Quando os pesadelos parecem reais, é hora de acordar

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 05/03/2019)

Ricardo Paes Mamede

Imaginem um mundo de animais transformados. Porcos com genes humanos, para crescerem depressa. Galinhas com peitos maiores para renderem mais. Humanos que nascem quase sem libido, para diminuir a obsessão pelo sexo.

Nesse mundo a maioria das pessoas lutam todos os dias para sobreviver. Os alimentos escasseiam e têm de ser disputados com bichos estranhos que andam à solta. As catástrofes naturais destruíram grande parte das cidades. Alguns indivíduos vivem fechados em condomínios, protegidos de intrusos por seguranças armados. Aí a vida é tranquila e as necessidades básicas satisfeitas. Lá fora a rua é uma selva, nenhuma vida está garantida.

A queda da natalidade foi a desculpa final para impor uma nova ordem. Há comunidades à parte onde as mulheres férteis servem apenas para procriar. Cada uma pertence a um homem, várias ao mesmo, para assegurar a sobrevivência da espécie. Além das procriadoras, há as educadoras. As outras mulheres são inúteis, não têm lugar nas comunidades protegidas. Quem põe em causa a ordem estabelecida é morto em público, para dar o exemplo.

Se leram Oryx and Crake ou The Handmaid’s Tale, livros de Margaret Atwood (o segundo transformado em série de televisão), reconhecem os mundos que descrevi.

A ficção científica nunca me atraiu e a escritora canadiana não me fez mudar de ideias. Deslumbram-me, claro, as ficções que conseguiram antecipar o futuro, como o submarino de Júlio Verne ou as redes de computadores de Isaac Asimov. Mas por cada previsão acertada existem milhares de seres e máquinas absurdos, que não respeitam as leis da física nem a natureza humana. Salvo exceções, prefiro ler sobre mundos plausíveis, sobre relações que podem ser reais.

Não é só o irrealismo que me afasta. A ficção científica, mesmo quando realista, é muito dada a distopias, como os livros de Atwood que referi. Sociedades disfuncionais, onde tudo o que valorizamos – a liberdade, a segurança, o conforto, a satisfação das necessidades básicas, a beleza, a amizade, a cooperação, a confiança no outro – é posto em causa por condições tecnológicas, ambientais e sociais opressivas. Neste sentido, não gosto de ficção científica como não gosto de filmes de terror. Não tiro prazer da angústia que provocam, muitas das vezes sem outro propósito para além da angústia em si.

Nada disto se aplica a 1984, de Orwell, nem ao Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago. São livros distópicos, sim. E são marcantes, pelo que nos mostram da natureza humana. Fazem-nos pensar no que existe através de mundos imaginários. Até há pouco tempo não incluía Atwood neste grupo de autores. Os mundos que descreve pareciam-me apenas catastrofistas, exagerados para lá do razoável.

Entretanto chegou à presidência dos EUA um homem que nega as alterações climáticas. À presidência do Brasil um defensor de armas para todos. Discursos de ódio emergem até nos lugares onde se julgavam extintos. Pretendentes a líder reclamam castigos de tempos medievais – e ganham votos com isso.

Gente em lugares de topo diz que os meninos devem vestir de azul e as meninas de cor-de-rosa e dedicarem-se à família. As multinacionais testam tecnologias perigosas sem escrutínio. Os ricos levam ao poder quem lhes permite fugir aos impostos. As cidades dividem-se em guetos para pobres e bairros para as elites. Os protestos legítimos são reprimidos com violência e desinformação geral.

De repente apercebi-me de que já estivemos mais longe das distopias de Atwood. O mundo pode ser bem pior do que julgamos. Tudo o que já existe é mais do que um carnaval, mais do que um sonho mau. Temos de estar bem despertos.

Economista e Professor do ISCTE


Artigos Relacionados

Advertisements

A geração delapidada

 (António Guerreiro, in Público, 12/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções.


Anunciando a intenção de perscrutar o futuro, de “saber o que aí vem e quem serão os grandes protagonistas das mudanças que se seguem”, e evocando a seguir uma sabedoria antiga segundo a qual “os velhos dão invariavelmente lugar aos novos”, publicou o Expresso, na sua última edição, o resultado de um desafio lançado “aos nossos consagrados” para identificarem uma figura que seja uma promessa que no futuro se irá cumprir. Este exercício é um entretenimento, um jogo que só não é tão inocente como parece porque sabemos bem que esta corrida para não falhar a nova época é uma forma de nos roubar o tempo, transformando-o imediatamente em história.

No jogo, notei que dois dos “nossos consagrados”, António Lobo Antunes e António Barreto, apostaram respectivamente no poeta João Luís Barreto Guimarães, que nasceu em 1967 (tem 50 anos), e no historiador, ex-deputado europeu e fundador do Livre, Rui Tavares, que nasceu em 1972 (tem 45 anos); notei ainda que o artista Igor Jesus, que ainda não tem 30 anos, apostou no consagrado Rui Chafes, que nasceu em 1966, invertendo assim os papéis; notei que Jorge Silva Melo levou o jogo a sério e apostou em três jovens (“gente decidida, tenaz, inventiva”, isto é, com qualidades próprias de um espírito juvenil) que “estão a começar, claro, não têm casa, não têm dinheiro, não têm nada” (são eles João Pedro Mamede, Nuno Gonçalo Rodrigues e Catarina Salgueiro); notei ainda que o professor Carlos Fiolhais escolheu uma bióloga de 44 anos, Mónica Bettencourt Dias, que já é directora do Instituto Gulbenkian de Ciência.

A julgar pelos resultados deste “jogo”, que tem a eloquência dos sintomas, a não ser no teatro o futuro não pertence aos jovens. Há uma geração inteira de espoliados e obrigados ao silêncio que, em dia de festa (o Expresso fazia 45 anos), pode ter direito a ser nomeada por um patriarca que selecciona algum dos seus elementos para ilustração dos filisteus. E quando os patriarcas escolhidos para a missão envergam a máscara da “experiência”, da maturidade, da razão e da boa vontade (poderosa ideologia!), então não aparece sequer um exemplar jovem no horizonte e todo o filistinismo surge encarnado na personagem de um velho (a velhice que não tem idade), para o qual o futuro só pode pertencer a um “realista sensato” (é assim que António Barreto define Rui Tavares, que já não é jovem e envelhece bastante neste retrato) ou a um poeta que, pelo que nos diz António Lobo Antunes, é um homem com qualidades, adorável, modesto e quente (foi esta a impressão que deixou ao Grande Escritor, quando o visitou em Lisboa, acompanhado pela mulher e pela filha).

Eis como de um jogo inocente se chega a um assunto sério: há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções. É uma geração privada de época, de sonhos, de projecções de um futuro possível.

Apetece evocar as palavras que serviram ao linguista russo Roman Jakobson para definir o que aconteceu aos poetas russos dos anos 1920, Maiakovski, Blok, Essenine e outros. Eles pertenceram a uma “geração que delapidou os seus poetas” — aqueles que, tendo participado na revolução, foram capazes de compreender, com uma consciência trágica, o rumo que esta tinha seguido. Morreram todos entre os trinta e os quarenta anos. A esta juventude de hoje, delapidada, rasurada, silenciada, já não é concedido o sentido do trágico, nem sequer a vontade de gritar que “a pátria da criação é o futuro, de onde sopra o vento dos deuses do verbo” (Maiakovski).

A moral espancada

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 17/12/2015)

bb1

Baptista Bastos

Em magno conclave dos jotas do CDS, Paulo Portas apareceu e disse. Sem citar Thomas More, falou em utopia, execrando com veemência o significado oculto da palavra. Revelou, então, que nazismo e comunismo procediam desse sonho absurdo e criminoso. Afirmativa tola e indecorosa. Ou Portas não leu A Utopia, e fala barato (não é de estranhar) ou, se leu, deturpou, com indignidade intelectual, o significado do belíssimo livro. Confundir, em deliberado propósito, comunismo com nazismo, é uma estafeta muitas vezes corrida pelos alveitares de Direita. Sem outro efeito que não seja o de passarem por biltres ou por atrevidos ignorantes. Curioso o facto de o dr. Cavaco ter, vai em anos, confundido Thomas More com Thomas Mann, e também que Portas inimigo viral de Marcelo, ser, agora, seu apoiante virtuoso. Nesta mixurucada de carácter, lembremos que o chefe do CDS foi, quando director de O Independente, quem mais zurziu no dr. Cavaco, caindo, depois, calorosamente, no grato entusiasmo daquele a quem vituperara.

 Dizem por aí que a política não tem moral e desconhece a gratidão. Maquiavel estabeleceu o quadriculado de tal breviário, e, pelos vistos, tinha razão. Em Portugal assistimos a desavergonhados conluios e a surpreendentes, por inesperadas, reviravoltas.

Leia-se os grandes historiadores e assistir-se-á, marcadamente desde o fim da Monarquia, ao cortejo de vira-casacas, assim chamados aos abjurantes, que rapidamente se adaptaram a novas épocas criadas com as novas particularidades políticas.

 Paulo Portas, sobre ser um finório, não merece nenhuma credibilidade. A última, à data, foi a do “irrevogável.” E, quando fala e diz, não merece o mínimo respeito. Talvez seja simpático aos que apreciam aquele modo de ser e de viver; porém, os que se conduzem com um mínimo de seriedade, e exigem a seriedade como princípio e norma, ele é, apenas, um grotesco. O caso não é único; mas não deve nunca ser caso exemplar. Comportamentos daquela natureza são extremamente deletérios, havendo sempre a urgência e a necessidade de os combater com atrevimento.

 O facto de, um pouco por toda a Europa, aparecerem movimentos de contestação a esta rotação perigosíssima, assim como a ascensão de partidos e de clubes de extrema-direita, são indicações, as quais não podem ser ignoradas, de que algo vai muito mal por aqui e pela Europa.