No país dos abacaxis

(Fernando Sobral, in Público, 14/06/2020)

Em Março de 1957, o chanceler alemão Konrad Adenauer entrou, triunfal, no Bundestag, empunhando uma banana. Não estava com fome. Era um sinal de vitória. Para assinar o Tratado de Roma, que instituiria a Comunidade Económica Europeia, a República Federal Alemã colocara uma condição. Os alemães poderiam importar bananas da América Central, que eram maiores, não tendo de se contentar com as mais pequenas e doces, que vinham das antigas possessões francesas. Não era um êxito qualquer. As crianças alemãs eram alimentadas a bananas. Estas eram o símbolo da nova Alemanha trabalhadora. O fruto desejado.

Em 2020, nenhum político entrará no Parlamento português empunhando uma banana. Ou um bacalhau. Mas não nos podemos espantar se, daqui a uns meses, o sr. António Costa entrar na Assembleia da República, carregando um anafado saco de euros e declarar que a pátria está salva. A seguir, chegará o sr. Siza Vieira com um abacaxi na mão e mostrará como cortá-lo em pedaços. Pataca a mim, pataca a ti.

Tudo para salvar Portugal da crise e, claro, ganhar as próximas eleições. Um suculento abacaxi tem, como se sabe, dois benefícios alimentares: permite adoçar a boca dos eleitores e, também, das clientelas. O sr. António Costa quer que o abacaxi coincida com o plano estratégico para o futuro da economia portuguesa, a ser desenhado pelo sr. António Costa Silva. É um desígnio empolgante. Há centenas de anos que o país anseia por algum planeamento. O que lhe é oferecido, ano após ano, é uma coisa mais comezinha: vai planando. Voamos sobre os problemas, porque outros valores mais altos se levantam sempre. Portugal é o país da passarola.

Todos os pretensos planos têm parecido uma espécie de ovo de chocolate da Páscoa: bonitos por fora e ocos por dentro. Prometem-nos brindes, mas estes saem sempre aos mesmos. Seria surpreendente que este planeamento patrocinado pelo sr. António Costa não fosse de só de reconstrução económica. E fosse, também, de reconstrução ética. A questão, porém, é que nada deverá mudar. Tudo acabará por resumir-se à distribuição dos abacaxis. Sente-se já o apetite de muitas bocas para tanto fruto disponível. As contas far-se-ão no fim, mas o processo aparenta estar já inquinado à partida. Se o sr. António Costa Silva vai desenhar um plano estratégico, no qual está a trabalhar há mais de um mês, não se compreende as palavras do sr. Mário Centeno: “Nunca falei com ele (Costa Silva) na vida.” Julgava-se, talvez erradamente, que num plano destes, o diálogo entre estratégia económica e táctica orçamental seria importante. Não o parece. Pode ser que, entretanto, o sr. João Leão conheça o sr. Costa Silva. Ou o tenha avistado numa qualquer rua de Lisboa. Depois, para sublinhar que o pretenso planeamento tem de se adaptar aos dogmas já existentes, o sr. António Costa veio reafirmar que o desastre ambiental que é o aeroporto do Montijo vai mesmo avançar. Isto antes de se perceber qual será o futuro da aviação comercial nos próximos anos. Ou seja, para quê fazer um plano estratégico? Qual é, afinal, o papel do sr. António Costa Silva? Terá mesmo algum?

No fundo, o abacaxi da Europa e o plano estratégico são duas faces da mesma moeda. A questão é como se repartir, e por quem, os milhares de milhões de euros que vêm da Europa. De resto, tudo continuará como dantes. É uma pena. Certos apoios, necessários, deveriam ser equilibrados com um horizonte estratégico. Dificilmente o serão. Fenómenos como a desglobalização, a robotização dos processos industriais e a sua influência sobre o emprego, a alta vulnerabilidade do turismo, ou a importância das PMEs, serão faladas. Mas depois tudo será esquecido. O “agora é que é!” soa a um velho disco de vinil riscado. Porque, entre nós, sempre se preferiu a renda ao risco. Muitos dos que nasceram, cresceram e singraram neste situacionismo, estão certos disso.

Num país que gosta de construir elefantes brancos como obras de regime, há sempre dinheiro para alguns. Os que guiam as renas do Pai Natal. Os senhores dos abacaxis.

Nos últimos dias, um dos motivos de comoção nacional tem sido o crocodilo do Nilo que teria aparecido no rio Douro. Que, afinal, poderia ser uma lontra. Este é um mistério tão grande como o do planeamento nacional. Apesar de alguns garantirem que o viram, desapareceu e diluiu-se como uma aspirina efervescente.


O génio das cativações

Depois de termos visto todas as séries da Netflix e da HBO, a realidade volta a superar a ficção. Regressou o futebol e uma certa política renasce. No meio da confusão geral, o país muda de ministro das Finanças como se fosse um piquenicão de velhos conhecidos para comer umas bifanas. O sr. Centeno vai embora e o sr. Leão ocupa o seu gabinete. Há uns tempos, o sr. Centeno considerou o sr. Leão “o artífice das cativações”. Em Marte achou-se que era um elogio. Não vislumbramos o porquê. Pelos vistos, o sr. Leão foi o maior responsável por, durante anos, se drenarem recursos de diferentes sectores, a começar pelo asfixiamento do SNS. Até para se contratar um par de mestres para operar os barcos que navegam no Tejo era obrigatória autorização das Finanças. E tudo para que o OE estivesse a caminho do santificado superávite. O último episódio desta espécie de série Friends é agora desvendado: no OE suplementar há mais 504 milhões de euros para despesas do SNS; para o Novo Banco, onde gestores são aumentados e recebem bónus apesar dos prejuízos, houve 850 milhões. Como não defender a excelsa política de “cativações” do sr. Centeno e do sr. Leão?


6 pensamentos sobre “No país dos abacaxis

  1. NE o tipo do Novo Banco já avisou que, em 2021, vai pedinchar o resto.

    Nota. Saiu o Centeno, o Mourinho Félix que era um genial substituto vai tocar a guitarra para a garagem, xutos & pontapés no lombo?, e o irmão da Ana Catarina Mendes,
    um ilustre desconhecido antes e agora com ar de coninhas que entrou aos trambolhões na carroça após a a demissão do gordinho das viagens à pala da GALP no Euro franciu, sobe na surra a n.° 2 do Ministério das Finanças. Vem aí dinheirinho, e esta malta do PS nunca dorme, pás…

    Entrada de Leão, saída de Centeno (plagiando o rapaz do Irmão Lúcia).

    #carregaPS
    #descarregaMP

    • Adenda. É uma tristeza, uma tristeza democrática, que alguns dos/as leitores/as e postantes d’A Estátua de Sal, sempre tão disponíveis para baterem palminhas, laikarem e indignarem-se com parvarias como fazem as focas amestradas do zoo perante toda a série de vulgaridades proferidas pelo António Costa, como antes pelo Socratismo, senhores ministros, pela Ana Catarina Mendes, na prosa infantil da Isabel Moreira &etc. nada tenham, aparentemente, dentro da cabeça quando são postados uma série de bons artigos do Fernando Sobral, ou do Vicente Jorge Silva, da Ana Sá Lopes, eu sei lá, que mencionam alguma das figurinhas, figuras e figurões do PS.

      Vocabulário inaceitável do Costismo, por exemolo hoje: a AR ao aprovar na generalidade a lei sobre a proibição de um ministro X ser nomeado pelo governo para governador do BdP, no caso do Mário Centeno pelo seu antigo subordinado, é uma… perseguição*. Isto anda tudo ao contrário: o PM que só o é por quem tem maioritariamente a responsabilidade de permitir a sua entrada em funções (o parlamento) e, consequentemente, de fiscalizar a sua acção é pelo mesmo PM anti-democraticamente censurado interferindo nas suas competências e ainda assim, e enquanto isto, pelos vistos, os deputados seus apaniguados receberam ordens para protelarem com tudo o que têm à mão, vigarizarem?, o timing e a aprovação dessa legislação…

      Asterisco. Assim mesmo: hoje é a própria AR, note-se, mas poderiam ser a série de jornalistas inconvenientes que convém irem para a prateleira, ou segundo as defesas mirabolantes do São José, do Armando Vara, do Carlos Santos Silva, do Manuel Pinho, do António Mexia, do Azeredo Lopes a culpa é dos magistrados do MP por fazerem o seu trabalho, tal como os ataques do Fernando Medina ao Tribunal de Contas quando estão em causa jogatanas com os dinheiros públicos. Não se salva nada nem ninguém que não se alimente do sangue alheio, portanto.

      • VENEZUELA
        Supremo venezuelano destitui direcções de partidos da oposição

        Decisão surge dias depois de o mesmo tribunal ter contornado a Assembleia Nacional e nomeado um novo Conselho Nacional Eleitoral. União Europeia teme agravamento da crise política na Venezuela.

        Pedro Bastos Reis 17 de Junho de 2020, 12:18

        O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) da Venezuela destituiu as direcções de dois partidos da oposição, entregando a liderança a políticos menos hostis ao Governo de Nicolás Maduro.

        Depois de ter suspendido a direcção do partido Primeiro Justiça (PJ), fundado por opositores ao regime chavista como Henrique Capriles e Julio Borges, e ordenado a sua reestruturação, o STF fez o mesmo com a Acção Democrática (AD), partido de centro-esquerda e um dos fundadores do regime democrático venezuelano na década de 1950.

        […]

        Nota. Alguém tem por aí o número de telefone do António Costa ou, vá lá, de umazinha das suas oito-8-oito secretárias em São Bento? E o do Medina, sabes ó d’A Estátua? Ou o do Trump e dos escravocratas amigos do Pedrinho, se calhar?

        🙂

  2. Não apresenta uma única ideia. Não há nada pior do que estes negacionistas. Por cada solução encontram sempre um problema.

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