A operação

(Joseph Praetorius, in Facebook, 08/08/2016)
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Joseph Praetorius

O caso Sócrates conheceu há dias mais novidades, nem mais nem menos indecorosas que as novidades anteriores.
Centremos as coisas onde sempre estiveram.
José Sócrates foi detido, sob pretexto de perigo de fuga, quando regressava ao país; a prisão preventiva decretou-se com invocação de “fortes indícios” de corrupção para acto ilícito.
Correram dez meses de prisão preventiva (com quase outrotanto em liberdade provisória) e o Ministério Público ainda não conseguiu dizer que acto ilícito seria esse, embora tenha – com aquela técnica da cara séria com que o MP faz as mais desvairadas asneiras – atirado o barro à parede com uma Lei regularmente votada sob proposta elaborada pelo Ministro das Finanças (que permitia e estimulava o regresso ao país de recursos financeiros em fuga).
E verificando-se que isso era um disparate insustentável, descobriu-se a “nova solução” de Vale de Lobo que uma resolução do Conselho de Ministros (acto obviamente colegial) teria beneficiado sem que se veja como, porque as competências em causa são autárquicas e se a autarquia estava a aplicar mal a Lei, o MP deveria ter requerido em conformidade junto do Tribunal Administrativo competente.
Ainda estávamos assim quando há dias novas explosões informativas de um jornal tecnicamente insolvente vieram alertar para o facto do MP estar a investigar um dos advogados de defesa, porque seria sócio de uma “rent-a-car” que teria feito alguma coisa com um carro a que se liga Sócrates.
Um dia virá em que o MP noticiará – sempre por estes modos ínvios – que está a investigar o número de obturações dentárias de Sócrates e a investigar os seus dentistas.
Pelo caminho confessou a Hierarquia dos Tribunais uma rusticidade confrangedora e uma malevolência assustadora, o que não é pequeno problema político.
Minutou a Hierarquia dos Tribunais – com duas excepções honrosíssimas – quase em uníssono, portanto, os “fortes indícios” onde rigorosamente não podia nem pode haver sequer suspeita séria. E já nas diversas datas em que isso foi sendo subscrito não podia haver suspeita séria.
É agora esta tristíssima figura da Hierarquia dos Tribunais o grande argumento da imprensa insolvente – “dezenas” de magistrados confirmaram… É verdade. Infelizmente. Há um bom número de colégios decisores que reduziram a um quase-nada a respeitabilidade do aparelho judiciário inteiro.
No TC saiu um aresto inqualificável a dizer que se pode presumir factos em processo penal usando a própria indução (sem especificações, podendo ser a empírica, por exemplo). O Supremo Tribunal de Justiça disse que não estava em contexto processual que lhe permitisse resolver as complexas questões jurídicas em presença (!) E a Relação de Lisboa, presidida pelo desembargador Vaz das Neves (gravado em escutas telefónicas dos “vistos gold”) recusou um projecto de acórdão notável que passou a declaração de voto, transmutação operada pela Senhora Presidente da Secção.
Pelo meio e até agora, até os prazos se tornaram meramente indicativos… Durante este tempo, ou boa parte dele, o “segredo interno” vedando o acesso da defesa aos autos, serviu para proteger não o que nos autos houvesse, mas o que nos autos não estava.
Há um problema político gravíssimo aqui. Um verdadeiro buraco na concretização da Teoria Geral do Estado. É que os Tribunais imparciais com os quais haveria de julgar-se fosse o que fosse, deixaram manifestamente de existir entre nós. Por comprometimento próprio. Foi a Hierarquia dos Tribunais quem geriu deste modo a respeitabilidade que lhe restava.
Reabrindo agora as hostilidades e virando-se contra a equipa dos defensores, o aparelho demonstra que carece completamente de maturidade e equilíbrio para continuar só. Foi até agora incapaz de respeitar a disciplina intelectual mínima nestes autos – como de resto noutros, infelizmente – e a liberdade e segurança dos cidadãos exige que seja rapidamente colocado sob monitorização externa.
Tudo aqui opera de acordo com o diagnóstico de Montesquieu: nas situações de opressão extrema, a ignorância é a regra nos que comandam como nos que obedecem, porque não há nada a estudar, a deliberar ou a ponderar onde basta querer. É assim que se vive aqui, como tudo o demonstra.
É portanto imperioso requerer medidas provisórias numa queixa ao Tribunal de Estrasburgo. Ou – caso se prefira esta outra linha, que em concreto não recomendaria se alguém me pedisse a opinião – suscitar uma questão prévia de Direito da União a título de eventual reenvio prejudicial.
Do ponto de vista político, porém, é claramente imprescindível uma reforma do aparelho judiciário que inviabilize a repetição destas confrangedoras cenas. Esta gente não pode ser deixada em condições de poder repetir. Há infelizmente carreiras que devem ser imediatamente cessadas. Evidentemente.
Um aparelho judiciário neste nível de degradação é uma ameaça iminente à segurança do Estado (q.e.d.).
Quanto à Operação Marquês, o processo não existe. Não há processos assim. Processos que sejam processos, correm diante de tribunais imparciais, tecnicamente suficientes, respeitando a equidade e a disciplina própria dos actos. Este processo não existe. Existem procedimentos que surgem, quase todos, como crimes indiciados. Têm-lhes chamado processo. Mas é preciso chamar-lhes outra coisa. “Operação”, parece designação aceitável.
Sugiro vivamente que nunca mais se chame processo a isto.

Apenas coincidências…

(Estátua de Sal, 28/07/2016)
Operação%20Marquês
Ontem, dia em que se sabia  que a Comissão Europeia iria decidir sobre as sanções a Portugal, alguém, supostamente muito inteligente, mas talvez não tanto que se lembrasse que também há mais gente inteligente que poderia topar a jogada, decidiu colocar o sr. Procurador Amadeu Guerra, atual Diretor do DCIAP. a dar uma entrevista à SIC, culminando os holofotes do dia sobre o caso Sócrates com uma reportagem (nitidamente preparada com significativa antecedência) seguida de debate na mesma estação televisiva.
Esta reportagem e debate foi uma espécie de julgamento em direto baseado nas presunções do costume e nas elucubrações do sr Gomes Ferreira que disse que se farta de conhecer economistas e advogados que ganharam milhões de forma, disse ele, pouco clara, mas que engoliu em seco quando Rogério Alves lhe perguntou se já os tinha denunciado como é obrigação de um cidadão íntegro. Eu acho que o Ministério Público deveria convocar o José Gomes Ferreira para prestar esclarecimentos sobre as trafulhices, que ele diz conhecer a rodos, e abrir um inquérito, para que a Justiça não seja gozada dessa forma. Passando à frente.
Entretanto, o Dr. Amadeu Guerra, que se tinha imposto a si próprio o prazo de 15 de Setembro para concluir ou desistir da acusação a Sócrates, veio agora na referida entrevista  dizer que tal prazo poderá ser ultrapassado, “logo se verá”. Desmontemos  então o enredo.
Não convém encerrar o inquérito para se poder desenterrar o espantalho de Sócrates sempre que politicamente convenha a alguém e ontem era um desses dias: se houvesse sanções convinha desculpar  Passos Coelho e comandita e servir a efígie de Sócrates, colando-a ao Governo atual, numa bandeja de pecado a espiar; se não houvesse, como sairiam, nessa hipótese, muito mal na fotografia depois da vergonhosa campanha anti-Pátria que conduziram, teriam aí uma forma de ofuscar a vitória de António Costa e do Governo e ocultar a sua própria derrota.
Não gosta a Direita deste meu enredo? Acredito que não deva gostar e ache que isto é tudo uma grande fantasia.
Até pode ser. Mas está ao mesmo nível dos supostos indícios que se diz existirem no caso Marquês e que, ao que parece, vão levar a que os meus netos – que não tenho hoje -, ainda venham a assistir ao julgamento de Sócrates, se é que ele alguma vez vai ser julgado em Tribunal.
Só que há uma diferença: enquanto eu não acuso ninguém em concreto como sendo o autor destas maquinações, por falta de provas, – apesar de ter as minhas suspeitas -, o MP e os amigos da caranguejola na comunicação social vão acusando Sócrates,  fazendo reportagens, entrevistas e debates, sempre com o intuito de condenar quem a Justiça ainda não se atreveu a acusar em juízo, quanto mais, sequer a condenar.
Que tudo isto se passe na SICN, para mim é apenas uma coincidência, porque eu não sou o Dr. Rosário Teixeira, nem o Dr. Amadeu Guerra. Porque se fosse e pensasse como eles isto seriam fortes indícios de qualquer coisa pouco transparente e iria mandar prender o Dr. Balsemão para poder investigar sem que ele, com o seu grande poder, pudesse perturbar o inquérito.
E eu já nem falo nos fracos indícios, que transpiram diariamente do alinhaento noticioso desta estação televisiva, da ênfase que dá a certas notícias em detrimento de outras que cala ou minimiza, e sobretudo da forma como enquadra e encadeia a sequência das próprias notícias, construindo assim mensagens subliminares que em si próprias se tornam elas mesmas também notícias.
Não é que estas técnicas sejam novas no currículo da SICN, mas agora estão a raiar os limites do despudor. De forma que eu aconselhava a SICN, por transparência, a mandar colocar no canto esquerdo do écran, acompanhando os blocos noticiosos, um quadrado bem visível com os dizeres: Publicidade Paga, para que os espectadores mais incautos não comam gato por lebre sem darem por isso.
Seria mais honesto, e o Dr. Rosário Teixeira já nada teria a investigar, porque sendo publicidade paga seria tudo legal. Ao fim e ao cabo, business is business, e nesse caso já o Dr. Balsemão não teria que revelar quem paga os serviços da SICN e quem são os seus clientes.
(Imagem in Blog 77 Colinas, 28/07/2016)

Semanada – Muitas flores e poucos cheques na noite eleitoral

In Blog O Jumento,

Depois de muitos anos de muitos boatos sobre a orientação sexual de José Sócrates eis que a investigação que está sendo feita à vida do ex-primeiro-ministro já começou a dar frutos e temos de agradecer a Rosário Teixeira e ao inspector dos impostos o esclarecimento desta dúvida nacional, Sócrates não só não é gay como já teve pelo menos uma manita de mulheres. Parece que a investigação já deixou para trás muitas das suspeitas e agora toda a atenção da investigação vai para a ajuda financeira que teria chegado às ex mulheres, namoradas e amigas de Sócrates. Temos de ter esperança, O Rosário ainda vai conseguir provar alguma coisa.

A crer na comunicação da direita metade do mundo parou por causa do esboço do orçamento enviado para Bruxelas, as notícias multiplicam, por meio país já tomou posição e nunca um OE foi tão discutido como este esboço. Lá fora multiplicam-se as posições, desde as agências de rating até a fonte oficiosa de Berlim já tomaram posição. A direita parece rejuvenescida com a possibilidade de Bruxelas chumbar o OE ou de as agências baixarem ainda mais a nota da dívida portuguesa. A direita ainda não perdeu a esperança.
Passos Coelho desempenha tão bem o seu papel de primeiro-ministro no exílio, mantendo a sua postura pós-Tecnoforma, continuando a usar o pin que foi imagem de marca do governo, e a fazer acompanhar a todo o lado do seu ajudante de campo dos pontapés. O papel tem sido tão bem desempenhado que até António Costa anda meio confundido e trata-o por primeiro-ministro em pleno parlamento. Isto começa a lembrar Salazar, depois de ter caído na cadeira continuou convencido de que ainda era primeiro-ministro.
O governo anulou quase todos os concursos para chefias do Estado, os que conseguiram convencer o governo de que tinham padrinhos à esquerda sobreviveram, os outros terão de concorrer outra vez. Bilhim, o senhor que preside à CRESAP, foi reformatado e agora vai ter de abrir concursos e escolher candidatos do agrado do novo governo. Digamos que quem escolheu os candidatos sugeridos por um governo está mais do que habilitado para obedecer a outro governo.
Por onde andarão os apoiantes de Maria de Belém , os que a empurraram para uma candidatura presidencial com o objectivo de trocar as voltas a António Costa? A maioria deles despareceu mal as sondagens começaram a evidenciar o desastre, zangaram-se com a senhora por não ter convidado Seguro para a campanha. Na noite eleitoral eram apenas uns quantos e deram-lhe muitos beijinhos e palmadinhas. O problema é que o que a senhora precisa mais neste momento é de dinheiro para pagar as despesas de uma campanha que aprecia ser rica.

Fonte: Semanada