Atos de ignorância e intransigência cognitiva

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 02/01/2025)

É angustiante continuar a assistir, passados quase três anos de guerra, à insistência de dirigentes europeus na adesão da Ucrânia à NATO, mesmo diferida no tempo.


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Antecipando uma possível interrupção nos combates que se travam em território ucraniano, após a tomada de posse de Donald Trump, tem vindo a germinar na comunicação social do velho continente a irrealista, inútil e perigosa ideia de colocar forças de manutenção de paz em território ucraniano para monitorizar o cumprimento de um eventual cessar-fogo entre forças russas e ucranianas. A sua apresentação tem-se revestido de algumas variantes, mas todas elas incorporando a premissa de que com Trump na presidência e Washington a preparar-se para abandonar o barco, serão os europeus quem carregará com o fardo do apoio à Ucrânia.

Caso estivéssemos distraídos, o candidato a chanceler alemão Friedriech Merz lembrou-nos que o envio de forças de manutenção da paz europeias para a Ucrânia deve ser coordenado com a Rússia, como se fosse possível ser de outra maneira.

O que fará a próxima Administração americana relativamente à Ucrânia tem sido objeto de abundante especulação. Há soluções para todos os gostos. Se Kiev não estiver disponível para se sentar à mesa das negociações, Trump cessará o apoio à Ucrânia, mas se a indisponibilidade for da parte russa, então o apoio a Kiev continuará incessantemente enquanto for necessário.

O “Financial Times” veio com outra ideia, bastante plausível que, a concretizar-se, deixará os europeus com os cabelos em pé. Trump poderá forçar a Ucrânia a aceitar a paz sem lhe proporcionar garantias de segurança, aliviando simultaneamente as sanções à Rússia. A América vai concentrar-se em dominar o hemisfério ocidental, coaptando o México e o Canadá, e colocando o Canal do Panamá e a Gronelândia debaixo da sua asa, ressuscitando, assim, a doutrina Monroe.

Segundo Lavrov, numa entrevista à agência noticiosa russa TASS, a sempre fiel e leal diplomacia francesa, que instigou o envio de tropas europeias para a Ucrânia, que preparou e continua a preparar as forças armadas da Ucrânia no seu território, que afirma ser necessário atacar a Rússia na sua profundidade, e que defende a preparação da Ucrânia para negociar com a Rússia numa posição de força, teria vindo propor-lhe, pela calada e violando o princípio de que o Ocidente não debaterá o futuro da Ucrânia sem a Ucrânia, que “ajudemos [Rússia e França], que estabeleçamos um diálogo sobre a questão ucraniana.”

Enviar tropas de manutenção da paz da União Europeia (UE) para a Ucrânia com o objetivo de monitorizar o cumprimento de um cessar-fogo é, por variadas razões, uma ideia disparatada. Não só desafia o senso comum, como corre também o risco de agravar o conflito, transformando a Europa num campo de batalha por procuração.

Os seus promotores não percebem porque é que essa ideia não faz sentido. Presumem que haverá um cessar-fogo e que os russos, apesar de terem recusado repetidas vezes essa possibilidade, a vão aceitar, não entendendo que os russos não estão na disposição de perder à mesa das negociações aquilo que ganharam no campo de batalha. Não darão aos países da NATO, de mão beijada, aquilo que eles não conseguiram no campo de batalha, isto é, colocarem contingentes militares em território ucraniano.

Há semelhança de outras congeminações estapafúrdias, esta dificilmente deixará de ser um nado morto. Alguns países já declararam abertamente a sua oposição. Enviar tropas europeias para “morrer na e pela Ucrânia” não é apenas um suicídio, mas uma catástrofe política, sobretudo quando as opiniões públicas europeias se afastam cada vez mais do envolvimento militar no conflito.

O ceticismo sobre o envolvimento militar na Ucrânia é particularmente elevado na Polónia e na República Checa. Até a França promotora da ideia, parece relutante em entrar neste campo político minado. São estes mesmos proponentes que não percebem porque é que a direita, sobretudo a designada extrema-direita, está em ascensão na Europa e os povos rejeitam o neoliberalismo globalista abraçando, em alternativa, projetos de direita nacionalista que se coloca contra a guerra e o impacto que esta tem na vida das pessoas.

Não deixa de ser curioso, para não dizer insano, que os impulsionadores desta ideia não tenham pejo em esconder que um cessar-fogo não passará de um artifício temporário para a Ucrânia ganhar tempo, lamber as feridas e preparar-se para confrontar militarmente a Rússia, quando devidamente recuperada, entenda-se treinada e equipada, tendo como subjacente a este raciocínio a menoridade mental do oponente. Não sendo o caso, é altamente improvável que Moscovo alinhe na repetição de um acordo do tipo “acordos de Minsk” patrocinados pela França e Alemanha e ratificados pela Resolução do Conselho de Segurança 2022 (2015), em que a monitorização da sua implementação ficou a cargo da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa.

É angustiante continuar a assistir, passados quase três anos de guerra, à insistência de dirigentes europeus na adesão da Ucrânia à NATO, mesmo diferida no tempo. Não perceberam nada do que está em jogo! Não perceberam que os russos não vão alinhar num cessar-fogo, mas somente num acordo de paz de âmbito alargado, para além dos problemas colocados pela guerra na Ucrânia. O acordo de paz ocorrerá antes do cessar-fogo e a ordem dos fatores não será arbitrária.

Para terem um entendimento do que está em causa, seria conveniente que estas pessoas revisitassem, entre outros acontecimentos, o discurso de Putin na Conferência de Segurança de Munique, em 2007; que procurassem explicações lógicas para a invasão da Geórgia, em agosto de 2008, quatro meses após a Cimeira da NATO em Bucareste, em que a Ucrânia e a Geórgia foram convidadas para se tornarem membros da Aliança; que entendessem a proposta do então presidente russo Medvedev, quando propôs, em 2008, um tratado de segurança europeia que tornaria juridicamente vinculativo o princípio da indivisibilidade da segurança e o princípio do não reforço da segurança à custa dos outros; que se lembrassem das iniciativas diplomáticas de Moscovo, no final de 2021, poucos meses antes da invasão da Ucrânia, para se criar conjuntamente com os EUA e a NATO uma plataforma de entendimento no domínio securitário, nomeadamente, sobre a expansão da Aliança as quais não tiveram resposta. Tal como agora, a Rússia procurava obter do Ocidente garantias de segurança.

Se tivessem efetuado o trabalho de casa, teriam percebido que Moscovo está a travar uma guerra na Ucrânia para conseguir aquilo que não conseguiu pela via diplomática, ou seja, definir uma nova arquitetura de segurança na Europa que lhe dê garantias de segurança e aos seus vizinhos, através de uma formulação jurídica que dificulte/impossibilite a violação dos acordos estabelecidos e onde tenha um estatuto condizente com a sua importância na nova ordem multipolar em construção. Seguramente que isso não passará pela colocação de mísseis na Polónia e na Roménia (capazes de atingir Moscovo e S. Petersburgo, em cinco/sete minutos) com a justificação de um ataque do Irão à Europa; pela promoção de operações de mudança de regime no “near abroad” russo; ou pela renúncia à implementação de medidas de construção de confiança.

Se tivessem entendido o racional por detrás das preocupações securitárias russas, antigas de séculos, não teríamos de assistir ao espetáculo ridículo e deprimente da primeira-ministra dinamarquesa dizer que tem rações na despensa para sobreviver durante três dias em caso da agressão russa; ou das autoridades suecas distribuírem à população manuais de sobrevivência em caso do país ser atacado.

Perante o iminente revés estratégico e como já tive oportunidade de explicar, os dirigentes europeus optaram por meter medo às suas populações agitando o papão de um ataque russo à Europa: “… uma vez ganha a guerra na Ucrânia (uma admissão implícita de que a guerra está ou vai ser ganha pela Rússia), a Rússia não parará nas suas novas fronteiras, e entrará pela Europa dentro! …”, sem explicarem porquê e para quê, quando historicamente foram as potências ocidentais que, em diversas ocasiões, ao longo dos séculos, invadiram a Rússia e não o contrário.

Cavalgando a onda dessa implausível invasão, estes dirigentes vêm propor, com vista à preparação de uma futura guerra com a Rússia, o aumento dos encargos com a defesa (fala-se agora em contribuições nacionais de 3% do PIB e Trump veio falar de 5%) em detrimento da economia, do estado social e das despesas com a saúde, habitação, educação, pensões, etc.

Torna-se cada vez mais claro que as opiniões públicas europeias foram enganadas pelos seus líderes quando lhes venderam uma vitória fácil: “… um passeio na praia no confronto com uma estação de serviço com armas nucleares”. Afinal, em vez do cordeiro manso saiu-lhes um urso. Perante isto, fará, pois, mais sentido a Europa mudar de rumo, moderar os seus apetites revanchistas e pensar seriamente em adotar uma estratégia de soma positiva.

Zelensky e Al-Julani recauchutados

(Joaquim Camacho, in Estátua de Sal, 15/12/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre a situação geopolítica mundial, (ver aqui). Pela sua atualidade e pelo seu sentido cáustico, retratando a realidade da manipulação a que nos querem sujeitar, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 15/12/2024)


É bem sabido que o Império não brinca em serviço e não se poupa a esforços para controlar a perceção que os borregos têm da realidade, essencial para o seu condicionamento e para que, como borregos, continuem a comportar-se.

Pouco depois do início da invasão russa da Ucrânia, soube-se, pelo site americano Grayzone (de Max Blumenthal e Aaron Maté, salvo erro), que, para tornar simpática e palatável aos olhos dos ovinos ocidentais a imagem dos nazis e das instituições corruptas paridas pelo golpe de Maidan, foram contratadas 134 agências de comunicação, quase todas americanas.

Lavandarias há muitas, né? Mais tarde, a imagem de Herr Zelensky von Pandora Papers, engenhariada e retocada até à obscenidade, continuou e continua a beneficiar do trabalho de algumas dessas lavandarias. Daí aquele ar ridiculamente marcial do dono da pila pianista, os bíceps gordinhos em permanente exibição pretensamente viril (eu diria pornográfica), áreas enormes da parte superior das patilhas e do cabelo da testa diariamente barbeadas, apenas para parecer mais inteligente, etc.

Imagem do concerto em que Zelensky tocou piano com o pénis…,

O Putin, só porque apareceu uma ou duas vezes em tronco nu, em cima de um cavalo, nunca mais se livrou do gozo dos humoristas das ocidentais praias, ridicularizando o que apontavam como manifestação de virilidade tóxica do mafarrico da Moscóvia. Imagine-se o que aconteceria se, em vez de duas vezes em tronco nu em cima de um cavalo, o senhor do CremeLin exibia diariamente, há dois anos, os bracinhos nus, bamboleando a bunda com aquele andar gingão de chuleco do Bairro Alto que Herr Zelensky nos esfrega diariamente no focinho.

Pois bem, agora atentem também na imagem recauchutada que as televisões e jornais nos impingem diariamente do terrorista chefe da Hayʼat Tahrir al-Sham (HTS), a Al-Qaeda síria agora milagrosamente reciclada em campeã da democracia e dos direitos humanos.

Comparem-na depois com as que podem ser vistas aqui e aqui e digam-me lá se não se trata de uma manobrazinha subliminar para amolecer eventuais resistências de algum povo, que a si próprio se vê como “de esquerda”, saudoso dos tempos em que se julgava romanticamente simpatizante de revoluções longínquas.

As encruzilhadas de Zelensky

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 11/12/2024)

Para a história ficam os líderes ocidentais e um presidente ucraniano que optaram por empurrar um país para a desgraça em vez de negociar no devido tempo. Por tudo isto, o futuro de Zelensky e da Ucrânia não será promissor.


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Em duas entrevistas recentes, uma delas à Sky News, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky mostrou-se disponível para ceder temporariamente os territórios ucranianos sob controlo russo, sem deixar de sublinhar a intenção de os recuperar posteriormente pela via diplomática, mas em troca pela admissão da Ucrânia na NATO, com as áreas atualmente sob o controlo de Kiev. A apresentação desta proposta foi feita com algum sentido de urgência, “temos de atuar rapidamente”. O cessar-fogo é essencial para “garantir que Putin não se apodere de mais território ucraniano”. Num assombro de realismo, Zelensky admite, portanto, que Moscovo se encontra em vantagem.

Não exatamente alinhado com Zelensky, mas numa onda semelhante, o seu Chefe de Gabinete, Andriy Yermak, numa entrevista à publicação sueca Dagens Industri afirmou que as negociações com a Rússia poderiam começar se a situação no terreno regressar à de 23 de fevereiro de 2022. Ou seja, mostrava-se aparentemente disponível para deixar cair a Crimeia. Esta aparente mudança de posição mostrando abertura para uma concessão temporária de território tem sido apresentada como uma “evolução significativa” da posição ucraniana. Na verdade, assim não é. Procuraremos perceber porquê.

Ao contrário daquilo que a comunicação ocidental nos tem vindo a fazer crer, por exemplo, ao comparar Zelensky com Churchill, o presidente ucraniano tem pouca margem de manobra, limitando-se a fazer o que lhe mandam, cedendo às pressões de atores exteriores, com os EUA e o Reino Unido à cabeça, e internos, às alas ultranacionalistas da sociedade, que apesar de não disporem de uma expressão eleitoral significativa, exercem uma enorme influência na vida política do país, devido ao controlo das forças armadas e de segurança. Por outras palavras, Zelensky não dirige, é dirigido. As suas contradições levam-no frequentemente a afirmar uma coisa e o seu contrário.

Foi assim quando incumpriu a promessa eleitoral de resolver o problema do Donbass, que lhe permitiu obter uma vitória eleitoral avassaladora sobre Petro Poroshenko, em 2019. A sua “determinação” esfumou-se quando os militantes ultranacionalistas o encostaram à parede e ameaçaram fisicamente, se prosseguisse com o projeto de reconciliação com as duas repúblicas secessionistas, inscrito no topo da sua agenda eleitoral.

Foi assim, também, durante as negociações de Istambul, em março de 2022, quando deu um passo atrás, depois de ter renunciado publicamente ao grande objetivo estratégico de integrar a NATO, posição que alterou devido à forte pressão norte-americana e britânica.

Zelensky sabe que a questão central na guerra que trava com Moscovo prende-se com a neutralidade estratégica de Kiev e a sua renúncia definitiva às armas nucleares. Este foi o leitmotiv que levou ao conflito. A questão territorial só se veio a colocar de modo veemente após o falhanço das citadas conversações em Istambul, onde o estatuto das duas regiões autónomas Donetsk e Lugansk ficou para ser discutido posteriormente.

Zelensky não foi capaz de se desenvencilhar do novelo de contradições em que está enredado. Apesar de saber ser impossível derrotar militarmente as forças russas e de ser carne para canhão numa guerra por procuração, o que agora é admitido despudoradamente no ocidente, com o objetivo de “debilitar o nosso inimigo [a Rússia] sem nos envolvermos diretamente com ele… com os resultados mais extremos e trágicos dos jogos de poder que têm sido jogados impiedosamente em solo ucraniano pelas grandes potências,” Zelensky fez as suas escolhas.

Numa entrevista, em março de 2022, reconheceu haver “no ocidente quem que não se importe com uma guerra prolongada, porque isso significaria a exaustão da Rússia, mesmo que representasse a morte da Ucrânia à custa de vidas humanas.” Não obstante, alinhou nesse projeto sabendo o sacrifício que isso traria ao seu povo.

O acolhimento vibrante que lhe foi dado em grande areópagos da política internacional – Parlamento Europeu, Congresso norte-americano, G20, etc. – devem tê-lo deslumbrado e levado ingenuamente a acreditar ser o centro do universo a quem todos se iriam curvar, ignorando que a política, em particular a internacional, é muito volúvel e que se reformula em permanência para satisfazer os interesses das grandes potências. Esse tratamento ter-lhe-á dado a sensação de ter o mundo a seus pés. A relação próxima com os grandes líderes mundiais tê-lo-á convencido de que era um deles. As palmas e os holofotes convenceram-no de que era o ator principal, como na sua vida anterior. Mas não era.

Essa perceção poderá justificar a tomada de posições irredentistas – a Ucrânia só se sentará à mesa das negociações quando se encontrar em vantagem, repetindo aquilo que lhe foram dizendo e em que passou a acreditar. Como afirmou numa entrevista, “a Ucrânia é um país independente e os EUA não podem forçar o regime de Kiev a “sentar-se e ouvir” à mesa das negociações”, o que levou Elon Musk a responder-lhe no “X” dizendo que Zelensky tem um “sentido de humor incrível”. Zelensky parece não perceber o caldeirão em que está metido.

Só haveria uma possibilidade de vencer a Rússia, que passava, não pelo apoio político, financeiro e militar, mas pelo envolvimento militar direto do Ocidente com contingentes em território ucraniano para fazerem aquilo que as tropas ucranianas não eram capazes. E isso foi claramente tentado em muitas ocasiões. Por exemplo, quando um míssil da defesa aérea ucraniana caiu na Polónia.

As ameaças explícitas dos ultranacionalistas no que se refere a soluções políticas e cedência de território contribuíram seguramente para que prevalecessem as visões irredentistas, impedindo-o de encarar os factos com realismo.

A apresentação do “Plano da Vitória”, insistindo num triunfo que lhe fugia no campo de batalha, cada dia que passa, foi mais um fiasco que não galvanizou os seus patrocinadores. A insistência na adesão à NATO mostrava o seu alheamento da realidade. O tempo corre contra ele e o tapete foge-lhe debaixo dos pés.

A eleição de Donald Trump para presidente dos EUA e perceção de que poderá ser reduzido o apoio à Ucrânia veio acelerar os acontecimentos. Zelensky veio reconhecer o óbvio e introduziu nuances no seu discurso: “As Forças Armadas da Ucrânia não dispõem de forças suficientes para recuperar os seus territórios por meios militares” afirmou Zelensky.

Mesmo assim, não alterou a sua posição em matéria de “cedência territorial”. Por saber que não será admitido na NATO, tem a noção de que o discurso sobre cedências territoriais temporárias é uma falácia. Se, por um lado, isso o defende dos ultranacionalistas, por outro, faz com que se tenha tornado num obstáculo à resolução do conflito, em vez de ser um elemento facilitador.

Com o comprometimento do projeto que visava derrotar estrategicamente a Rússia, Zelensky deixou de ser útil. Segundo o Economist existem movimentações para o afastar em 2025, e o substituir por alguém com a flexibilidade necessária para dirigir um processo de paz que envolva a aceitação de cedências territoriais.

O antigo comandante-chefe das forças armadas ucranianas Valery Zaluzhnyi, presentemente embaixador em Londres, parece encontrar-se bem posicionado para tal. Zelensky “já não é visto como o líder de guerra indiscutível que foi em tempos.” Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Controlo Social de Kiev, apenas 16% votariam para o reeleger para um segundo mandato, e quase 60% nem sequer querem que ele concorra novamente. No topo da sondagem, à frente de Zelensky, com 27%, aparece Valery Zaluzhny.

Zelensky, ao apresentar exigências obviamente impossíveis de satisfazer, pode estar a perseguir o objetivo de apresentar o Ocidente como um “traidor” da Ucrânia, escreve a revista britânica The Spectator, e assim livrar-se da ira dos ultranacionalistas, que consideram que o problema ucraniano tem de ser resolvido agora, e não protelado para ser dirimido pelas gerações vindouras.

Mas, por outro lado, o seu irredentismo pode facilitar a vida a Trump. Como referia o Financial Times, perante a recusa em assumir compromissos, Trump poderá habilmente encenar uma tentativa para acabar com a guerra, atribuindo o insucesso à teimosia e intransigência de Zelensky, deixando a gestão do conflito para os europeus, livrando-se assim de um processo complicado.

Zelensky assume agora que “com as políticas da equipa que vai liderar a Casa Branca, a guerra vai acabar mais cedo. Esta é a sua posição [Trump] e a sua promessa à opinião pública”. Sem pudor, assume, tardiamente, que quem vai determinar o futuro do conflito é Washington e que Kiev não tem voto na matéria. Mas, mesmo assim, fala como se estivesse na mó de cima e a poder impor condições.

Mostrando-se incapaz de avaliar a realidade e de a projetar no futuro, Zelensky não percebeu qual o papel que as grandes potências lhe tinha sido atribuído neste drama. Não obstante, dava indícios, volta não volta, de saber que estava a condenar o seu povo a um sacrifício inglório e nada fazer para o evitar, preferindo a cumplicidade com agiotas.

Para a história ficam os líderes ocidentais e um presidente ucraniano que optaram por empurrar um país para a desgraça em vez de negociar no devido tempo. Por tudo isto, o futuro de Zelensky e da Ucrânia não será promissor.