Desistorização do tempo: ausência de perspectiva histórica, desesperança de um novo futuro

(Por Frei Betto, in Diálogos do Sul, 30/04/2026)

Broken antique clock with cracked face lying in sandy beach.

Um relógio antigo, em pedaços, jaz parcialmente enterrado na areia ao pôr do sol em uma praia. (Imagem gerada por IA).

Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais”. Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.


Enfrenta-se, hoje, um processo de desistorização [ato ou efeito de retirar algo do seu contexto histórico] do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um tempo cíclico — as coisas acontecem e se repetem — e comungavam a ideia do destino implacável — algo anterior e superior a mim traça os rumos de minha vida; e esse poder é inelutável. 

Foram os persas os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus nos transmitiram, através do Primeiro Testamento, essa ideia-forte de que tempo é história. Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, abraçaram o tempo como história três judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus (1) (Vide meu Jesus Militante – o evangelho de Marcos e o projeto político do Reino de Deus. Petrópolis, Vozes, 2024) via o tempo histórico como construção do Reino de Deus, e traçou um arco entre o princípio, o Paraíso, e o fim, a escatologia, o Apocalipse. Graças a essa herança judaica, a visão cristã imprime historicidade ao tempo. Marx ensinou a compreender melhor os vários modos de produção ao resgatar suas histórias. E Freud, ao mapear os desequilíbrios de uma pessoa, recupera a trajetória dela, inclusive garimpando-lhe os porões do inconsciente.

Quando se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde pendurar valores. A vida ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão à existência e, assim, nos faça felizes.

Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus.

Os bens da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Sem valor de mercado. Não podem ser adquiridos na esquina. Contudo, tentam nos vender simulacros. A publicidade sabe que todos buscam a felicidade. Sem poder oferecê-la, tenta convencer-nos ser o resultado da soma de prazeres. O projeto de vida baseia-se no ter e não no ser. 

Cessada a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e, portanto, corre-se o risco de perda de sentido. Na dinâmica do pensamento único, impõe-se a ideia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal é o ideal.  O que resulta dessa perspectiva? A perenização do presente: quer nos convencer que daqui a 200 ou 500 anos haverá shopping center, mercado, Bolsa de Valores, competitividade, porque ninguém ousa imaginar algo diferente. Quando muito, haverá inovações científicas e tecnológicas.

Ora, quem conhece a história sabe que Alexandre Magno sonhou com a expansão perene de seu império. Os césares romanos ambicionaram o mesmo. A Igreja, no período medieval, acreditou haver chegado ao Reino de Deus na Terra. Hitler ousou chamar o seu projeto de Terceiro Reich, o reino definitivo da sua conquista, e deu no que deu… Stalin enveredou pela mesma senda na União Soviética. Eis uma grande asneira: a pretensão de perenizar um momento histórico. 

O que preocupa em nosso momento histórico é não haver uma proposta, consistente e convincente, contraposta ao modelo neoliberal. Somos seres visceralmente vocacionados ao sonho. Somos o único animal que não pode deixar de sonhar, devido à nossa incompletude e à nossa liberdade. Uma vaca encontra-se na sua plenitude bovina, feliz; o cachorro na sua plenitude canina, precisa só de ração diária, um carinho, e fala consigo ao nos fitar: “Coitados, eles têm de fazer reuniões, discutir política, consumir notícias, enfrentar problemas familiares”. A samambaia necessita de muito pouco para ser feliz: sombra e água fresca. 

Nós não. Marcados pela carência, a nossa completude só se realiza no sonho, no amor ou na mística. O sonho pode ser um projeto político, um objetivo profissional, uma vocação artística. Vocacionados à transcendência, não nos bastamos. 

A perda da dimensão histórica do tempo ameaça o verdadeiro caráter da cultura. Quanto mais consciência e densidade espiritual uma pessoa tem, menos consumista tende a ser. Porém, cada vez mais a cultura é atrelada ao consumismo. Perde o valor como fator de humanização para virar mero entretenimento. Há uma máquina publicitária desinteressada em formar cidadãos, e sim consumidores. A ponto de se estender isso à infância. 

Vivemos, pois, em uma situação em que a vida volta a ter dimensão cíclica, não histórica, o que torna difícil estender o varal para dependurar os valores. O sonho como utopia ou projeto passa a ser quase anomalia. “Você tem de aceitar essa sociedade tal como ela se apresenta”, insiste o pensamento único. 

A perenização do presente induz à síndrome da juventude eterna. Já que o presente é perenizado, também a nossa existência deve ser. Malha-se o corpo, mas não o espírito. Hoje, ficar velho é falta de educação; engordar então, nem se fala… 

Minha geração — a dos idos de 1968 — vive agora em desconforto. Tantos sonhos e sacrifícios, cantos e passeatas, e o olhar altivo do Che iluminando nossos ideais, para resultar em filhos que se drogam, detestam política e, de academias, só conhecem as de exercícios físicos. Para alguns, o culto do corpo compensa a atrofia do cérebro. Queríamos mudar o mundo e criar o homem e a mulher novos; lutamos pelo fim da ditadura e fomos às ruas em festa pelo advento da democracia; derrubamos Collor como corrupto, repudiamos Bolsonaro como aspirante a ditador e, no entanto, o Haiti é aqui e Gaza fica ali na esquina, nenhum preso pelo massacre do Carandiru; não nascem flores à porta da Candelária, e sangram corações em Vigário Geral, nos complexos da Penha e do Alemão e Eldorado dos Carajás. E tantas vítimas de balas “perdidas”…

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Não seria estranho que os jornais publicassem este anúncio fúnebre: “Os senhores Derrida, Lyotard, Deleuze, Baudrillard, Vattimo e Lipovetsky convidam para o féretro de Descartes, Locke, Kant, Hegel e Marx”. Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão e nos ensinaram a situar o sujeito humano no centro do pensamento e a acreditar que a razão sem dogmas e donos construiria uma sociedade livre e justa. E nós, estudantes militantes da rua Maria Antônia, em São Paulo, ou do restaurante Calabouço, no Rio, soberbos filhos diletos da razão moderna, nos abrigamos confortavelmente em sistemas unitários, concepções totalizantes e ideologias sagradas, crentes de que a filosofia nos redimiria dos males deste mundo, cujo futuro era mera questão de geometria política.

Foram Baudelaire e Gautier que, em 1864, falaram pela primeira vez em pós-modernidade. Aferrados à razão, não nos demos conta de que é “a imperfeição da inteligência” (Tomás de Aquino). Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade — Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, a ascensão da direita, o ceticismo frente aos valores. Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história, e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

Não há doutrina especulativa que resista diante do massacre de sem-tetos, da impunidade dos assassinos de sem-terras. Hegel equivocou-se. Nem todo real é racional e vice-versa. Trabalhadores lutaram pela derrubada do socialismo no Leste europeu e pela eleição de Trump em 2024; EUA, Reino Unido, França e Alemanha, outrora pátrias de exilados, restringem a entrada de refugiados estrangeiros. As democracias funcionam para as elites e o povo não se manifesta.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a miséria circundante, a filha gasta mais em canetas emagrecedoras do que em livros, e causa profunda decepção saber que no Brasil a impunidade é mais forte que a lei. Ainda assim, relutamos frente à decisão de nos engajar para promover mudanças. Recuamos do social ao privado e, rasgadas antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais.” Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Resta-nos captar fragmentos do real e aceitar que o saber é uma construção coletiva. Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, pela descontinuidade e pelo pluralismo. A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de efeito imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva americanização de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhamos por veredas perdidas.

Esse momento de sombras e impasses deixa o vácuo que também na vida social é imediatamente preenchido por forças adversas. Não haveria narcotraficantes se não houvesse viciados com seus corações esburacados pela ausência de afeto, de perspectivas, de realização profissional, e com suas mentes atrofiadas pela falta de qualidade no ensino, de livros acessíveis ao bolso e de educação artística. Mas quando o governo de um país sonega verbas necessárias à Educação, paga mal aos professores, não exige que a TV — uma concessão pública — contribua para elevar o nível cultural da população, como estranhar que em uma geração deserdada não sejam nítidos os limites entre polícia e bandido, corrupto e profissional realizado, direito à vida e risco de morte?

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos, ainda que a redigir leis discricionárias.

* Artigo em português do Brasil de acordo com a fonte aqui

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«Homem moderno»

(Inês Torrado, in AbrilAbril, 24/09/2024)

Os avanços das ciências e das tecnologias, com evidentes conquistas para a Humanidade, têm evoluído ao serviço dos interesses e dos negócios do capital, perdendo-se pouco a pouco a vertente humana e social.

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Hoje damos mais valor ao conhecimento teórico do que à experiência acumulada ao longo da nossa História. Camões já referia que importava o conhecimento, mas aliado às aprendizagens e experiências ancestrais.

Hoje, o tempo acelerou, não sobrando espaço para os nossos rituais lentos. Tempos de encontros onde se trocavam histórias e experiências, memórias e raízes, saberes e prazeres, de outros mundos que permitiam melhor entender o nosso. 

Também no trabalho nos roubaram o espaço do prazer. Manuel Serrat relembra, quando se cantava «…a lavrar a terra, a picar a pedra, a amassar o ferro, encantando os gestos…». 

Pouco a pouco roubaram-nos a voz para acompanhar quem trabalha, mas também para dialogar, entoar poemas ou contos, cantar e embalar. A voz para transmitir informações vai ficando entregue a interlocutores robotizados e monocórdicos. E como importa ser ouvido, ser capaz de escutar para ser compreendido! 

Não nos calaram, nem nos ensurdeceram, com o silêncio nem com os sons da natureza, mas criando tanto ruído que nos entopem os ouvidos e surripiam os espaços de escuta. 

O tempo, hoje, desvaloriza a mão e tudo o que esta representa para a Humanidade. Julgo até que a mão nos relembra a nossa dimensão.

Hoje, os teclados e os botões são a regra, usando apenas alguns dedos.

Tantos anos a desenvolver a capacidade da mão para trabalhar, escrever, desenhar… E com elas nos exprimimos, pensamos, criamos, mas também nos cumprimentamos, tocamos, acarinhamos. O uso das nossas mãos está intimamente ligado ao desenvolvimento e à activação do cérebro. O desuso das mãos poderá colocar o cérebro em cheque…

Roubaram-nos a capacidade de olhar e de nos encantar. Continuamos a ver, mas como absorver tantas informações, demasiado rápidas e excessivas, que nos cegam, nos distraem e que não conseguimos memorizar, ficando uma «amnésia» de tanto excesso!

Roubaram-nos a mobilidade, passando a maior parte do tempo sentados a trabalhar, ou refastelados no sofá e entretidos por ecrãs. Como integrar no nosso dia-a-dia a mobilidade no trabalho, no lazer, no brincar? Resta-nos, após o dia de trabalho, ir tonificar e relaxar para os ginásios, como uma reabilitação obrigatória e individual.

Roubaram-nos o conhecimento, a cultura, as recordações, ficando tudo guardado em memórias externas, na internet. Até o pensamento fica atrapalhado, confundindo onde encontrar as informações com o conhecimento destas. Também os pensamentos mais complexos e profundos ficam dificultados pelo desuso das nossas memórias e a perda da nossa literacia.

Agora querem-nos roubar e artificializar a inteligência… já conseguem falar, responder, escrever e criar por nós… 

Pode saber bem viver adormecido, mas um dia roubarão as nossas almas.

Acordai!

Outros 25 de Abril

(José Pacheco Pereira, in Público, 27/04/2019)

Pacheco Pereira

As coisas podem mudar no futuro, porque o futuro é imprevisível, mas 45 anos já estão no papo.


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O que dá vida ao 25 de Abril em 2019 é nele caberem várias causas para além da celebração da data de 1974. É já uma manifestação internacional, com presença de brasileiros, de catalães, de franceses, de alemães, alguns dos quais vivem em Portugal, e outros são turistas que sabem muito bem o que estão a fazer e não se ficam pelos monumentos nem pelas sardinhas. Quer as cerimónias oficiais, quer as chamadas “comemorações populares”, são interessantes de seguir para além do dilema que mobiliza os jornalistas quando não há mais nada para dizer: quem leva cravo e quem não leva. (De passagem repito que nunca levei cravo na Assembleia, primeiro porque não preciso de mostrar nada, segundo, porque não gosto da flor.) Na Assembleia já assisti a discursos ridículos em que, à direita, houve quem citasse Rosa Luxemburgo, depois de uma consulta apressada à Wikipedia, como tendo feito declarações em 1921, ou seja, dois anos depois de estar morta. E este lado oficial substituía-o muito bem por ver a Assembleia, Governo e autoridades “comemorar” o 25 de Abril com uma obra qualquer que passasse a ser ligada a esta data, um centro de saúde numa zona do interior, uma biblioteca, um jardim, mais uma linha de transportes públicos, etc. Em muitos casos é até mais barato do que as pompas militares e civis desse dia.

Mas a rua é de um modo geral mais interessante, numa manifestação mais “livre” e mais plural do que é costume, em que o PCP participa com um elevado número de militantes, mas não lhe dá o tom. Das Toupeiras ao BE, a outros grupos esquerdistas e de causas, ecologistas, feministas, LGBT, ou mesmo a participações individuais de um solitário com uma queixa ou uma causa, todos vão lá. É também uma manifestação mais diversa etariamente, com a participação de casais e famílias, num ambiente que vai da luta à festa.

Com imagens tiradas no 25 de Abril pelos voluntários do Arquivo Ephemera vamos revisitar o dia.

1 A primeira imagem mostra uma pequena manifestação no dia 25 de Abril do Movimento dos Coletes Amarelos Portugueses com cerca de 20 pessoas. Ao manifestarem-se no 25 de Abril, fazem uma homenagem irónica ao significado da data, provavelmente não pretendida. As palavras de ordem da manifestação são aceitáveis embora contraditórias: “Corrupção = Prisão”, “IVA mais baixo”, “combustível mais barato”, aumento do salário mínimo”, “abolição das portagens das Scut”, etc.. Mas a afirmação, mais do que palavra de ordem, do cartaz que reproduzimos é que tem um imenso problema. “Aqui não há partidos”, ou seja, não há democracia. Ponto.

2 A Iniciativa Liberal, que participa pela primeira vez, é um novo partido normalmente classificado à direita do espectro político. Mas, como se passa há muito com a dicotomia esquerda/direita, ela é muito pouco esclarecedora da complexidade da vida política dos dias de hoje. Como já escrevi, a dicotomia esquerda/direita não é heurística, não permite esclarecer muita coisa e, quando é aplicada, dá resultados simplistas ou confusos. Os libertários americanos, por exemplo, não querem Estado, mas querem a liberalização das drogas. Têm nas suas sedes Bakunine e Milton Friedman. Hoje, em Portugal, há muitos que se autodenominam liberais quando na realidade têm as mesmas causas de Steve Bannon, ainda que com palavras mais mansas. Mas esses não estiveram na manifestação do 25 de Abril, estiveram em suas casas a espumar contra o “marxismo cultural”, coisa que obviamente não sabem o que é.

3 Os catalães manifestaram-se em Lisboa pelo direito à autodeterminação da Catalunha e em solidariedade com os presos políticos a ser julgados em Madrid por “sedição” e outros crimes que, no contexto das pessoas presas e das suas causas, são pretextos jurídicos para perseguições políticas. Se a acusação e os juízes se tomarem a sério no que dizem e no que fazem, vão ter penas da ordem de dezenas de anos de prisão. Na verdade, a causa dos presos políticos é a que no 25 de Abril deveria estar no âmago da manifestação, desde a frente até à retaguarda. Pode haver quem não concorde com a independência da Catalunha, embora haja alguma hipocrisia em quem traga um autocolante ou um pin a favor de Rojava, o território curdo da Síria, ou do Curdistão. Mas os presos que foram libertados de Caxias e de Peniche sempre contaram com a solidariedade de estrangeiros, e devemos o mesmo aos catalães.

4 A última imagem mostra um miúdo a puxar para a frente uma senhora, que pode ser a sua mãe ou avó. Não sabemos as motivações da criança, pode ter feito este gesto porque estava farto da manifestação e queria ir-se embora depressa. Mas a imagem tem um valor simbólico. A senhora atrás viveu o 25 de Abril, a criança nem deve saber o que é. Não vou aqui repetir os lugares comuns sobre o futuro e o passado, mas lembrar que a memória e o sentido da memória dura muito pouco. Quem é que hoje sabe alguma coisa sobre os “bravos do Mindelo”? Conta-se pelos dedos da mão. Com o 25 de Abril, vai acontecer o mesmo, com o tempo, esse mestre da usura das coisas. Mas, ainda hoje, Portugal é diferente, e milhões de portugueses viveram e morreram desde 1832 de forma diferente, por causa dos “bravos do Mindelo”, e o mesmo se aplica ao 25 de Abril de 1974. As coisas podem mudar no futuro, porque o futuro é imprevisível, mas 45 anos já estão no papo.