Raios partam o Centeno

(In Blog O Jumento, 13/04/2017)
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Por vezes tenho muitas dúvidas sobre quais os debates de mais baixo nível, se os debates de futebol na CMTV ou na TVI24 ou se o debate político nacional. Tal como no futebol já não se discute o jogo para assistirmos a horas intermináveis de discussão sobre faltas e caneladas; na política a direita não tem o mais pequeno interesse sobre a qualidade das políticas, para transformar o debate numa sequência de discussões da treta.
Se o Pina fosse para líder do CDS e o Guerra para líder do PSD; passando a Assunção Cristas e o Passos Coelho para comentadores desportivos a diferença não seria muita, a qualidade e o nível de argumentação dos quatro está ao mesmo nível. Em vez de ir fazer queixas a Belém a Cristas passava a exigir reuniões com o presidente da Liga, enquanto Passos deixaria de dizer que o culpado disto tudo é o Centeno para se queixar do árbitro.
Há uns tempos andavam todos asfixiados, as esquerdas estavam acabando com a democracia, a situação era tão grave que até a Cristas pediu uma audiência a Belém. Mais ou menos pela mesma altura, todos os dias se ouviam queixas de favorecimento de algumas autarquias por parte do governo, numa estratégia de manipulação para ganhar as eleições autárquicas.
Entretanto o que começou a dar foram as mensagens de SMS de Centeno para um tal Domingues de Má memória. Com as metas orçamentais a serem cumpridas e o procedimento dos défices excessivos a caminho do arquivo eis que temos um ministro que vai mentir ao parlamento, local que, como se sabe, é à prova de mentira e de mentirosos.
Mas parece que as mensagens de SMS deixaram de ter interesse e o pobre do Aguiar-Branco ficou a falar sozinhos o que, convenhamos, até é da maior conveniência pois quando tal personagem fala temos inveja dos que usam aparelhos auditivos com telecomando, podendo desligar o som. Agora o que está a dar é não termos ido às trombas ao Jeroen Dijsselbloem.
Depois de António Costa ter pedido a demissão da personagem o mínimo que se esperava era que Centeno tivesse ido a Malta para ir aos fagotes ao presidente do Eurogrupo. Se não tivesse tempo para estar presente na reunião não deveria ter mandado o secretário de Estado mas sim esse símbolo nacional que é o jovem Marco “Orelhas”. O mínimo que se exigia em nome da nossa honra era terem partido o nariz do Jeroen Dijsselbloem em três sítios, pois como todos sabem por estas bandas, dizer que se gosta de mulheres é um crime de homofobia e quanto a copos só se forem os putos das viagens de finalistas.
Raios partam este Mário Centeno, consegue reduzir o défice abaixo do Cadilhe, que estava para os orçamentos como a Rosa Mota para as maratonas, consegue devolver rendimentos e ajudar Cavaco a pagar as despesas e a comprar os carapaus para alimar, e consegue que a economia cresça. Até a Teodora que tem cara de quem só acredita em pastorinhos veio dizer que era um milagre, ainda que milagre mesmo tenha sido o cardeal patriarca ter falado bem da geringonça. (Ver aqui)

O denso nevoeiro dos números

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 12/04/2017)

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Há muitos anos aconteceu o mesmo ao indicador do desemprego. Agora é a vez do défice. Enquanto indicador estatístico de qualidade o défice está a perder utilidade a olhos vistos, vítima dos sucessivos assaltos políticos (e politiqueiros) que fazem dele gato sapato para tudo menos para tomar decisões políticas e financeiras sérias.

Já tínhamos o défice corrente, o global e o primário, complicados pelos contorcionismos políticos de Bruxelas, que para poder instrumentalizar o cálculo do défice começou a decidir que algumas medidas eram para contar e outras não, consoante critérios cada vez menos compreensíveis, como saber-se o que é repetível ou o que é extraordinário, sendo que o que tal seja muda de dia para dia. Acresce o novíssimo défice estrutural inventado num dia de nevoeiro, que é suposto medir o défice hipotético de uma Economia utópica (e virtual), o que é um exercício com o rigor que possam imaginar. Versões a mais para um indicador que deveria ser simples. Receitas menos despesas. Mais nada.

Não contentes com isso, os nossos políticos decidiram que o défice se passava a calcular de maneiras ligeiramente diferentes conforme lhes convém. De Passos Coelho a Assunção Cristas, cada um cuspiu para o ar o número que lhe veio à cabeça (sim, porque cálculos publicados, zero, isso dava trabalho ou lá como se chama essa coisa). Ora tiram aqui, ora colocam acolá, sem critério cientifico que se vislumbre (mas com muito oportunismo à vista), confundindo tudo e todos, em troca de uns minutos nas notícias e da promoção de uma descarada visão do mundo segundo a qual, se os factos não nos agradam, inventamos outros. Tem tudo para correr bem.

De caminho, algumas entidades com obrigações de serviço público acham que têm de embarcar no disparate. O Conselho de Finanças Públicas, que promove a transparência orçamental total, excepto no que respeita aos vencimentos pagos aos seus dirigentes, não perdeu a oportunidade de meter o bedelho na conversa. Mal, para variar.

Em cima de Bruxelas que já põe e tira verbas do défice, o Conselho entendeu fazer a sua própria apreciação do que eram ou não medidas pontuais no défice de 2016. Imitou os piores dos políticos, nem mais, nem menos. Mesmo assim, e a contragosto, lá conclui que se teria cumprido na mesma os 2,5% comprometidos com Bruxelas. Imagino a desilusão.

Coerência com anos anteriores? Zero. Clareza de metodologia para permitir replicar resultados? Zero. Utilidade para o interesse público das contas assim marteladas de forma avulsa? Zero. Número de menções a Teodora Cardoso nos órgãos de comunicação social? Muitas (e cá vai mais uma, pronto, é inevitável). A primeira presidente do CFP ainda se arrisca a ser a última.

Em qualquer País civilizado isto era um escândalo. O Conselho de Finanças Públicas anda reiteradamente a jogar o jogo político, escudado na sua independência, puxando por

umas políticas e condenado outras com base em preconceitos ideológicos a mais e análise cientifica dos dados a menos. É, simplesmente, insuportável.

Pegar em total independência, bons técnicos, consenso político de apoio, orçamento generoso e acabar ao nível da líder do quinto partido na Assembleia é obra. Não é é uma boa obra.

Ficar calado deixou de ser opção: ou o Conselho de Finanças Públicas passa a servir o interesse público, em vez da mundividência pintalgada de ideologia da Dr.ª Teodora Cardoso, ou passam a financiar aquilo através de uma entidade privada qualquer, que o contribuinte merece melhor sorte. Fica o desafio.

Semanada

(In Blog O Jumento, 02/04/2017)
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Esta semana é marcada pelo princípio do fim da saga da família Espírito Santo na banca portuguesa, ainda que não se possa dizer que o país se tenha livrado do buraco que cavou na economia portuguesa. Como era de esperar o PSD assobiou para o ar, Passos Coelho sabe muito bem que foi ele que conduziu todo o processo e que na hora de deixar o governo deixou um dos seus secretários de Estado a vender o banco. Já Assunção Cristas aproveitou para denunciar mais uma desgraça causada pelo diabo deste governo.
Poucos repararam na diferença de postura de Passos Coelho quando extinguiu o BES e de Costa no momento do anúncio da venda; um não deu a cara e deixou essa tarefa ao pobre do Carlos Costa, o outro assumiu a responsabilidade, poupando o governador e o ministro das finanças. Mas a SIC depressa viu nesta atitude de Costa um gesto oportunista, o primeiro-ministro chegou-se à frente para dar boas notícias. Enfim, não se percebe muito bem se esta agressividade da SIC com Costa é do foro da política, da economia ou da psicologia.
O país perdeu a noção do ridículo e não serão poucos os turistas que ao chegarem à Madeira darão uma gargalhada quando ouvirem o comandante dizer o nome do aeroporto. As gargalhadas serão ainda mais ruidosas quando virem o busto do Cristiano à saída do Aeroporto.
Quando chegarem ao centro do Funchal e virem a estátua de um Ronaldo sobre-dotado nas partes irão concluir que este país está doido. Imaginem o que diria o tal turista finlandês de que Passos Coelho tanto falou, ainda nos vai dizer que será ele a pagar tanto bronze dedicado ao mais ilustre filho deste pobre país.
Depois de um ano a rogar pragas ao défice orçamental, Teodora Cardoso deixou de dar palpites neste capítulo e até aceita que em 2017 tudo vai correr bem no capítulo orçamental. Mas a pobre senhora não atira a toalha ao tapete, agora aderiu à tese do PSD e em vez de fazer previsões orçamentais argumenta com a dívida. Este foi um ano horrível para a pobre senhora, viu a sua credibilidade ser transformada em anedota nacional e acabou por ter de engolir um défice com que nunca sonhou. Mas a senhora é teimosa, depois de tanta humilhação não pediu a demissão e até deu início a mais uma cruzada.