Será que Netanyahu e Zelensky fazem parte do projeto neoconservador?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/10/2024)

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites.


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Quando, em 1997, Zbigniew Brzezinski, antigo Conselheiro Nacional de Segurança do presidente Jimmy Carter, escreveu na sua obra de referência (O Grande Tabuleiro de Xadrez) o que deveriam fazer os Estados Unidos para controlar o mundo, prescreveu um programa de ação geopolítica para os EUA que inspirou a ala neoconservadora do establishment político norte-americano, e tem influenciado de modo determinante a política externa norte-americana no pós-guerra fria.

Não será de estranhar o surgimento ainda nesse ano do Project for the New American Century (PNAC), um think tank fundado por William Christol e Robert Kagan, onde se advogava ser o século XXI o século americano, onde o domínio militar dos EUA não só protegeria a segurança nacional e os interesses nacionais dos EUA, mas também estabeleceria uma Pax Americana global. Defendia ainda o PNAC que “a liderança americana é, ao mesmo tempo, boa para a América e para o mundo”.

De entre as muitas ideias avançadas por Brzezinski, pela sua atualidade, uma deve merecer a nossa particular atenção. Dizia ele que o cenário mais perigoso para o projeto hegemónico norte-americano seria uma coligação anti hegemónica constituída pela China, Rússia e Irão. Adiantando que “uma coligação que alie a Rússia à China e ao Irão só pode desenvolver-se se os Estados Unidos forem suficientemente míopes para antagonizarem simultaneamente a China e o Irão.”

Apesar do conselho avisado de Brzezinski, foi exatamente isso que aconteceu. A arrogância das sucessivas Administrações norte-americanas conseguiu alienar os seus adversários ao ponto de se coligarem contra Washington e pugnarem por uma ordem multipolar que desafia o projeto da primazia norte-americana. Não faltaram oportunidades para Washington aproximar Moscovo e Teerão do Ocidente, estupidamente desperdiçadas.

Muito se poderia escrever sobre a alienação da Rússia pelos EUA, desde o alargamento da NATO, apesar das garantias que foram dadas a Mikhail Gorbachev de que a Aliança não se expandiria para leste, à rejeição categórica da ajuda ocidental à União soviética em 1991, que impossibilitou que se produzisse na Rússia um efeito psicológico e político galvanizador semelhante ao do Plano Marshall para a Europa Ocidental no pós II Guerra Mundial, quando Moscovo procurava desesperadamente aproximar-se do Ocidente.

A invasão do Afeganistão pelos EUA foi outra oportunidade perdida para se esquecerem os acontecimentos do passado e aproximar Teerão de Washington. Em 2001, o Irão não hesitou em cooperar com os EUA na luta contra a Al-Qaeda e os talibãs. Teerão forneceu Intelligence e apoiou os EUA na operação de contraterrorismo Enduring Freedom.

Os iranianos estavam ansiosos por ajudar Washington e mostrar-lhe os benefícios estratégicos em cooperarem. No entanto, o comportamento colaborativo de Teerão não foi recompensado. Em 29 de janeiro de 2002, no discurso sobre o estado da União, o presidente George W. Bush incluiu o Irão no grupo dos países do “eixo do mal”, fazendo tábua rasa de toda a colaboração prestada pelo Irão aos EUA. Exauriu-se nesse momento, a possibilidade de se ultrapassarem experiências negativas do passado e encetar-se um novo capítulo nas relações entre os dois Estados.

A ter em conta a prosa prospetiva de Brzezinski, não será de estranhar que os três grandes focos de conflitualidade/tensão da atualidade sejam a Ucrânia, Israel e Taiwan, com os EUA a procurar tardiamente contrariar essa aliança anti hegemónica e a procurar reparar erros de cálculo estratégico passados muito difíceis agora de reverter. Como dizia Mike Pompeo, ex-diretor da CIA e ex-secretário de Estado, enganado telefonicamente por uma brincadeira feita por russos, “a Rússia precisa ser puxada de volta para a Europa, para longe da China.” Tarde piaste!

Há semelhanças evidentes naquilo que levou a União Soviética a invadir o Afeganistão, a Rússia a Ucrânia e o Irão a responder militarmente a Israel. Em todas essas situações, procurou-se, com sucesso, provocar o adversário criando-lhe uma situação psicológica insustentável. Visa-se com essas provocações levá-lo a envolver-se militarmente, utilizando esse pretexto para lhe responder e o derrotar, explorando a sua vulnerabilidade percebida.

No Afeganistão, o sucesso do apoio norte-americano aos Mujahidins que combatiam o regime pró-Moscovo de Mohammad Najibullah; na Ucrânia, a interferência de Washington na política interna de Kiev, o golpe de Estado em Maidan (2014), obra dos neoconservadores instalados na Administração Obama (nunca é demais recordar que a obreira Nuland participou em todas as Administrações norte-americanas desde a primeira Administração Clinton, em 1993), o armamento das fações ultranacionalistas e o iminente ataque às comunidades russófonas ucranianas.

No caso do Irão, o ataque a instalações diplomáticas iranianas em Damasco, os sucessivos assassinatos seletivos de dirigentes iranianos, do Hezbollah e do Hamas, muito em particular o de Ismail Haniya em Teerão, tinham como objetivo provocar o Irão, criar-lhe uma situação insustentável, não lhe dando outra alternativa que não fosse a de retaliar. Encostado à parede, o Irão respondeu à provocação e voltou a atacar Israel a 1 de outubro. O fornecimento de armamento e treino militar a Taipé ainda não colocou a China numa situação insustentável, em que não tenha outra alternativa senão intervir, como sucedeu com a Rússia e o Irão.

A Ucrânia e Israel desempenham papeis muito semelhantes no xadrez geopolítico mundial para os EUA. A primeira para controlar a Rússia, e o segundo o Médio Oriente. Se dúvidas existissem sobre isso, elas foram desfeitas num discurso do então energético Joe Biden ao Congresso norte-americano, em 1986, quando afirmou que “Israel é o melhor investimento que fazemos [EUA], caso Israel não existisse os EUA teriam que inventar um Estado de Israel para proteger os nossos interesses na região, os Estados Unidos teriam de inventar Israel.”

É também à luz disto que se deve procurar entender o comportamento de Washington, mais precisamente da ativa ala neoconservadora. Enquanto o enfraquecido Biden procura limitar a resposta de Telavive à retaliação de Teerão, de 1 de outubro, as fações da administração pública norte-americana trabalham nos bastidores em estreita coordenação com Israel, discutindo os possíveis ataques e “explorando opções de resposta ao ataque de mísseis do Irão contra Israel”, como afirmou o vice-secretário de Estado dos EUA, Kurt Campbell.

Segundo o Politico, ao mesmo tempo que a Administração Biden instava publicamente o Governo israelita a reduzir os seus ataques, “funcionários americanos apoiavam discretamente a ação militar de Israel contra o Hezbollah… figuras de topo da Casa Branca diziam a Israel que os EUA apoiariam o aumento da pressão militar contra o Hezbollah.”

Este comportamento aplica-se igualmente à possibilidade de uma contrarretaliação israelita ao ataque iraniano de 1 de outubro. Segundo o texto de Kenneth M. Pollack (Which path to Persia?) publicado pela Brookings, em 2009, o facto de os EUA afirmarem não querer que Israel ataque as instalações nucleares iranianas baseia-se numa estratégia de manter uma negação plausível enquanto, de facto, ataca o Irão, incluindo as suas instalações nucleares.

Por outras palavras, os neoconservadores instalados no poder querem uma guerra com o Irão, querem destruir a sua indústria de armamento, o seu programa nuclear, a sua economia e derrubar o seu governo, mas não querem ser alvo de condenação e retaliação a nível mundial, pelo que estão a armar/apoiar Israel para o fazer por eles.

Falamos daquilo a que Mearsheimer chamou de buck-passing. Isto é, quando uma grande potência se encontra numa postura defensiva, tentando evitar que os seus rivais ganhem poder à sua custa, pode optar pelo equilíbrio ou intervir, transferindo a responsabilidade de agir para outros Estados, mantendo-se à margem no assento traseiro.

Entretanto, multiplicam-se os apelos aos ataques ao Irão. “De facto, esta é a oportunidade ideal para destruir o programa nuclear do Irão. O tempo que o país leva para chegar a uma bomba é de uma a duas semanas. Não está previsto qualquer novo acordo nuclear. O Hamas e o Hezbollah não estão em posição de retaliar. E a República Islâmica acabou de o pedir. De facto, esta pode ser a última oportunidade para impedir Teerão de ter uma bomba.”

Na mesma linha, o antigo primeiro-ministro de Israel Naftali Bennett veio dizer que se trata da “grande oportunidade em 50 anos, para alterar a face do Médio Oriente, destruir o programa nuclear do Irão, as instalações energéticas terroristas, que se encontra mortalmente incapacitado.” “Temos uma justificação. Temos ferramentas. Agora o Hezbollah e o Hamas estão paralisados, o Irão está exposto. Há alturas em que a história nos bate à porta, e nós temos de a abrir. Esta oportunidade não pode ser desperdiçada.”

De facto, este é o momento indicado para o fazer aproveitando o vácuo de poder na Casa Branca e antes que Trump se possa vir a sentar-se na Sala Oval. Nesta matéria, Trump não é fiável para os neoconservadores, que já os tinha impedido em 2019 de materializar um ataque ao Irão. Os neoconservadores têm de aproveitar esta janela de tempo, porque com Trump no poder, se ganhar as eleições, essa possibilidade pode desaparecer.

Os projetos, as ideias e as ambições pessoais e políticas de Zelensky e Netanyahu só serão concretizáveis se inseridas numa grande estratégia, que lhes é alheia, atuando por procuração e colaborando na concretização da primazia geoestratégica norte-americana abraçada pelos neoconservadores: provocar mudanças de regime em Moscovo e Teerão (como o afastamento do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh, em 1953, que teve a aleivosia de privatizar as petrolíferas) infligindo-lhes derrotas estratégicas.

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites. O envolvimento de Taiwan nesse projeto encontra-se, por enquanto, comprometido.

A grande interrogação que se nos coloca neste momento é saber se Teerão tem capacidade para responder à retaliação israelita, como Moscovo está a responder ao desafio geoestratégico colocado por Washington. Teerão já fez saber aos EUA, através do Qatar, que a fase da contenção unilateral terminou. Está para se ver se vai conseguir dar a volta por cima, como estão a fazer os russos.

O último suspiro?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 26/09/2024)

O apoio dos EUA tem limites. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir e as sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.


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mainstream mediático tem passado a ideia, ao longo dos últimos dois anos e meio da guerra na Ucrânia, de que a Rússia é chefiada por um indigente louco, é fraca e incapaz no campo de batalha. Sem capacidade industrial sofrerá facilmente uma derrota estratégica. Essa apresentação simplista, deliberadamente falsa e enganadora das capacidades da maior potência nuclear do globo é perigosa. Criou nos analistas do ar condicionado perceções enviesadas da realidade. Não obstante a falsidade óbvia, a tese foi profusamente difundida e convenientemente subscrita.

Mas nada do propalado se concretizou. A economia russa não só não descambou como se reforçou ultrapassando a alemã (com base no PPP), e Putin reforçou a sua posição. Ao invés, a Ucrânia está feita num farrapo. A lista dos problemas que atormentam Kiev é longa. A ajuda militar insistentemente implorada não chega na quantidade nem com a qualidade desejada; Kiev não consegue mobilizar e treinar capazmente novos recrutas, nem produzir energia suficiente para o inverno que se aproxima; Zelensky tem uma taxa de aprovação abaixo dos 20%, etc. Quem questionou a infantil subvalorização do potencial estratégico russo foi malevolamente apresentado como um membro da longa manus desinformativa de Moscovo.

O caso ucraniano traz-nos à colação a incapacidade de se aprender com os repetidos erros de cálculo estratégico de Washington. Esquecemos as armas de destruição massiva de Saddam Hussein, para não falar do Vietnam, Afeganistão e Líbia, entre outros, para os quais fomos de uma ou de outra forma arrastados, sem sermos ouvidos e sem participarmos na decisão. O fim da intervenção internacional no Afeganistão é o exemplo mais recente do que se acaba de afirmar. Tal, justificará, porventura, avaliações mais sensatas antes de se comprar o bilhete e se embarcar no comboio.

Tardiamente, começa-se agora a perceber aquilo para que poucos têm vindo a alertar. O recente relatório elaborado por Mario Draghi enumera os desafios com que a Europa se confronta sem, no entanto, explicar as suas causas diretas e imediatas. Recentemente, o “Washington Post” (WP) alertava para o erro de se subestimar Moscovo, ao afirmar que “os EUA e a UE já não acreditam que a Rússia vá perder no campo de batalha, ou que a sua economia vai ser destruída pelas sanções.” “A Rússia continua a ser um poder formidável. O Ocidente não deve presumir que é uma força militar esgotada. E, é por isso, que os parceiros da Ucrânia estão agora mais inclinados para negociar e estão a dar à Ucrânia várias pistas nesse sentido.”

Um outro artigo de opinião publicado também pelo WP, afirmava que a Ucrânia está a sangrar e não consegue lutar indefinidamente. Apoiar a Ucrânia “as long as it takes” não corresponde à realidade deste conflito. O chanceler alemão Olaf Sholz veio juntar-se aos que defendem “a necessidade de “explorar possibilidades” que “abram uma saída pacífica” para guerra da Rússia contra a Ucrânia”, falando abertamente em ser tempo para se pensar seriamente em conversações.

Alguns dos patrocinadores de Kiev começaram a questionar o realismo dos objetivos estratégicos da aventura ucraniana e a perceber que Kiev não tem capacidade para expulsar as forças russas do seu território, mesmo com ajuda internacional.

Numa entrevista ao The New York Times, o antigo chairman do Comité Militar da NATO e presidente da Chéquia Petr Pavel, apoiante indefetível da Ucrânia, apelava ao realismo de Kiev e à necessidade de reconhecer que terá de fazer cedências territoriais, indo ao ponto de considerar idealista o sonho da Crimeia retornar ao controlo ucraniano.

O desespero de Kiev aumenta quando percebe que não vai recuperar os territórios perdidos, e que a ajuda internacional vai reduzir-se, qualquer que seja o presidente que ganhe as eleições nos EUA. Como se vê o apoio dos EUA tem limites. Não pode continuar indefinidamente a alimentar o buraco negro ucraniano, sem ter boas notícias. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir. Aumenta a preocupação com a diminuição das reservas norte-americanas e o que isso pode vir a representar para a sua segurança nacional. As sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.

Zelensky e os seus próximos sabem que não conseguirão vencer o confronto com Moscovo. Com o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, ensaiam uma fuga para a frente, que passa por escalar a guerra tentando, entre outras ações, desencadear um conflito entre a NATO e a Rússia. A crença e a acrisolada fé de que as deep strikes e a utilização sem restrições de armas ocidentais de longo alcance vão alterar o curso da guerra está novamente na ordem do dia.

Nesta ilusão são acompanhados, por exemplo, pela “esclarecida” primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen: “acabemos com a discussão sobre as linhas vermelhas. Não, não, as linhas vermelhas são um dos melhores filmes de comédia” Amedrontado, Putin continuará a fazer bluff e não vai reagir. Fazendo escárnio da paciência estratégica do Kremlin, alguns conselheiros de Kiev empurram-na para o precipício.

Aproveitando a ida à Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, Zelensky vai apresentar o seu “Plano para a Vitória”, ao atual ocupante da Casa Branca e à candidata Kamala Harris para os convencer da bondade das suas ideias. Donald Trump declinou o encontro com o Presidente ucraniano. Embora se desconheçam os detalhes do plano, as ideias principais são públicas.

O “Plano para a Vitória” considera a adesão acelerada de Kiev à NATO e beneficiar, entretanto, de um estatuto análogo ao proporcionado pelo artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte; ter garantias de segurança por parte dos países ocidentais, semelhantes às de um pacto de defesa mútua aquando da adesão à NATO; assistência financeira para a recuperação económica do país. O plano incluirá ainda a utilização do equipamento ocidental com menos restrições, e a possibilidade de forças da NATO serem colocadas em território ucraniano libertando os contingentes de Kiev para combaterem no leste do país.

Com a informação de que se dispõe quando este texto foi redigido, o “Plano para a Vitória” de Zelensky não passa de um ato de desespero, de alguém desfasado da realidade. É completamente inverosímil admitir que Paris e Berlim aceitem neste momento a adesão da Ucrânia à NATO, ou as garantias de segurança exigidas. O Plano não passa de uma lista de desejos, sem surpresas e sem propostas que alterem o curso da guerra a seu favor.

A recente entrevista de Zelensky ao “The New Yorker” foi confrangedora pela falta de clarividência e pelo assustador desencontro com a realidade. Alguém terá de lhe explicar que quem está na mó de baixo não dita ao adversário os termos da paz. O seu plano de vitória esbarra com a realidade do campo de batalha onde as forças ucranianas perdem terreno todos os dias. Quando questionado sobre o objetivo do seu plano, Zelensky respondeu “que não sendo apenas isso, seria enfraquecer consideravelmente a Rússia, o que ameaçaria a própria posição de Putin”.

Ao mesmo tempo que diz que se o seu programa não for aprovado por Washington irá para negociações, coloca a possibilidade de continuar a negar a possibilidade de perdas territoriais, e tornar a situação numa espécie de guerra eterna, defendendo uma solução diplomática, mas sem negociações.

As suas contradições são cada vez mais notórias e estendem-se a alguns comentadores. O “The Times” dava conta disso quando entrevistou alguns observadores atentos sobre o “plano de vitória” de Zelensky. Se, por um lado, estão convencidos de que a Ucrânia não será capaz de recuperar os seus territórios a curto ou médio prazo – as negociações para Kiev serão “muito, muito, muito difíceis e dolorosas” – por outro, afirmam que congelar a guerra na linha da frente e negar à Ucrânia a adesão à NATO, “seria um resultado catastrófico” e “definitivamente não pode ser a base para negociações”. Como Zelensky, não sabem o que querem.

Um artigo no “Politico” interrogava se estamos a fazer as perguntas suficientemente difíceis sobre a Ucrânia. Como dizia o autor, “quando a poeira assentar, será que a cobertura mediática do Ocidente terá uma nota de aprovação, ou será que, por vezes, permitimos que a nossa simpatia pela causa ucraniana ignore assuntos que não devíamos?” Quanto tempo mais demorará a perceber a dura realidade de se ter entrado no comboio errado?

O futuro da segurança europeia

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 30/08/2024)

A linguagem belicista que promove jogos de soma nula será prejudicial à Europa, como sempre o foi no passado. A arquitetura securitária europeia que vier a ser desenhada terá necessariamente de incluir a Rússia como um igual.


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Haverá seguramente melhores oportunidades para lucubrar sobre o tema. Não obstante, não nos devemos esquivar a fazê-lo quanto antes. Apesar de não serem ainda evidentes os termos em que a guerra na Ucrânia irá terminar, o status quo ante não será seguramente a solução final. O futuro desta guerra ditará o futuro da segurança europeia assim como da arquitetura de segurança no velho continente. Em causa está, acima de tudo, o relacionamento da Europa com a Federação Russa (Rússia) e o papel desta nessa arquitetura.

Nesse debate deve introduzir-se também a presente incerteza quanto ao futuro da política externa dos EUA e o que isso poderá representar para a dependência da Europa dessa mesma política para a sua segurança. Se é relativamente claro qual será a posição de Washington, caso vença o candidato Donald Trump, começam a surgir algumas pistas sobre o que poderá ser, caso vença Kamala Harris. Dois artigos publicados recentemente na “Foreign Affairs”, a revista do Council on Foreign Relations, habitat da elite norte-americana que se dedica a questões de segurança e defesa, dão-nos algumas indicações sobre a futura política externa norte-americana, ganhe um ou outro candidato.

O primeiro artigo, com o título “A Post-American Europe: It’s Time for Washington to Europeanize NATO and Give Up Responsibility for the Continent’s Security“, da autoria de Justin Logan e Joshua Shifrinson, próximos de Trump, propõe deixar a defesa europeia para os europeus, por ter deixado de ser do interesse norte-americano fazer o trabalho deles, uma vez que têm os recursos económicos e demográficos para tal. Segundo eles, desapareceu o perigo de emergir na Europa um polo de poder hegemónico que possa desafiar o poder americano. A Rússia não representa essa ameaça. Concluindo que “sem nenhum candidato à hegemonia europeia à espreita, já não há necessidade de os Estados Unidos assumirem um papel dominante na região.

O segundo, com o título “A Foreign Policy for the World as it is“, da autoria do Ben Rhodes, antigo vice Conselheiro para a Segurança Nacional do Presidente Barack Obama, vem propor um afastamento da política externa norte-americana seguida até agora, sugerindo o abandono da ideia da primazia americana. Não procurar recuperar uma hegemonia perdida, mas adaptar-se ao “mundo tal como ele é”, em que os EUA coexistem com as outras potências e não como a potência que precisa de dominar o resto do mundo. Ben Rhodes vai mais longe e chama à atenção para a insanidade de “enquadrar o confronto entre adversários geopolíticos como uma batalha entre democracias e autocracias”, sugerindo que se evite interferir na mudança dos sistemas políticos de outros países.

Apesar de distintas, estas duas abordagens apresentam algumas premissas não muito distantes. A Alemanha, o putativo embrião de um projeto hegemónico no velho continente, isoladamente ou em parceria com a França, está de rastos e tornou-se num Estado vassalo dos EUA, com tendência a aumentar.

A Europa não será um polo de poder autónomo, um par entre pares no núcleo restrito das grandes potências. Está condenada a um papel secundário subordinada aos interesses dos EUA, independentemente do presidente que se sentar na Casa Branca.

Apesar dos arrufos e das bravatas do presidente Macron, a situação da França não difere essencialmente da alemã. E com o Reino Unido não se pode contar para colaborar no levantamento de um projeto securitário europeu. Corre sempre em carril próprio. Se os líderes europeus tivessem rasgo poderiam explorar alguma margem de manobra que ainda têm e que poderá aumentar.

Qualquer que venha a ser a futura arquitetura da segurança europeia no pós-guerra na Ucrânia contará sempre com a NATO e a manutenção da relação transatlântica, mas esta última adornada com outros matizes em que os europeus terão de assumir maiores responsabilidades, o que poderá ser interessante para quem fala de autonomia estratégica, mas que até agora não deu passos consistentes para a sua concretização. Os apelos plasmados nos dois últimos conceitos de uma grande estratégia de segurança europeia – a Estratégia Global da União Europeia (UE) e o Compasso estratégico –, que visavam estabelecer um roteiro para converter a UE num ator estratégico chave tiveram uma concretização desprezível.

O debate sobre a segurança na Europa deve ainda incluir a sua dependência de recursos energéticos e de matérias-primas cuja abundância noutras latitudes limita as suas pretensões autonómicas, sobretudo se incluirmos na agenda a ambição de acompanhar a transição energética e industrial em curso. O pensamento europeu em matéria de segurança deverá levar estas dependências em consideração.

O comportamento da Europa em matéria de segurança tem sido irresponsável e contraditório. Ao mesmo tempo que desinvestia em segurança contribuía para o aumento da tensão ao participar na expansão da NATO até às fronteiras da Rússia, dois movimentos de direção oposta, dada a hostilidade da Rússia a esse projeto por não ter em conta as suas preocupações securitárias. Como se não bastasse, o ambiente de elevada volatilidade em que nos encontramos, provocado por uma medida que não interessa à Europa, somos agora confrontados com dirigentes políticos e militares europeus a falar irresponsavelmente na necessidade do continente se preparar para uma guerra contra a Rússia dentro de 3 a 5 anos.

Em oposição a estas tiradas belicistas, a Europa deveria aproveitar os sinais que emergem sobre o pensamento em curso nos EUA e substituir os discursos beligerantes por propostas de cooperação e entendimento. A linguagem belicista que promove jogos de soma nula será prejudicial à Europa, como sempre o foi no passado. A arquitetura securitária europeia que vier a ser desenhada terá necessariamente de incluir a Rússia como um igual. Tratá-la como um ator secundário não será a forma mais correta para se conseguir estabelecer com Moscovo uma relação de coexistência pacífica e de longo prazo.

As ideias atrás avançadas são cruciais para moldar o exercício prospetivo que se propõe fazer. As ferramentas e as instituições existem. Em matéria de possíveis soluções não se está a partir do zero. Pode recorrer-se a fórmulas testadas, algumas delas durante a guerra fria, que apesar de bem-sucedidas foram sendo progressivamente abandonadas. Refiro-me, por exemplo, à recuperação de medidas de construção de confiança, adaptadas às novas circunstâncias, como o Tratado sobre Forças Convencionais na Europa (1990), o Tratado sobre os Céus Abertos (2002), e o Documento de Viena (1990 e atualizações subsequentes).

Falamos de medidas assentes a montante no conceito de Defesa não Ofensiva (non offensive defence), uma forma de defesa dissuasora que exclui a opção de ataque armado contra outros Estados, com origem nos círculos de investigação sobre a paz, intimamente ligado ao conceito de segurança comum e que subverte o argumento realista do dilema de segurança.

A arquitetura a criar será sempre o reflexo do que for a evolução do pensamento norte-americano para a segurança na Europa, e estará sempre ligada à política externa norte-americana e o papel que os EUA vieram a ter no mundo, seja de nação excecional ou de par entre pares. Mas terá sempre de refletir a nova correlação de forças mundial e europeia e considerar a Rússia como um ator de primeira ordem. O facto de isso não ter acontecido no passado teve como consequência o dilema em que a Europa se encontra.

Seria interessante revisitar o conceito de Ostpolitik, independentemente das adaptações de que se possa vir a revestir. Sem virar as costas ao parceiro transatlântico, a UE deveria considerar uma política de reconciliação, o desenvolvimento de uma política realista de coexistência com a Rússia, e o estabelecimento de um pacto de não ingerência na política interna dos Estados, que termine com operações de mudança de regime na vizinhança geoestratégica das grandes potências, promova o controlo de armamento, nomeadamente do nuclear, e o estabelecimento de medidas de verificação.

Fará sentido que os europeus revisitem a proposta russa de 2008, do então presidente Dmitri Medvedev, de um tratado de segurança europeia que tornaria juridicamente vinculativo o princípio da indivisibilidade da segurança e do princípio do não reforço da segurança à custa dos outros, a qual nem sequer obteve resposta dos Estados-membros da Aliança. Essa revisitação não significaria a sua adoção total e completa, mas teria subjacente, de certo modo, o alargamento do conceito da indivisibilidade da segurança vigente no seio da NATO, a um universo mais alargado, em moldes a negociar. Seria no fundo montar um sistema de garantias multilaterais de segurança que até agora só estão disponíveis para os membros de NATO.

Isto implicaria um reforço do papel da Rússia em assuntos de segurança na Europa, que nos parece difícil de contornar, sobretudo se vier a prevalecer no conflito em curso na Ucrânia. A busca dessa solução cooperativa poderia desenvolver-se no seio da OSCE, ajustando-lhe a missão. Seria fácil reativar as moribundas medidas de construção de confiança levadas a cabo no seu seio, onde existe experiência acumulada. Isso teria como resultado o aumento de importância da OSCE na nova arquitetura de segurança europeia.

Uma arquitetura de segurança assente nas ideias acima referidas tornaria a Europa um lugar mais seguro. Dramaticamente, a Europa não tem um pensamento estratégico para a Rússia e não vê para além do ciclo político, independentemente das lideranças que se encontram num determinado momento no Kremlin.

Os europeus terão de perceber de uma vez por todas que terão mais a beneficiar em relacionar-se numa base cooperativa do que com acrimónia. Não aprenderam com o passado. Afinal, vivem no mesmo espaço geográfico e isso não vai alterar-se. A hubris impede-os de ver, como diz Rhodes “o mundo tal como ele é”. A nova correlação de forças mundial terá inevitavelmente de se refletir na futura arquitetura de segurança europeia a criar, goste-se ou não dessa opção. O não entendimento desta realidade terá consequências imprevisíveis para o continente.