Poderá a Europa sobreviver aos seus próprios líderes?

(Michael Hudson entrevistado por Glenn Diese, in Resistir, 04/04/2025)


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GLENN DIESEN: Olá a todos e bem-vindos. Hoje é dia 26 de março de 2025 e a mim junta-se Michael Hudson, um nome conhecido no mundo da economia.

O mundo está a mudar muito rapidamente, como vemos. Os EUA parecem estar a adaptar-se à multipolaridade. Precisa de ter uma nova prioridade. A Europa parece ser menos prioritária, enquanto parece haver uma necessidade de fazer as pazes com a Rússia. E vemos que, do lado europeu, em vez de recuarem da guerra por procuração contra a Rússia, os europeus insistem agora em que vão continuar a guerra sem os Estados Unidos, o que é um pouco duvidoso, mas também é pior. [Estarão a usar dinheiro que não têm para construir armas que só serão produzidas daqui a muitos anos. E o objetivo de derrotar a Rússia não está claramente definido como é que isso vai funcionar. Portanto, muito disto não faz sentido e muitas pessoas têm tentado perceber o que se passa.

Como vê as narrativas económicas e políticas que conduziram a Europa a este caminho?

Pode ler a resposta e a entrevista completa aqui.

Mas pode ver a mesma entrevista no vídeo abaixo dobrado em português, vídeo que devia passar em horário nobre em todas as televisões para muitos dos mais ingénuos e/ou desinformados cidadãos acordarem de vez, concluindo que os líderes europeus nos estão a levar para o abismo.

Zelensky e a «cortina de guerra»

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 03/04/2025)


Desculpar Zelensky pelo funcionamento degradante do estado ucraniano, consiste em obscurecer o sofrimento daqueles que ele todos os dias condena à guerra.


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Os dados recentemente divulgados pelo Centro de Sondagens Razumkov, para o período de fevereiro-março de 2025, revelam um fenómeno político intrigante: os ucranianos, aparente e tendencialmente, continuam a confiar no Presidente Volodymyr Zelensky, contudo, tendem a desconfiar profundamente do governo, do parlamento, da polícia e até do próprio Estado – na maioria dos casos de forma massiva. Esta dicotomia sugere uma estratégia eficaz de “vitimização selectiva” — em que o Presidente é retratado (e caracterizado) como um líder que luta contra um sistema disfuncional, intrinsecamente corrupto, escapando assim ao escrutínio que recai sobre outras instituições.

São vários os métodos utilizados para o conseguir, mas nenhum deles oculto ou imperceptível. Tudo é feito às claras, quer dentro da própria Ucrânia, através da comunicação emanada da própria presidência e dos órgãos de comunicação social mainstream, muitos financiados pela USAID e outras organizações ocidentais, mas também através da comunicação que entra para dentro do país através dos órgãos de comunicação ocidentais, reportando peças informativas e comunicações provenientes das instituições governativas patrocinadoras do regime de Kiev. Trata-se de uma estratégia comunicacional interdependente, a qual visa legitimar o regime de Kiev aos olhos de ucranianos e povos europeus, encerrando ambos numa bolha narrativa fechada e sem crítica ou contradição externa relevantes.

O facto é que esta estratégia é tremendamente eficaz e visa provocar uma dissociação entre o “líder” e as restantes Instituições, mostrando os dados da referida sondagem que Zelensky mantém uma elevada aprovação, em torno dos 57,5% (entre os que confiam totalmente (17,3%) e os que tendem a confiar (40,2%)), ao passo que o Parlamento (com um total de 17,8%) e o governo (com um total de 22,5%) raramente ultrapassam 20 a 30% de confiança, tomando em consideração as sondagens de períodos anteriores.

Como que a deixar antever que tipo de regime está instituído na Ucrânia dos nossos dias, quem também é poupado à desgraça, deixando denotar a eficácia da propaganda de guerra e a necessidade de manter uma economia belicista, são as Forças Armadas e os voluntários (leiam-se “mercenários estrangeiros ou nacionais”), obtendo um nível de confiança acima dos 80%, em contraste directo com as instituições civis e supostamente “democráticas”.  Para um estado que se afirma como a última barreira da democracia face à autocracia, a desconfiança avassaladora para com as instituições democráticas, não é lá grande cartão de visita. Para mais, quando o Presidente tem o seu mandato caducado e quando questionados os inquiridos sobre a necessidade de eleições, apenas 22% tendem a referir as mesmas como necessárias. Ou seja, um sistema “democrático” cujo “povo” valoriza um presidente com mandato caducado, não pretende eleições e desvaloriza as instituições civis do país.

Mesmo as instituições do poder local, os tribunais, a polícia, o ministério público, não passam no crivo da confiança. Com excepção do Presidente, as instituições militares ou militarizadas (antes grupos nazis como Azov e outros), a Igreja e os serviços de segurança (SBU), todos os outros raramente escapam a uma imagem tremendamente negativa e nenhum deles atinge níveis elevados de confiança, muito superiores a uns meros 50%. A própria “mass media” ucraniana não escapa à avaliação negativa, com 41,2% de inquiridos que dizem tender a acreditar ou acreditar totalmente neste serviço. É como se o povo ucraniano fosse levado a culpar-se a si próprio (professores, políticos, polícias, funcionários públicos, jornalistas…), como forma de fazer sobressair a santidade daqueles que, de facto, o governam. Toda a base e camadas intermédias da população são levadas ao auto-sacrifício como forma de preservar a vida da cúpula.

Este trade-off, ao abrigo do qual o povo ucraniano se responsabiliza por tudo o que falha, desculpando a cúpula pela desgraça em que vive, inclusive premiando acções que o condenam à morte, deixa-nos desconcertados perante as explicações que pode suscitar: ou o estado ucraniano não é uma democracia, na medida em que mantém uma cúpula irresponsável, incapaz de responder às necessidades populares, fazendo-lhe acreditar que, ainda por cima, a culpa é sua; ou a sondagem do Centro Razumkov não é para ser levada a sério, na medida em que, numa sociedade verdadeiramente democrática, nunca o povo se culparia a si próprio, nomeadamente pelas incapacidades e insuficiências do poder representativo que elege, precisamente, para as ultrapassar. Nessa medida, seja num caso ou no outro, teremos de questionar o verdadeiro papel desempenhado pelo Centro Razumkov.

Independentemente da resposta, estamos, portanto, perante um caso claro de militarismo, autoritarismo e plutocracia, resultante de uma aliança entre as várias facções que compõem a cúpula de poder, composta pela presidência, a qual protege a oligarquia e os seus patrocinadores nacionais e estrangeiros, adicionando-lhe a Igreja, usada para doutrinar, e os serviços de “segurança” para espiar, perseguir e assediar a população.

Aliás, pouco me admirava que os inquiridos tivessem medo de responder a certas questões, com receio de represálias, uma vez que naquele país se vive um clima de intimidação, terror, ameaça e vigilância em massa. O simples falar russo poder originar processos crime, questionar a continuidade da guerra ou criticar o exército e serviços de segurança, a prisão imediata.

São conhecidos os instrumentos utilizados para criar uma narrativa condescendente para com aquele que, afinal, se assume como responsável pelo país. A narrativa de guerra em que Zelensky se posiciona como o “comandante-em-chefe” da resistência, assumindo um vestuário reminiscente do revolucionário guerrilheiro do século XX (o que não deixa de constituir uma contradição filosófica profunda, quando adoptado por um sionista, neoliberal, nazi-banderista), enquanto o governo e o parlamento são associados à burocracia e corrupção pré-guerra, é uma das estratégias de comunicação mais comuns. O Presidente que defende o país, minado pelos poderes corruptos de uma Ucrânia que persiste em não mudar, apesar da vontade do seu Presidente. Quantas vezes ouvimos Ursula von der Leyen dizer que “a Ucrânia tem de mudar”?

Tal vitimização só é possível porque assistimos a uma centralização do poder político sem paralelo na curta história da Ucrânia, chegando ao ponto de Zelensky ter produzido uma lei que impediu qualquer responsável por encetar negociações com o lado russo, convencendo tudo e todos, inclusive socorrendo-se de Think Thank europeus e norte-americanos (como o caso do CIDOB de Barcelona/Espanha), a prosseguir a estratégia de “fazer a paz através da guerra”. Esta centralização foi conseguida através da imposição de uma lei marcial e da suspensão de eleições, criando-se desta forma um escudo de emergência, ou um “escudo de guerra”, em que qualquer falha na política pública passou a ser atribuída às limitações da guerra ou à ineficiência de terceiros. Um pouco como se passou nos países da EU aquando do lockdown do Covid-19, desculpando os governos da sua incompetência e dos danos provocados pelas suas políticas.

De uma forma geral, a estratégia de vitimização que assegura a sobrevivência política de Zelensky assenta em três pilares retóricos:  1.”Estou a lutar contra um sistema podre”, em que mesmo sendo o chefe de Estado, ele distancia-se das instituições, culpando-as por problemas como corrupção, lentidão ou derrota, como sucede tantas vezes quando responsabiliza alguém pelos avanços russos ou pelo colapso de forças militares; 2.”A guerra justifica tudo”, permitindo a constante abertura de excepções e mudanças de narrativa adiando reformas ou eleições e transferindo frustrações para “inimigos internos”, como no caso de Poroshenko; 3.”O Ocidente é lento, mas eu sou o rosto da resistência”, o “embaixador da liberdade”, em que Zelensky capitaliza a simpatia internacional, enquanto a falha na entrega de armas ou ajuda é atribuída a outros (EUA, UE).

Os dados permitem concluir que existe de facto uma transferência de culpas. Temos o caso da desconfiança selectiva traduzida no facto de 75% dos ucranianos (dados de 2023-24) aprovarem a liderança presidencial na guerra e apenas 23% confiam no Parlamento (Razumkov Centre). Mesmo após o desgaste actual, os dados mais recentes demonstram o mesmo tipo de atitude no público. Existe uma crise de representação, mas afecta sobretudo os partidos políticos, ao invés do Presidente, não poupando sequer o partido “servo do povo” que o levou ao poder. Por fim, temos a crise da confiança na ordem e na justiça, com a polícia, os tribunais, o ministério público e as unidades anticorrupção a ficarem pelas ruas da amargura, enquanto o todo poderoso Zelensky é poupado à avaliação negativa.

Este paradoxo, de um Presidente todo poderoso que luta contra as forças malignas internas e externas, contra tudo e contra todos, tão grande que não chega a lugar nenhum e tão poderoso que nada logra conseguir, é típico de regimes, como relatado no livro “The Politics of Dictatorship”. Retirando do mesmo as categorias que constituem o conceito em causa ( culto da personalidade, justificativas históricas aliadas à vitimização, alinhamento religioso, responsabilidade selectiva, manipulação dos quadros legais (estados de excepção), campanhas de relações públicas, militarismo, vigilância e inteligência, etc) rapidamente percebemos que também elas estão presentes no regime de Kiev, um em que os problemas se eternizam, mas se gastam rios de dinheiro em propaganda em torno da santificação das figuras do regime: o Presidente; a Igreja ucraniana; os serviços de “segurança”.

Uma espécie do que Salazar fazia em Portugal com a trilogia Pide, Igreja e Império. Não podemos de falar de um “Deus, Pátria, Família”, porque seria caricato que uma figura que vende o país à Blackrock, sucumbe ao neocolonialismo de Biden e Trump e aposta no wokismo como estratégia de propaganda para as juventudes urbanas europeias, se usasse do patriotismo e da família como símbolos da sua propaganda. Zelensky está mais para a farsa, do que para a tragédia, relembrando a máxima atribuída a Engels.

Mas não se pense que o poder e imagem de Zelensky são legitimados apenas a partir de dentro. A União Europeia, NATO e EUA são talvez os maiores responsáveis pela construção do culto da personalidade de Zelensky e a promoção, a partir de fora, de uma imagem santificada do líder do regime de Kiev.

Não apenas o apresentam como líder-símbolo da resistência europeia como lhe dão constante visibilidade em instâncias ocidentais (apresentadas como “internacionais”), consolidando a sua posição como “a voz da Ucrânia”, não apenas para o exterior, mas também para o público ucraniano, tentando estabelecer uma relação fortíssima entre um orgulho nacional recuperado e a figura do seu presidente, que o recupera no estrangeiro, no civilizado ocidente das ilusões, que tanto o valoriza e tão bem o acolhe. Este acolhimento é constantemente acompanhado por uma linguagem emocional, através da qual “líderes” como Ursula von der Leyen ou Charles Michel frequentemente o premeiam com termos como “coragem”, “sacrifício” e “luta pela Europa”, associando Zelensky a valores transcendentais, acima da política tradicional, os tais “valores europeus”.

Em simultâneo, fazem-no apresentando de forma exaustiva a Ucrânia como vítima e o seu presidente como alguém martirizado, mas tremendamente batalhador. A imagem simbólica de “David contra Golias” vem constantemente à fala, minimizando ou omitindo, de forma agressiva, quaisquer reportagens sobre corrupção ou disfunções governamentais na Ucrânia.  Ao invés, optam constantemente por colocar uma tónica no suposto “sofrimento”, privilegiando imagens de Zelensky em cenários bélicos (frentes de batalha, funerais), reforçando a ideia de que ele “partilha os sacrifícios do povo”, ao contrário de políticos tradicionais. Como ouvimos inúmeras vezes da boca de responsáveis políticos ocidentais, estes dizem admirar Zelensky por não ter fugido de Kiev, por ter ficado no país e por nunca se esconder. Contudo, fazem-no sem quaisquer provas de que de facto o fez. O objectivo é claro, visa construir uma imagem infalível, heróica e sobre-humana de um líder que, afinal, está cheio de falhas, desde logo a sua presença nos Pandora Papers.

A EU também opta pelo esquecimento selectivo quando esconde, de forma muito ostensiva, os actos profundamente negativos de Kiev, quer com consequências directas sobre estados membros da EU, quer sobre os seus povos, como nos casos em que Zelensky sabotou os fornecimentos de gás à Europa via gasoduto de Druzhba, ou, mais recentemente, quando mandou estoirar com a estação de bombeamento de Sudzha, garantindo que a Eu não pode receber de gás por essa via, pelo menos nos próximos dois anos e meio. A quem caberia essa escolha? A Zelensky? Ás agências de segurança que obscuramente intervêm junto de Kiev, ou aos povos europeus? O mesmo fazem os “líderes” europeus quando o regime de Kiev ataca centrais nucleares como a de Zaporízia ou pratica atentados terroristas na Rússia ou em África. Nestes casos, a EU remete-se ao silêncio, mesmo quando profundamente descredibilizada perante os seus próprios povos e os do Sul global.

Nos casos muito pontuais em que os poderes ocidentais fazem ténues críticas sobre a corrupção ou a necessidade de maior escrutínio orçamental, tais críticas são em regra dirigidas ao governo, parlamento ou oligarcas e não ao caducado presidente ucraniano. Este privilégio que assiste Zelensky, em ficar nas sombras, aquando a desgraça – mesmo em termos militares a NATO/EU tende a culpar-se a si própria e aos seus – e passar à ribalta quando a estratégia logra algum sucesso, estende-se apenas a ele e, através de si, às forças militares. Todas as outras instituições Ucranianas tendem a ter o tratamento contrário, tendo a ribalta nos insucessos e a obscuridade nos sucessos.

Esta estratégia comunicacional é depois replicada pelos órgãos de comunicação social internos, muito dependentes do financiamento externo, inclusive da EU, actuando de forma que quando a EU elogia Zelensky, a imprensa ucraniana (como a Ukrainska Pravda, Kyiv Independent ou canais estatais) usa esses discursos como prova de que a liderança dele é reconhecida internacionalmente, desencorajando críticas domésticas.

Outra forma, utilizada para imunizar ou santificar a imagem de Zelensky, está presente quando a comunicação europeia usa frequentemente o contraste entre a “Ucrânia heroica” com a “Rússia agressora”, mas também, subliminarmente, opondo Zelensky (o líder democrata) às elites políticas ucranianas (as “velhas estruturas”). Toda esta comunicação pré-reflexiva, emocional, ecoa na população, justificando a desconfiança no governo e no Parlamento, mas paradoxalmente, em menor extensão, no líder máximo. É como se Zelensky fosse o mais querido dos líderes, como tantas vezes o ocidente gosta de ridicularizar a propósito de outros, bem mais indefesos, desapoiados ou vítimas.

Esta atitude conduz o povo ucraniano a uma armadilha da consciência, uma prisão psicológica, que funciona como uma chantagem. Se a UE trata Zelensky como o único interlocutor válido, os cidadãos ucranianos internalizam a ideia de que questioná-lo pode significar enfraquecer o país perante os aliados—uma narrativa útil em tempos de guerra – fortalecendo os inimigos.

Esta estratégia, como se vê, não dura para sempre. A verdade é que mesmo Zelensky já não conta com os mesmos níveis de aprovação de outrora. Se até há um ano atrás, o caducado presidente ucraniano ainda contava com níveis de aprovação na casa dos 70% (tendo chegado aos 91%), hoje sucede que Zelensky conta apenas com 57,5%, embora 40,2% sejam inquiridos que responderam “tendo a acreditar”. E não podemos deixar de aqui adicionar, nestes dias de amargura para os centros de sondagens, que o Razumkov Centre é financiado pela EU, através do programa Horizon, o que não deixará de ter a sua importância. Todos sabemos como e onde fazer sondagens que tenham um ou outro resultado. Tal técnica não foi inventada nem terá fim na Ucrânia.

A fadiga de guerra, causada pela deterioração da situação militar, a conscrição obrigatória e o desespero de mães e esposas pela perda dos seus; a falta de Alternativas, ligadas à ausência de eleições impede a renovação política, mas também cristaliza o descontentamento—que pode explodir numa situação pós-guerra -, o que não deixará de estar nas contas de Kiev e seus promotores.

Como demonstram os casos da Geórgia, Moldávia, Eslováquia, Bulgária, Arménia ou Hungria, os protestos e alterações recentes mostraram que a “cortina de guerra” não dura para sempre e tem os seus efeitos limitados, principalmente quando os problemas se eternizam e as populações vêem, dia a após dia, o degradar das suas condições de vida. Não é segredo para ninguém que as guerras do Império Russo muito contribuíram para a Revolução Bolchevique de 1917. Mais de 100 anos depois, o ocidente começa claramente a avançar para outro período pré-revolucionário, do qual só se salvarão os que souberem colocar as suas populações em primeiro lugar. Caso contrário, não venham depois atirar com a culpa aos revolucionários e ás revoluções, ou à violência latente provocada por décadas de sofrimento constante.

A oligarquia é especialista em diaboliza-las, mas o acto revolucionário não é mais do que a canalização do desespero para a luta, usando essa energia para mudar um mundo que ameaça avançar cada vez, de forma mais acelerada, para o abismo. Nesse dia, escusam de vir atirar com as culpas às vítimas, quando andam hoje constantemente a desculpa os culpados. Para isto já chega a própria Ucrânia.

Este paradoxo da confiança que a Ucrânia vive, não é mais do que o resultado do que o que disse anteriormente.

Desculpar Zelensky pelo funcionamento degradante do estado ucraniano, mais do que desconsiderar a sua culpa e a própria democracia, consiste em obscurecer o sofrimento daqueles que ele todos os dias condena à guerra, seja a guerra das armas, seja a árdua luta pela sobrevivência num país por ele condenado.

Fonte aqui


O acesso ao site Strategic Culture Foundation, fonte deste artigo e de muitos outros que aqui temos publicado, vai ser bloqueado nos países da União Europeia, Uma vergonha. É preciso acordar. Estamos a ser conduzidos para uma sociedade totalitária, sem liberdade de expressão e com uma censura adocicada, mas tão ou mais eficaz que a censura dos tempos da PIDE de má memória.

Eis o que diz o próprio site para dar a volta aos censores:

“Numa tentativa de restringir a liberdade de expressão e a democracia, a União Europeia decidiu bloquear o acesso de seus cidadãos à página da web da Strategic Culture. A decisão entrará em vigor a partir de 8 de abril.

Para contornar a censura da Internet da União Europeia e obter uma visão precisa e objetiva dos últimos eventos ao redor do mundo, use serviços de VPN onde você pode escolher qualquer país, exceto os membros da União Europeia.”

Estátua de Sal, 04/04/2025

Para que serve o rearmamento da Europa?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 01/04/2025)


Parece não restarem muitas dúvidas de que os líderes europeus não têm nas suas mentes uma estratégia de dissuasão, mas sim outra mais exigente em meios, para além de ser mais perigosa.


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O debate em redor do rearmamento da Europa passou a dominar as manchetes dos jornais e a abertura de telejornais. A Europa está desarmada, qual capuchinho vermelho prestes a ser triturado pelos dentes afiados do lobo mau, que um dia virá de leste. Mas a realidade dos factos é que nem a Europa está desarmada nem a psicose de massas artificialmente fabricada se justifica com uma ameaça russa em aproximação, desprovendo de sentido a urgente corrida armamentista que se anuncia como inevitável e em que a Europa se prepara para embarcar.

É frequente argumentar que o enfraquecimento da capacidade de defesa europeia se deve a décadas de desinvestimento. Contudo, convém relembrar o desinvestimento recíproco da Rússia em defesa, a seguir ao fim da Guerra-Fria. As ameaças, se não desapareceram totalmente, pelo menos desvaneceram-se consideravelmente. Não havendo ameaça, não faz sentido manter uma capacidade militar que vá para além da dissuasão, estratégia de que a Europa nunca prescindiu.

De 2019 a 2023, o valor agregado das exportações de armamento europeias quase que triplicou o valor das exportações russas. Só a França tem maior capacidade exportadora do que a Rússia. Dos oito maiores países exportadores de armamento, a nível mundial, seis são europeus.

Surpreendentemente, os acérrimos defensores do rearmamento urgente devido a um ataque russo são também os mesmos que: (1) argumentam com a superioridade estratégica europeia (demografia, PIB, capacidade industrial, etc.), a qual é, por si própria, um tremendo fator de dissuasão; (2) e acreditam que a guerra na Ucrânia tem mostrado o quão fraco e ineficaz é o exército russo. Conseguem fazer a quadratura do círculo. A Europa vai ser invadida por um inimigo incapaz e incompetente. Portanto, temos de nos armar até aos dentes.

A Europa tenta delinear uma “estratégia” com base naquilo a que George Orwell chamou de double thinking, isto é, acreditar simultaneamente em duas ideias que se excluem mutuamente. O debate sobre o tema deve começar por esclarecer qual a finalidade do rearmamento, para que serve? Após uma análise cuidadosa do White Paper produzido por uma equipa liderada pela Alta Representante para a Política Externa da UE Kaja Kallas, não ficou claro qual seria a finalidade do rearmamento europeu. São tantas as ameaças e tão diferentes (Rússia, China, Ártico, Norte de África), que ficamos sem perceber exatamente o que se pretende.

Embora não seja dito de modo explícito, não restam dúvidas ser a Rússia a ameaça percebida ficando, no entanto, por saber qual a postura estratégica que a Europa vai adotar: dissuasão defensiva, ofensiva ou é todo este esforço apenas para ajudar a Ucrânia? A resposta a esta questão crucial é ambígua.

A definição de uma estratégia passa por identificar claramente, por esta ordem, os objetivos a atingir, os caminhos a seguir e os meios (objectives, ways and means). A proposta da presidente da Comissão europeia ao Conselho Europeu concentrou-se apenas nos meios – como dotar os estados-membros dos recursos financeiros para se rearmarem, sendo omissa quanto aos objetivos e aos caminhos a seguir. Ou seja, Ursula Van der Leyen (VDL) começou e terminou nos meios.

Qual o objetivo?

A proposta da Comissão sobre o rearmamento europeu usava o termo “dissuasão,” sugerindo a adoção de uma estratégica predominantemente defensiva. Mas, as dúvidas sobre este propósito são enormes. Os lugares tenentes de VDL falam em escalar o conflito e confrontar militarmente a Rússia, sem que esta tenha alguma vez repudiado essas declarações.

Kaya Kallas, a mesma cujo marido fazia negócios com a Rússia já depois do início do conflito na Ucrânia, disse que era preciso destruir e fragmentar a Rússia; e o comissário europeu para a defesa e espaço, o lituano Andrius Kubilius afirmou ser necessário prolongar a guerra até exaurir a Rússia e a Europa adquirir capacidades para a destruir.

Exatamente no mesmo sentido foi o alemão Bruno Kahl, diretor do Serviço Federal de Informações, ao afirmar que um acordo de paz não beneficiará a Europa se for alcançado antes dos próximos cinco anos. Segundo ele, a Rússia está a preparar uma grande guerra com a NATO. O grande argumento em abono desta tese é o facto “das perdas russas estarem a ser repostas e a indústria de defesa do país está a produzir mais do que o necessário para a atual guerra.”

Por sua vez, o Inspetor Geral das Forças Armadas alemãs general Carsten Breuer canta segundo a mesma pauta de música. A ministra dos negócios estrangeiros da Alemanha Annalena Baerbock fala em mobilização nacional. O tradicional rigor orçamental alemão está prestes a desvanecer-se, com o governo a preparar-se para contrair uma dívida no valor de mais de 500 mil milhões de euros, a gastar nos próximos 12 anos. Para além disso, o Governo alemão criou um instrumento para aumentar a dívida num total de cerca de um trilião de euros, ou mesmo mais, envolvendo uma alteração constitucional.

Como se não houvesse amanhã, a Dinamarca acelerou a introdução do alistamento militar obrigatório para as mulheres, passando o seu início de 2027 para 2026; o presidente Macron diz que a Rússia é uma ameaça à França e à Europa e, seguindo o exemplo da Suécia, mandou distribuir manuais de sobrevivência à população, como se a guerra estivesse à porta, criando uma ansiedade absolutamente injustificada; as autoridades polacas anunciaram o início dos preparativos para uma possível guerra com a Rússia introduzindo, para o efeito, formação militar em massa da população, e o primeiro-ministro polaco Donald Tusk quer ter armas nucleares e anunciou o aumento das forças armadas para meio milhão de soldados.

Por seu lado, a Comissão teve o despautério de pedir à população para que armazene água, medicamentos, pilhas e alimentos para sobreviver por três dias sem assistência externa em caso de emergência. É difícil não considerar isto uma preparação para a guerra. Este tom reflete a narrativa a que recorrem os países bálticos. Como notou a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, referindo-se a Kaja Kallas “se alguém a estiver a ouvir, parece que estamos em guerra com a Rússia, e essa não é a linha política da UE.”

Independentemente daquilo que se pense, a verdade é que a UE se está a preparar para a guerra. Parece não restarem muitas dúvidas de que os líderes europeus não têm nas suas mentes uma estratégia de dissuasão, mas sim outra mais exigente em meios, para além de ser mais perigosa. Daí a alegada necessidade de um rearmamento urgente.

O desvario

A ideia do rearmamento europeu não pode ser dissociada de outros acontecimentos em curso que influenciam decisivamente a narrativa armamentista. O principal prende-se com a acusação de que os EUA não honrarão as suas obrigações no âmbito do artigo V, em caso de um ataque militar da Rússia. Nada até agora o indicia.

A Estratégia Nacional de Segurança, da Administração Trump, em 2017; era clara: “A aliança da NATO de Estados livres e soberanos é uma das nossas grandes vantagens em relação aos nossos concorrentes, e os Estados Unidos continuam empenhados no Artigo V do Tratado de Washington.” Pretender que os europeus assumam maiores responsabilidades, não pode ser confundido com a retirada das garantias de segurança por parte de Washington. É intelectualmente desonesto misturar factos distintos apresentando-os como fazendo parte de uma única realidade.

Sem os EUA terem alguma vez manifestado intenção de abandonar a proteção nuclear da NATO, e após terem declarado a intenção em a manter, a Alemanha veio sugerir a sua substituição por uma outra proteção a ser fornecido pela França e Reino Unido (RU). Esta proposta do novo chanceler alemão Friedrich Merz, até recentemente alto quadro da BlackRock Germany, representa a sua total descredibilização. A capacidade nuclear agregada dos dois países não só não constitui uma alternativa ao guarda-chuva nuclear norte-americano, como nem sequer se aproxima da proteção por ele conferida.

Começando logo pelo facto do RU não dispor de capacidade nuclear autónoma. O programa nuclear inglês é um prolongamento do norte-americano. Se os EUA quiserem, o RU não dispara nenhum míssil. Depende dos EUA para tudo (manutenção, arquitetura, teste dos submarinos, etc.) e os misseis Trident são alugados aos EUA e encontram-se, na sua maioria, na Geórgia (EUA). Não deixa de ser hilariante a informação dada pelo desbragado almirante britânico Chris Parry de que um submarino com misseis Trident poderia varrer 40 cidades russas da face da terra. Por outro lado, o programa nuclear francês foi concebido para proporcionar dissuasão nuclear à França. Estendê-lo à Europa é uma ideia que tem tanto de perigosa como de ridícula.

Os dirigentes europeus estão amuados com a nova Administração norte-americana que lhes exige uma maior participação financeira na NATO. Despeitados pelo novo patrão os tratar com maior rudeza passaram a comportar-se de um modo insensato, sendo os principais responsáveis pela rotura com Washington a que temos assistido. Sem pensamento estratégico parecem dispostos a arrastar a UE para uma grande guerra contra a Rússia.

A União Europeia caminha sonâmbula para uma guerra perdida, à qual não tem capacidade para alterar o destino, cujo instigador está a abandonar por ter percebido que não a vai ganhar, tal como aconteceu no Afeganistão, coisa que os europeus ainda não atingiram.

Enquanto a necessária modernização das forças armadas europeias se basear em pressupostos errados, nada de bom se poderá esperar dela. Como diz Matos Gomes “este mantra [do rearmamento] assenta num conjunto de sofismas, de deturpações grosseiras… faz parte da comédia de enganos com que os dirigentes da Europa estão a iludir os europeus.” A Europa, que nasceu como um projeto de paz vencedora do prémio Nobel 2014, está a converter-se num projeto de guerra.

Fonte aqui.