Não perguntem sobre o futuro, façam-no acontecer

(Ricardo Paes Mamede, Diário de Notícias, 28/12/2019)

Os economistas são conhecidos por conseguirem explicar muito bem amanhã os motivos pelos quais as suas previsões de ontem não se verificaram no dia de hoje. Diz-se também que a meteorologia só existe para que as previsões económicas pareçam menos más. Mas nem isto é verdade: os modelos meteorológicos são hoje mais precisos do que os modelos económicos.

A incapacidade de os economistas preverem o futuro não deve surpreender-nos. A velocidade e a direção dos ventos, a formação de ciclones e outros fenómenos atmosféricos são imprevisíveis devido à complexidade dos processos envolvidos. Pequenas diferenças nas condições iniciais podem dar origem a resultados muito distintos. Nas economias isto é agravado por um fator: ao contrário das nuvens, as pessoas pensam. Têm interesses, ideias e valores. E agem para os defender.

Na verdade, a capacidade dos seres humanos para refletir sobre a evolução das economias e das sociedades e procurar influenciar essa evolução não é só fonte de incerteza. As leis e as regras que estabelecemos têm por objetivo reduzir arbitrariedade e tornar o futuro próximo um pouco mais previsível.

Acontece que os seres humanos não pensam todos o mesmo, não têm todos os mesmos interesses nem partilham os mesmos valores. É por isso que o futuro está sempre em aberto. Não é motivo para angústias. Não sabemos como será o futuro, mas sabemos que em grande medida somos nós que o fazemos.

Economista e Professor do ISCTE


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