A culpa é do Centeno

(In Blog O Jumento, 01/03/2017)
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O país conseguiu provar que era possível reequilibrar as contas do Estado sem a experiência inovadora da desvalorização fiscal combinada com o empobrecimento dos trabalhadores e a destruição da classe média? Conseguiu e a culpa foi do Centeno, o diabo não apareceu, Passos Coelho pode cumprir a promessa de votar no PS se conseguisse tal feito e a Maria Luís pode regressar à escola primária para fazer a disciplina de aritmética.
Os portugueses podem ter um ano tranquilo, sem tarados a explicarem desvios colossais, sem um primeiro-ministro a usar a troika para os chantagear, sem as palermices do Paulo Portas? Sim, o país percebeu que se pode viver sem medo da troika e do Eurogrupo, que se pode planear a vida sem receio de que Passos lhe tire metade do próximo ordenado ou que decida que só vai receber salário, mês sim, mês não. E a culpa foi do Centeno.
O país pode viver tranquilamente, com estabilidade fiscal, sem a necessidade de planos B, C e D, sem serem necessários sucessivos orçamentos rectificativos? Pode e deve isso a Centeno, acabaram-se as paranóias do Passos, a incompetência da Maria Luís e os livros brancos do Paulo Portas.
É possível um ministro das Finanças rigoroso e competente dialogar com o BE ou com o PCP, fazendo aprovar orçamentos de forma quase tranquila? É, e a culpa é do Centeno; foi graças a ele que o parlamento aprovou dois orçamentos, algo que a direita nunca imaginou ser possível.
É possível gerir altos níveis de austeridade, melhorar os rendimentos, evitar a recessão e conseguir que os portugueses estejam optimistas, como se não se via há muitos anos? É, e a culpa é do Centeno, os portugueses confiam na sua competência, no seu rigor, na sua capacidade negocial interna e externa e na sua palavra.
São demasiadas culpas para um ministro, ainda por cima alguém sem qualquer experiência politica, que ainda não domina os truques de linguagem palaciana de uma seita política formada nas juventudes partidárias, gente para quem é melhor andar a roçar o cu pelas cadeiras e depois ir tirar um curso de canalhice a Castelo de Vide, do que queimar as pestanas com um doutoramento nas melhores universidades do mundo, onde, aliás, pouco mais poderiam fazer do que serem jardineiros.
É por isso que querem destruir Centeno a qualquer custo, é por isso que vale tudo e até se servem de um maluquinho vingativo e sem princípios, que pede a um qualquer Don Corleone que divulgue as mensagens SMS que recebeu no quadro de uma relação de confiança e lealdade. O problema é que os portugueses não são parvos e esta sanha de ódio pode ter o resultado contrário ao esperado. Centeno é o melhor ministro deste governo e aquele que mais é apreciado pelos portugueses.
A manobra é tão evidente e de tão baixo nível que a direita pode vir a pagar um preço muito elevado pela institucionalização da canalhice. O desespero de Passos Coelho está a conduzi-lo para um beco sem saída.

O Expresso e os truques da imprensa portuguesa

A internet tem vindo a pôr em causa a omnipresença e a omnisciência da imprensa tradicional, dita de referência. O Facebook é uma das fontes de informação preferidas por milhares de cidadãos que, seja por razões económicas, ou de descrença, deixaram pura e simplesmente de comprar jornais, já que a eles acedem gratuitamente pela via digital.

Uma página do Facebook, Os truques da imprensa portuguesa, tem vindo sistematicamente a desmontar as manobras e os enviesamentos com que a imprensa e as televisões truncam factos uma vezes, os ocultam noutras, ou os encadeiam de forma arbitrária mas intencional de forma a levar os leitores a tirar conclusões que estão longe de estar nas premissas. O número de seguidores da página tem vindo a crescer de forma exponencial, atingindo já o apreciável número de 115000 pessoas.

Por norma, as denúncias dos truques não tem vindo a ser postas em causa, pelo que a imprensa mainstream, neste caso o Expresso, não podendo atacar a mensagem tratou de armar uma cilada aos mensageiros, já que os autores e responsáveis da página mantém o anonimato. Descobrir quem são, o que fazem, de forma a poderem ser intimidados no seu trabalho, seja lá de que forma for, foi o meio utilizado pelo respeitável jornal. Conheço o método. Também, a maioria dos críticos desta página, raramente discutem os textos que aqui se publicam e de que não gostam, mas querem saber quem é a Estátua de Sal, para me poderem atacar pessoalmente. O post que abaixo publico dá conta dos perversos métodos do Expresso, mormente do seu director Ricardo Costa, e a resposta dos Truques da Imprensa Portuguesa.

Estátua de Sal, 01/03/2017


 

Sem vergonha

(Por Estátua de Sal, 01/03/2017)

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A audição do ex-Secretário de Estado Paulo Núncio, hoje no Parlamento, foi um exercício atabalhoado de afirmações retorcidas que pretenderam justificar o injustificável. Vamos por partes:

  1. Tentou justificar a não publicação da lista das transferências para offshores com base no facto de ter dúvidas relativamente a tal publicação poder, segundo ele, beneficiar o infractor. Não consegui perceber, nem ele explicou mas deve saber já que é um especialista em offshores, donde pode advir tal benefício. A lista, quando é publicada reporta a operações realizadas no ano anterior. Logo, como podem os infractores ser beneficiados se a infracção, a ter acontecido, já é um facto do passado? Mais. A lista contém informação sobre operações financeiras que os bancos reportam, mas que também devem ser informadas pelos contribuintes às autoridades ficais na declaração Modelo 38. Publicar a lista, portanto, não dá nenhuma informação adicional ao contribuinte infractor. Se ele declarou as suas operações financeiras no Modelo 38 e as vê reflectidas na listagem, já o sabia. Se não declarou e as vê na lista, também já sabia que tal iria acontecer, sujeitando-se portanto às decorrentes penalizações legais.
  2. Depois tentou separar a não publicação da listagem  do não pagamento de impostos. Ou seja, publicar a lista não implicaria que os impostos fossem pagos, e esse pagamento é que seria importante, tal como não publicar não levaria ao seu não pagamento. Assumiu a responsabilidade pela não publicação da lista, mas não pelo hipotético não pagamento de impostos.  Ora, o que se concluiu da audição de hoje, é que a não publicação da lista pode ter permitido que haja não pagamento de impostos que não foi sancionado e que, pelo menos em parte, podem nunca  vir a ser recuperados por não poderem ser liquidados em tempo útil. Logo, a não publicação da listagem, a haver infractores, só os beneficiou, pelo que é ridícula a defesa de Núncio, dizendo que não a tinha publicado para os não beneficiar.
  3. Outra linha da argumentação de Núncio e da direita é que mandar dinheiro para offshores não é crime e que a maioria do dinheiro que é transferido corresponde ao pagamento de facturas que as empresas fazem quando importam bens e serviços do estrangeiro. Mas será que as empresas estrangeiras que nos vendem produtos não tem contas bancárias em bancos e contas bancárias normais, só tem contas em offshores?! Compramos a empresas alemãs, espanholas, inglesas, chinesas ou seja lá de que nacionalidade for e mandamos por norma o dinheiro do pagamento para Jersey, para o Panamá ou para a Ilha de Man? Não terá o comprador sério o direito e o dever de exigir ao seu fornecedor que lhe dê uma conta bancária situada fora de uma jurisdição no mínimo esquisita? Ou será que as condições de venda e de pagamento serão mais benéficas caso o pagamento seja feito para um offshore, sendo esta a prática normal no comércio internacional? A ser assim, e se calhar é mesmo, a corrupção e a fraude fiscal está entranhada no âmago de todo o sistema económico, pelo que só uma crítica de fundo ao próprio sistema – que poucos se atrevem a subscrever a nível político, sendo de imediato considerados radicais -,  poderá pôr fim a tais práticas.
  4. Mas, a conclusão mais grave que resulta desta audição é de ordem política. Suponhamos que o PSD/CDS tinham continuado no governo após as eleições de 2015. Continuaria a existir opacidade sobre as transferências para offshores, as listas de 2011 a 2014 continuariam na gaveta e a de 2015 não teria visto a luz do dia. As falhas no escrutínio aos 10000 milhões de euros que saíram do país continuariam a ser ocultadas debaixo do tapete e quaisquer impostos que se venham ainda a apurar ser devidos nunca seriam liquidados.
  5. O que só prova que estamos perante um caso de grave relevância política que revela a parcialidade do governo anterior no que toca à repartição dos sacrifícios fiscais: espada e varapau contra os pilha-galinhas, passadeira vermelha para os tubarões.