Este é o meu Mundial, o Mundo tal como eu o desejo

(Abílio Hernandez, 28/06/2018)

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E este é um País que recuso aceitar e que combaterei sempre.

Poucos dias depois do gesto trocado entre um jogador polaco e um jogador senegalês, um outro homem, português e segurança dos transportes coletivos do Porto, berrava para uma jovem colombiana, enquanto a agredia violentamente com o ódio incontido que sempre extravasa do peito dos racistas e dos xenófobos (Ver notícia aqui):

“Tu aqui não entras, preta de merda, queres apanhar um autocarro, apanhas no teu país.”

Depois, com a mão manchada pelo sangue da vítima, fumou tranquilamente um cigarro na companhia dos agentes policiais que “tomaram conta da ocorrência”.
3 dias depois, quando os jornais e as redes sociais já tinham denunciado o ato, a PSP lembrou-se de elaborar o respetivo auto.

Mais uma pincelada – a sangue – no retrato de um país de brandos costumes.

Isso já não é só culpa de Trump 

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 26/06/2018) 

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Mais um tweet de Trump e a questão da imigração passou a um novo patamar, depois do episódio das crianças separadas dos pais e fechadas em grades. No domingo, o Presidente norte-americano sugeriu que os imigrantes possam ser deportados administrativamente, sem recurso a tribunais. A fronteira passaria a ser um território em que a única lei é a ordem arbitrária. Não é muito diferente do que hoje existe, mas o enunciado omnipotente é clarificador.

No mesmo dia em que Trump tweetava a sua nova conceção, reunia-se em Bruxelas uma cimeira “informal”, a que faltaram diversos governos, incluindo Portugal, para discutir o assunto migrações e para aplanar caminho para a cimeira formal do final desta semana – a tal cimeira que ia resolver os problemas tão adiados da reforma do euro e outras grandes questões. No domingo foi o que se esperava, não houve texto final (um projeto chegou a ser escrito e foi abandonado por exigência da Itália) e Merkel explicou, também num tweet à saída da reunião, que “saímos daqui muito satisfeitos, imprimimos uma nova direção no debate em curso”. Acrescentou, com alguma malícia, que a cimeira revelou que há “boa vontade para discutir os desacordos”, mas que o mais provável é não haver entendimento para uma política europeia comum, antes acordos bilaterais e trilaterais, que ninguém sabe o que serão e como serão.

O tempo, entretanto, aperta. Merkel tem uma semana para apresentar ao seu governo uma solução europeia, ou a CSU bávara poderá quebrar a aliança histórica da democracia-cristã alemã e teremos eleições, caso a chanceler não ceda no bloqueio à entrada de migrantes que tenham obtido entrada por outros países. Seria uma rutura da regra de Dublin e o governo alemão parece admitir esta possibilidade, que agravaria a tensão com os países da fronteira do Mediterrâneo.

Ora, essa regra já tem um problema, de que a Itália, a Grécia e a Espanha se queixam com razão: é que a maior responsabilidade no acolhimento dos migrantes cabe aos países de fronteira e não houve uma redistribuição suficiente desse esforço. Se a Alemanha, por pressão da sua extrema-direita, tentar erguer uma barreira contra a mobilidade dos migrantes, então torna-se impossível encontrar algum consenso.

Sabendo disso, diversos governos europeus viram-se para outra solução, que Conte apoiou em Bruxelas e que a Comissão já tinha sugerido: a criação de “plataformas de desembarque” ou “centros de acolhimento”, que bloqueariam os migrantes nos países do norte de África. Uma solução do tipo do contrato com Erdogan, agora estendido a outros países. Mas, além da constatação do fracasso desta solução vergonhosa com a Turquia, a extensão do modelo é inviável, pois os governos africanos têm recusado a alternativa, que lhes colocaria nas mãos a pressão social dos refugiados e das pessoas desesperadas que tentam atravessar o Mediterrâneo.

Pode-se então dizer que Trump pressiona e incentiva a extrema-direita europeia e é visto como um modelo por muita gente que não o confessa. Mas a crise migratória na Europa é um problema agravado pelos governos europeus, que durante algum tempo quiseram exibir a imagem humanitária mas que rapidamente mergulharam em calculismo xenófobo. E isso já não é culpa de Trump.

O pequeno chora, o grande rosna

(José Pacheco Pereira, in Público, 23/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Há argumentos utilitários a favor da imigração: uma economia que cresce precisa de imigrantes. Como os EUA. Há um segundo argumento utilitário: os países com uma demografia deprimida precisam dos filhos dos imigrantes. Como Portugal. Nestes casos, abrir as portas à imigração não é favor nenhum.

Há um conjunto de percepções realistas sobre a imigração: a imigração é tanto mais integrada quanto um determinado país tem o elevador social a funcionar e existe grande mobilidade social. Foi o caso dos EUA, que permitiu um melting pot imperfeito, mas mais eficaz do que o europeu. Os imigrantes integram-se no mercado de trabalho sem parecer afectar os nacionais, educam os seus filhos, prosperam e querem ser os novos nacionais. Foi o caso dos EUA, permitindo, por exemplo, ao boat people do Vietname, prosperar na sociedade americana a partir de uma situação de absoluta miséria. Na Europa, de há muito não é assim, e o desastre do upgrade político da Europa começou com o “canalizador polaco”. A crise financeira de 2008 coincidiu com o afluxo de refugiados e a xenofobia cresceu na Europa.

Há um outro aspecto complicado da imigração que atinge mais a Europa do que os EUA: a alteridade cultural exacerbada pelo fundamentalismo tornou muito difícil acontecer o que de há muito acontecia nos EUA — era-se italiano e americano com o mesmo fervor, era-se árabe e americano com o mesmo fervor. Os novos imigrantes queriam ser americanos, mesmo mantendo os seus costumes e tradições, fossem palestinianos, coreanos, filipinos ou portugueses. Nem sempre tudo corria bem, houve variações temporais, em certos locais era mais complicada a integração, noutros a integração era rápida. Na Europa, os turcos na Alemanha, os marroquinos em Espanha e os argelinos (da geração pós-guerra da independência) em França desejavam ser alemães, espanhóis ou franceses por razões utilitárias, mas não se sentiam como tais. Em Inglaterra, as coisas eram menos lineares devido à tradição do Império. As diferenças culturais e religiosas acentuaram uma fractura que se tem alargado com o risco terrorista, mas também com o comportamento muitas vezes ostensivo de certas franjas da imigração muçulmana em matérias como, por exemplo, a situação das mulheres.

Há um argumento moral a favor da imigração: os que estão em melhores condições devem ajudar os que têm mais necessidade. Esta é uma essência do que chamamos “civilização”. A riqueza torna-se obscena quando à sua porta está a miséria. Merecem aquilo que um conto de Poe simbolicamente retrata na Máscara da Morte Vermelha: não há sítio para fugir, “And Darkness and Decay and the Red Death held illimitable dominion over all”.

Há na Europa um ainda maior argumento moral, mais do que um argumento, uma obrigação: muitos dos imigrantes que fogem das guerras e da violência fogem de guerras que os europeus irresponsavelmente desencadearam na Líbia e na Síria.

O que se está a passar nos EUA com Trump, a sua “base” e o partido de Trump, que antes se chamava “republicano”, é uma violação flagrante e inaceitável dos direitos humanos, fazendo tudo para que se torne um exemplo de violência e brutalidade contra os “infectos dos imigrantes”.

Se o resto dos países democráticos, e com uma réstia de respeito pelos valores humanistas, tivessem uma coisa que vem aos pares e que tem o nome de um fruto vermelho e que não são os morangos, que não são um fruto, punham o bruto em quarentena, e nem rainha, nem Marcelo, nem ninguém lhe iam apertar a mão e tratavam dos assuntos comuns por via de um qualquer estagiário no serviço diplomático.

Do mesmo modo, o que se está a passar na Europa, em particular na Hungria, Itália e Áustria, e nalguns dos seus aliados menores, não pode ser aceitável pelo resto da Europa que ainda mantém pelo menos o lip service aos direitos humanos. A recente legislação da Hungria deveria implicar a expulsão da União e um movimento, em primeiro lugar, húngaro e, depois, europeu de desobediência cívica, indo lá ajudar os imigrantes.

Não tomem a sério o que se está a passar e, a prazo, a serpente sairá do ovo. Uma serpente moderna, que se sabe manobrar nas redes sociais, e mover-se na televisão, que encontrará primeiro numa franja de imbecis, e depois em gente que adora o poder e que será cada vez mais sofisticada no mal, uma corte de defensores, como já se percebe nos EUA

Por cá ainda estamos na fase dos imbecis, mas há uma corte invisível que namora as mesmas ideias de poder e de exclusão, de frieza e de autoridade, em nome do que for preciso. Não, não há progresso na história. Ou a gente defende a fina película da civilização ou os brutos que adoram a força a partem por todo o lado.