A geração delapidada

 (António Guerreiro, in Público, 12/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções.


Anunciando a intenção de perscrutar o futuro, de “saber o que aí vem e quem serão os grandes protagonistas das mudanças que se seguem”, e evocando a seguir uma sabedoria antiga segundo a qual “os velhos dão invariavelmente lugar aos novos”, publicou o Expresso, na sua última edição, o resultado de um desafio lançado “aos nossos consagrados” para identificarem uma figura que seja uma promessa que no futuro se irá cumprir. Este exercício é um entretenimento, um jogo que só não é tão inocente como parece porque sabemos bem que esta corrida para não falhar a nova época é uma forma de nos roubar o tempo, transformando-o imediatamente em história.

No jogo, notei que dois dos “nossos consagrados”, António Lobo Antunes e António Barreto, apostaram respectivamente no poeta João Luís Barreto Guimarães, que nasceu em 1967 (tem 50 anos), e no historiador, ex-deputado europeu e fundador do Livre, Rui Tavares, que nasceu em 1972 (tem 45 anos); notei ainda que o artista Igor Jesus, que ainda não tem 30 anos, apostou no consagrado Rui Chafes, que nasceu em 1966, invertendo assim os papéis; notei que Jorge Silva Melo levou o jogo a sério e apostou em três jovens (“gente decidida, tenaz, inventiva”, isto é, com qualidades próprias de um espírito juvenil) que “estão a começar, claro, não têm casa, não têm dinheiro, não têm nada” (são eles João Pedro Mamede, Nuno Gonçalo Rodrigues e Catarina Salgueiro); notei ainda que o professor Carlos Fiolhais escolheu uma bióloga de 44 anos, Mónica Bettencourt Dias, que já é directora do Instituto Gulbenkian de Ciência.

A julgar pelos resultados deste “jogo”, que tem a eloquência dos sintomas, a não ser no teatro o futuro não pertence aos jovens. Há uma geração inteira de espoliados e obrigados ao silêncio que, em dia de festa (o Expresso fazia 45 anos), pode ter direito a ser nomeada por um patriarca que selecciona algum dos seus elementos para ilustração dos filisteus. E quando os patriarcas escolhidos para a missão envergam a máscara da “experiência”, da maturidade, da razão e da boa vontade (poderosa ideologia!), então não aparece sequer um exemplar jovem no horizonte e todo o filistinismo surge encarnado na personagem de um velho (a velhice que não tem idade), para o qual o futuro só pode pertencer a um “realista sensato” (é assim que António Barreto define Rui Tavares, que já não é jovem e envelhece bastante neste retrato) ou a um poeta que, pelo que nos diz António Lobo Antunes, é um homem com qualidades, adorável, modesto e quente (foi esta a impressão que deixou ao Grande Escritor, quando o visitou em Lisboa, acompanhado pela mulher e pela filha).

Eis como de um jogo inocente se chega a um assunto sério: há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções. É uma geração privada de época, de sonhos, de projecções de um futuro possível.

Apetece evocar as palavras que serviram ao linguista russo Roman Jakobson para definir o que aconteceu aos poetas russos dos anos 1920, Maiakovski, Blok, Essenine e outros. Eles pertenceram a uma “geração que delapidou os seus poetas” — aqueles que, tendo participado na revolução, foram capazes de compreender, com uma consciência trágica, o rumo que esta tinha seguido. Morreram todos entre os trinta e os quarenta anos. A esta juventude de hoje, delapidada, rasurada, silenciada, já não é concedido o sentido do trágico, nem sequer a vontade de gritar que “a pátria da criação é o futuro, de onde sopra o vento dos deuses do verbo” (Maiakovski).

 

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Licenciados, frustrados, emigrados

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 01/09/2015)

         Daniel Oliveira

                      Daniel Oliveira

Já aqui escrevi que para além dos números do desemprego, os reais e os martelados, temos que discutir que emprego estamos a criar. Quando sabemos que mais de meio milhão dos trabalhadores recebe menos do que 419,22 euros e que dois terços do emprego criado este ano o foi por via de contratos a prazo sabemos de que emprego estamos a falar. A mais evidente pressão do desemprego é obrigar as pessoas a aceitarem trabalhos muito mal pagos e sem o mínimo de garantias. Quando isso corresponde à decadência económica de um país, há também um processo de desqualificação da mão de obra, que acompanha a própria desqualificação da economia.

Esta semana, numa notícia do “Público”, contava-se como as escolas estão a receber candidaturas de licenciados, mestres e até doutorados para preencherem vagas para “contínuos” – sendo mais correto, para assistentes operacionais. Gaspar Vaz, diretor do agrupamento de Cister, em Alcobaça, não compreende o espanto. Afinal de contas, não é a primeira vez que isto acontece. Os Contratos Emprego-Inserção, que permitiam ao Estado ocupar vagas através de desempregados, pagando-lhes apenas um complemento de 80 euros, já punham licenciados nestas funções. Ou seja, é o próprio Estado a pressionar o mercado a baixar salários e a pressionar os trabalhadores qualificados a cumprirem funções para as quais as suas qualificações são inúteis. Ao menos estes não foram obrigados e têm alguma vocação. Os outros iam apenas cumprir uma espécie de pena de trabalho cívico pelo crime grave de desemprego.

PORTUGAL NÃO TEM LICENCIADOS A MAIS NEM LICENCIADOS NAS ÁREAS ERRADAS. FOI O MODELO DE DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO QUE FOMOS ESCOLHENDO QUE NÃO ACOMPANHOU O INVESTIMENTO QUE FIZEMOS EM EDUCAÇÃO.

Quando temos licenciados, mestres e doutorados a concorrer a vagas para os quais têm qualificações obviamente excessivas, podemos chegar a três conclusões: que há licenciados a mais, que há licenciados a mais em áreas erradas ou que há vagas a menos para os licenciados que o nosso desenvolvimento económico exigiria.

A conversa do país dos doutores, muito popular em Portugal e que a senhora Merkel repetiu há uns tempos, é apenas absurda. Em 2013, Portugal tinha 17,6% de licenciados, a Alemanha tinha 25,1% e a União Europeia 25,3%. Na realidade, temos licenciados a menos. E mesmo assim somos o país da União Europeia que mais licenciados perde para a emigração. A nossa mão de obra é das mais desqualificadas da Europa. 59% da população empregada no ano de 2011 não tinha mais do que o 9º ano, 21,7% completou o ensino secundário e apenas 19,7% concluiu o ensino superior. Nos países de Leste, que concorrem connosco, esse número é, em regra, superior a 30%, chegando mesmo, em alguns casos, próximo dos 40%. E a média europeia é de 30%.

Pode dar-se o caso de termos licenciados nas áreas erradas. Teríamos de concluir que os portugueses são, em média, bastante burros. Apesar de todas as evidências das duas últimas décadas, continuaram a licenciar-se em áreas que lhes garantem o desemprego enquanto as outros sectores estão carentes de mão de obra qualificada. Uma tese difícil de sustentar e para a qual não encontro qualquer indício estatístico. Imagino, pelo contrário, que acontece em Portugal o que acontece em todo o lado: os estudantes vão adaptando as suas escolhas à oferta de trabalho. Só que não há oferta suficiente para absorver os poucos licenciados que o país prepara.

O nosso tecido produtivo e o modelo de desenvolvimento económico que fomos escolhendo não acompanhou o investimento que fizemos em educação. As empresas modernizaram-se a um ritmo mais lento do que a mão de obra. As razões são várias. Foi o processo de privatizações de grandes empresas de serviços monopolistas que canalizou quase todo o investimento privado para sectores que não produzem bens não transacionáveis. Foi a destruição do tecido produtivo em troca de fundos europeus. Foi a entrada no euro, que não favoreceu os sectores exportadores. Foi a baixa qualificação dos nossos empresários (mais baixa, em média, que as dos trabalhadores), que não favoreceu a modernização das empresas. Foi a aposta em sectores que em média absorvem menor percentagem de trabalho qualificado, como a construção e o turismo. Foi a aposta na competitividade por via da redução dos custos em trabalho, que favorece sectores que acrescentam menos valor ao que produzem.

Um dos casos que seguiu o caminho inverso a esta cegueira foi o do calçado. Tem absorvido cada vez mais mão de obra qualificada. E a escolha que fez, é preciso dizê-lo, resultou de opções próprias mas também de um grande investimento público na sua modernização e internacionalização. Infelizmente, a maior parte dos nossos recursos públicos continuam a servir para ajudar empresas que, não oferecendo serviços que o mercado precise e que a comunidade exija, têm bons contactos no Estado. E é por isso que o tal diretor do agrupamento de Cister diz que vai abrir a escola, mesmo que ainda não tenha os funcionários suficientes: mesmo ao lado tem um colégio financiado pelo Estado por contrato de associação e não quer perder alunos. Isto também ajuda a explicar o nosso subdesenvolvimento económico: enquanto investíamos na qualificação dos nossos cidadãos continuávamos a favorecer gestores de contactos com a política em vez de favorecermos empresários que modernizassem a nossa economia.

Dirão, e com razão, que lavar casas de banho de escolas é um trabalho tão digno como qualquer outro. É necessário fazê-lo e mais vale isso do que ficar no desemprego. Há, no entanto, duas razões para olhar para isto com preocupação. A primeira é o desperdício. O investimento feito na formação destas pessoas não tem retorno. A única vantagem é mesmo o conhecimento que adquiriram e que, na realidade, apenas podem usar fora do trabalho. Quem já foi a Cuba conhece os efeitos de uma sociedade que qualifica a população e depois frustra a suas expectativas. Os que estão presos a compromissos em Portugal aceitam estes trabalhos. Os restantes, porque felizmente não precisam de arriscar a vida para sair do país, emigram e oferecem a outros o fruto do investimento que fizemos.