Perguntas que não levam a parte nenhuma por causa das respostas

(José Pacheco Pereira, in Público, 15/04/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Centeno quer matar a “geringonça”? Quer. A “geringonça” quer matar Centeno? Quer.


Centeno quer matar a “geringonça”? Quer.

A verdade é que alguns dos compromissos do acordo entre PS-BE-PCP não estão a ser cumpridos. Há alguns socialistas mais ingénuos e outros de má-fé que pensam que se o Governo cair o caminho para uma maioria absoluta está garantido. Não está e uma queda do Governo, mesmo por aquilo que alguns podem considerar benéfico com a nova ideologia do défice, é sempre má para o PS ir para eleições, e ainda pior, se depois delas ficar com maioria simples. Não se iludam que o caminho com o PSD é muito mais complicado do que se pode imaginar nestes dias, apesar de tudo, de calmaria antes da tempestade.

A “geringonça” quer matar Centeno? Quer.

PCP e BE, se tivessem a campainha do mandarim, há muito a tinham tocado para pôr Centeno definitivamente em Bruxelas.

Quer o Presidente ver o Governo cair? Já estive mais certo de que não queria…

… e não lhe vão faltar pretextos. É que ele já está a definir casos que servem de pretextos, condições, para preparar o terreno. Não estou inteiramente certo, presumo que nem o Presidente, mas a tentação começa a ser muito visível. E ele é um homem de tentações.

Um dia o turismo diminui ou acaba. O que é que vai sobrar nas cidades de Lisboa e Porto? Imensos estragos.

Eu percebo que enquanto dura se aproveite a benesse. O boom do turismo é positivo em muitos aspectos para as duas cidades em que ele tem tido imenso impacto, Lisboa e Porto. Tem havido alguma remodelação urbana em centros que estavam degradados, e há alguma vida de dia e de noite em cidades que pareciam adormecidas.

Mas se há casos em que a palavra conjuntura é bem aplicada é para o actual boom turístico. Tudo ajudou, a insegurança de muitos destinos, as qualidades do clima português, a facilidade de adaptação de muita gente que rapidamente criou empresas turísticas para responder à pressão, o efeito de “estar na moda” alimentado por operadores e por jornalistas de viagens, os preços baratos, mesmo quando subiram muito, a facilidade de acesso ao país, tudo mesmo. Só que “não há bem que sempre dure”.

Lembram-se do boom das lojas que compravam ouro? Convém lembrar.

Se passarmos os olhos sem qualquer ilusão e auto-engano, nem complacência escapistas, sobre o que realmente está a “mudar”, em particular nas cidades, deveríamos assustar-nos. Estão-se fazer hotéis, hostels, restaurantes a mais e tudo isso vai ficar um dia, que pode não ser muito longínquo, vazio, falido, a estragar-se. Faz-me lembrar um outro boom dos anos da crise, quando abriam lojas de compra de ouro por tudo quanto é esquina. Vejam lá as que sobram.

E pelo caminho, por muito brilhantes que sejam as suas fachadas — e, se virem bem, poucas o são, e percebe-se que para andar depressa os projectos arquitectónicos, as obras de remodelação, os interiores são pouco cuidados e muito estereotipados, feitos para um turismo barato e pouco exigente —, estão a criar problemas na cidade a montante e a jusante que muitas vezes não ligamos directamente ao boom dos hotéis. Por exemplo, o crescente tráfego em ruas pouco preparadas de veículos de serviços e distribuição, que servem a qualquer hora lavandarias, bares, restaurantes, reparações, que a pressão hoteleira fez aumentar consideravelmente. Já para não falar dos tuk-tuk.

E não só, olhem para muitas lojas em pleno centro que substituíram o comércio mais antigo, acabando no centro das cidades, por exemplo, com livrarias, alfarrabistas, e outras indústrias “culturais”, para venderem literalmente pechisbeque e bugigangas para turistas que compram souvenirs, que não são eles mesmos muito qualificados. Alguém tem alguma dúvida que nada daquilo tem qualquer capacidade para sobreviver, nem sequer agora, quanto mais depois. Subam, por exemplo, a Rua 31 de Janeiro no Porto e olhem para as lojas. Ao lado daquilo prefiro mil vezes as mercearias paquistanesas, que são mais úteis e certamente mais sustentáveis.

As cidades vão ficar muito estragadas e não vai ser fácil recuperar. É verdade que já estavam, mas não é a mesma coisa, porque entretanto muita coisa foi destruída pelo caminho.

O que se passa no Sporting é divertido? É.

Porque não é sério. Não dou um átomo de interesse e relevância às cenas absurdas que se passam num clube desportivo, que são tão ridículas que não podem ser tomadas a sério. O que seria, se as tomássemos a sério? Um homem entre o vociferante e o esquisito preside ao clube. Alguém o pós lá, alguém o mantém, e gente da mesma natureza dos dois “alguéns”, nalguns casos os mesmos, vai acabar por o tirar de lá. Mas quem é que quer saber disso? Os sportinguistas, claro. Não têm mesmo mais nada para fazer?

Os jogadores protestam, são suspensos, são readmitidos. Mas quem é que quer saber disso? Os sportinguistas, claro. Não têm mesmo mais nada para fazer?

Há mais duzentas perguntas destas que se podem fazer. Mas não vale a pena. Mas quem é que quer saber disso? Os sportinguistas, claro. Não têm mesmo mais nada para fazer?

O que se passa na comunicação social com histórias como as do Sporting é sério? É.

O país encontra no futebol a sua fábrica de irrelevância e distracção barata, e também uma cultura de violência consentida e sobre a qual há enorme complacência. Não é bom. Mas encontra uma outra coisa mais séria — uma comunicação social em crise que se agarra ao futebol como tábua de salvação, varrendo todos os outros interesses, todas as outras preocupações, todos os outros temas. É bom para o poder, é mau para as pessoas e é péssimo para a comunicação social cuja degradação se acentua à medida que a tabloidização cresce e as notícias e o jornalismo perdem relevância.

Veja-se o caso do cabo. Os canais de cabo era suposto serem canais especializados em notícias e haver uma panóplia de canais dedicados a públicos muito especiais, a quem gosta de “memória”, de filmes e séries, quem gosta de touradas, de vida na natureza, antiguidades, certos desportos, religião, ocultismo, arranjos caseiros, culinária, etc. Estes últimos estão lá, mas são os canais de notícias, os que foram mais importantes no cabo, que estão a passar a ser canais de futebol. Era suposto haver canais específicos para futebol e há, só que todos os outros dedicam horas a jogos e à logomaquia que se lhes segue. E é isso que as farsas como a do Sporting mostram à evidência. Partilham com os crimes, as histórias de mães criminosas e filhos abandonados as luzes da ribalta, porque o nada tem um especial atracção pela televisão.

 

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UMA SALOIADA DE NABICES!

(Joaquim Vassalo Abreu, 01/02/2018)

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Eu escrevi no meu portal do Facebook que não mais escreveria acerca de casos e casinhos, os tais que têm sido e certamente continuarão a ser o alimento da nossa Direita, à falta de outra alternativa de normal oposição.

Prometi e tudo farei para cumprir essa minha promessa, o que não me impede de falar ou escrever sobre “não casos”, pois sendo “não casos” deixam de ser casos ou casinhos! Como o dos bilhetes para a bola do Centeno.

E dei por mim a pensar cá para comigo: meu, tu estás tramado, pá! É que se algum dia sonhares, e os sonhos ainda são gratuitos, em ires para um Governo ou seres Ministro, tira o cavalinho da chuva! É que tu (eu), nos últimos tempos, sempre que foste à bola também pediste os tais bilhetinhos e, fino como és, sempre para um camarote, esses lugares onde os bilhetinhos se transformam em convites!

Para a Pedreira em Braga ligas ao teu Amigo lá da coisa! Para o Dragão ligas ao teu Amigo que tem lá camarote e, se ele já não tiver convites disponíveis, porque de convites se trata pois estão já pré-pagos, ligas para outro Amigo que tem Amigos que também lá têm camarote. Que peça tu me saíste, ó meu! Dizia eu para comigo, já desconsolado por ver mais um sonho ir à vida…

Mas eu, que às vezes sou um tipo bem informado, sei que o Centeno tem um filho nas camadas jovens desse clube que dizem possuir uma catedral. Pois que lhes faça bom proveito pois eu prefiro umas “capelinhas” e até frequento algumas! E sei disso pois tenho um familiar em Lisboa que também tem um filho que por lá andou e viu-o lá a acompanhar o filho várias vezes. Eu não lhe gabo os gostos, mas que é devoto, disso não tenho dúvidas. De modo que dois convitezinhos…até eu se fosse devoto!

Mas eu, eu que gosto de “capelinhas” e até, como disse, algumas frequento, mas que não têm nada a ver com futebol, de santuários até que gosto. E gosto, não sendo Portista, particularmente de um: o santuário das Antas! Vejam lá se aquela avenida que vai dar ao Dragão não parece um santuário! E, por isso, é o sítio onde me dá mais prazer ir ver a bola. Catedrais? Nada! Nem a do Alvaláxia que mais parece um centro comercial!

Mas de futebol estamos falados pois é um não caso, a não ser a coisa do “coiso”! Mais a do ”descoiso” e ainda a do “trescoiso”, mas disso eu não falo! É da Justiça e com o Correio da Manhã eu não me meto…fujo!!!

Mas voltemos ao Centeno, extirpando-lhe essa mancha de escarlatina, qual tatuagem, que teima em não “deslargar”. É tudo inveja, é o que é. Dor de cotovelo como se diz na minha terra e na vossa também. O homem tem esse defeito, e depois? Quanto ao resto, quanto ao resto já foi e é um pouco de tudo e de tudo um pouco acusado.

Senão vejamos:

O Daniel Oliveira, aquando daquele caso do Domingues, afirmou e escreveu que ele, o Centeno, era um “nabo” em Política! Eu que nasci e cresci na terra onde mais se criam e cultivam nabos e disso, portanto, sou algo conhecedor, respondi-lhe com contundência, vai fazer daqui a uns dias um ano. Aqui vai o link; https://wp.me/p4c5So-LG. Seria bom que o Daniel, num acto de penitência, relesse o que escreveu! E, já agora, coisa que sei que não fará, e é pena, o que eu lhe respondi!

De “nabos” estamos, portanto, também falados e restam-nos os “saloios”, que até podem estar relacionados com nabos, porque nabos também é coisa de saloios! E, perante tanta nabice e saloiada na apreciação do Centeno, eu pergunto-me se isto não poderá configurar um caso de “Sem Moderação”, programa onde os dois peroram, tamanha é a falta de ponderação com que emitem juízos.

É que o José Eduardo Martins, pessoa que conheço e por quem até nutro amizade, uma amizade de outros Festivais que não os da Política ou do futebol, pois em ambos os casos estamos em campos opostos, li que se saiu com esta tirada: “ O Centeno é um saloio deslumbrado”!

Ó José Eduardo, que é isso? Então você chama saloio a um tipo de Olhão?

É que ele, ao contrário das “nabices” do Daniel e das suas “saloiadas”, até que tem olho para a coisa! Não fosse ele de Olhão que, como dizia o Zeca, é “Vila de Olhão, Terra da Restauração, Madrinha do Povo, Madrasta é que não”!

Vá lá: moderem-se, tá?

 

A mesma farsa de sempre

 

(João Rodrigues, in Blog Ladrões de Bicicletas, 30/11/2017)
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A chamada candidatura de Mário Centeno à chamada presidência do chamado Eurogrupo não é propriamente uma surpresa. A ser bem-sucedida, trata-se de mais uma “exportação”, mas não desta solução governativa, que obviamente não é exportável, dado que corresponde, e responde, a circunstâncias de tempo e de espaço muito próprias deste nosso rectângulo. E o que se importará? Instabilidade, arrisco.

A ambição de Centeno parece estar em linha com a lógica de circulação de elites periféricas, que logo se imaginam no centro quando chegam ao governo, ou pouco tempo depois, e que tão bom resultado tem dado desde Durão Barroso. Centeno é diferente, dirão. Isto não é sobretudo pessoal. As elites periféricas circulam em função da sua adaptação aos interesses do centro. O centro tem mostrado interesse. E, para ser franco, creio que Centeno nem terá de se adaptar muito.

Trata-se afinal de contas de alguém com credenciais impecavelmente ortodoxas, incluindo uma útil “visão de mercado” das relações laborais, subtítulo de um dos seus livros, ou uma visão do sistema financeiro assente no escrupuloso cumprimento do princípio europeu do pagam, mas não mandam, típico de semicolónia. No fundo, a fidelidade ao Euro e suas regras que se requer. Tudo na ordem a sul, dirá quem manda a norte.

Neste contexto, na óptica de quem está no comando, a pergunta que se impõe é a seguinte: porque não haveria Centeno de ser uma útil e complementar adição à lógica da evolução na continuidade em curso nas instituições formais e informais europeia, permitindo ainda alimentar a ideia zumbi de que agora é que vai ser diferente na Zona Euro e na UE?

A tragédia é o Euro. Esta circulação é só a mesma farsa de sempre.