Sócrates e a entrevista

(Joseph Praetorius, in Facebook, 16/12/2015)

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Joseph Praetorius

Excepcionalmente e por motivos de que não falarei agora, ontem vi a televisão de parvagal em razão da segunda metade da grande entrevista a José Sócrates. Também vi a primeira metade. E os comentários anexos a uma e outra.

Espanto-me por não haver radicais que se pronunciem quanto às coisas mais evidentes ali. Comecemos pelas questões políticas, porque nestas coisas a Política deve vir em primeiro lugar.

Agradou-me que José Sócrates tenha apontado aos alvos sobre os quais é imprescindível disparar: Santana Lopes, o gerente dos asilos da Misericórdia de Lisboa e Cavaco Silva, óbvio doente de foro neurológico senão psiquiátrico.

A preparação do “processo” nos gabinetes de Lopes e Cavaco corresponde a aspectos importantes do que está em causa. Em primeiro lugar, corresponde à estrutura das personalidades em presença, às suas origens identitárias, à sua mediocridade (mais imunda que profunda), ao desequilíbrio paranóide em que vivem há décadas, à sua ânsia de serem outros, de serem como os outros, de serem os outros (todos em quadrante homossexual, portanto, se Girard não se engana) correspondendo também ao ódio doentio que dedicam a qualquer êxito alheio e necessariamente comparam aos múltiplos fiascos de que são feitas as suas repugnantes existências. Tudo ajustadíssimo.

Dispensem-me por favor de falar de detalhes, todos mais ou menos públicos, que vão desde a mulher partilhada à ânsias pornográficas da vigilância em zonas de prostituição masculina e às agoniantes escapadelas de Eurico de Melo que lhe determinaram o afastamento súbito. Tudo isto no fundo de um catolicismo sem mácula.

Na promoção do fenómeno Cavaco o oportunismo clericalista da ICAR preferiu elevar um subalterno quebradiço (Cavaco) à consistência de um homem como Adriano Moreira que com eles queria estar de alma e coração. (E eles não quiseram). Tudo isto corre, portanto, sobre a panasquice indecente das sacristias da ICAR, com os pânicos infindos do que têm a esconder. (E convém não esquecer este aspecto, sob pena de jamais conseguirmos conclusões operantes).

Corresponde o fenómeno agora identificado, também, a um outro detalhe: os recursos de deformação política da CIA que os pariu e os gere a quase todos, e, como se sabe, controla perfeitamente todos os desequilíbrios de alma em presença, conhece todos os pecados ocultos que a qualquer momento pode usar, larga a qualquer momento quaisquer suspeitas sobre qualquer um e instrumentaliza o aparelho judiciário para coisas destas (em todos os sítios onde conseguiu apodrecer as coisas para tanto), o que, evidentemente, supõe um elevado grau de decomposição – i.e. de corrupção – do próprio aparelho judiciário para que possa obedecer bem a tais intentos, como obedece, aliás (q.e.d.). A CIA é a única estrutura eficaz em presença. É preciso fazer aqui qualquer coisa. Quanto mais não seja, ao abrigo da velha conclusão em cujos termos o melhor modo de limitar um poder é instituir outro que o limite. (O que deixo a bom entendedor).

Relativamente a tudo o mais, aos vinte anos conclui que isto só lá vai com outra escola, outra imprensa e outra igreja. Para fazer outra gente, claro. E dei aulas. Escrevi em jornais. Encontrei a Igreja de que estava separado, a minha gente, como costumo dizer. Mas não há qualquer êxito à vista e eu já não terei muito mais tempo. Nem o analfabetismo desapareceu e eu imaginava que iria desaparecer com o tempo, que era coisa de gerações mais velhas. Agora há analfabetos bem mais novos que eu, por privação de frequência escolar… Não vale a pena desistir que sempre seria mais um trabalho e a morte pára todos em algum lugar, sem que precisemos de grande esforço para isso.

Regressando então àquela entrevista e àqueles comentários. Sócrates desfez naturalmente um MP instrumental de outras coisas e deixou os críticos a dizerem que os Tribunais Superiores (com raríssimas excepções, é verdade, duas, para ser completamente exacto) confirmou as vacuidades.

Não é completamente exacto. É preciso ler o lixo que ousaram ali escrever e a que vincularam os nomes com que subscreveram aquele lixo. Os acórdãos – com excepção do da “caprinologia”, que já estava integralmente grafado na cara do seu ilustre relator, porque a gente olha para a fotografia e está realmente tudo lá – os acórdãos não se pronunciam sobre questões de fundo, mas sobre questões processuais, desenvolvendo até uma técnica notável de não conhecer o que se arguira. São verdadeiros monumentos da estupidez bem servida pela erística, aqui chamando estupidez ao que S.to Isidoro de Sevilha assim chamava: o embotamento da sensibilidade daquele a quem a injustiça não comove. Um homem nessa tremenda circunstância é um estúpido. O propriamente dito. E se a maioria dos relatores chamados a intervir assim interveio, isso diz tudo do estado das gentes do aparelho de justiça. “Arrependei-vos que o fim está próximo”. O arrependimento já talvez não adiante nada quanto à vida da estrutura organizacional. Mas porventura fará alguma diferença quanto aos destinos em presença das pessoas individualmente consideradas. É o momento de se arrependerem.

Interessantes entre os comentários foram os dos advogados maduros. Magalhães e Silva, mais o homem do Distrital de Lisboa da Ordem e um penalista cujo nome não fixei. Nenhum deles se comprometeu com isto, ou seja com o aparelho. Nenhum deles deixou de marcar a sua distância quanto à prática seguida, nenhum deles deixou de sublinhar o que há de completamente indefensável nesta sequência de anomalias.

Depois vieram dois “entertainers” para se confrontarem com Pedro Delille. Execrandos, qualquer deles. Um veio dizer que não tinha um amigo como Santos Silva e nesse sentimento de ausência queria fundar a justeza de um processo criminal a outro -“Não há amigos assim”, dizia mesmo a execranda criatura que a infelicidade pariu e com todos os estigmas. O outro falava do “livro” que tinha feito com “o processo” e onde constariam “as provas” de quarenta movimentos de dinheiro (!)… Portanto, aquela criatura, se bem vejo, constitui-se assistente no processo (restando ver quem lhe pagou as guias e o advogado) para de lá sacar elementos documentais (importando ver quem lhos deu) no momento em que vigorava o segredo interno oposto à própria defesa (!) e com isso publica “um livro” com o qual faz negócio, sem que ninguém lhe diga nada até agora e nem sequer ali. Pedro Delille não podia dizer-lhe nada quanto a isso, que é em todo o caso uma das anomalias piores e mais graves. Se o homem não percebeu que à luz do Direito lhe cabe o destino processual de Gonçalo Amaral, não há nada a explicar-lhe. Nesse silêncio Delille tem razão. Resta a utilidade de dever explicar isso à audiência, è verdade. Mas não pode ser um advogado defensor a fazê-lo.

Já a seguir à segunda metade da entrevista apareceram paineleiros interessantes. Uma megera veio dizer que Sócrates está acusado. E Sócrates não está acusado. Não há acusação. Fazia estremecer como um insulto, a rusticidade da criatura, o seu pretensiosismo, o primarismo do léxico, adicionado a uma maquilhagem de meretriz dos anos quarenta (foram mazinhas as meninas da caracterização, mas a megera merecia). Alguém devia lembrar à direcção de informação da estação que “rasca” significa apenas “gritante”.

E vinha a Raquel Varela, com um aspecto inenarrável, também. Fez uma defesa apaixonada do Ministério Público. E disse porquê. Porque trata das crianças. E isso é assim realmente, ao ponto da procuradora que arquivou a primeira denúncia contra Carlos Cruz e Rito estar agora a dirigir os asilos de desvalidos. Trata das crianças, o MP. É verdade. (Que pavor). Atesta-o a multidão de abusos dos asilos de crianças desvalidas e ainda o facto de os asilos fazerem presidiários, uma vez que a vida que começa no asilo tem acabado frequentemente na prisão. É o MP que trata disto e nisto merece a consideração de Raquel Varela. Registo apenas. Trata ainda dos trabalhadores em acção de trabalho. Também é lindo o tratamento correspondente. E tratará de mais não sei o quê… Não podendo ser responsabilizado pelo processo Sócrates porque não foi o MP que fez aquilo, mas os tribunais, i.e. os juízes. Varela não tem que saber o que diz antes de falar, pelos vistos. O “dominus” do processo, em inquérito é o MP, justamente. Se os tribunais optam por lhe dar corda, enforcando-se ou não em conjunto com o MP (e aqui parece-me bem que sim) então isso não é um sinal de pureza daquele corpo de funcionários, travestidos de magistrados, mas um sinal de indigência intelectual do inteiro aparelho.

Para tudo coroar vem Paulo Morais. Sócrates arruinou o Estado com a nacionalização do BPN e mais as parcerias público-privadas. Bom… Temos a coisa razoavelmente restringida, convenhamos. A nacionalização do BPN não me agrada nada. Penso que Sócrates perdeu ali uma oportunidade de oiro para decapitar o nacional-chavasquismo. Creio que não lhe faltava apoio – embora talvez lhe possa ter faltado assessoria – e não lhe faltou sequer a advertência de Mário Soares, em público, que subscreveu o diagnóstico dos velhos economistas do PCF e falou em nacionalização dos prejuízos. A generosidade para com a corja de Cavaco saiu-lhe cara, como se vê. Quanto às parcerias público-privadas, creio que Sócrates desvalorizou algumas coisas desvalorizáveis e não atribuiu importância a outras coisas que a tinham.

Mas o que se disse relativamente às iniciativas que tomou, não é exacto. O TGV, por exemplo, foi uma iniciativa arrojada e arriscada. Curiosamente, teria dado certo. A UE suportava parte importante dos custos e o Euro caiu entretanto 30% significando isto que a obra se teria concretizado por uma parcela quase desprezível do seu valor. Dificilmente teria sido concebível melhor negócio. Em alternativa, perderam-se os financiamentos, perderam-se os investimentos iniciais (se bem percebi) e pagaram-se indemnizações vultuosíssimas.

Já o clausulado leonino das PPP – que não foram certamente inauguradas por Sócrates – foi activado pelo miserabilismo posterior. Aquilo é ruinoso porque opera. E opera porque um país inteiro reduzido à miséria, não mexe. Por exemplo, se as pessoas se deslocam muito menos e evitam as estradas pagas, por mais portagens que se estabeleçam até para atravessar as ruas, é preciso fazer face aos prejuízos e frustração de expectativas do investidor privado. E o clausulado é leonino, sim. Daria jeito que fosse outro. Mas mais jeito daria que as pessoas pudessem viver normalmente e que o país mantivesse alguma actividade e algum bem-estar, alguma perspectiva de desenvolvimento, algum investimento público. Os desgraçados varridos pelo acordo parlamentar da esquerda, gastaram quatro anos a cortar direitos, a instaurar o terror, a garantir que nada se faria, a nada fazerem, a empurrarem a classe média para miséria, a depauperarem o serviço nacional de saúde, o serviço de justiça, o serviço nacional de ensino, a segurança social – cujo fundo de garantia financeira foi empregue para comprar dívida pública – e enquanto consumavam estes crimes sem nome contra o interesse público, iam dizendo que Sócrates arruinara o pais. Para tanto usaram o que Sócrates consentiu (também é verdade) e era legalmente proibido: uma concentração indecorosa de órgãos de comunicação social, que aliás matou tudo o que fosse imprensa. Nunca a imprensa viveu tão pouco do que tem para dizer e que tem sido substancialmente nada. A imprensa é um poleiro para as vacuidades de papagaios como Marcelo e Mendes, sucedâneos e aprendizes respectivos.

Quando se afina o olhar temos a inteira máfia do cavaquismo a gritar que Sócrates é mafioso; e nem sequer faltou o sr cardeal – que se espera aprenda com urgência a estar calado – a falar do que se conseguiu neste período… Não tenho dúvidas que a indústria de produção de subsídios na estrutura que o sr. cardeal dirige viveu um periodo de grandes resultados.

Passando a factos, temos o pseudo processo onde o único crime visível é ele próprio, o processo, e, no plano geral, as parcerias público-privadas (como se tivesse sido ele a inventá-las) e o BPN. Ora, ora…

Em Sócrates poderá haver um único problema (em termos gerais) que é o da independência pessoal e económica de um dirigente político. Ser empregado por uma empresa privada após dois mandatos como Chefe do Governo não me parece coisa isenta de reparos. Mas é um problema do sistema. A tentação de ter o governo composto por altos funcionários (usando aqui o termo com a sua máxima amplitude) porque têm onde regressar depois do exercício de funções, não é limitação aceitável. E ter como ministro um empregado de interesses privados, também não. Este é um problema. Mas não é apenas um problema de Sócrates.

Sobre a liberdade de Imprensa e a proibição de o CM publicar peças do processo de Sócrates

(Joseph Praetorius, in Facebook, 01/11/2015)

Joseph Praetorius

   Joseph Praetorius

Penso – pelo contrário – que é a liberdade de imprensa e a independência da imprensa que está em causa quando uma estruturação organizacional se estabelece às ocultas entre um tribunal (que impõe o sigilo e o viola) e um jornal que aceita a sua instrumentalidade face aos objectivos do tribunal.

Falar em tribunal, neste caso, pode ser excessivo, dirão alguns. Pode ser um sector do tribunal. Isso seria verdade é claro, se o juiz tomasse imediata posição pública na defesa da presunção de inocência do arguido, bem como da sua própria imparcialidade como tribunal e do seu papel, como do pressuposto da sua independência.Mas não. Do tribunal saem informações submetidas a segredo legalmente exigido – às vezes comprovadamente falsas, já veremos porquê – mas nenhuma nota disciplinadora, esclarecedora, ou, em síntese, propiciadora e da sua própria serenidade. E portanto o tribunal ele próprio faz-se agente e revela-se interessado nesta anomalia, porque o interesse, como o entendia Cicero, é qualquer utilidade ou vantagem. Ao menos num caso, o tribunal divulgou uma perspectiva quanto a um depoimento. Completamente falseadora desse depoimento. E o MP desmentiu tal conteúdo, a solicitação de um contra interessado. Seria imprescindível a repressão desta indecente batota em que um tribunal aparece completamente contagiado pela perseguição a um homem e a todo o seu circulo de relações pessoais e sociais, de tal modo que, depois de mais de dois anos e meio, nada tem que possa plasmar-se numa acusação formal a discutir regularmente, mas deixa correr juras na imprensa sobre a culpabilidade do arguido, imprensa com parte da qual mantém relação clandestina e viciadora da concorrência (porque dá visivelmente coisas a uns e não a outros), dela recebendo em troca visivel a promoção da imagem do juiz e do procurador, essa imagem que não pode deixar de encontrar neste mesmo procedimento, um motivo definitivo de infâmia. Não se trata aqui e portanto de liberdade de imprensa, mas de outra coisa. Trata-se em bom rigor de uma perversão. Uma perversão do processo. E uma perversão das liberdades funcionais de que a liberdade de imprensa se faz, mas cuja perversão é a morte dessa liberdade. Aqui, um jornal ou um conjunto deles, com uma ou outra televisão, colocam na dependência de um crime indiciado – até agora impune em razão da qualidade do delinquente – o seu êxito comercial. Isto não pode olhar-se como liberdade de imprensa. Não há liberdade na dependência. E muito menos na dependência ilícita. Um jornal que faz isto tem que estar preparado (e visivelmente não estava) para que isto seja discutido em todos os termos (judicialmente também, portanto). Um tribunal que consente isto tem que estar preparado para o mesmo (porque não há só tribunais portugueses a intervir). E o mesmo se dirá de quem quer que com tais teias publicamente venha comprometer-se. É estranho, por exemplo, que o sindicarto do MP venha comprometer-se com isto, exigindo à defesa que não responda à difamação e ameaçando-a com o regime disciplinar dos advogados… Estas coisas são pois, parece, para sofrer em silêncio sob pena de graves males. Ora bem, pensávamos nós, como toda a gente, que um sindicato serve para defender as prerrogativas, direitos e interesses de classe profissional. Estas anomalias indiciariamente criminosas integram pois a perspectiva dos interesses sindicalmente defensáveis. E assim sendo, como manifestamente é, a inteira classe profissional representada pela direcção do procurador Ventinhas, tem que levar nas ventas. É imprescindível que leve nas ventas. Porque um corpo de magistrados que se deixa representar nestes termos (em debate público) e em pronunciamentos desta gravidade deve ser integralmente a completamente restruturado. Devendo ainda as ligações com os mecanismos de responsabilização e perseguição disciplinar dos advogados ser cabalmente indagada. O que se nos revela nesta sequência de anomalias traduz liberdades muito diferentes das que se instituiram para o combate ao arbítrio (como a liberdade de imprensa). Elas traduzem, bem ao contrário, a liberdade do arbítrio, que se exerce em práticas clandestinas, evidentemente delituais, com estruturações organizacionais indiciadas, com defesa sindical da sua existência e com invocação da possibilidade de esmagamento de quem se oponha à perseguição em que tais coisas se consubstanciam. Era o que faltava…

Quem foi que não pediu a troika?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/09/2015)

Miguel Sousa Tavares

                            Miguel Sousa Tavares

(Nota: Normalmente não faço apreciações prévias sobre os textos que publico de outros autores, até porque concordo, no essencial, com o que publico. Contudo, este texto, com o qual concordo também no essencial, contém algumas premissas e apreciações que considero excessivas. Ainda assim, como é conhecido o estilo opinioso e truculento do autor – o que não deve ser tido como um defeito, nesta época de meias-tintas e de cobardias que tendem a esbater os contrastes ideológicos e políticos -, aqui fica o texto para que se debata e se reflita. )

Estátua de Sal, 19/09/2015


1 Foi a coligação PSD/CDS que resolveu introduzir o tema da vinda da troika na campanha eleitoral, julgando com isso marcar pontos através de um raciocínio linear: quem pediu assistência financeira para Portugal e assinou o acordo com a troika foi o Governo PS; logo, quem chamou a troika foi o PS. O argumento é falacioso, deturpado e assente naquela que é, infelizmente, uma característica nossa: a falta de memória.

De facto, foi o Governo PS que conduziu Portugal a uma situação de insolvência, quando o défice público chegou aos 10%. E, por isso, teve de pedir ajuda. E antes, foi o Governo PS quem quis vender sonhos milionários a um país pobre: TGV, aeroporto, três auto-estradas Porto-Lisboa, etc.; que deixou as empresas públicas e os seus défices em roda livre, fora do perímetro orçamental; que ofereceu mais mil milhões a Jardim para pagar danos cujo montante nunca foi demonstrado; que aumentou os funcionários públicos em 6% em ano de eleições; e mais uma série de bem-aventuranças que só nos podiam ter levado onde chegámos. Porém…

Porém, o segundo Governo Sócrates apanhou em cheio com as consequências da crise das dívidas soberanas, desencadeada pelo estouro da economia de casino fomentada nos Estados Unidos. Foi Sócrates quem ouviu então, da boca de Merkel, que os tempos não estavam para cortes, mas sim para políticas de expansão que evitassem uma crise global, como a de 29. E foi ele que, logo a seguir, ouviu a orientação oposta: cortar, cortar, cortar, só o controlo do défice público interessava. Durante esses anos de inconsciência final, não me lembro de ter ouvido alguém — partidos, empresários, banqueiros, gente da cultura, das FA — que pregasse consistentemente o corte da despesa do Estado.

Pelo contrário: se os governos de Sócrates fizeram auto-estradas e criaram uma imensa massa salarial no Estado, os governos de Cavaco haviam feito bem pior; se o Governo Sócrates sonhou com uma linha de TGV assumidamente condenada ao prejuízo, o Governo de Durão Barroso chegou a projectar seis (!). Alguém se lembra de ter ouvido o país ou os seus representantes pedirem menos hospitais, menos estradas, menos gastos com medicamentos, menos autarquias, menos institutos públicos?

Julgo que todos nos lembramos do que aconteceu no estertor final do segundo Governo Sócrates. Ele tinha vindo de Bruxelas e de Berlim com o apoio da UE e de Merkel ao PEC 4. Ninguém pode saber se mais um PEC teria sido suficiente para evitar o pedido de assistência e a vinda da troika, como sucedeu em Espanha. Mas, no imediato, que o teria evitado, isso é incontestável. Mas o PEC 4 foi chumbado no Parlamento por uma coligação contranatura entre a direita e a extrema esquerda. O PSD votou contra porque sabia que isso significava a queda do Governo e a possibilidade de voltar ao poder — o que de há muito constitui o único substracto ideológico do partido; o CDS votou contra porque Portas sentiu que tinha uma oportunidade rara de, através de eleições, arrumar com o fantasma do “partido do táxi” por alguns anos; o PCP votou contra e aliado à direita, porque, vivendo ainda em 1917, tem como principal inimigo qualquer governo do PS e como principal pesadelo o sucesso de um governo PS; e o BE votou contra porque Louçã não teve coragem nem liberdade para se abster. Derrotado o PEC 4 e derrubado o Governo, a situação financeira entrou, como era de prever, em descontrolo acelerado. Mesmo assim, José Sócrates ainda quis resistir e não se cansou de avisar o que significaria a vinda da troika. Mas, finalmente, já não havia nada a fazer: era chamar a troika ou cessar pagamentos. Basta ler os jornais de então para relembrar uma quase unanimidade nacional no apelo à troika — com excepção, é claro, do PCP e do BE, que, por direito divino, estão sempre dispensados de terem alternativas sérias para apagar os incêndios que ateiam.

Quem chamou a troika foram todos os partidos e, de certa forma, todos nós

Foi isto que aconteceu há quatro anos e meio. A discussão sobre os factos históricos então ocorridos só pode ser feita num quadro de desonestidade intelectual chocante. Concedo que a actual maioria foi exímia em distorcer os factos e apagar memórias ao longo destes anos, até chegar ao ponto em que Passos Coelho é capaz de exclamar, com um ar ofendido, que dizer que o PSD também chamou a troika é uma grosseira mentira. Mas, chamou sim, chamaram-na todos. Chamaram-na todos os partidos e, de certa forma, todos nós. Pelo menos, todos os que nunca cessaram de exigir mais e mais dos dinheiros públicos, sem quererem saber quem e como pagará a factura. Nem é tanto a tão criticada afirmação de que vivemos acima das nossas possibilidades. Não sei se vivemos ou não, cada um sabe de si e das suas dívidas. Mas sei que o Estado vive acima das nossas possibilidades. E é essa verdade que ninguém quer enfrentar.

2 Vejo o debate televisivo António Costa/Jerónimo de Sousa e, pela enésima vez, constato que ainda há socialistas que não se libertaram totalmente desse terrível complexo de esquerda que tantos danos nos tem causado ao longo dos anos. Com um ar de quem procurava sempre a aprovação do seu oponente, desdobrando-se em explicações para ele, António Costa fazia o papel do aluno que espera a compreensão do professor. E este, Jerónimo de Sousa, com um ar inquisidor enquanto ouvia, repetia banalidades e chavões em que já só os maiores de 80 anos acreditam, jurando que o que não falta é dinheiro para prometer o céu e a terra, bastando lançar mão “dos lucros escandalosos dos grandes grupos económicos”. Um governo do PCP levaria o país à ruína em três meses — qualquer criança de escola o consegue entender. Que António Costa esteja ali, atento e venerando, a ouvir os maiores dislates e as mais estafadas tiradas demagógicas, como se não lhe competisse desmascarar o discurso de Jerónimo de Sousa, dá que pensar.

3 Segunda-feira passada, correspondendo a um convite de Fátima Campos Ferreira — que há treze anos, com dificuldades que é difícil imaginar, põe no ar um programa que é verdadeiro serviço público — lá me apresentei para participar num debate sobre justiça e a politização da justiça. À chegada, descobri que os representantes das duas magistraturas judiciais tinham-se baldado à última hora, talvez temerosos da campanha que algumas figuras tristes do PS tinham lançado, ao longo do dia, contra a realização do programa. Como tinha passado o dia a trabalhar e, de resto, não frequento redes sociais (não tenho Facebook, nem Twiter, nem Instagram e outros que tais), ignorava por completo a ira que um debate sobre justiça tinha despertado em luminárias como José Lelo, ao ponto de o classificarem como “um tempo de antena da coligação PàF”. Eu ia, pois, completamente desprevenido, participar num tempo de antena do PàF! E isto porque o PS temia que o programa se resumisse ao “caso Sócrates” (que esteve longe de monopolizar o debate), mas que, para o PS, é tabu absoluto.

Ora, falemos claro: o “caso Sócrates” não tem que ver com a culpabilidade ou inocência dele, que é coisa que, pelo menos para mim, só se apurará em tribunal, produzida a prova e a contraprova. O “caso Sócrates”, no que tem de importante, não é, por enquanto, a questão de fundo, mas a questão instrumental: pode alguém ser preso com as televisões a filmar em directo, pode ficar preso com requintes de humilhação, como a história das botas ou do cachecol do Benfica, pode ficar preso nove meses sem acusação, enquanto todos os dias é publicamente linchado num julgamento popular feito nos jornais, através de uma indecente e descarada violação do segredo de Justiça e da banal presunção de inocência? O “caso Sócrates” é isto, e isto merece ser discutido, em quaisquer circunstâncias, aproveite a quem aproveitar, prejudique quem prejudicar. Escudado na hipócrita frase de “à justiça o que é da justiça”, o PS não apenas abandonou Sócrates à sua sorte, como finge não ver aquilo que é essencial: a questão de saber se para a Justiça vale tudo e qualquer método é aceitável, desde que escudado no julgamento popular — que é a forma como a investigação dos chamados “processos mediáticos” tantas vezes supera a sua incompetência investigatória. Que o PS queira que o homem fique muito caladinho para não prejudicar a campanha em curso, é entre eles e ele. Que queiram que todos os outros fiquem também muito caladinhos, ao serviço dos interesses circunstanciais do partido, é pedir de mais e sem vergonha.