Um bom sinal

(In Blog O Jumento, 03/06/2017)

juizes

Parece que os magistrados vão decidir hoje (Ver notícia aqui) se boicotam ou não as eleições autárquicas, os tribunais e os defensores da legalidade decidem se boicotam a democracia e o seu funcionamento. Um desastre? À primeira vista dir-se-á que sim, mas na verdade e por mais incrível que pareça é um bom sinal, um sinal de evolução do país.

Durante meio século de ditadura os nossos magistrados foram homens felizes, não há memória de um pequeno contributo desta classe profissional ter mexido um dedo contra os ditadores, nenhum se recusou a fazer o que a PIDE lhes mandava fazer nos tribunais plenários, foram dos mais disciplinados funcionários públicos do salazarismo. Se hoje já têm opinião e questionam o poder é um bom sinal, é uma pena que só o tenham aprendido a fazer em democracia, mas ainda assim é um bom sinal.

Também é um bom sinal que o líder do sindicato dos magistrados em vez de ir fazer queixas a Belém reúna com os seus e decida lutas sindicais. Os sindicatos servem para fazerem sindicalismo e se os sindicalistas em vez de manobras políticas conduzem lutas sindicais não fazem mais do que a sua obrigação. Se os magistrados sentem razões de queixa é também um bom sinal, muito mau seria se todos os funcionários públicos tivessem sido maltratados e os magistrados tivessem razões de felicidade. Ainda assim ganham muito mais do que outros profissionais altamente qualificados do Estado.

Se estão zangados com o poder e fazem greve é um bom sinal, ainda que seja ridículo ver juízes em greve, mas se os nossos juízes querem ser parecidos aos do Burundi o problema é deles, nada está na Constituição que nos impeça de fazermos as figuras tristes que bem entendermos. Mas é preferível fazerem greve do que recolherem as despesas que os ministros fizeram com os cartões VISA na esperança de meterem algum na cadeia. É um sinal positivo que as lutas entre os magistrados se fazem com greves e não com detenções.

Também é um bom sinal que os magistrados em vez de fazerem congressos de luxo com passeios para os acompanhantes, tudo com o alto patrocínio do Ricardo Salgado e do BES, se reúnam numa sala modesta para decidirem se fazem greve às eleições. Assim é tudo mais bonito e a justiça só fica dignificada que os seus executores sirvam de exemplo.  E um sinal de que os nossos magistrados estão mais democratas e de que não tiveram por onde pegar o Costa.


Fonte aqui

A esquerda acelerada

(António Guerreiro, in Público, 02/06/2017)

Autor

António Guerreiro

Um assentimento geral dá vida longa a esta piada: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Esta paralisia de ordem política não é igual a tantas outras do passado porque o que está em causa, agora, não é só o curso da História e as representações e configurações de ordem política, é também um cataclismo ecológico global que nos reenvia para o nosso frágil estatuto de earthbound, de seres ligados à terra, como diz o sociólogo Bruno Latour. Uma heresia política contemporânea que interpela sobretudo a esquerda e as suas tendências nostálgicas (veja-se, por exemplo, como ela joga muito mais na miragem do pleno emprego do que na lógica de um mundo sem trabalho com o qual estamos confrontados) é um polémico manifesto publicado em 2013 por dois universitários ingleses: Nick Srnicek e Alex Williams. Trata-se do Accelerate Manifesto for an Acclerationist Politics. Parece certamente estranho como é que um programa “aceleracionista” pode ser uma alternativa numa época em que a regra a que tudo está sujeito é precisamente a velocidade. O que leva todo o pensamento ecológico a defender o regresso à lentidão. Diga-se, em boa verdade, que o Manifesto Aceleracionista cai numa tecnofilia ingénua, quando não ganha até a dimensão de um “prometeísmo demente”, como observou o filósofo francês Yves Citton (que o traduziu para francês, na revista Multitudes). O Manifesto pretende superar o capitalismo neoliberal e recuperar, para a esquerda, a ideia perdida de futuro. Este modo de pensar suscita imediatamente esta interrogação: o capitalismo neoliberal não impôs precisamente a lei da aceleração, em todos os domínios? Fazendo uma distinção entre velocidade e aceleração, os autores do Manifesto defendem que o que se passa é que temos o sentimento de que avançamos rapidamente, mas os fundamentos não sofrem qualquer mudança. Aumentamos a velocidade sem alterar a mudança da bicicleta. Por isso, precisamos de pedalar cada vez mais.

Ora, o Manifesto Aceleracionista é de um grande optimismo: entende que a passagem para um pós-capitalismo se pode dar aproveitando as infra-estruturas do capitalismo, da logística à finança, transformando do interior a sua estrutura material.

E critica a negatividade da esquerda, a sua obsessão pela resistência (que tem como efeito confirmar pura e simplesmente as regras daquilo que recusa), a sua incapacidade em ser afirmativa e constituir um horizonte positivo de superação. Podemos mesmo dizer que este Manifesto tem uma enorme capacidade de mostrar, com grande verosimilhança, os anacronismos, as ineficiências e as impotências da esquerda tradicional. O movimento de aceleração deve consistir num pragmatismo que reorienta as potencialidades sociais do capitalismo numa outra direcção, reapropriando-se do progresso científico e tecnológico. Não se trata de destruir ou fazer tábua-rasa, mas de transformar do interior. O ponto mais polémico do Manifesto é aquele em que os seus autores escrevem: “Os aceleracionistas querem libertar as forças produtivas latentes. No âmbito deste programa, a plataforma material do neoliberalismo não precisa de ser destruída. Tem de ser reorientada para finalidades comuns”. Tratando-se de um Manifesto, não admira que o texto deixe muitas coisas em suspenso e ostente um impulso idealista (limitei-me aqui a descrever as suas proposições mais gerais). Mas ele tem uma grande virtude, que um dos seus comentadores mais notáveis, Toni Negri, resumiu desta maneira: “A aceleração tem as características de um processo experimental de descoberta e de criação no interior do espaço de possibilidades determinado pelo próprio capitalismo”.

A lamentável hipocrisia das três agências

(Nicolau Santos, in Expresso, 03/06/2017)

nicolau

A avalancha de dados positivos sobre a economia portuguesa que se tem sucedido nos últimos dois meses não comove as três grandes agências internacionais de notação financeira, cujos responsáveis, em declarações ao “Diário de Notícias”, não mostram nenhuma disposição para melhorar o rating que atribuem à dívida portuguesa (e que, em linguagem vulgar, é qualificado de lixo, ou seja, algo onde não se deve aplicar dinheiro), nem sequer o outlook, ou seja, a perspetiva, passando-o eventualmente de estável para positivo.

Os argumentos são os seguintes: “O rating pode subir se a consolidação orçamental e a redução da dívida acelerarem significativamente por comparação com as expectativas. Um crescimento económico muito mais forte seria também benéfico” (Moody’s). “É preciso perceber se esta recuperação é sustentável. Como o efeito base é muito baixo, qualquer pequena recuperação resulta num crescimento percentual muito elevado” (Standard & Poor’s). “Esperamos que a tendência pronunciada de redução do défice continue, mas a elevada dívida pública e a qualidade dos ativos bancários ainda pesam no perfil de crédito soberano de Portugal” (Fitch).

A economia portuguesa está bastante melhor. Até quando, senhores das agências, abusareis da nossa paciência, não reconhecendo esta evidência?

Ora, muito bem! A consolidação orçamental tem sido como segue: défices de 3% em 2015 (sem efeito Banif), 2% em 2016, previsão de 1,5% para este ano. E a tendência de queda vem de uns inacreditáveis 11,2% em 2010. O que será preciso para os senhores das agências reconhecerem que esta é uma tendência forte e consolidada? Segunda questão: o crescimento económico. Eis os dados: 0,9% (2014), 1,6% (2015), 1,4% (2016), 1,8% (previsão para 2017, mas o crescimento no primeiro trimestre de 2,8% aponta para um crescimento anual muito superior, podendo chegar aos 2,5% segundo o INE, mais que a média europeia). Há quem diga, contudo, que tudo está dependente do turismo. Não é verdade: as mercadorias explicam 70% do aumento das exportações. Terceira questão: a dívida. É muito elevada (130% do PIB). Mas o Governo prevê antecipar o pagamento de €7200 milhões ao FMI em 2018 e 2019 e até agora já foram reembolsados mais de €14.500 milhões do total de €26 mil milhões. Mais: como os senhores das agências saberão, um crescimento mais forte e acima do previsto, dá uma forte ajuda à redução da dívida em percentagem do PIB. Outra questão: a banca: alguém duvida que CGD, BES, BCP e BPI estão hoje mais sólidos do que em 2011 depois dos seus processos de recapitalização?

Concluindo: a economia portuguesa está indiscutivelmente melhor do que quando a nossa dívida pública foi classificada como lixo. Por isso, até quando, senhores das agências, abusareis da nossa paciência, não reconhecendo esta evidência? Resposta: até quando a sua hipocrisia entender, mesmo que os factos os desmintam todos os dias.


Um cluster a nascer na Covilhã

Decididamente, a imagem de Portugal está a mudar, entre outros factores porque hoje o país dispõe de recursos humanos muito bem preparados, com uma relação preço/qualidade altamente competitiva no contexto europeu. É seguramente isso que explica que o grupo suíço FM Industries Sycrilor tenha escolhido a Covilhã para abrir o seu novo centro de produção de bijuteria para fornecer algumas das maiores marcas de luxo mundiais, como a Louis Vuitton, Hermès, Dior, Cartier, Tiffany e Mont-Blanc. A nova unidade, que abriu no mês passado e vai criar 90 postos de trabalho, pode ser a chave para o desenvolvimento de um cluster na região dedicado à indústria mecânica de precisão, atraindo outros projetos. Estes são os investimentos que interessam ao país. Vêm para ficar, criam emprego altamente qualificado e podem contribuir para que surjam novas fileiras industriais no país.


Carlos Costa chega tarde

Desde que o sector bancário entrou em dificuldades, Bruxelas tem imposto, para aceitar apoios transitórios do Estado às instituições, programas draconianos de fecho de agências nacionais e no exterior, bem como a forte redução do número de funcionários. Além disso, o BCE não tem escondido a sua preferência por lidar apenas com meia dúzia de grandes bancos na zona euro, que serão os transmissores da política monetária europeia. Esta semana, o governador do Banco de Portugal, que aceitou a resolução do BES e do Banif como inevitáveis, acordou do seu sono letárgico e veio dizer que sempre se opôs a essas medidas e que elas são “um convite descarado e inadmissível para um tratamento” desigual entre o Norte e o Sul da Europa, prejudicando os países do Sul. Infelizmente, o mal já está feito. Carlos Costa devia ter levantado a voz na altura. Agora, o que diz é inútil e não tem qualquer resultado.


Há algo errado com os fundos?

O Expresso publicou no sábado um trabalho da Joana Nunes Mateus, sobre os principais projetos apoiados pelo Portugal 2020. A conclusão é inquietante: 19 dos 20 maiores projetos são para pagar despesa do Estado e só há um privado — um novo complexo industrial em Aveiro da Navigator. A Direção-Geral do Ensino Superior recorre a esses fundos para atribuir bolsas a alunos carenciados, o Instituto de Emprego e Formação Profissional capta aí dinheiro para pagar estágios a jovens e a Fundação para a Ciência e Tecnologia patrocina doutorados por esta via. Ou seja, a descida do défice pode estar a ser apoiada pelos fundos europeus que estarão a substituir os impostos no financiamento de salários e outros gastos com educação e segurança social. Digamos que a acusação, que vem do PSD, merece uma cabal explicação. Não há milagres em economia, Esperemos que não haja trapaça.



A mim,

o brilho fascina-me.

E as pessoas

estão a perder o brilho.

A desilusão é tão grande

que as pessoas perdem

pouco a pouco

o brilho, a luz.

Não há luz

nos olhos das pessoas.

O circo,

de certa forma,

devolve às pessoas

o brilho perdido.


(Teresa Ricou,

a alma, a seiva e o sangue do Chapitô, que esta semana comemora 40 anos, in “Tété — História da Pré-História do Chapitô — 1946-1987”, edições Chapitô)