A imbecilidade da praxe e necessidade de quarentena dos seus praticantes

(José Pacheco Pereira, in 16/09/2017)

JPP

Pacheco Pereira

As autarquias deviam tratar as praxes como um problema de saúde pública.


“O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado”; “não é um ser racional”; “não goza de qualquer direito”.

Manual de Sobrevivência do Caloiro


Aqui vai pois a fúria.

Há momentos em que se percebe muito bem por que razão este país não anda para a frente e um desses momentos é quando se traz para as ruas o espectáculo da praxe. As universidades, salvo raras e honrosas excepções, não a proíbem dentro das suas instalações, e, quando a escorraçam para os espaços públicos, as autarquias deviam tratá-las como um problema de saúde pública que exige uma forma qualquer de quarentena. Não o fazem. É por isso que não andamos para a frente.

As autarquias permitem que milhares de cidadãos sejam insultados pelo espectáculo da imbecilidade colectiva que se passa nos jardins e nas ruas. Aliás, o que se passa não é diferente do pastoreio das claques de futebol pela polícia de choque, em que um exército excitado e violento ameaça entrar em guerra com o exército do lado. Os espaços públicos pertencem ao público, a todos nós, não podem ser apropriados por actividades violentas e as praxes são um espectáculo de violência da estupidez. E a estupidez até pode matar, mas, mesmo que não mate, magoa a cabeça, o pensamento, a razão, a decência e boa educação. É por isso que não andamos para a frente.

Em muitos sítios não se pode fumar, ter atitudes “indecentes”, provocar os outros passeantes, mas, se forem os meninos e meninas da praxe, está tudo bem.

Mas não está. Se se quer permitir as praxes — o que para mim está bem fora das escolas e das ruas —, ao menos que se proceda com medidas de sanidade pública, como seja atribuir-lhes uns locais vedados, cercados por altos muros, os curros das praças de touros, ou os lotes vazios da selva urbana, os sítios poluídos onde ninguém quer ir, os matadouros abandonados, as fábricas em ruínas, aqueles cenários dos filmes de terror. Aí, se quiserem, podem dedicar-se a rastejar pelo chão, a lamber coisas inomináveis, a fazerem genuflexões “servis” como mandam os manuais da praxe. É por isso que não andamos para a frente.

Quem tem também muitas responsabilidades são os paizinhos e as mãezinhas dos dois lados da praxe, os que mandam e os seus servos, certamente também porque muitos deles andaram já nessas andanças e pelos vistos gostaram. Claro, quando as coisas correm mal, e já correram muito mal, então protestam, mas já é tarde de mais. Eu sei bem que muitos dos praxados e praxantes já são jovens adultos, sem estarem sujeitos à autoridade paternal, mas presumo que continuam a viver com as mamãs, e à custa dos progenitores, pelo que leverage existe — mas, como tudo neste infeliz país destes dias, não é exercido. Não é exercido pelas autoridades académicas que, quando muito, olham para o lado para não verem o nojo de tão baixa função em tão alta universitas, cheia de dignidade latina e de indignidade humana. É por isso que não andamos para a frente.

Não há nada de bom nas praxes, por muito que haja uma escola de sociólogos e antropólogos que aceitam sempre justificar tudo com o fabuloso argumento dos ritos de passagem e da “integração”. Mas, em bom rigor, o que é que distingue estas exibições de autoridade do segundo ano sobre os caloiros do consentimento social da violência doméstica? E afirmam que estas brincadeiras imbecis ajudam os meninos e meninas a “integrarem-se” nas universidades. Estou mesmo a ver os praxados a correrem para os livros no dia seguinte ao fim das semanas da praxe, já muito “integrados” em todas as virtudes dos altos estudos. É por isso que não andamos para a frente.

Tenho muita honra em ter toda a vida combatido estas imbecilidades socialmente perigosas, algumas vezes de forma, digamos, mais consequente. Não conto desistir e talvez assim assegure um lugar no paraíso e possa ver, da minha branca nuvem, as actividades dos diabos. Porque de uma coisa eu tenho a certeza — para entrar no Inferno há praxes, para “integrar” os malditos no exercício da autoridade diabólica, humilhando-os fazendo-os rebolar na lama sulfurosa do Inferno. Boa praxe!

Praxar a praxe

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/09/2017)

quadros

João Quadros

A praxe não tem lugar na universidade. Por alguma razão não existe uma cadeira de luta de cães, uma oral em arrotos, ou uma Universidade Zezé Camarinha. A praxe nunca devia ter saído dos quartéis.


“O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado”; “não é um ser racional”; “não goza de qualquer direito”. As citações são retiradas de um “Manual de Sobrevivência do Caloiro” que está a ser distribuído, nos últimos dias, por alunos mais velhos aos novos estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP).

Todos os anos estamos nisto, na maldita praxe. Ainda não tenho filhos na universidade mas espero que, até lá, acabem com a desgraça deste “bullying” encartado. Mas, como já fazem praxe nas escolas secundárias, não sei se ainda vão a tempo – “Ai, Quadros, mas não queres que os teus filhos conheçam as praxes?” Vamos lá ver. Não quero que exista praxe, como não quero que exista a doença dos pezinhos ou o roubo por esticão. Nenhum pai quer que o filho experimente a doença dos pezinhos durante um mês. E deixo aqui o meu apoio a quem a tem.

Aqui há tempos, vi as imagens do filme “Praxis”, e fiquei cheio de vontade de ver a minha filha ali agachada com um outro caloiro a fingir que a sodomiza, com um balão pelo meio, e um idiota de óculos escuros e cabelo rapado, de traje, a gritar: “Não é assim que se papa a caloira!” Foi por isso que eu andei a juntar dinheiro para ela ir para a universidade. Se ela não tem ido para a universidade, ainda acabava nalgum bar, a ter de ouvir cenas ordinárias, de uns machos. – “Ai, mas a praxe é uma lição de vida” – se achas isso é porque não sabes o que é a vida. – “Ai, mas a praxe integra” – Também a violação colectiva e uma betoneira com todos lá dentro.

A praxe não tem lugar na universidade. Por alguma razão não existe uma cadeira de luta de cães, uma oral em arrotos, ou uma Universidade Zezé Camarinha. A praxe tem valor de aprendizagem zero. A praxe nunca devia ter saído dos quartéis. Na tropa, onde a submissão tem de ser automática, faz sentido receber os novos com praxe para os integrar naquilo. Na universidade, devia ser o oposto. Deviam ensinar os caloiros a contestar, a evitar conclusões em rebanho, e a não andarem vestidos de escaravelhos. – “Mas um aluno pode dizer que não.” E depois? Ninguém devia ter de dizer se quer, ou não, passar por aquilo dentro de uma universidade. É como haver uma disciplina de religião inca com bacanal com animais no pátio da escola, mas só para quem quer. – “Ai, Quadros, mas é tradição.” Errado. Com excepção de Coimbra, e é discutível, não é tradição nenhuma. É tanto tradição como o cubo mágico, o ir à picanha, ou o “blockbuster”.

“Como é possível que existam universidades onde um aluno tem de assinar um termo de responsabilidade para ser praxado, como se fosse para ser operado ao coração?! “Tens de assinar este termo de responsabilidade, caso me apeteça enfiar-te um hipopótamo e dois coalas pela uretra, e apareçam os donos a reclamar.”

Acabem lá com isso.


TOP 5 CALOIROS

1. Comissão Nacional de Eleições não sabia do Sporting-FC Porto em dia de eleições
– Confirma-se: são pessoas chatas.

2. Juncker diz que “A Europa vai desde Espanha até à Bulgária” – É inadmissível que
o Juncker não saiba onde vive a Madonna.

3. “Portugal tem um clima ideal para cultivar canábis”
– E louro prensado.

3. Banca perdeu quase dois mil balcões desde o pico de 2011 – Mas agora são Padarias Portuguesas.

5. Governo vai proibir a realização de jogos de futebol em dias de eleições – Estou para ver o que a Galp acha disto.

Admirável Portugal novo

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 23/09/2015)

Alexandre Abreu

Alexandre Abreu

Através das redes sociais, fui ontem parar a um anúncio de emprego surrealista, publicado pela Administração da Universidade de Coimbra num sítio de internet dedicado ao emprego e mobilidade científicos em Portugal.

Refere o dito anúncio a intenção da Universidade de Coimbra em abrir concurso para atribuição de duas “bolsas de gestão de ciência e tecnologia” no âmbito daquilo a que chamam o Projecto “Recuperação de créditos de propinas e taxas devidos à Universidade de Coimbra”. Logo de seguida, adverte desde já que “a atribuição da bolsa não gera nem titula uma relação de natureza jurídico-laboral”, apesar de ser “exercida em regime de dedicação exclusiva”.

Por outras palavras, e para quem não tiver percebido logo do que se trata, a Universidade de Coimbra está a tentar recrutar dois trabalhadores para se dedicarem à cobrança coerciva de propinas em atraso. Ao mesmo tempo, está também a tentar disfarçar de forma patética este processo de recrutamento, mascarando-o de processo de atribuição de bolsas no âmbito de um projecto científico – ao qual não falta sequer o nome do projecto (que referi em cima) e a “orientação científica” (que é prestada por uma responsável do serviço de gestão académica da Universidade).

Os dois trabalhadores a recrutar serão no fundo uma espécie de cobradores de fraque em versão precária, que terão como alvos os estudantes e famílias com propinas em atraso. Através do exercício desta nobre função, ficamos por este anúncio a saber que estarão a “promover a aquisição de competências, através da formação hands-on” no dominio da “cobrança coerciva de dívidas e regularização de reembolsos” – sendo que este “hands-on” se torna especialmente irónico, ou preocupante, quando temos em conta o conteúdo da função. Decididamente, a Universidade de Coimbra já terá tido momentos menos rasteiros nos seus 700 anos de história…

Mas se este caso é especialmente pusilânime e insólito, o motivo por que o trago esta semana para esta coluna consiste no seu significado mais amplo – no facto de condensar alguns dos piores aspectos das transformações por que Portugal tem passado nos últimos anos.

A montante deste anúncio, estão vinte e cinco anos de aumentos graduais dos montantes das propinas do ensino superior, através dos quais as famílias têm sido chamadas a um cada vez maior co-pagamento daquilo que deveria ser um investimento público, de todos, no futuro da nossa sociedade – contribuindo para que muitas destas famílias, que têm mais dificuldades em pagar, acumulem dívidas ou vejam os seus filhos abandonarem os cursos a meio.

A montante deste anúncio, estão os últimos anos de ferro de desinvestimento no ensino superior, no contexto dos quais o governo tem vindo a externalizar para as próprias universidades a função odiosa de fixar as propinas nos montantes máximos e de proceder à sua cobrança coerciva, sob pena de não disporem dos meios necessários para assegurarem o seu funcionamento mínimo.

A montante deste anúncio, está também um sistema generalizado de trabalho precário na ciência e tecnologia, no contexto do qual muitos dos portugueses e portuguesas mais qualificados e bem preparados de sempre trabalham durante anos a fio ao abrigo de contratos que, como este anúncio se limita a exemplificar, não geram nem titulam relações jurídico-laborais.

São largos milhares pelo país fora que fazem investigação, desenvolvem soluções técnicas e científicas, publicam artigos e em muitos casos ainda dão aulas aos estudantes do ensino superior, mas que não têm direito a subsídio de desemprego, 13º mês, apoio na doença ou a fazer greve – porque, lá está, o seu contrato não titula uma relação jurídico-laboral. Os postos de trabalho referidos neste anúncio em particular não visam verdadeiramente fazer ciência, mas o modelo contratual proposto tira partido da precariedade institucionalizada que se generalizou neste domínio ao longo dos anos.

Finalmente, e de forma mais ampla, a montante deste anúncio está um sistema perverso de generalização do trabalho precário para todo o tipo de fins – inclusive fins não permitidos por lei, o que não impede que os organismos do Estado se encontrem entre os prevaricadores. São centenas de milhares de pessoas que passam recibos verdes em Portugal e que, em muitos casos, não são verdadeiros trabalhadores independentes, mas trabalhadores dependentes forçados à precariedade. São, na maior parte dos casos, pessoas que auferem escassas centenas de euros por mês, mas cuja carga fiscal (entre IVA e IRS) e contribuições para a Segurança Social são várias vezes superiores às de quem realiza mais-valias bolsistas de milhares ou milhões.

No fundo, este anúncio não é mais do que um ex-líbris do admirável Portugal novo em que o nosso país tem vindo a transformar-se a cada vaga sucessiva de “reformas estruturais”, do co-financiamento do ensino superior à precarização do mercado de trabalho. São reformas que têm autores – pessoas e partidos, com destaque para os que se encontram no governo, que têm estado sempre na vanguarda destas transformações e que não hesitarão em continuar a fazê-lo, desbravando novas fronteiras da barbárie em áreas como a saúde e a segurança social.

Já a quem acha que este país merece melhor, cabe no próximo dia 4 impedi-los de fazê-lo, votando em quem está e tem estado do outro lado da barricada.