais velhos são também um incómodo porque se lembram de coisas demais e de como, nesse “país estrangeiro” do passado, alguns dos próceres do presente, já mostraram o que valiam ou o que não valiam, os defeitos de carácter ou de incompetência, ou por semelhança de atitudes, podem conduzir aos mesmos sucessos ou, mais comummente aos mesmos desastres.

Eu sei bem que isto já foi tantas vezes dito, quantas gerações passaram sobre a terra. O passado está cheio de previsões sobre de como as coisas se degradam entre os mais velhos e os mais jovens. É verdade, é quase um lugar-comum. Mas isso não significa que às vezes, às vezes, possa ser verdade. Suspeito que hoje é.

Não sou, por isso, um fã do presente, onde vivo, principalmente quando se quer esconjurar o saber, a experiência e a memória, que são coisas que precisam do tempo do passado. Não é para as pessoas voltarem à lanterna mágica, ou às televisões de caixa, ou ao Pacman, nem tenho qualquer nostalgia do stencil ou do verniz corrector, nem da máquina de escrever. Mas já tenho de homens como o esquecido e frágil Mem Verdial, com a sua gravata à Lavaliére, já então tão fora do tempo, e que levou um paralelepípedo escondido para um comício da oposição a Salazar, patrulhado por um capitão qualquer que numa mesa podia interromper qualquer orador. E quando foi interrompido por dizer coisas subversivas sobra a democracia, perguntou ao homúnculo do canto: “O senhor representante da autoridade quer que eu ponha uma pedra sobre o assunto?”. E pegou na pedra e colocou-a em cima dos seus papéis. É este passado que me faz falta

Assinado: Matusalém.

Milénicos. A última geração do século XX

(Reportagem de Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 18/02/2017)

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Podiam ser apocalípticos, mas deixaram isso para a geração anterior, a individualista, sombria e hedonista X. Cresceram com a internet, levaram com a crise financeira de 2008 em cheio nas expectativas e logo a seguir com a do euro. Tanto os dizem hipernarcisistas como mais gregários, conformados ou empreendedores, apolíticos ou ativistas, alheados ou otimistas, os mais “bem preparados de sempre” ou os mais pretensiosos. Quem são afinal os milénicos?

“A minha geração”. É o nome de uma célebre canção que começa assim: “As pessoas tentam fazer-nos sentir mal / Falando da minha geração / Só porque andamos por aí / Falando da minha geração / Espero morrer antes de ficar velho/ Falando da minha geração.”

A canção tem 46 anos. O homem que a escreveu, Pete Townshend, da banda britânica The Who, tem mais de 70; não morreu antes de ficar velho. É talvez uma forma estranha de começar um texto sobre uma geração com idade para ser neta dele. Ou não: talvez seja preciso lembrar que todas as pessoas a dada altura foram a “nova geração”. Todas sentiram que aquilo que sentiam era iniciático, que vinham para mudar alguma coisa. Ou tudo. E que quem já cá estava não percebia, não podia perceber. Precisamos disso – de sentir que somos parte de uma mudança. Que somos a novidade, a estrear.

“Sentimos que tudo nos é devido”

Como Inês Herédia, de 27 anos, que fez um vídeo a falar disso – da sua geração. “Tinha ido para Londres estudar teatro entre 2012 e 2014 e quando voltei, depois de uma breve experiência com La Féria e de, por ser um pouco mais gordinha, apesar de vir de um dos melhores cursos de atores do mundo não ter sorte nenhuma nas audições, decidi procurar trabalho na área da consultoria, na qual se usa muito a criatividade. E pensei fazer um vídeo de apresentação para responder à pergunta que nos fazem nas entrevistas de emprego: porquê tu, porque te havemos de contratar a ti?”

Contra um fundo cinza, uma Inês deolhos no alvo e num inglês de impecável sotaque british traça um breve retrato das pessoas da sua idade que frisa a importância da tecnologia digital: “Sabem porque dizem que somos a geração mais criativa de sempre? Porque os nossos cérebros veem o que a internet vê. Não veem limites. Estamos neste mundo de abundância e com acesso a tudo, sedentos de conhecimento. Aceitamos as diferenças e somos especialistas em marketing. E fazemos tudo isto muito mais depressa que qualquer geração antes de nós. Temos uma perceção holística do mundo, somos esponjas a beber de tudo . (…) Isto é a minha geração. Não nos contentamos com o fácil. Estamos cá para fazer a diferença.”

Não por acaso, houve quem quisesse crismá-la de igeração – não pegou, porém. Começaram por denominá-la de Y (a letra do alfabeto que se segue ao X, de Geração X, d”après o célebre livro-retrato de Douglas Coupland) mas foi “millennials”, de milénio, que pegou. A respetiva definição temporal, variando bastante (ver texto nestas páginas), inclui seguramente os nascidos entre 1980 e 2000, como é o caso de Inês, e a ligação com a tecnologia digital e este mundo sem fronteiras, fluído e simultaneamente infinito e mais finito (porque mais abarcável, mais alcançável) que a internet criou é sem dúvida a característica mais distintiva. Com tudo o que isso traz de bem mas também de menos bom.

“Porque há o reverso”, diz Inês, que mandou tatuar nas costas “the book of disquiet” (O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa/Bernardo Soares). “A minha geração tem imensos defeitos. Não se consegue concentrar, hoje quer uma coisa amanhã outra. Acho que vem precisamente de termos acesso a tantas opções. E com o facto de termos crescido com a ideia de que vais conseguir fazer tudo aquilo que quiseres. Há um sentimento de entitlement: de que temos direito, merecemos, tudo nos é devido. Muitos amigos meus têm as mesmas oportunidades que eu e esperam que lhes caiam as coisas no colo. Ou trabalham duas horas e ficam cansados.”

Mais uma vez, Inês menciona algo que surge muito frequentemente nas caracterizações desta geração – vamos chamar-lhes milénicos – como um dos seus traços mais negativos: a ideia de merecimento automático, a expectativa de sucesso instantâneo, o não lidar bem com a frustração e com tarefas maçadoras, horários e obrigações. Assevera-se por exemplo a dificuldade de manter funcionários desta geração – estão sempre à procura de um sítio melhor, da coisa que vai mesmo interessar-lhes, fazê-los felizes. Aspetos que podem ser associados a mimalhos – há muito a ideia de que a “culpa” é dos pais, que os apaparicaram demasiado e lhes deram demasiada auto-confiança.

“Vivemos vidas editadas”

Filipa Neto, 26 anos, vê outras explicações. “Acho que precisamos de mais propósito do que a geração dos nossos pais. Pensamos numa missão.” Esse aspeto está, crê, relacionado com o facto de se ter consciência da “grande volatilidade da vida”: “Há pais que estiveram na mesma empresa 20 anos e foram despedidos. Não há nada garantido. As coisas que eram tidas como verdades económicas já não são. E as pessoas pensam: “Já que o meu salário não é muito bom, e se calhar nunca vai ser, tem de haver felicidade no trabalho: fazer uma coisa de que goste ou que me diga algo.”

Por exemplo inventando de raiz: Filipa fundou, com a amiga Lara Vidreiro, da mesma idade, a empresa Chic by Choice, que aluga vestuário “para ocasiões especiais”. A ideia surgiu às duas estudantes de Gestão a partir da sua própria experiência. “Havia uma festa e queríamos uma roupa nova mas não tínhamos coragem de pedir dinheiro aos nossos pais. E ao mesmo tempo estávamos a aprender a teoria da utilidade marginal: que à primeira vez que usávamos o vestido era fantástico mas à terceira já não tinha tanto impacto. Percebemos que o ideal era poder usar e devolver.” Perceberam que esse tipo de negócio já existia no Reino Unido e resolveram lançar-se. No ano passado, certifica, cresceram 100 por cento, sobretudo a partir do mercado britânico. “O cliente escolhe entre milhares de peças, indica data do evento e tamanho, dois dias antes recebe o que escolheu em dois tamanhos – o indicado e o acima – e no dia seguinte um estafeta vai buscá-las.” Chama-se “fast fashion” e tem a ver com a ideia base da moda, a da novidade, aliada a algo que se considera uma característica (mais uma) dos milénicos: estarem mais interessados na experiência que na posse. Há até estudos que garantem que se trata de uma geração “menos consumista”.

Filipa acha que pode não ser bem assim. “As necessidades mudaram. Somos uma geração Instagram e Facebook, vemos vidas editadas, somos completamente influenciados por isso. A aspiração é: “Se o meu amigo vai a estes sítios todos eu também quero ir.” É mais importante o que outro vê de mim na rede social que o que efetivamente faço. Há uma noção muito diferente do que é o mínimo de rendimento necessário para ser autónomo, por exemplo. Vejo os meus amigos a fazer contas a quantas vezes podem sair, jantar fora, beber copos, viajar, se saírem de casa dos pais.”

Fronteiras abolidas, o mundo ao dispor

Consumistas sim, mas mais de experiências, menos de “coisas”. A não ser, claro, que sejam gadgets: o último smartphone, o último tablet – é o que acha Carlos Silva, 37 anos. “As pessoas podem ter deixado de ter carro ou de pensar em comprar casa mas querem ter o último iphone.” Situado sobre a linha temporal que separa os milénicos e a Geração X, Carlos hesita na generalização: “Tenho sempre alergia a falar de gerações, porque são compostas por indivíduos. Mas existem tendências que têm a ver com o contexto em que as pessoas crescem.” E Carlos cresceu nos computadores. Aos seis/sete anos o pai ofereceu-lhe um Spectrum. Mais tarde, perguntou-lhe se queria um leitor de CD ou um modem como presente. “Comecei a funcionar com a internet muito cedo. E acho que isso é mesmo fundamental para caracterizar esta geração. A ideia de uma sociedade não necessariamente física, amigos no mundo inteiro, acesso à informação muito imediato. Isso muda a forma como as pessoas pensam – acabou o “tirei este curso e vou fazer disto a minha vida”.”

Licenciado em engenharia informática, Carlos estava a fazer um MBA [mestrado em gestão] quando o banco americano Lehman Brothers ruiu, em setembro de 2008, desencadeando a pior crise financeira mundial desde 1929. Mas viu na catástrofe uma oportunidade. “As pessoas perceberam que as ações em que investiam e que achavam muito seguras não eram. Desenvolveu-se desconfiança em relação às instituições tradicionais.” Começou a trabalhar na ideia de uma plataforma de investimento através da net, tendo como inspiração projetos de crowdfunding para o terceiro mundo. “Somos o que se chama uma plataforma de investimento colaborativo, a primeira a nível mundial com autorização para operar.” Funciona assim: “Um empreendedor apresenta um projeto e diz de quanto precisa e qualquer pessoa pode investir. Se no final não atingir o valor o dinheiro é devolvido aos investidores.” Chama-se Seedrs e arrancou em 2012, a partir do Reino Unido. Desde então já investiu mais de 200 milhões em mais de 400 “campanhas” e abriu escritórios em Berlim e Amesterdão. O retorno financeiro, diz o presidente e co-fundador, é “interessante” mas atribui o sucesso da iniciativa também ao facto de os investidores gostarem de “alocar dinheiro a projetos que possam ter impacto .” Uma espécie de fábula: se as pessoas ganharam aversão ao que é grande e opaco e impessoal, regressar ao básico, ao essencial da ideia de investimento – e de comunidade. Um cruzamento entre ativismo e especulação, ou como derrubar fronteiras, baralhar e dar de novo.

Autoconfiança demais ou resiliência?

Não, caramba, não é tudo mau. Os milénicos também são descritos como menos preconceituosos, com uma maior preocupação com a igualdade, nomeadamente de género, muito alerta em relação aos problemas ambientais e, sobretudo, empenhados em que o que fazem, profissionalmente e não só, se relacione com causas que apoiam, com um propósito “maior”. João Wengorovius, ex CEO da BBDO Portugal e agora na consultora Wengorovius & Bidarra, vê uma geração que “apanhou com muitas dificuldades mas é muito empoderada. Com a noção do eu como marca, de que estão muito expostos, muito conscientes dos seus talentos e muito empenhados em usá-los. E muito educados, claro: não basta ter o curso superior, é preciso ter um mestrado e talvez um doutoramento.” Importante também, crê, é a ideia paradoxal de que “a experiência só se vive se for partilhada.”

Jack Mackenzie, presidente de uma companhia de marketing que analisa tendências geracionais citado pelo New York Times, completa o perfil: “Desconfiam da autoridade, são genericamente tolerantes, próximos dos pais, têm vontade de estabelecer compromissos, encontrar terreno comum. E um nível de otimismo que a maioria das pessoas acha quase idiota.”

Otimismo. Como pode a geração que levou com o 11 de Setembro nas ventas mais a crise financeira mundial de 2008 (e, na Europa, com a crise do euro, materializada em Portugal na entrada da troika) ser otimista? Isto para não falar dos últimos desenvolvimentos – hecatombe das revoluções no Médio Oriente, refugiados, ascensão da extrema direita, vitória de Trump. Pode ser mesmo por isso, adverte a escritora Judith Warner, num artigo do NYT com sete anos. Intitulado “The why-worry generation” (a geração do porquê ralarmo-nos), o texto menciona um consenso arrasador de “avaliação psicológica”: “São uma geração de chalados, profundamente narcisistas e destituídos de autocontrolo pelos seus pais hiper-ansiosos e demasiado protetores.” Cita dados sobre a percentagem de empregos recusados pelos licenciados americanos numa altura de desemprego muito elevado – “Apesar de não estarem em condições de impor condições, muitos afirmam não estarem para trabalhar mais de 40 horas por semana. (…) 41% dos licenciados que procuram trabalho recusaram propostas, a mesma percentagem que o fez em 2007, antes da crise”. E dá a palavra a Jean Twenge, a professora de psicologia que escreveu Generation Me (livro de 2007, revisto em 2012, sobre, precisamente, os milénicos): “Não é confiança, é super confiança. E quando chega a este nível, é problemática.”

Uma espécie de incapacidade coletiva de lidar com a realidade? Uma patologia geracional? Warner reflete: “Entrevistei nove estudantes universitários que me foram indicados por professores. E fiquei com o retrato de jovens adultos capazes de não sucumbir à dúvida sobre si próprios e ao desencorajamento. Muitos estavam desempregados, outros estavam insatisfeitos com o seu trabalho ou com as escolhas escolares que tinham feito. Mas não se culpavam. Não punham em causa as suas opções e competências. (…) É difícil para alguém com 40 e tal anos compreender isto, esta ideia de merecimento, esta falta de humildade. Mas não estão necessariamente mal adaptados aos tempos. (…) Pode ser que esta resiliência – esta irritante e no entanto admirável capacidade de manter um espírito positivo em tempos deprimentes e assustadores – não tenha nada a ver com os pais deles e a educação que lhes deram. Talvez seja o resultado, como alguns observadores desta geração têm sugerido, de crescer numa era de ansiedade (…). Talvez a insegurança crónica tenha simplesmente aumentado a capacidade desta geração de resistir ao stress, deixando-a particularmente bem preparada para lidar com a incerteza. Talvez ter um ego super musculado sirva mesmo para enfrentar a adversidade. Exatamente como os gurus da autoestima sempre disseram.”

Geração nondescript?

Ego em esteróides ou ganas de fazer o que dá gozo e a coragem de não transigir? Perguntemos a Joana Barrios. Aos 31 anos, grávida do segundo filho e sem aquilo a que se pode chamar “um emprego”, é tida como paradigma da geração milénica: estão sempre a convidá-la para, nessa capacidade, participar em palestras e workshops. “Chamam-me porque sou “uma mulher de sucesso com profissão indefinida e mãe, porque pertenço a uma companhia de teatro disruptiva [os Praga] e tenho um blogue [de moda, o Trashédia]”.” Ri. “A primeira coisa que faço quando lá chego é insultar quem me chama por esses motivos ridículos. E também acho sempre estranho ser a única rapariga. Os outros são sempre rapazes empreendedores, geralmente de fatinho.” Joana nasceu e viveu a adolescência no Alentejo, onde os pais estão radicados, entrou em Direito mas saiu para o Conservatório, fez um mestrado em crítica de cinema e música pop em Barcelona enquanto trabalhava em lojas vintage, foi a Paris trabalhar com um encenador num espetáculo de vaudeville, no qual se ocupou do guarda-roupa, voltou para Portugal porque “queria trabalhar em português”, entregou o currículo aos Praga e de repente “aconteceu a crise e deixou de haver dinheiro para a cultura.” Resultado? Foi trabalhar como porteira na discoteca Lux-Frágil. “Estive lá de 2010 a 2013. Foi difícil porque era quinta, sexta e sábado da meia noite às sete da manhã. Mas pelo menos assegurei que não morria de fome.” Suspira. “Uma das coisas mais cruéis como porteira foi descobrir que de mês a mês havia mais alguém que vinha fazer a festa de despedida porque ia para Paris ou Berlim. Os arquitectos, os designers, as maquilhadoras, toda a gente foi embora.”

Ela ficou, e mais que isso. Engravidou e decidiu ter a criança, uma menina hoje com dois anos: “Não fui capaz de abortar, apesar de não ser religiosa. De repente não tinha trabalho, não tinha nada, e pensei: “A parte difícil é estar feito e já está feito.” Sou uma pessoa de muita coragem, segundo dizem. Percebo que teoricamente seja muito assustador ter filhos. Mas consigo, entre tudo o que faço – o blogue também é uma fonte de rendimento – ter, em conjunto com o meu marido, que é fotógrafo, que chegue para pagar as contas, a escola, a renda.”

Joana não sabe se é exemplo, mas tem uma ideia ou duas sobre o que define a sua geração: “Em contraste com as anteriores temos pais com capacidade de perceber que houve mudanças muito drásticas na forma como funciona o trabalho – e encorajam-te a procurar aquilo de que gostas.” Um encorajamento que passa muito por apoio financeiro e por não cortar o cordão umbilical. “Regra geral as pessoas da minha idade estão a viver em casa dos pais ou precisam de ajuda porque o que ganham não lhes chega.” E outra coisa, na qual de algum modo os milénicos contrastam também com gerações anteriores: “Do ponto de vista do look uma super característica é quererem integrar-se. Passar despercebidos. Mas podes ter um exterior super normalizante e ao mesmo tempo teres um interior totalmente disruptivo.”

Quando se olha à volta num bar ou num concerto, no meio de uma mole de milénicos, o que é que se vê? A expressão certa existe em inglês: nondescript. Querendo dizer que não há nada de distintivo ou facilmente descritível, aquilo que se reconhece como “um estilo próprio”. A não ser que o estilo seja isso , o de não ser facilmente rotulado, identificado, fichado, fixado. Vera Marmelo, 32 anos, engenheira hidráulica e fotógrafa de concertos, vai por aí. “Acho hoje em dia muito mais piada a causar essa confusão. Não poderem identificar-me logo pela forma como estou vestida. Não preciso de ser classificada, encontro algum gozo em não ser encaixada.” Enquanto a liberdade em gerações anteriores passou por afirmar pela roupa, pose, cabelo, a pertença a um grupo o mais “diferente” possível da norma ou em exprimir um individualismo radical, ofensivo até, estabelecendo uma demarcação clara entre o nós e o eles, a liberdade agora pode ser isto, ser parte da multidão, não chamar a atenção – como quem guarda um segredo. Um certo ar baldas, de quem agarra a primeira coisa que aparece e que lhe é confortável.

A mesma atitude, diz Vera, em relação à música: “Quando éramos mais novos éramos mais dedicados a uma cena específica. Agora, as pessoas que me rodeiam ouvem coisas muito diferentes.” Muito entrosada no meio musical português, Vera reconhece, nos últimos dez anos, um boom de projetos interessantes. “Comecei a fotografar mais a sério em 2006. Foi o ano em que conheci o B Fachada, que acho que tem feito um trabalho incrível na revelação de temas que têm a ver connosco como geração. E houve a viragem do cantar em inglês para o cantar em português e isso ser fixe.” Cita também os Linda Martini e a Capicua: “Sinto que fala por mim e revejo-me nas suas palavras.” Tem uma explicação para esta explosão: “Em 2005 toda a gente que faz música consegue libertar-se de uma editora porque tem computadores em que consegue gravar e plataformas, como o Myspace [que, criada em 2003, em 2008 ultrapassou os 100 milhões de utilizadores], para partilhar o que grava. Tornou-se muito mais fácil encontrar pessoas que são os teus pares, de quem gostas.”

“A política vai ter de regressar”

Luís Nunes, 30 anos, músico, tempera o entusiasmo: “Somos a última geração a lembrar-se de um mundo sem internet e sem telemóveis. E obviamente que a internet é fantástica mas mudou completamente a noção do tempo. Imprime ao mundo um ritmo alucinante. Toda a gente está sempre a fazer montes de coisas ao mesmo tempo, e também te é exigido que o faças. É uma coisa que muda o chip – para a minha avó,por exemplo, é uma coisa mística – e que criou várias assimetrias. Destruiu a indústria discográfica, a indústria do jornalismo e está a destruir a dos táxis.”

Mais conhecido como Benjamim (o nome da sua banda desde 2014, quando começou a cantar em português -antes cantava em inglês e era Walter Benjamin), Luís, que em várias entrevistas afirmou querer “fazer uma banda sonora para a minha geração”, beneficiou muito dessa mudança de planeta. “Um tipo como eu pode competir no mesmo trabalho com um inglês. É muito bom para um país periférico. Mas tem outros lados: além de escrever canções e de tocar instrumentos, tens de saber gravar a tua música. E fazer o teu próprio marketing, o que não é nada evidente.”

O acesso a tudo, sem guias nem intermediários, é um bem inestimável mas pode também significar uma espécie de equalização sem espessura nem noção histórica: “A grande coisa foi quando surgiu o Napster [serviço de streaming de música lançado em 1999]; com a ajuda de um amigo, sacava os discos todos. Mas isso permite coisas como o Kanye West [rapper americano] ter feito em 2015 uma música com o Paul McCartney [dos Beatles] e haver comentários a dizer que não sabiam quem era o McCartney mas que ele tinha futuro.” Ri. “Antigamente as pessoas podiam ser ignorantes, tinham desculpa. Agora não sabem porque não querem. Teres a biblioteca não quer dizer que leias os livros. O acesso à informação não impede a ignorância.” Pelo contrário, acha; há um efeito paradoxal. “A minha geração tem muitas distrações, muitas comodidades. É mole. Já nascemos no planeta democracia e é assustador ver pessoas que nasceram nele a pôr a hipótese de voltar para um sistema não democrático. E a quantidade de malta da minha idade que acha normal haver gente a morrer a dar à costa no Mediterrâneo, sem sequer refletir sobre os motivos? Tinham obrigação de ter estudado melhor história. Toda a gente que nasceu depois da segunda guerra mundial tem essa obrigação.”

Ah, a história. Houve até quem tivesse anunciado o seu fim. “Surgimos quando parecia que se tinham resolvido todos os problemas”, conclui Luís. “Daí sermos uma geração tão desinteressada em termos políticos. Havia a ideia de que a política tinha morrido. Mas vai ter de regressar.” E à bruta, parece.