Praxar a praxe

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/09/2017)

quadros

João Quadros

A praxe não tem lugar na universidade. Por alguma razão não existe uma cadeira de luta de cães, uma oral em arrotos, ou uma Universidade Zezé Camarinha. A praxe nunca devia ter saído dos quartéis.


“O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado”; “não é um ser racional”; “não goza de qualquer direito”. As citações são retiradas de um “Manual de Sobrevivência do Caloiro” que está a ser distribuído, nos últimos dias, por alunos mais velhos aos novos estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP).

Todos os anos estamos nisto, na maldita praxe. Ainda não tenho filhos na universidade mas espero que, até lá, acabem com a desgraça deste “bullying” encartado. Mas, como já fazem praxe nas escolas secundárias, não sei se ainda vão a tempo – “Ai, Quadros, mas não queres que os teus filhos conheçam as praxes?” Vamos lá ver. Não quero que exista praxe, como não quero que exista a doença dos pezinhos ou o roubo por esticão. Nenhum pai quer que o filho experimente a doença dos pezinhos durante um mês. E deixo aqui o meu apoio a quem a tem.

Aqui há tempos, vi as imagens do filme “Praxis”, e fiquei cheio de vontade de ver a minha filha ali agachada com um outro caloiro a fingir que a sodomiza, com um balão pelo meio, e um idiota de óculos escuros e cabelo rapado, de traje, a gritar: “Não é assim que se papa a caloira!” Foi por isso que eu andei a juntar dinheiro para ela ir para a universidade. Se ela não tem ido para a universidade, ainda acabava nalgum bar, a ter de ouvir cenas ordinárias, de uns machos. – “Ai, mas a praxe é uma lição de vida” – se achas isso é porque não sabes o que é a vida. – “Ai, mas a praxe integra” – Também a violação colectiva e uma betoneira com todos lá dentro.

A praxe não tem lugar na universidade. Por alguma razão não existe uma cadeira de luta de cães, uma oral em arrotos, ou uma Universidade Zezé Camarinha. A praxe tem valor de aprendizagem zero. A praxe nunca devia ter saído dos quartéis. Na tropa, onde a submissão tem de ser automática, faz sentido receber os novos com praxe para os integrar naquilo. Na universidade, devia ser o oposto. Deviam ensinar os caloiros a contestar, a evitar conclusões em rebanho, e a não andarem vestidos de escaravelhos. – “Mas um aluno pode dizer que não.” E depois? Ninguém devia ter de dizer se quer, ou não, passar por aquilo dentro de uma universidade. É como haver uma disciplina de religião inca com bacanal com animais no pátio da escola, mas só para quem quer. – “Ai, Quadros, mas é tradição.” Errado. Com excepção de Coimbra, e é discutível, não é tradição nenhuma. É tanto tradição como o cubo mágico, o ir à picanha, ou o “blockbuster”.

“Como é possível que existam universidades onde um aluno tem de assinar um termo de responsabilidade para ser praxado, como se fosse para ser operado ao coração?! “Tens de assinar este termo de responsabilidade, caso me apeteça enfiar-te um hipopótamo e dois coalas pela uretra, e apareçam os donos a reclamar.”

Acabem lá com isso.


TOP 5 CALOIROS

1. Comissão Nacional de Eleições não sabia do Sporting-FC Porto em dia de eleições
– Confirma-se: são pessoas chatas.

2. Juncker diz que “A Europa vai desde Espanha até à Bulgária” – É inadmissível que
o Juncker não saiba onde vive a Madonna.

3. “Portugal tem um clima ideal para cultivar canábis”
– E louro prensado.

3. Banca perdeu quase dois mil balcões desde o pico de 2011 – Mas agora são Padarias Portuguesas.

5. Governo vai proibir a realização de jogos de futebol em dias de eleições – Estou para ver o que a Galp acha disto.

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