Costa põe-se em bicos dos pés

(João Gomes, in Facebook, 08/12/2025)


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António Costa, presidente do Conselho Europeu – uma espécie de síndico do condomínio mais barulhento do mundo – decidiu esta semana subir ao palco internacional e, em grande estilo, pôr-se em bicos dos pés. Tudo para dizer aos Estados Unidos que a Europa não aceita sermões. O problema, claro, é que ninguém tinha a certeza se ele estava a dar um sermão de regresso… ou apenas a tentar ver por cima da pilha de problemas acumulados em Bruxelas.

O episódio começou quando Washington, num raro momento de sinceridade geopolítica, publicou um documento a avisar que a Europa está a caminho do “apagamento civilizacional”. Não é todos os dias que uma superpotência diz a “outra” que está com a luz a piscar. Mas Costa não gostou, torceu o nariz e respondeu como quem defende a honra da família: “Os aliados não interferem na vida política uns dos outros.” Uma frase tão moralmente elevada que, por momentos, quase fez esquecer que a UE passa metade do tempo a interferir… na vida política dos próprios europeus.

O problema é que enquanto Costa batia o pé a Washington, lá fora o mundo real continuava a acontecer. Zelenski, Macron, Starmer e Merz reúnem-se para decidir o futuro da Ucrânia – ou, pelo menos, para tirar uma foto de grupo com expressão grave. Bruxelas, fiel ao seu estilo, está mais uma vez a marcar passo na passadeira rolante da geopolítica: quando tenta andar, ela já está a andar ao contrário.

Por isso, este indignado “grito de independência” de Costa soa menos a bravura e mais a um daqueles últimos esturros que uma instituição solta antes de perceber que o resto do mundo já seguiu em frente. A UE fala da sua “autonomia estratégica” com a mesma convicção com que um adolescente garante que não precisa de boleia dos pais… enquanto tenta desesperadamente apanhar rede para chamar um Uber.

Costa levantou-se em bicos dos pés, sim – mas parece que ninguém reparou. Entre documentos incendiários dos EUA, cimeiras improvisadas entre líderes europeus e um continente que se tenta encontrar ao espelho, o gesto perde-se. Talvez por isso o presidente do Conselho Europeu tenha soado tão ofendido: ele quer ser ouvido, mas o ruído do mundo real é mais alto.

Assim segue a Europa: Washington a avisar que as luzes estão a apagar-se, Bruxelas a dizer que está tudo ótimo, e Costa, firme e hirto, lá no fundo, a tentar parecer maior do que é. Mas há que reconhecer: manter o equilíbrio em bicos dos pés, durante tanto tempo, também é uma competência europeia. Quase tão europeia como elaborar relatórios de 33 páginas sobre o fim da civilização.

Boa tarde!

Por que falam assim? Reflexões sobre o discurso político europeu contemporâneo

(François Vadrot  in Resistir, 02/12)2025)


Os líderes mentem deliberadamente ou acreditam no que afirmam?


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 nunca realmente responder:   os líderes mentem deliberadamente ou acreditam no que afirmam? Colocada dessa forma, ela leva a um impasse moral. A palavra política não é um gesto isolado nem um cálculo permanente:   é o produto de um conjunto de mecanismos que precedem o indivíduo, o moldam, o constrangem e, na maioria das vezes, falam através dele.

Para compreender o que dizem as elites europeias, é preciso primeiro livrar-se da ideia de que elas dispõem livremente da sua linguagem. O que elas expressam é determinado pela sua formação, trajetória, ambiente social, papel institucional que ocupam, natureza das informações que lhes chegam, estrutura mediática em que se expressam e, de forma mais ampla, pelo universo transnacional em que foram fabricadas.

A primeira camada é a da cooptação. Os dirigentes chegam ao poder não porque desafiaram o sistema, mas porque se ajustaram perfeitamente a ele. Os aparelhos, partidos, gabinetes, administrações e instituições europeias não promovem mentes independentes, mas sim aqueles que sabem tornar os mecanismos fluidos. Progride-se adotando os códigos, não desafiando-os. Antes mesmo de exercer um mandato, aprendeu-se a não questionar as premissas do meio. Isso não significa acreditar cegamente; significa compreender que uma palavra inadequada pode ser suficiente para interromper uma carreira.

Essa cooptação cria um círculo de pertença transnacional, que não tem mais muito a ver com o espaço nacional que esses líderes deveriam representar. Eles evoluem num mundo homogéneo, círculos de pensamento (think tanks), instituições europeias, organizações internacionais, redes diplomáticas e mediáticas, onde circulam as mesmas referências, os mesmos diagnósticos, os mesmos medos, as mesmas palavras. A ameaça russa é uma evidência, a NATO e o seu alargamento um horizonte, Bruxelas um centro, a soberania nacional um arcaísmo. O discurso não analisa, sinaliza a pertença a este círculo.

A este mundo fechado acrescenta-se uma dependência estrutural da grelha americana. Há décadas que a Europa já não produz uma visão autónoma do seu ambiente estratégico. Os serviços, as diplomacias, os aparelhos militares e financeiros evoluem todos num quadro atlântico onde o pensamento americano serve de matriz.

O discurso europeu não é uma mentira, mas uma tradução. Dizer outra coisa é arriscar o isolamento. Fala-se como Washington falava, até ao dia em que Washington deixa de falar assim. E esse dia chegou. Desde a entrada em funções de Donald Trump, o discurso americano mudou.

Os líderes europeus, formados na escola atlantista, muitas vezes passados pelos programas americanos “young leaders”, encontram-se sem bússola. Tinham aprendido uma linguagem, reflexos, certezas, mas a linha diretora mudou. O seu discurso perpetua-se… por inércia. Ainda se fala como antes, mas o mundo que dava sentido a essas palavras desapareceu.

A essa dependência geopolítica acrescenta-se uma dependência económica:   a dos lobbies de alta tecnologia, financeiros e industriais, principalmente americanos, que orientam os diagnósticos, ditam as prioridades, fornecem notas e influenciam a regulamentação. Grande parte do discurso político europeu não expressa uma análise soberana, mas a visão daqueles que agora estruturam a economia:   plataformas digitais, fundos de investimento, multinacionais tecnológicas, escritórios de advocacia e consultorias internacionais. A sua linguagem torna-se a dos governantes.

Face a estas restrições coletivas, intervêm fatores individuais. Muitos responsáveis não têm o domínio técnico dos assuntos de que falam. Não porque sejam intelectualmente fracos (embora para alguns isso seja seriamente questionável), mas porque os campos de especialização, energia, armamento, finanças, indústria, digital, tornaram-se demasiado vastos para uma agenda política saturada. A informação que sobe é filtrada, simplificada, atenuada. O discurso político contém, assim, zonas cinzentas que não são mentiras, mas sim ignorância estrutural:   eles não sabem que não sabem.

Outros ajustam-se por interesse pessoal:   hoje em dia, a carreira depende de equilíbrios instáveis. Dizer o que desagrada pode fechar o acesso a um cargo europeu, a uma reconversão, a redes internacionais. A palavra torna-se uma forma de autoproteção.

E no outro extremo do espectro, há a função. Certas verdades não podem ser ditas sem causar choque:   o esgotamento industrial, a dependência militar, a fragilidade energética, o fracasso de uma estratégia. A palavra pública serve então como amortecedor. A mentira não é mais individual:   é institucional.

Aos poucos, todas essas dinâmicas se transformam em crença. Por frequentarem os mesmos círculos, lerem as mesmas notas, ouvirem apenas vozes convergentes, os líderes acabam por aderir sinceramente às narrativas que enunciam. A repetição produz convicção. A linguagem torna-se realidade.

A estrutura mediática amplifica esse fenómeno. Os meios de comunicação tradicionais já não se contentam em retransmitir a palavra política:   produzem a sua própria narrativa, que muitas vezes se torna a matriz do discurso oficial. O seu funcionamento é agora uma forma de ortopraxia[1], noção emprestada do vocabulário religioso:   não é a fé que conta, mas a prática correta. Não importa o que se acredita:   é preciso realizar os gestos, dizer as palavras, seguir o ritual. A política e os meios de comunicação instituíram uma liturgia secular em que o importante já não é a verdade, mas a conformidade ritual:   usar os termos certos, expressar as indignações certas, evitar as zonas proibidas. A ironia é que este termo ortopraxia ressoa com a ortodoxia russa, precisamente o inimigo simbólico do discurso ocidental. Para combater o “eixo do Mal”, os meios de comunicação europeus construíram a sua própria liturgia.

A questão de saber se os nossos líderes mentem ou não torna-se então secundária. O que importa não é a sua sinceridade, mas a arquitetura do mundo que fala através deles. Eles falam a língua do meio que os produziu. Não procuram descrever a realidade, mas sim conformar-se à ordem à qual devem pertencer para existir:   um sistema que os seleciona, forma, orienta, protege, constrange e, no fundo, os mantém. A sua linguagem não é uma escolha individual:   é um quadro, uma liturgia, uma ortopraxia. Compreender este sistema é renunciar à busca da sinceridade num espaço onde ela já não tem lugar.[1] A ortodoxia designa a crença correta:   aquilo que é considerado verdadeiro e deve ser afirmado como tal. A ortopraxia, pelo contrário, designa a prática correta:   a realização de gestos e fórmulas esperados, independentemente da convicção íntima. Numa estrutura ortodoxa, a principal desviante é a heresia. Numa estrutura ortopráxica, a falta grave é o gesto errado ou a palavra em falta. O discurso político europeu pertence agora a essa ortopraxia:   um ritual linguístico em que a conformidade é mais importante do que a crença.


Ver também:
A política da linguagem e a linguagem da regressão política, James PetrasA linguagem da verdade na luta de massas, Miguel Urbano RodriguesA linguagem do saqueio, Michael HudsonLer a linguagem do inimigo, Ricardo AlarcónA espécie commentatores vulgaris no terreno de política internacional, Daniel Vaz de Carvalho.

Fonte aqui

A Ursula é tão corrupta como o Zelensky. Só que a lixivia de Bruxelas lava mais branco do que a da Ucrânia…

(In Fórum da Escolha, in Facebook,15/11/2025, Revisão da Estátua)


Dizem-nos constantemente que a UE é uma “comunidade de valores” e que a Ucrânia deve “erradicar a corrupção” antes de entrar para o clube. É verdade: em Bruxelas, a corrupção não é erradicada, é gerida através da comunicação de crise.

Desde 2022, tudo começou com um pormenor aparentemente inócuo: algumas mensagens de texto entre Ursula von der Leyen e o presidente da Pfizer sobre um contrato de vacinas no valor de mais de 35 mil milhões de euros. O problema? As mensagens desapareceram misteriosamente e a Comissão recusou-se a dar-lhes acesso, alegando a sua “natureza efémera”. A situação era de tal forma grave que a Procuradoria Europeia (EPPO) confirmou, em outubro de 2022, a abertura de um inquérito à “aquisição de vacinas contra a COVID-19 na União Europeia”.

Em 2024, uma pergunta escrita de um eurodeputado recordou a todos que o presidente estava a ser investigado por “conflito de interesses, abuso de confiança e corrupção” nos contratos de vacinas negociados por SMS. Em maio de 2025, o Tribunal Geral da UE proferiu uma dura reprimenda: considerou ilegal a decisão da Comissão de negar o acesso às ditas mensagens, sendo uma violação do direito de acesso aos documentos e da “boa administração”. Simultaneamente, um grupo no Parlamento falou abertamente sobre a “corrupção ao mais alto nível das instituições europeias” em relação a este Pfizergate e exigiu a criação de um órgão de ética independente.

Embora as mensagens SMS tenham desaparecido, o dinheiro continuou a ser uma realidade. Dezembro de 2022: “Qatargate”. Malas de dinheiro, no valor de 1,5 milhões de euros, foram apreendidas a autoridades eleitas, atuais e antigas, próximas do governo em Bruxelas, incluindo a vice-presidente do Parlamento Europeu, Eva Kaili, e o ex-eurodeputado Antonio Panzeri. A acusação: terão sido subornados pelo Qatar e por Marrocos para melhorar a sua imagem e influenciar decisões europeias. O Parlamento admitiu-o tacitamente nas suas próprias resoluções, falando da necessidade de reforçar “a transparência, a integridade, a responsabilidade e o combate à corrupção”.

Para agravar a situação, em janeiro de 2023, a presidente Roberta Metsola, com a mão no coração, prometeu que “a corrupção não compensa e tudo faremos para a combater”. Poucos meses depois, o mesmo Parlamento reconheceu, por escrito, que o quadro ético da UE apresentava “graves deficiências” por se basear na autorregulação. Daí a necessidade de um “órgão de ética independente” para tentar restaurar um nível mínimo de confiança. Quando é necessário recorrer a um organismo externo para verificar se os guardiões da virtude não estão a desviar dinheiros públicos, percebe-se que a situação é…preocupante.

Na Ucrânia, a história repete-se, mas é filmada com uma câmara frontal. A agência anticorrupção NABU publica comunicados de imprensa, números, documentos editados e gravações de escutas telefónicas. Em 2025, descobriu um vasto sistema de “gestão paralela” na operadora nuclear Energoatom: os contratados tinham de pagar 10% a 15% de cada contrato em subornos, ao ponto de “a gestão de uma empresa estratégica com mais de 200 mil milhões de hryvnias em receitas anuais ser realizada não por funcionários oficiais, mas por pessoas sem qualquer mandato”. Noutro caso, o NABU e a Procuradoria especializada desvendaram um esquema de corrupção nos contratos de drones e sistemas de guerra eletrónica: contratos sobrefaturados, subornos até 30%, envolvendo um membro do Parlamento, autoridades locais eleitas e oficiais da Guarda Nacional. Sob pressão pública e de Bruxelas, Zelensky foi forçado a restaurar a independência do NABU, que tinha tentado restringir, e a denunciar estes casos como “absolutamente imorais”, ao mesmo tempo que agradecia publicamente às agências anticorrupção pelo seu trabalho.

Por outras palavras: em Kiev, registam as transações obscuras, rastreiam os fluxos financeiros e divulgam as gravações telefónicas. Em Bruxelas, apagam mensagens de texto, elaboram resoluções sobre “transparência” e dizem à Ucrânia como se deve comportar à mesa das negociações.

Conclusão

De longe, a mensagem da UE é simples:

  1. Quando as pessoas próximas do governo ucraniano ficam com 10 a 30% dos contratos de drones e de energia, é um escândalo que ameaça “a perspetiva de adesão”;
  2. Quando o Presidente da Comissão negoceia dezenas de milhares de milhões de euros por mensagem de texto com um CEO e depois perde as mensagens, não é corrupção, é “boa administração, embora passível de melhorias”.

Exigimos um Estado de Direito cirurgicamente preciso a Kiev, controlado pela NABU, SAPO, EPPO, OLAF e pela sombra do Parlamento Europeu, enquanto, no “coração da Europa”, se acumulam sacos de dinheiro, as leis são revogadas e descobrimos, para nossa surpresa, que a autorregulação ética não funcionou propriamente.

Em última análise, o único crime real da Ucrânia aos olhos de Bruxelas não é a corrupção, mas sim a sua vulgaridade: Lá, roubam descaradamente, com agressividade excessiva e de forma muito ostensiva, com escutas telefónicas, revistas e fotos de malas. Cá, prefere-se a versão premium: contratos obscuros, mensagens de texto que desaparecem, grandes pronunciamentos sobre democracia… e uma frágil proteção moral.

A Europa exige “tolerância zero” à corrupção de Kiev. Talvez devêssemos começar por testar o conceito internamente antes de o tornar um critério de adesão…

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