Dúvidas metódicas

(Ana Cristina Leonardo, in Público/Ypsilon, 14/03/2025)


“As preocupações da UE foram abandonando largamente a indústria alimentar e de bebidas até se chegar aos dias de hoje em que a tónica surge posta no rearmamento” 

Os russos estarão realmente interessados em tomar Vila Real de Santo António?


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Estavas, linda Europa, posta em sossego, / De teus anos colhendo doce fruto, / Naquele engano da alma, ledo e cego, / Que a fortuna não deixa durar muito… quando, de repente, não mais que de repente, canhões, drones e obuses vieram substituir pepinos tortos e outros legumes e frutas de design defeituoso.

A mudança foi radical e deu-se numa dúzia de anos. Estávamos em Julho de 2009 quando a comissária europeia para a Agricultura e Desenvolvimento Rural, a dinamarquesa Mariann Fischer Boel, que exerceria o cargo entre 2004 e 2010, anunciava a reabilitação dos produtos hortícolas defeituosos: “Trata-se de um exemplo concreto dos nossos esforços para eliminar burocracia desnecessária. (…) Na actual conjuntura de preços elevados dos produtos alimentares e de dificuldades económicas generalizadas, os consumidores devem poder escolher entre a mais vasta gama de produtos possível. Não tem qualquer sentido eliminar produtos de perfeita qualidade, apenas porque têm uma forma errada”.

Assistíamos então, digamos assim, à consecução de uma medida inclusiva avant la lettre. Havia que começar por algum lado — começou-se pelas hortas.

Pela mesma altura, outra polémica fazia exaltar entre nós os ânimos: a utilização de colheres de pau nos restaurantes. Mais papistas do que o Papa, os responsáveis nacionais optam por uma leitura estrita das normas bruxelenses, e foi ver restaurantes a serem multados pelo uso dos vetustos utensílios, entendidos agora como um perigo para a saúde pública, fonte de germes potencialmente assassinos. Na versão menos trágica, eram as colheres de pau, e considerada a porosidade da madeira, apontadas como causa provável de alteração de sabores: dava-se como exemplo a possibilidade de um arroz-doce poder revelar ao palato “uma mistela picante”.

Apesar de o Decreto Regulamentar n.º 4/99, de 1 de Abril não fazer qualquer referência às ditas e apenas mencionar que “os balcões, mesas, bancadas e prateleiras das cozinhas e das zonas de fabrico devem ser de material liso, lavável e impermeável”, logo os portugueses, educados no provérbio “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, desataram uns a deitar fora, outros a esconder as difamadas colheres, os últimos decerto habituados ao ditado “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas” — e quem conhecer algum ditado mais terrível do que este que fale agora ou se cale para sempre…

O opróbrio perseguia igualmente os galheteiros, as bolas-de-berlim vendidas na praia, o pão duro (que mais tarde alguém veio lembrar ser indispensável às açordas), as chávenas de café em louça nas esplanadas, a marmelada à fatia, etc., etc. Contas feitas, em nome da higiene e segurança alimentares, punha-se em risco tudo o que fosse artesanal, dos queijos de Azeitão à sopa de couves confeccionada com legumes colhidos directamente do quintal ao lado não registado nas Finanças.

Sempre me interroguei sobre quem seriam as desveladas almas que, nos gabinetes de Bruxelas ou de Lisboa, se dedicavam à tarefa de avaliar a forma dos pepinos, o comprimento dos bananas, a frescura dos coentros ou o diâmetro das maçãs. Gente que faria decerto inveja ao narrador da divertidíssima sátira ao conformismo nacional exposta no livro de Ruben A.O Outro que Era Eu (Assírio & Alvim, 1991), onde os mangas-de-alpaca, após arrumarem meticulosamente a secretária, partiam de fim-de-semana despedindo-se com gravidade, como se fossem embarcar para o Ultramar.

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Tudo depois se aligeirou, apesar de os brindes do bolo-rei terem mesmo ido à vida ou de há uns anos, numa pastelaria, me terem garantido que o rum fora obrigatoriamente removido dos baba au rhum devido à proibição de álcool a menores. Mas nem as colheres de pau seriam proibidas, apenas desaconselhadas, e as bolas-de-berlim voltariam às praias, o grito dos vendedores ambulantes continuando a alegrar petizes tolerantes ao glúten e arrebatando corações de pais e avós nostálgicos. O que nós não sabíamos era que vivíamos então os tempos abençoados dos agrimensores de hortaliças!

Mais crises, menos crises, mais chumbos ou menos chumbos de tratados europeus levados a referendo, os tempos abençoados dos agrimensores de hortaliças chegavam definitivamente ao fim a 22 de Fevereiro de 2022, com a invasão ordenada por Putin da Ucrânia. A partir daí, se descontarmos a proibição da vodka russa, as preocupações da UE foram abandonando largamente a indústria alimentar e de bebidas até se chegar aos dias de hoje em que a tónica surge posta no rearmamento.

Está bem de ver que a alteração da política externa norte-americana — com Donald Trump a suspender o apoio à Ucrânia e a insistir em negociações numa altura em que os avanços russos se tornam indesmentíveis — está na raiz da viragem armamentista.

Desde o início, porém, que mentes mais pragmáticas — e menos convencidas de que na História prevalece uma versão cor-de-rosa na qual os justos saem invariavelmente vencedores — vinham avisando que o optimismo de Ursula von der Leyen — que logo em Abril de 2022 afirmava (sic) “a falência do Estado russo é apenas uma questão de tempo”, convicção reforçadíssima pelas suas declarações no mês de Setembro seguinte, “os militares russos estão a tirar fichas dos frigoríficos para arranjarem os seus equipamentos militares, porque ficaram sem semicondutores”, ou, em Fevereiro do ano passado, quando anunciou que a guerra com a Rússia havia acelerado a transição ecológica da União Europeia, tornando-nos mais verdes (“ele [Putin] realmente impulsionou a transição ecológica”) — talvez fosse exagerado.

O que não deixa de me surpreender é como alguém que se enganou tanto e tão tragicamente continue responsável por delinear a estratégia futura que, desta vez, sim!, levará ao colapso da Federação Russa e à avaria definitiva de todos os seus frigoríficos, assim como ao reforço das energias renováveis, mesmo ignorando o facto de o nuclear estar de novo em alta, por exemplo, com Emmanuel Macron, contrariando o que dizia serem as suas convicções ecológicas, a mandar reactivar o reactor nuclear EPR de Flamanville, o mais potente reactor francês, ou mesmo a lembrar aos russos que a França dispõe de arsenal nuclear capaz de entrar em acção em caso de necessidade.

Os que viram a comédia negra de Stanley Kubrick, lançada dois anos após a crise dos mísseis em Cuba, Dr. Strange Love or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, sabem como a história acaba. E quem também poderia falar com grande à-vontade sobre o assunto seria a centena de sobreviventes de Hiroxima e Nagasáqui, se algum deles ainda estivesse vivo.

Tenho muitas dúvidas de que o voluntarismo europeu possa resultar em voluntários suficientes para ir combater os russos lá onde eles estiverem. O mantra dominante — e porque referi a obra de Kubrick, relembro outro filme, neste caso também uma comédia, embora menos negra, Vêm aí os Russos, de Norman Jewison, realizada em 1966 — é que ou nós vencemos os russos ou os russos vencem-nos a nós. No solo ucraniano não estariam em causa a independência e integridade do país, mas da liberdade e democracia europeias.

Não fica claro como, após mais de três anos de guerra substancialmente apoiada pelos EUA, os russos não foram vencidos, sendo agora, com o exército europeu imaginado por Macron, os 800 mil milhões orçamentados no ReArm e com Trump fora de cena, que a vitória estaria assegurada mais tarde ou mais cedo. Passaríamos de “até ao último ucraniano” para “até ao último europeu de bem”? E, arriscando levar com um “mais um putinista a soldo”: os russos estarão realmente interessados em tomar Vila Real de Santo António?

Se a presidente da Comissão Europeia nos garante que a Rússia “é uma ameaça existencial” que temos de vencer até à morte, já a Emmanuel Todd (por acaso enganou-se menos vezes do que ela) a vitória da Rússia na Ucrânia não só lhe parece assegurada como vir, por arrasto, acelerar a decadência europeia.

Estamos, pois, como na anedota dos prisioneiros judeus condenados ao fuzilamento e que acabam enforcados, o que não deixa de alegrar um deles: “Eu bem te disse que se lhes tinham acabado as balas!”

Teatro trágico – O Imperador e a serigaita

(Maria Manuela, in Facebook, 27/02/2025, Revisão da Estátua)


Trump: Vou impor 25% de tarifas à UE.

Vonderlata: Vamos replicar.

Trump: Não têm a mínima chance. Dependem de nós para tudo.

Vonderlata: Vamos impor mais sanções à Rússia.

Trump: Putin é um gajo muito inteligente.

Vonderlata: Estamos com o Zé Ucro.

Trump: Quero 50% de toda a riqueza ucraniana.

Vonderlata: Queremos garantias de segurança contra a Rússia.

Trump: Vamos reabrir a embaixada em Moscovo e restabelecer as transações comerciais com a Rússia.

Vonderlata: Temos os bens dos oligarcas russos congelados.

Trump: Queremos que os oligarcas russos comprem a cidadania norte-americana por cinco milhões de dólares.

Vonderlata: Vamos pedir à Índia que ponha sanções à Rússia.

Trump: É comer e calar.Vou impor 25% de “sanções” à UE!.

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Os EUA omnipresentes em todos os grandes projectos da UE

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 10/11/2024, revisão da Estátua)

Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.


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E eis que, subitamente, a comunicação social mainstream parece ter acordado para a vida e, finalmente, constatou que a Comissão Europeia, chefiada por Ursula Von Der Leyen, quando se refere aos tais “valores” da sua Europa, está, afinal, a falar dos valores que atribui, benevolamente, ás famílias europeias bilionárias. Diz o The Guardian que a sua “investigação” revelou que 17 bilionários, listados pela Forbes, constam como beneficiários finais de projetos no valor de 3.3 mil milhões de euros.

Vá-se lá saber o porquê da demora em constatar uma realidade que se repete ininterruptamente há dezenas de anos. Uma realidade que se desenrola ao mesmo ritmo que aumentam os sem abrigos, a crise na habitação, saúde e educação, a guerra e a instabilidade social. Mas ainda mais inexplicável é o confinamento desta “investigação” ao sector agrícola e aos projetos ligados à política agrícola comum. Afinal, sendo mau, uma vez que os pequenos agricultores passam uma crise sem precedentes, mesmo assim, estamos a falar de dinheiro para produzir alimento. Ora, casos existem, muito mais danosos e óbvios, aos quais, como veremos, o The Guardian e a comunicação social mainstream, fazem vista grossa.

Na verdade, as grandes corporações detentoras da comunicação social mainstream, das redes sociais e dos recursos financeiros, financiando as campanhas eleitorais, que se vão sucedendo no âmbito de um processo democrático absolutamente falacioso, do qual as últimas eleições nos EUA são o último dos paradigmas, não apenas conseguem que os governos, sempre domesticados, lhes baixem os impostos, como ainda logram obter mais perdões, isenções fiscais, e ainda o acesso aos fundos públicos para investimento. Uma espécie de “socialismo dos ricos”, em que o estado socializa os custos e os riscos e privatiza os lucros.

O Banco Europeu de Investimento, no seu último “Investment Survey 2004”, demonstra como se passa uma parte importante desta transferência.

Entre o 1.º trimestre de 2020 e o 1.º de 2024, o investimento corporativo apenas cresceu positivamente durante um trimestre (o 3.º trimestre de 2023); em todos os restantes, apenas houve crescimento positivo nos trimestres em que se deu um reforço do investimento realizado pelo Estado e pelas famílias. Apesar das centenas de milhares de milhões de euros que a UE destina para projetos de empresas privadas, no 1.º trimestre de 2024, o investimento corporativo evoluiu negativamente. Ou seja, o dinheiro que “investimos” nestes seres privilegiados, não está a alavancar o investimento, mas, sim, a alavancar a acumulação.

E se olharmos para o lado da acumulação, encontraremos muitas das respostas, nomeadamente, a forma como um país estrangeiro suga muitos dos recursos por nós produzidos. A guerra da Ucrânia tem aqui um papel absolutamente fundamental, como catalisador do crescimento do investimento público e da transferência de rendimento para as grandes corporações e, através destas, para as famílias mais ricas. Daí que as elites oligárquicas ocidentais sintam um desespero brutal na necessidade de manutenção do conflito na Ucrânia. Mesmo os EUA, como veremos, ficam com a sua parte, apesar do investimento continuar a ser suportado quase exclusivamente pela UE.

Vejamos o que se passa, por exemplo, com o Fundo Europeu para a Defesa, que constitui uma fonte inestimável de dinheiro para as maiores corporações e multibilionários do ocidente. Vejamos o caso da alemã RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH, a qual, durante a segunda guerra mundial, cresceu e engordou à custa da destruição da Europa e do mundo, e se prepara, no século XXI, para repetir a dose. Mas, desta feita, reparte o bolo com os amigos do costume.

A RHEINMETALL WAFFE MUNITION GMBH é coordenadora e beneficiária de 6 grandes programas de “investimento” em capacidade militar instalada (pólvora, propelentes, munições 155 mm, camuflagem, transporte blindados, proteção de infraestruturas). Só no projeto para aumento de produção de cartuchos de 155mm, esta empresa garante 20.560.755,45€. Ou seja, nós, europeus, pagamos as máquinas e eles ficam com os lucros da venda das munições. No final, morrem mais russos, ucranianos e todos ficamos mais pobres, arriscando uma guerra mundial.

Um simples olhar para a estrutura de capital da Rheinmetall e faz-se luz: Blackrock, UBS, Fidelity ou Goldman Sachs, todos comem do bolo, garantindo as condições políticas e financeiras alinhadas para a alavancagem dos lucros e da concentração da riqueza. A conclusão só pode ser uma, é a de que eles estão por todo o lado e toda a economia conflui, como um grande sifão, para os bolsos de um punhado de privilegiados, pelos quais todos temos de sofrer.

Outro dos grandes comensais deste imenso banquete que são os fundos comunitários, para as empresas, é a também alemã OHB SYSTEM AG, que recebeu 90.000.000,00€ para a construção de um sistema de alerta para ataque por mísseis, a partir do espaço. Se por aqui percebemos por que razão foi lançado o alerta, nunca confirmado, de que a Rússia estaria a desenvolver sistemas de mísseis no espaço, a verdade é que a mensagem foi recebida por quem haveria de ser e, não muito tempo depois, a Comissão Europeia de Ursula Von Der Leyen estava a cumprir o que dela se esperava, aprovando o que fosse necessário ser aprovado.

Um olhar para a estrutura accionista da OHB, que é uma empresa multibilionária na área aeroespacial, e percebemos o porquê de tal facilidade na entrega do nosso dinheiro. O The Guardian, que estava tão preocupado com os fundos para a agricultura, até custa a perceber como deixou esta passar em claro: 65,4% da OHB pertencem à família Fuchs, uma das famílias mais ricas da Alemanha e do mundo. Uma vez mais, como uma organização mafiosa, os amigos do costume ganham a sua parte, através de um fundo sedeado no Luxemburgo (Orchid Lux HoldCo S.a. r.l.)mas que se percebe ser uma fachada de interesses norte- americanos, mas com morada de contacto em Nova Iorque.

Já para a Itália, a comissão de Von Der Leuyen financiou um projeto ligado a “sistemas de propulsão para domínio aéreo”, que atribui 56.202.596,26€ à GE AVIO SRL, uma empresa privada, conhecida como AVIO AERO, ligada ao sector aeroespacial, mas fazendo parte do grupo General Eletric Company, da sua divisão aeroespacial.

Mesmo a maioritariamente pública AIRBUS DEFENCE AND SPACE SAS, não escapa à regra. Sendo outra dos habitués dos fundos comunitários ligados à guerra e à investigação, desenvolve 134 projetos que falam por si, financiados em milhares de milhões de euros em investimentos. Da investigação, ao digital, passando pela defesa, energia atómica e espaço, os impostos dos trabalhadores europeus são os grandes alimentadores deste gigante corporativo. Uma consulta ao portal EU Funding & Tenders, é suficiente para desiludir muitos dos crentes na capacidade de inovação própria das grandes corporações ocidentais. Valha-nos que esta é pública e os seus lucros, são menos impostos que pagamos. Mas existe sempre um “mas”.

A AIRBUS, cuja parte pública ainda é considerável, tem, contudo, entre os investidores privados, nomes como: Vanguard, Goldman Sachs, Fidelity, UBS e uma diversidade de trusts detidos por empresas americanas e não só. Ou seja, a AIRBUS mantém-se pública permitindo a sucção de resultados pela oligarquia, principalmente estado-unidense.

Bem sei que se tratam de investimentos a realizar no espaço europeu, criando empregos e competências para os trabalhadores europeus. Contudo, não posso deixar de identificar um conjunto de circunstâncias padronizadas que tornam tudo isto imensamente suspeito.

Sem fazer uma busca exaustiva, em todos os grandes projetos que consultei, encontrei capitais norte-americanos de alguma forma envolvidos, colocando-se então a seguinte questão: porque razão os grandes investimentos públicos europeus envolvem, sempre, de alguma forma, directa ou indiretamente, capitais estado-unidenses?

Outra questão que surge, na decorrência desta, é a seguinte: em que medida os riscos identificados pelos EUA (risco de “invasão russa”; o risco de “ataque no espaço sideral pela Rússia”; o risco relacionado com as relações comerciais com a República Popular da China) influenciam: primeiro, a criação de necessidades de investimento público e a criação das estruturas empresariais de resposta; segundo, a suscetibilidade de aprovação desses projetos pela Comissão Europeia.

Por fim, se a resposta para a presença de capitais norte-americanos por toda a indústria de defesa – e indústria estratégica – da União Europeia, é a de que o mercado é livre e, como tal, os capitais de Wall Street têm direito de entrar nas estruturas de capital das corporações europeias, então, onde fica a independência e autonomia que Mario Draghi e Ursula Von Der Leyen advogaram para a Europa?

É que não podemos deixar de pensar que será muito difícil à Europa Comunitária – e respectivos estados membros – conseguir almejar a tal independência e autonomia estratégicas, estando o seu complexo militar-industrial e complexo industrial estratégico, tão suportados ou influenciados por capitais estrangeiros.

Mais estranho ainda é que, numa pura lógica de “deRisking”, tão usada como pretexto para o desacoplamento em relação á economia chinesa, não veja a UE de Von Der Leyen qualquer risco nas características corporativas do complexo industrial europeu, principalmente o que tem a ver com aspetos estratégicos da defesa, vigilância e capacidade de resposta.

Para além do cheiro mafioso que tal influência traz consigo, indiciando a existência de uma lógica que aponta para o desenvolvimento de determinados empreendimentos, em espaço europeu, apenas porque os EUA comem uma parte, ou indiciando que a benevolência política dos financiamentos europeus está, em muito, ligada a essa dupla característica, presença de capitais americanos e projetos que respondam a riscos identificados pela Casa Branca, esta realidade demonstra, ainda, a falta de qualquer traço de seriedade na atual estrutura de poder na UE.

Então, no meio de tanto risco, não vê a UE qualquer risco para as empresas europeias, na utilização, pelos EUA, de leis como o “Trade with the enemy act” (Lei do negócio com o inimigo)? Não bastaria o caso da ASML, fabricante de impressoras, EUV e DUV de semicondutores, impedida de vender parte importante da sua produção para a China, apenas e só, por ordem dos EUA, criando graves problemas à economia dos Países Baixos? Tudo porque estes têm relações de capital e propriedade industrial com a ASML, uma empresa que é o que é hoje, essencialmente à custa de fundos comunitários?

E é assim que se apanham as mentiras e as falácias. Então, neste caso, já não existe risco de dependência e submissão estratégica a interesses alheios? Neste caso, Ursula Von Der Leyen já considera que a dependência não faz mal? Será assim, ou será porque, as respostas que Ursula von Der Leyen vai criando no espaço europeu, visam, não responder a necessidades dos povos europeus, mas a necessidades dos EUA, num total, dependente, estratégico e criminoso alinhamento com as políticas da Casa Branca?

Hoje, Von Der Leyen não garante apenas a continuidade dos riscos que alimenta com o seu extremismo. Garante também que esses riscos constituem o pretexto ideal, para que se negue um futuro às próximas gerações europeias. Por que razão a imprensa mainstream não vê nada disto?

Vejam a sua estrutura de capital, e depois falamos. Como qualquer gangster, se não pagamos a bem, alguém nos faz pagar a mal. Von der Leyen está lá para o garantir.

Fonte aqui.