A União que naufraga

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 13/05/2016)

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Baptista Bastos

 

E a Europa é inexistente com muros e arame farpado que impedem de fugir os milhões de foragidos dos vários desesperos nacionais. Sempre me senti europeu, e não precisei desta União para o ser.

A União Europeia não serve, pelo unilateralismo das suas decisões e pela ausência de solidariedade. As vozes que clamam contra esta anomalia, que dissolveu os propósitos generosos dos seus idealizadores, são muitas e múltiplas. As exigências de Bruxelas às nações ofendem as características dos povos, da sua História e da sua cultura. A Europa é alemã por imposição do mais forte. E enquanto os pequenos países sofrem a tenaz de uma política autoritária e tirânica, a Alemanha abarrota de dinheiro. Os pequenos países tentam desembaraçar-se deste cerco, sem quererem deixar de pertencer à União, mas à União do projecto inicial. Os partidos tradicionais são contestados pela subserviência demonstrada ante a Alemanha. A “alternativa” deixou de existir, substituída pela “alternância”. Como quem diz: baralha e sai sempre o mesmo.

O resultado mais visível desta alteração de poderes doentios está em Espanha, com o Podemos, e, em Portugal, com a aliança de vários partidos. Mas o mal-estar é generalizado. François Hollande, pobre homem, alinha despudoradamente com a senhora Merkel, que é apenas um factótum dos grandes interesses financeiros. A senhora Merkel é uma triste mulher, apenas porta-voz dos predadores que estão a conduzir a Europa para um abismo sem salvação.

Não digo que os próprios dirigentes o não sintam e, de quando em vez, o não digam publicamente. É o caso de Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, que afirmou, recentemente, que “A Europa é cada vez menos União.” E acrescentou que “parece uma bicicleta sem ar nas rodas.” O que levou Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, a concluir: “Uma bicicleta sem ar nas rodas, cai.”

Não se pode viver com esta tirania do autoritarismo. E a Europa é inexistente com muros e arame farpado que impedem de fugir os milhões de foragidos dos vários desesperos nacionais. Sempre me senti europeu, e não precisei desta União para o ser. Quem defende e protege este modo de vida são, esses sim, contrários e inimigos dos princípios que nortearam os europeus decentes e íntegros. Esta Europa procria o ódio, alimenta o rancor, hostiliza os povos e submete-os a baias de terror impositivo.

Temos sofrido, na carne e na alma, a assunção de valores novos que mais não são do que vectores de desagregação. Esta União Europeia é instigadora da submissão e da abominação. A luta para que a União regresse aos caminhos propostos é, também, uma luta contra o Partido Popular Europeu, que alberga gente do piorio sob o ponto de vista da ética política. Nunca será demais denunciar os perigos a que esta política poderá levar. O ovo da serpente não foi totalmente esmagado.

Um livro para fazer reflectir

Falo de “O Deputado da Nação”, escrito com a sabedoria, o humor e o talento de Manuel da Silva Ramos e de Miguel Real. A realidade não é observada como “um espelho que passa pelo caminho”, como queria Stendhal, mas através das experiências morais e culturais dos dois escritores, e da opinião que têm do país, nesta época cheia de anomalias, embustes e indignidades. É uma bela edição da Parsifal, que refresca o espírito e nos anima a não desistir.

A mercearia continua a dominar a UE

(Nicolau Santos, in Expresso, 30/04/2016)

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Os ministros europeus das Finanças reuniram-se e concluíram: 1) que é uma confusão para saber quem está a respeitar o Pacto de Estabilidade com base no défice estrutural; 2) que é necessário encontrar um indicador mais fiável, que pode passar por limitar a despesa pública à taxa de crescimento do PIB potencial. Ora vamos por partes. Em primeiro lugar, o Pacto é de Estabilidade e Crescimento, mas desta segunda parte os eurocratas de Bruxelas e do Eurogrupo nunca falam. O que insistem é nas continhas de mercearia e o crescimento virá por acréscimo. Bastava olharem para o Japão dos anos 90 para concluírem o contrário. E bastava pensarem mais um bocadinho (e Mario Draghi já o disse e Paul Krugman, em entrevista ao Expresso na semana passada, também o reafirmou) para concluírem que a Europa não sairá dos crescimentos agónicos e dos perigos da deflação sem que, a par da política monetária agressiva que o BCE vem conduzindo, se junte um empurrão forte vindo da política orçamental. Mas como os eurocratas de Bruxelas e do BCE se preocupam apenas com os défices e absolutamente nada com quem tem excedentes, é claro que a Eurolândia funciona de forma cada vez mais engasgada.

Uma coisa é certa: se a regra de limitar a despesa pública à taxa do crescimento potencial do PIB for aprovada, sê-lo-á ainda e sempre porque a Alemanha está de acordo.

Voltemos ao Pacto. As regras eram muito claras: défice inferior a 3% e dívida abaixo dos 60%. Não havia como enganar. Mas uma coisa é o que está escrito, outra a prática. Fossem os primeiros a furar as regras pequenos países periféricos e outro galo cantaria. Mas não. Logo foram a França e a Alemanha a pisar o risco. Claro que a Comissão engoliu em seco e não disse nada. O mau exemplo estava dado e depois toda a gente foi pecando, até que nasceu o Eurogrupo, uma estrutura europeia que não está prevista em nenhum tratado mas que passou a atuar como se tivesse sido ungida para manter a ordem na casa. Impuseram então o défice estrutural, que tinha de ser reduzido em 0,5% todos os anos para se chegar aos défices nulos. Não correu bem, porque o défice estrutural é difícil de calcular e pede-se muitas vezes um esforço suplementar aos países que não levam em conta os valores do défice orçamental. Portugal é um bom exemplo, pois apesar de o défice apontar para 2,2%, teve de proceder a novos cortes para cumprir a redução do défice estrutural que o Eurogrupo exige.

Uma coisa é certa: se a regra de limitar a despesa pública for aprovada, sê-lo-á ainda e sempre porque a Alemanha está de acordo. Como António Goucha Soares prova exuberantemente no seu mais recente livro, “Euro — e se a Alemanha sair primeiro?”, Berlim impôs à Europa as “suas” regras e a “sua” visão da moeda única, que se tornaram dominantes na União — uma orientação que leva Mario Monti e outros “a considerar pela primeira vez se não estamos a caminhar para a desintegração”.


A pequena vingança de Isabel

Isabel dos Santos vetou a proposta de alteração estatutária do BPI, que permitiria a Fernando Ulrich continuar como presidente executivo, apesar de ter atingido o limite de idade. Não foi pela competência de Ulrich, com resultados comprovados ao longo dos anos (os lucros resceram 48,3% no primeiro trimestre do ano), mas sim uma vingança da empresária angolana porque considera (e bem) que na luta pela resolução do problema do Banco de Fomento de Angola, o CEO está completamente alinhado com o que o La Caixa defende. Dir-se-à que não serve para nada. Se ganhar a OPA com mais de 50%, o La Caixa desblindará os estatutos e aprovará a continuidade de Ulrich. Mas não pode ignorar que 80% dos resultados do BPI vêm do BFA. Foi por isso que Isabel vetou Ulrich: porque quer obrigar o La Caixa a negociar nos termos que lhe interessa. E os catalães vão mesmo ter de negociar.

2 INVESTIGADORES PORTUGUESES NOMEADOS PARA PRÉMIO EUROPEU DO INVENTOR 2016 Elvira Fortunato, Rodrigo Martins e a sua equipa estão entre os finalistas do Prémio Europeu do Inventor 2016 do Instituto Europeu de Patentes, categoria de Inovação. A investigadora já tinha ganho o primeiro prémio na área da Engenharia do European Research Council em 2008 e o seu grupo tem mais de 40 patentes, entre elas a dos transístores de papel, responsáveis por mais esta nomeação. Esta distinção mostra de novo que a ciência e investigação em Portugal deram um enorme salto nos últimos 30 anos e que temos cada vez mais patentes científicas registadas. O Portugal futuro passa por aqui.


O novo presidente da CGD

A escolha de António Domingues para presidente da CGD pode marcar uma viragem importante na relação do acionista Estado com a instituição. Primeiro, a aposta é num profissional. Ora, desde 2000 que a CGD tem tido presidentes estimáveis mas sem experiência de banca comercial. António de Sousa era governador do Banco de Portugal, Vítor Martins ex-secretário de Estado da Integração Europeia, Carlos Santos Ferreira um homem dos seguros, Faria de Oliveira veio da área política e José de Matos saiu do BdP. Depois, os enormes desafios que a Caixa enfrenta exigem que António Domingues possa escolher a sua equipa sem imposições do poder político. E em terceiro, é tempo de acabar com o modelo dual de chairman e CEO, que só serve para criar entropias e não faz sentido quando o acionista único é o Estado. O sucesso de Domingues depende do cumprimento destes requisitos.


Não sei se sem poemas há país

ou se sem eles se perde o pé a fé e até

esse país que está onde se diz

Ai Deus e u é?

Alguns julgam que é tanto vezes tanto

capital a multiplicar por capital

país é um café e a mesa a um canto

onde um poeta sonha e escreve e é Portugal.

Levantou-se a velida levantou-se alva.

Por mais que o mundo nos oprima e nos esprema

há sempre um poema que nos salva

país é onde fica esse poema.


Manuel Alegre, ‘País’, in “Nada está escrito”, Dom Quixote 2012. Manuel Alegre recebeu no dia 25 de Abril o prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores.