O que o Pentágono oculta sobre uma possível intervenção militar na Venezuela

(Por José Negrón Valera, in Resistir, 18/02/2019)

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A visceralidade com que Donald Trump maneja a sua política externa levou-o a um beco sem saída na Venezuela. Arrastado pelos seus operacionais político-militares no eixo Miami-Bogotá-Madrid, encontra-se às portas de uma nova derrota diplomática que afundará ainda mais a sua precária liderança internacional.

Uma guerra, travada através dos seus aliados na América do Sul, parece ser a única opção, mas uma coisa é omarketing mediático e outra, muito diferente, é a realidade operacional.

O que não querem que se saiba 

Gina Haspel.As Forças Armadas Bolivarianas mantêm-se unidas em volta da Constituição do país e da liderança do seu supremo comandante Nicolás Maduro. Para além de individualidades sem qualquer peso real dentro do aparelho militar, não existe nada que nos indique que o bastião que define a estabilidade do sistema político na Venezuela vá desmoronar.

Gina Haspel, especialista em operações secretas, foi a grande artífice da campanha para tentar quebrar a vontade das Forças Armadas Bolivarianas. O seu objetivo é organizar e alimentar o exército paralelo que se está a preparar na Colômbia e que foi denunciado pelo governo venezuelano. Para isso, conta com amplos perfis dos oficiais que foram afastados por atos ilegais ou pouco éticos, para além de informações sobre aqueles que possuem dinheiro, familiares e propriedades fora da Venezuela. Qualquer elemento é usado como ponto de pressão.

Haspel precisa de uma vanguarda mediática, pois não pode mostrar às câmaras de televisão o grosso do exército paralelo, formado maioritariamente por paramilitares e elementos de bandos criminosos, ligados fundamentalmente ao tráfico de drogas.

No entanto, apesar da crua guerra de intimidação, nada se conseguiu a não ser declarações pontuais e tímidas que desconhecem Nicolás Maduro. Se pensarmos que a Forças Armadas Bolivarianas contam com mais de 500 mil efetivos e, neste momento, está perto de incorporar mais de dois milhões de milicianos na defesa do território, o que Haspel conseguiu é totalmente insignificante.

Outro aspeto corresponde à realidade interna de cada um dos países que serão usados como ponta de lança para a agressão bélica.

A Colômbia vive em guerra há mais de 50 anos. Neste momento, goradas as conversações com o Exército de Libertação Nacional (ELN) e com o incumprimento dos acordos de paz firmados com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o exército colombiano reconhece que deixaria grande vulnerabilidade no seu próprio território se se comprometesse num conflito fora das suas fronteiras.

A isso somamos a impossibilidade de a Colômbia fazer frente aos deslocados, o que seria provocado por um conflito militar com a Venezuela.

O Brasil não está melhor. Neste momento, especula-se muito sobre o verdadeiro estado de saúde do presidente Jair Bolsonaro. A narrativa oficial atribui a operação a que ele foi submetido há mais de uma semana ao acontecimento, ainda não esclarecido de todo, em que foi apunhalado, enquanto era candidato presidencial. Uma luta pela sucessão do poder parece estar a começar no Planalto. Se acrescentarmos a esta tensão os indícios de corrupção que Flávio Bolsonaro recebeu e a rejeição do exército brasileiro de aceitar uma base militar norte-americana no seu território, podemos concluir que as condições políticas no Brasil não são nada propícias para quem deseja envolvê-lo numa guerra.

O que temem os Estados Unidos? 

A 3 de outubro de 1993, rebeldes somalis derrubaram dois helicópteros Black Hawk, matando mais de 18 soldados das forças especiais e ferindo outros 37. As imagens transmitidas por cadeias de notícias como a CNN, em que se podia apreciar como os rebeldes desfilaram pelas ruas de Mogadíscio com os corpos dos soldados, geraram tais protestos da opinião pública nos Estados Unidos, que a administração de Clinton se viu forçada a retirar as suas tropas da Somália uns meses depois.

Numa época de intensa interligação digital, os Estados Unidos não podem dar-se ao luxo de se submeterem a mais derrotas que se tornarão virais instantaneamente. Por isso, optaram por subsidiar a guerra através de mercenários, como aconteceu na Síria e na Líbia, mas também por levar outros países a travar a guerra em seu lugar. Não obstante, o problema continua latente: estará a população brasileira e colombiana disposta a ver os seus soldados mortos por um conflito cujos únicos beneficiados, tal como referiu expressamente John Bolton, serão as empresas petrolíferas norte-americanas?

Através da propaganda mediática, quis-se vender a ideia de que uma guerra contra o país sul-americano seria uma espécie de “operação cirúrgica”, ao melhor estilo dos filmes de Hollywood. Sem vítimas, para além dos combatentes militares e civis que se oponham a que Nicolás Maduro seja afastado do poder, e com os partidários da oposição escondidos comodamente em casa, seguindo tudo em tempo real através das redes sociais.

O Pentágono fez uma análise exaustiva das capacidades de armamento venezuelanas e sabe que está a mentir quando afirma que a intervenção será curta e que, além disso, não encontrará resistência.

Yuri Liamin, especialista militar, considera que a prioridade dos Estados Unidos é fraturar as Forças Armadas Bolivarianas, para não ter de enfrentar o armamento russo que inclui sistemas de defesa aérea de grande alcance S-300VM Antey-2500, Buk-M2E e o Pechora-2M de médio alcance, assim como um grande número de tanques T-72B1V, BMP-3, BTR-80A, SAU Msta-S, e armas autopropulsadas Noah-SVK, MLRS Grad y Smerch.

Liamin aponta especialmente para o poder aéreo do estado venezuelano que conta com aviões de combate Su-30MK2 , o que o coloca como um dos primeiros da América do Sul.

Outra complexidade para os Estados Unidos são as forças terrestres venezuelanas, equipadas com sistemas Igla-S MANPADS e ZU-23 / 30m1-4, assim como os comandos de operações especiais, especialmente os grupos de franco-atiradores altamente treinados e apetrechados com espingardas Dragunov SVD, capazes de deter, só por si, todo um contingente de soldados inimigos.

Mas talvez o maior dos obstáculos para os que reclamam um desenlace militar na Venezuela é precisamente a própria doutrina militar de defesa integral do país, que contempla “a guerra de todo o povo”, assim como um sistema ágil e poderoso de treino, conhecido por Método Tático de Resistência Revolucionária.

Se se cumprirem as expetativas do governo venezuelano para fortalecer a Milícia Bolivariana com dois milhões de membros, antes de abril, e para organizá-las em cerca de 50 mil unidades de defesa ao longo de todo o território nacional, é possível gerar um poderoso elemento de dissuasão (e mesmo de consciência) para quem não quiser um desastre militar à escala continental.

O assédio psíquico como último recurso 

Manifestação na Itália a favor do governo legítimo da Venezuela.Percebendo a realidade operacional, os Estados Unidos optaram, durante as últimas horas, por manter saturadas as redes sociais com notícias falsas e rumores sobre a entrada da ‘ajuda humanitária’ na Venezuela. A intenção é tentar quebrar a unidade das Forças Armadas Bolivarianas e do próprio povo venezuelano que apoia o projeto bolivariano.

Enquanto os partidários da oposição se encontram aterrorizados em casa, presos aos últimos áudios ou mensagens que proclamam o fim do mundo, quem deseja a paz do país deve comprometer-se numa opção que liberte a ‘mente coletiva’ do assédio que se quer impor.

Isto não implica escolher um caminho passivo nem ignorar as ameaças, mas dotá-las de novos significados: politizar de novo a população em volta da necessidade do projeto político, organizá-la e formá-la para a defesa do território, conseguir o maior consenso e diálogo entre todos os setores que se opõem à guerra e à intervenção militar; e, por último, vencer a agressão económica a que se submeteu o povo venezuelano.

Neste momento, o inimigo chama-se a falta de esperança e a sua arma mais potente é a que tenta fazer crer que a Venezuela é um país isolado, sem apoio, sem possibilidade de resposta perante uma agressão e que espera resignadamente o apocalipse que lhe oferecem. Nada mais longe da verdade.

Recordemos que, há 200 anos, este mesmo país venceu o que, nessa época, era o império mais poderoso da terra. Oxalá não seja preciso demonstrar de novo do que é capaz e se lhe permita, tal como pedem os versos da poetisa palestina, Suheir Hammad, uma vida afastada da tragédia bélica.

Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não entregarei a minha alma e os meus ossos ao tambor da guerra.
Não dançarei ao seu ritmo.
Conheço esse ritmo, é um ritmo sem vida.

Conheço muito bem essa pele que vocês golpeiam.
Ainda fiquei viva depois de perseguida, roubada, expandida.
Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não vou odiar por vossa conta, nem sequer vos vou odiar.

Não vou matar por vossa conta. E não vou morrer por vocês.
Não vou chorar a morte com assassínios nem suicídio.
Não dançarei com bombas só porque os outros estão a dançar.
Podem estar todos enganados.

A vida é um direito, não um dano colateral ou casual.
Não me esquecerei de onde venho, tocarei o meu tambor.
Reunirei os meus amados e o nosso canto será dança.
O nosso zumbido será o ritmo. Não serei enganada.

Não emprestarei o meu nome nem o meu ritmo ao vosso som
Dançarei e resistirei, dançarei e continuarei e dançarei
Este bater do meu coração soa mais forte do que a morte
O vosso tambor de guerra não soará mais forte do que o meu alento.


Fonte aqui

Os sociopatas e os seus seguidores

(Por José Goulão, in Abril, Abril, 08/02/2019)

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Para os países alinhados com Washington já não se trata apenas de violar grosseiramente a democracia. Os governos que seguem de braço dado com a administração Trump enveredaram pela carreira do crime.


Houve ocasiões – raras – em que os principais governos da União Europeia se distanciaram do comportamento boçal, truculento e neofascista da administração norte-americana gerida por Donald Trump. É certo que as razões nem eram louváveis, uma espécie de escrever direito por linhas tortas porque contrapor à política de fortaleza comercial de Washington o neoliberalíssimo «comércio livre» global, que serve meia dúzia de grandes conglomerados económico-financeiros, não é propriamente um comportamento honroso.

Ainda assim, essa situação foi suficiente para os que fazem política e comunicação navegando à vista nas vagas do oportunismo situacionista tentarem fazer crer que entre Washington e alguns dos principais aliados existiam saudáveis divergências, recomendáveis pelo facto de «parecer mal» estarem associados aos desmandos trumpistas.

Porém, o que tem de ser tem muita força, a realidade impôs os factos, as máscaras caíram, o globalismo ditou as suas leis, embora já periclitantes, e deixou de haver lugar para disfarces.

A harmonia entre Washington e os aliados restabeleceu-se quando foi preciso por mãos à obra e cuidar do que interessa a quem manda: o domínio sobre as matérias-primas e a vantagem militar planetária para, em última instância, assegurá-lo.

Bastou o aparecimento de provas de que a superioridade militar da NATO e respectivas ramificações pode estar em causa; eis que entra na ordem da actualidade uma disputa mais cerrada pelas riquezas naturais do mundo – e logo a boçalidade e o desprezo militante de Trump por qualquer coisa que tenha a ver com democracia e direitos humanos deixaram de ser problema.

A harmonia chegou com os psicopatas

Esbateram-se os limites, desapareceu a vergonha. Se o caminho mais eficaz para garantir a sobrevivência do «nosso civilizado modo de vida» é o recurso à autocracia, então que seja, desde que o discurso oficial assegure as melhores intenções democráticas e humanistas.

«A harmonia entre Washington e os aliados restabeleceu-se quando foi preciso por mãos à obra e cuidar do que interessa a quem manda: o domínio sobre as matérias-primas e a vantagem militar planetária para, em última instância, assegurá-lo»

Mesmo que a harmonia entre a NATO e a gestão do Pentágono, a comunhão de ideais entre quem manda na União Europeia e a administração de Washington se tenham restabelecido no momento em que, depois de muitos tumultos e convulsões, a equipa que traça a doutrina Trump seja agora um sólido núcleo de psicopatas.

John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente; Michael Pompeo, o secretário de Estado, por inerência o tutelar dos Negócios Estrangeiros; Michael Pence, o vice-presidente, formam um triunvirato de fascistas com provas dadas em carreiras onde o recurso ao terrorismo político, declarado ou clandestino, nunca foi um problema.

Se lhes associarmos as figuras de um comprovado assassino e fora-da-lei como Elliott Abrams, agora escolhido como enviado especial para gerir o golpe na Venezuela; e de um expoente da «supremacia branca» como Steve Bannon, que corre mundo unindo as hordas fascistas, xenófobas, populistas e nacionalistas para manter a pressão, de modo a que o neofascismo seja a solução e nunca um problema, teremos um quinteto de psicopatas à altura de Trump, de tal modo que torna o próprio presidente descartável.

União Europeia ao lado de Trump contra a Venezuela

Pois foi precisamente na hora da estabilização do fascismo e da sociopatia como doutrina norte-americana que a NATO e a União Europeia – com o governo de Portugal fazendo questão de destacar-se – decidiram prestar-lhe vassalagem. Certamente não foi para que o governo português encarreirasse na esteira do terrorismo político e da guerra nuclear que os portugueses votaram.

Para os devidos efeitos e para memória futura registemos o desprezo assumido pela equipa de António Costa em relação à democracia, aos direitos humanos, à paz e ao direito internacional. Não existe outra interpretação possível do apoio ao golpe contra a Venezuela; não há hipótese de concluir outra coisa do alinhamento pleno com a NATO nos caminhos da guerra nuclear que estão a ser abertos por Washington.

É terrorismo, não é democracia

Aquilo que está a acontecer na Venezuela, e que tem proactivamente a mão do governo de Portugal, é terrorismo, é tentação fascista, é jogar com a vida de milhões de pessoas.

Não se trata apenas da entronização como «presidente interino» de um arruaceiro que os Estados Unidos treinam e pagam há 15 anos para servir como instrumento numa operação de golpe de Estado. Juan Guaidó é um entre vários que se formaram numa escola de terrorismo na Sérvia financiada pelos Estados Unidos, conhecida como Otpor/CANVAS1, para organizar «revoluções coloridas» e mudanças de regime em geral, de que são exemplos casos como o da Ucrânia, Geórgia, Egipto, Líbia, Síria, Honduras, Paraguai, Brasil.

E não se trata igualmente do recurso ao pretexto das supostas «irregularidade» e «ilegitimidade» das eleições presidenciais de Maio do ano passado, que decorreram segundo normas democráticas comprovadas por entidades independentes e de reconhecida idoneidade que acompanharam todo o processo. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o secretário-geral da ONU, António Guterres, e a alta comissária europeia, Federica Mogherini, que recusaram os convites para serem ou enviarem observadores, partindo do princípio de que as eleições seriam fraudulentas muito antes de se realizarem.

«não foi para que o governo português encarreirasse na esteira do terrorismo político e da guerra nuclear que os portugueses votaram. Para os devidos efeitos e para memória futura registemos o desprezo assumido pela equipa de António Costa em relação à democracia, aos direitos humanos, à paz e ao direito internacional»

O que está verdadeiramente em causa como consequência do comportamento das personalidades, entidades e organizações que apoiam a estratégia de mudança de regime montada pela equipa de psicopatas de Trump é a tragédia que paira sobre todo o povo venezuelano – comunidade portuguesa obviamente incluída.

Uma tragédia anunciada, uma vez que os promotores da operação tiveram o cuidado de não deixar margem de recuo. A parada é alta e todo o processo foi montado de modo a que não haja outra saída que não seja a destruição da Revolução Bolivariana, sufragada em mais de uma vintena de consultas populares legítimas realizadas durante os últimos 20 anos.

Solução: banho de sangue

Ora a capitulação do governo de Nicolás Maduro – que não tem de se demitir ou de convocar eleições porque a Constituição, a única lei pela qual responde, não o obriga – só pode ser alcançada por estas vias: golpe militar interno, agressão estrangeira directamente pelos Estados Unidos ou por procuração (Brasil, Colômbia e Argentina estão prontos), ou colapso absoluto do Estado devido às sanções, extorsão e roubo de que os bens do povo venezuelano são vítimas – a começar pelas 31 toneladas de ouro de que entidades bancárias estrangeiras se apropriaram abusivamente, também com responsabilidade do Banco Central Europeu, para que conste.

«O que, através do golpe, os Estados Unidos, a União Europeia e aliados puseram em andamento foi a compra que um valiosíssimo lote de riquezas naturais e estratégicas pago com sangue humano, na quantidade que for precisa»

Sejam quais forem os caminhos seguidos pelos responsáveis do golpe, o resultado será um banho de sangue com extensão imprevisível. Esse é o preço que Estados Unidos e aliados estão dispostos a pagar para deitarem as mãos aos 300 mil milhões de barris de petróleo venezuelano – as maiores reservas mundiais conhecidas – às poderosas reservas de ouro, nióbio, tântalo e outros elementos e metais preciosos.

Não há pretextos e máscaras que sirvam para a ocasião. O que, através do golpe, os Estados Unidos, a União Europeia e aliados puseram em andamento foi a compra que um valiosíssimo lote de riquezas naturais e estratégicas pago com sangue humano, na quantidade que for precisa. Afinal, tal como no Iraque, na Líbia, na Síria ou Afeganistão.

O caminho para a guerra nuclear

A fuga para a frente com o objectivo de garantir a sobrevivência do neoliberalismo, conduzida pelo gang de tiranos sociopatas de Washington, não hesita, como se vê, perante a repugnante e desumana traficância em curso na Venezuela.

Fuga essa que começa a adquirir velocidade própria numa outra direcção até aqui vedada pelos mais compreensíveis instintos de sobrevivência colectiva: a da guerra nuclear.

Não há outra leitura para a decisão norte-americana de abandonar o Tratado de Armas de Médio Alcance (INF2), assinado há 30 anos pelos Estados Unidos e a União Soviética.

Não há outra leitura do apoio a essa posição manifestado pela NATO e pelo sempre «bom aluno», o governo de Portugal.

Os pretextos invocados para o abandono do Tratado são falsos ou, no mínimo, desconhecidos. Nem os Estados Unidos nem a NATO apresentaram, até ao momento, qualquer prova de que a Rússia estaria a violar esse acordo. Em paralelo, também não se regista qualquer interesse, tanto dos dirigentes norte-americanos como da NATO – e da comunicação social com eles sintonizada – em aceitarem os convites de Moscovo para visitarem os locais onde supostamente estariam a ser construídas as armas que violam o Tratado.

Ao invés, a parte russa já divulgou provas de que os Estados Unidos estão a produzir armas proibidas pelo Tratado há pelo menos dois anos.

É objectivo dos Estados Unidos instalar os novos mísseis em países europeus como a Itália, a Alemanha e a Holanda, onde também está prevista a disponibilização de bombas nucleares de nova geração 3.

«John Bolton, Michael Pompeo e Michael Pence formam um triunvirato de fascistas com provas dadas em carreiras onde o recurso ao terrorismo político, declarado ou clandestino, nunca foi um problema. [Com] um comprovado assassino e fora-da-lei como Elliott Abrams e um expoente da «supremacia branca» como Steve Bannon teremos um quinteto de psicopatas à altura de Trump, de tal modo que torna o próprio presidente descartável»

Trata-se de engenhos ditos de potência reduzida, isto é, com uma capacidade de destruição calculada em metade ou mesmo menos dos largados sobre Hiroxima e Nagasaki. Este facto tem ajudado a consolidar a tese perigosíssima segundo a qual as novas bombas poderão ser utilizadas em conflitos limitados e sem provocarem respostas equivalentes, o que as torna uma vantagem decisiva.

Torna-se evidente que o recurso a essas bombas implica a existência de mísseis vocacionados para transportá-las – e daí a quebra do Tratado INF.

Deduz-se, pois, que pelas cabeças doentes e sanguinárias de figuras como Bolton – que pretende enviar Maduro para Guantánamo – Pence e Pompeo passa, de facto, a ideia de vir a utilizar essa nova combinação de mísseis de médio alcance com armas nucleares de «potência reduzida» e tendo a Europa como um dos cenários de operações. Pelo que os países europeus sintonizados com os tiranos sociopatas de Washington não desprezam apenas a vida dos venezuelanos, mas também a dos seus próprios povos 4.

Já não se trata apenas de violar grosseiramente a democracia. Os governos que seguem de braço dado com a administração Trump enveredaram pela carreira do crime.

NOTAS

  • 1. Estas e outras revelações podem ser lidas no esclarecedor artigo «Para saber tudo sobre o golpista Juan Gaidó», publicado numa tradução exclusiva para Portugal pelo jornal digital O Lado Oculto, que se apresenta como um «antídoto para a propaganda global» e é dirigido pelo nosso colaborador José Goulão.
  • 2. A sigla INF provém do nome do tratado em inglês, habitualmente designado, nessa língua, por INF Treaty (de Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty). Esta entrada da Wikipédia refere 20 de Outubro de 2018 como o ponto de partida para a derrogação do tratado INF, quando Donald Trump acusou a Rússia de «violá-lo há muitos anos». Na verdade, desde o início de Fevereiro de 2018 que os EUA tinham revisto a sua postura estratégica sobre a utilização de armas nucleares (Nuclear Posture Review). Nesse documento os EUA não descartam um ataque nuclear inicial por sua iniciativa e designam a Rússia e a China como inimigo principal. Na altura, o nosso colaborador André Levy alertou para os riscos desta agressiva evolução, que recolocou o perigo de holocausto nuclear na ordem do dia («A dois minutos da meia-noite», 16 de Fevereiro de 2018). Recentemente, também o nosso colaborador António Abreu se pronunciou sobre o tema («A guerra nuclear limitada, de novo», 4 de Fevereiro de 2019).
  • 3. Um relatório do grupo de analistas militares Southfront, «INF Is Dead. Europe Is One Step Closer To Nuclear War», coloca como verdadeira razão para o abandono do INF não uma eventual ameaça russa ou chinesa mas a necessidade de a administração estado-unidense voltar a financiar massivamente o complexo militar-industrial americano, afim de este produzir avançados sistemas de mísseis e anti-mísseis que poderão vir a ser vendidos a alto preço no cenário europeu afectado pela «febre da ameaça russa». Pode ler e ouvir o relatório aqui.
  • 4. A prestigiada ONG International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (ICAN), que recebeu em 2017 o Prémio Nobel da Paz, considerou que a retirada dos EUA do tratado põe, antes do mais, a Europa em grave risco, dada a natureza da aliança militar entre aquele país e a União Europeia, consubstanciada na NATO. Se a Rússia for atacada nuclearmente os seus sistemas de Mútua Destruição Assegurada (Mutual Assured Destruction, ou MAD, acrónimo que tem a particularidade de significar «louco», em inglês) dispararão em segundos. Os sistemas MAD prevêm o disparo automático de todos os mísseis e armas nucleares disponíveis contra os potenciais atacantes (previamente definidos) mesmo que os sistemas de comando e a direcção político-militar do país tenham sido completamente destruídos. Tanto os EUA como a Rússia dispõem de um arsenal nuclear para destruir várias vezes o planeta.

Fonte aqui

Dez mentiras sobre a Venezuela que, de tanto se repetirem, se tornaram base para opinião

(Katu Arkonada, in Crónicas do Sul, 12/02/2019)

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2019, a Venezuela entrou em uma nova fase de um golpe que se iniciou em 11 de abril de 2002, se intensificou em 2013 depois da morte do Comandante Chávez, e se recrudesceu com a violência opositora das “guarimbas” (manifestações terroristas da direita) em 2014 e 2017. A guerra híbrida que a Venezuela vive tem a desinformação e a manipulação midiática como uma de suas principais armas de combate. Lemos e escutamos mentiras que analistas que nunca estiveram na Venezuela repetem tantas vezes que se convertem em realidade para a opinião pública.

1. A Venezuela tem 2 presidentes. Nada mais longe da realidade. A constituição Venezuelana estabelece em seu artigo 233 como falta absoluta de Presidente os casos de morte, renúncia, destituição pelo Supremo Tribunal Federal, incapacidade física ou mental decretada por uma junta médica, o abandono do cargo ou a revogação popular de seu mandato. Guaidó não tem nenhum argumento Constitucional para se autoproclamar Presidente pois não há falta absoluta do Presidente, que prestou juramento, conforme estabelecido pela Constituição, no artigo 231 no dia 10 de janeiro e perante o Supremo Tribunal Federal. Além disso, de acordo com a mesma Constituição, se houver absoluta falta do Presidente é o Vice-Presidente que deve assumir a presidência e convocar eleições.

2. Guaidó tem o apoio da comunidade internacional. Além da hipocrisia de chamar de comunidade internacional somente o Ocidente, no dia 10 de janeiro, na inauguração de Maduro, houve representações diplomáticas de mais de 80 países, da Rússia à China, passando pelo Vaticano, a Liga Árabe e a União Africana. Esses países continuam mantendo relações diplomáticas com o governo liderado por Nicolás Maduro. Guaidó tem o reconhecimento dos mesmos países que em 10 de janeiro não reconheciam Maduro: os Estados Unidos e o Grupo Lima (exceto o México). Apenas a Geórgia (devido à sua disputa territorial com a Rússia), Austrália e Israel aderiram.

3. Guaidó é diferente da oposição violenta. Guaidó é deputado do Voluntad Popular, partido político que ignorou as eleições presidenciais de 2013 e cujo líder, Leopoldo López, é condenado por ser o autor intelectual de “La salida”, que promoveu as “guarimbas” de 2014, com saldo de 43 mortos e centenas de pessoas feridas.

4. A Assembleia Nacional é o único órgão legítimo. Não é verdade. O artigo 348 da Constituição venezuelana autoriza o Presidente, no Conselho de Ministros, a convocar uma Assembleia Constituinte, e o Artigo 349 define que os poderes constituídos (Assembleia Nacional) não podem de modo algum impedir as decisões da Assembleia Constituinte. A decisão de convocar a Assembleia Constituinte foi um ato de astúcia do chavismo para superar o bloqueio da Assembleia Nacional, que pode ou não gostar, mas foi realizado com estrita adesão à Constituição.

5. Maduro foi reeleito de forma fraudulenta, em eleições sem oposição. Outra mentira que se repete como mantra. As eleições de 20 de maio de 2018 foram convocadas pela mesma Justiça Eleitoral e usando o mesmo sistema eleitoral com o qual Guaidó se tornou deputado. Havia 3 candidatos da oposição que reuniram 33% dos votos e seguiram as regras acordadas na mesa de diálogo realizada na República Dominicana entre o governo venezuelano e a oposição, com o ex-presidente espanhol Zapatero como mediador, que também, subsequentemente, participou como observador nas eleições presidenciais.

Saiba mais

Venezuela define o futuro de toda a região

6. Na Venezuela não há democracia. Desde 1998, foram realizadas 5 eleições presidenciais, 4 eleições parlamentares, 6 eleições regionais, 4 eleições municipais, 4 referendos constitucionais e uma consulta nacional. 23 eleições em 20 anos. Todos com o mesmo sistema eleitoral, considerado o mais seguro do mundo pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.

7. Na Venezuela há uma crise humanitária. Sem dúvida alguma que na Venezuela há uma crise econômica no momento, resultado de uma guerra econômica que começa após a morte de Chávez e é agravada pelas sanções do Congresso dos Estados Unidos (dezembro de 2014), a ordem executiva de Obama declarando a Venezuela um perigo para a segurança nacional dos Estados Unidos (março de 2015), prorrogada e ampliada (agosto de 2017) por Trump com sanções que impediram a compra de alimentos e medicamentos. Esta crise levou a uma migração econômica que se destinava a dissimular o exílio político, algo que os dados negam (entre janeiro e agosto de 2018, a Comissão Mexicana de Assistência aos Refugiados recebeu 3.500 solicitações de refúgio de venezuelanos, para um total de 6.523 pedidos. Em refúgio para os cidadãos hondurenhos, quase o dobro).

8. Na Venezuela, os direitos humanos são violados. Vamos analisar os números das repressões de 2017: 131 pessoas mortas, 13 das quais foram baleadas pelas forças de segurança (compostas por 40 membros presos e processados); 9 membros da polícia e da Guarda Nacional Bolivariana mortos; 5 pessoas queimadas vivas ou linchadas pela oposição. O restante dos mortos o foram principalmente enquanto manipulavam explosivos ou tentavam contornar as barricadas da oposição.

9. Na Venezuela não há liberdade de expressão. Basta ver as imagens de Guaidó falando com dezenas de microfones no meio das ruas públicas, ou dando entrevistas à mídia internacional todos os dias para saber que isso não é verdade. Na Venezuela, além disso, diferentemente do México, os jornalistas não são assassinados ou desaparecem por fazer seu trabalho.

10. A comunidade internacional está preocupada com o estado da democracia na Venezuela. A “comunidade internacional”, representada pelos Estados Unidos e pelo Grupo Lima, não está preocupada com os prisioneiros torturados em Guantánamo; ela não está preocupada com os líderes sociais e defensores dos direitos humanos que são mortos todos os dias na Colômbia; ela não está preocupada com as caravanas de migrantes que fogem da doutrina de choque neoliberal em Honduras; ela não se importa com as relações dos filhos de Bolsonaro com as milícias que assassinaram Marielle Franco. Não, ninguém julga as graves violações dos direitos humanos nos países do Grupo Lima e seu aliado, os Estados Unidos. O que está escondido por trás dessa preocupação não é chamado de democracia, é chamado de petróleo, é chamado de ouro, é chamado de coltan.


*Katu Arkonada é cientista político, autor de livros relacionados à política latino-americana e membro da Rede de Intelectuais na Defensa da Humanidade.


Fonte aqui