A balada do Martim Moniz

(Tiago Franco, in Facebook, 21/12/2024, Revisão da Estátua)

Imagem obtida no mural do Carlos Esperança no Facebook

Costuma dizer-se que não é boa ideia lutar com um porco na lama porque, a dada altura, percebemos que não só o porco está mais habituado como, detalhe importante, gosta de ali estar.

Montenegro escolheu lutar com o Chega no lamaçal em que o partido de André Ventura vive. E assumiu-o dizendo que não é preciso que uma operação policial tenha resultados (apreensões, etc) para que seja um sucesso. Basta que seja visível e tenha um efeito dissuasor.

Assim sendo, as forças policiais sujeitaram-se ao triste papel de espantalhos e foram para o Martim Moniz encostar imigrantes à parede. Com que acusação? O facto de não terem nascido em Portugal.

A foto foi tirada por uma moradora do bairro

Dezenas de pessoas encostadas à parede, com as televisões a postos para que a “sensação de segurança” fosse restaurada. Felizmente um deles tinha um charrozito no bolso e um corta-unhas para dar algum colorido à cena.

Qualquer pessoa minimamente inteligente percebe esta operação de cosmética que consiste, essencialmente, em esvaziar a gritaria de André Ventura, tomando como dores nacionais as habituais bandeiras racistas e xenófobas do Chega.

Há no entanto um problema: Portugal não é composto por uma população cheia de intelectuais ou, vamos lá, de gente que perca tempo a ler noticias para lá dos cabeçalhos e, muito menos, a cruzar fontes. E muitos acreditam nos disparates que são ditos por personagens como, por exemplo, Rita Matias.

Na noite da operação, vociferava ela, (no canal News, julgo), que “se os imigrantes abrissem a porta não havia necessidade de os encostar à parede”. Alguém consegue acreditar neste tipo de disparares? Não conseguem perceber que esta mulher e restantes acéfalos daquela bancada passam o dia a debitar propaganda?

A história dos subsídios, de roubarem empregos, da criminalidade. Tudo desmentido por factos e números. Os imigrantes contribuem 7 vezes mais do que aquilo que recebem, pegam em empregos que português algum quer, a economia está dependente desta força de trabalho, a taxa de desemprego é baixa no nosso país (cerca de 6%) e não há qualquer dado estatístico que relacione a criminalidade com a imigração. Por fim, nós próprios somos um país de emigrantes desde que nos lembramos de ser gente.

Ainda assim, há milhares de pessoas que engolem esta propaganda diária, ignorando os reais problemas do país, como a queda do SNS, da escola pública, os baixos salários, a crise na habitação ou as redes de interesses controladas pela mesma elite corrupta há 50 anos.

Portanto, 50 nepaleses, indianos e paquistaneses encostados a uma parede, deixam-nos logo com aquele quentinho na barriga de estado policial e de boas conversas de café sob o tema “isto não é uma república das bananas”. Os problemas a sério ficam para as década seguintes, quando aqueles que agora fogem de Portugal, um país cada vez mais de Terceiro Mundo, voltarem com novas perspetivas e, quiçá, a tempo de fazer qualquer coisa.

É difícil, muito difícil, quando tudo o que temos para apresentar é uma casta de políticos profissionais que ao longo da vida não tiveram um emprego no mundo real mas que, ainda assim, se arrogam, entre constantes trocas de lugares num sistema fechado, de controlarem os destinos da nação durante décadas.

Enquanto isso, as mentes com algum raciocínio lógico vão abandonado o país em busca de democracias mais fortes e sociedades menos corruptas, onde a economia funcione em benefício de todos.

Por cá, vamos babando na CMTV com operações policiais de cosmética, um governo com preocupações de fascistas e gente, como um Relvas, um Frazão ou uma Rita Matias, no papel de influenciadores da opinião pública.

Quase 9 séculos para chegar a isto. Não nos podemos queixar do destino.

Porque é que a actual classe política europeia rejeita a realidade?

(GLENN DIESEN,, In Observatorio de la Crisis, 10-11-2024)

Terá a Europa a racionalidade, a imaginação política e a coragem para avaliar criticamente os seus próprios erros e o seu contributo para a crise atual, ou qualquer crítica continuará a ser denunciada como uma ameaça à democracia liberal?


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Proponho a seguinte experiência mental ao político, jornalista ou académico europeu: se fosse conselheiro do Kremlin, qual o seu conselho caso não houvesse negociações possíveis para resolver a guerra na Ucrânia? Certamente a maioria sentir-se-ia moralmente obrigada a dar respostas ridículas, como aconselhar o Kremlin a capitular e a retirar-se, apesar de a Rússia estar à beira da vitória. Qualquer impulso para aderir à razão e abordar as preocupações de segurança da Rússia seria provavelmente dissuadido pela ameaça de ser humilhado por “legitimar” a invasão russa.

O que é que explica o declínio do pensamento estratégico, do pragmatismo e da racionalidade na política europeia?

A realidade da Europa como construção social

A classe política que emergiu na Europa após a Guerra Fria tornou-se excessivamente ideológica e envolveu-se em narrativas para construir socialmente novas realidades. A aceitação europeia do pós-modernismo envolve questionar a existência de uma realidade objetiva, porque a nossa compreensão da realidade é determinada pela língua, pela cultura e por perspetivas históricas únicas. 

Portanto, os pós-modernistas muitas vezes procuram mudar as narrativas e a linguagem para ganhar poder político. Se a realidade é uma construção social, então as grandes narrativas podem ser mais importantes que os factos. Na verdade, as narrativas ideológicas devem ser protegidas de factos inconvenientes.

O projeto europeu tinha a intenção benevolente de criar uma identidade europeia comum, liberal e democrática, transcendendo as rivalidades nacionais, as divisões e as políticas de poder do passado. A relevância da realidade objetiva é questionada e as narrativas sobre a realidade refletem a crença de que as estruturas de poder podem ser desmanteladas e reorganizadas à vontade.

A prevalência do construtivismo e a ênfase nos “atos de fala” na UE levaram à crença de que mesmo quando são utilizadas análises realistas e são discutidos interesses nacionais concorrentes, é necessário legitimar a realpolitik e, portanto, acomodar socialmente uma realidade que pode ser perigosa. “Atos de fala” referem-se ao uso da linguagem como fonte de poder para construir realidades políticas e influenciar resultados. Ao reduzir a importância da competição em matéria de segurança no sistema internacional, a política de poder pode supostamente ser mitigada.

É possível construir socialmente uma nova realidade? Estaremos ignorando a competência em segurança ao não abordar a questão ou estaremos a negligenciar a gestão responsável da competência em segurança? Poderemos transcender as rivalidades nacionais concentrando-nos em valores comuns ou a negligência dos interesses nacionais levará ao declínio?

Construir socialmente uma nova Europa

O conceito de “armadilha retórica” explica como a UE chegou a um consenso para oferecer a adesão aos estados da Europa Central e Oriental quando isso não era do interesse de todos os estados membros da UE. A armadilha retórica foi armada fazendo primeiro com que os Estados-membros aceitassem a premissa ideológica de que a legitimidade do projeto europeu assentava na integração de Estados democráticos liberais.

Ao apelar para valores e normas como fundamento da UE, foi armada uma armadilha retórica e um sentido de obrigação moral foi utilizado para envergonhar os Estados-Membros da UE que vetavam o processo de alargamento. Portanto, o uso da linguagem e do enquadramento pode ter encorajado os Estados europeus a não agirem no seu próprio interesse, uma vez que foram humilhados para se conformarem.

Schimmelfennig, que introduziu o conceito de armadilha retórica, argumenta que “a política é uma luta pela legitimidade, e esta luta é travada com argumentos retóricos” (1). A armadilha retórica simplifica uma questão complexa e transforma-a numa escolha binária; apoiar o processo de alargamento ou trair os ideais democráticos liberais. Este quadro moral encerrou debates importantes sobre as potenciais desvantagens de aceitar novos membros e a melhor forma de enfrentar estes desafios.

A dissidência poderia ser esmagada porque enquadrar a questão como um imperativo moral significava que aqueles que questionavam este quadro moral poderiam ser acusados ​​de minar os valores sagrados que sustentam a legitimidade de todo o projeto europeu.

O conceito de “discurso europeu” envolve o uso de retórica emocional para legitimar uma compreensão da UE que deslegitima conceitos alternativos para a Europa. A centralização da tomada de decisões e a transferência de poder dos parlamentos eleitos para Bruxelas é geralmente chamada “integração europeia”, “mais Europa” ou “uma União cada vez mais próxima”. Os Estados não membros vizinhos que aderem à governação externa da UE fazem a “escolha europeia”, confirmando a sua “perspetiva europeia” e adotando “valores partilhados”. A dissidência pode ser deslegitimada como “populismo”, “nacionalismo”, “euro fobia” e “antieuropeísmo”, o que mina a “voz comum”, a “solidariedade” e o “sonho europeu”.

A linguagem também mudou em relação à forma como o Ocidente afirma o seu poder no mundo. A tortura tornou-se uma “técnica aprimorada de interrogatório”, a diplomacia da canhoneira é a “defesa da liberdade de navegação ”, a dominação é uma “negociação a partir de uma posição de força”, a subversão é uma “promoção da democracia”, um golpe de estado uma “revolução democrática”, invasão uma “intervenção humanitária”, secessão uma “autodeterminação”, propaganda uma “diplomacia pública”, censura uma “moderação de conteúdo”, e o desenvolvimento mais recente da vantagem competitiva da China descrito como “excesso de capacidade”. O conceito de Novilíngua de George Orwell implicava uma linguagem restritiva a ponto de ser impossível expressar desacordo.

NATO e UE: redistribuição da Europa ou “integração europeia

Os líderes ocidentais reconheceram inicialmente que o abandono de uma arquitetura de segurança pan-europeia inclusiva através da NATO e do alargamento da UE provavelmente desencadearia outra Guerra Fria. A consequência previsível da construção de uma nova Europa sem a Rússia seria redistribuir o continente e depois lutar para saber onde deveriam ser traçadas as novas linhas divisórias.

O Presidente Bill Clinton advertiu em Janeiro de 1994 que a expansão da NATO corria o risco de “traçar uma nova linha entre o Oriente e o Ocidente que poderia criar uma profecia auto realizável de confronto futuro” (2). O Secretário da Defesa de Clinton, William Perry, chegou mesmo a considerar a demissão devido à sua oposição à expansão da NATO. Perry observou que a maioria dos membros da administração sabia que esta traição criaria um conflito com a Rússia, mas acreditavam que isso não importava porque a Rússia era fraca (3). George Kennan, Jack Matlock e vários líderes políticos americanos também enquadraram isso como uma traição contra a Rússia e alertaram para uma maior divisão da Europa. Estas preocupações foram também partilhadas por muitos líderes europeus.

O que aconteceu com estes discursos e advertências sobre a instigação de outra Guerra Fria? A narrativa da UE e da NATO como uma “força para o bem” que promove os valores democráticos liberais teve de ser defendida contra a narrativa “ultrapassada” da política de poder. As críticas russas ao renascimento da arquitetura de segurança de soma zero do bloco ocidental foram apresentadas como prova da “mentalidade de soma zero” da Rússia. 

O facto de a Rússia não ter reconhecido que a NATO e a UE eram atores positivos que transcendiam a política de poder teria revelado a sua incapacidade de superar a perigosa mentalidade realpolitik causada pelo seu autoritarismo persistente e pelas suas grandes ambições de grande potência. A UE estava apenas a construir um “círculo de amigos”, enquanto a Rússia exigia supostamente “esferas de influência”.

A Rússia enfrentou o dilema de aceitar o papel de aprendiz – com o objetivo de regressar ao mundo civilizado, aceitando o papel dominante da NATO como uma força para o bem -, ou de resistir ao expansionismo da NATO e às “missões fora da zona”, sendo entao tratada como uma força perigosa que deve ser contida. Em qualquer caso, a Rússia não teria lugar na mesa de negociações na Europa. Os tropos liberais democráticos justificavam a razão pela qual o maior Estado da Europa acabaria por ser o único Estado sem representação.

A expansão da NATO e da UE como blocos exclusivos também impõe um dilema “nós ou eles” às sociedades profundamente divididas da Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Contudo, em vez de reconhecer a desestabilização previsível das sociedades divididas numa Europa dividida, isto é apresentado como uma “integração europeia” de soma positiva, apesar do desligamento implícito da Rússia. As sociedades que favorecem relações mais estreitas com a Rússia em detrimento da NATO e da UE são deslegitimadas por rejeitarem a democracia, enquanto os seus líderes são rejeitados como “putinistas” autoritários que privam o seu povo do seu sonho europeu.

O quadro moral global convenceu os líderes europeus a apoiar um golpe para atrair a Ucrânia para a órbita da NATO. Era bem sabido que apenas uma minoria de ucranianos queria ser membro da NATO e que isso provavelmente daria início a uma guerra, mas a retórica liberal-democrata sempre convenceu os líderes europeus a ignorar a realidade e a apoiar políticas desastrosas. O bom senso torna-se constrangedor.

Os líderes políticos, jornalistas e académicos ocidentais que procuram aliviar o problema abordando as legítimas preocupações de segurança da Rússia são também acusados ​​de alimentar o moinho de Putin, repetindo os pontos de discussão do Kremlin, “legitimando” as políticas russas e minando a democracia liberal. Com a estrutura moral binária do bem versus o mal, o pluralismo intelectual e a dissidência são punidos como imorais.

Além de ser atormentada por guerras, a Europa também está em declínio económico. Os europeus compram energia russa através da Índia porque são moralmente obrigados a seguir sanções falhadas. Esta suposta virtude contribui para tornar as indústrias europeias menos competitivas. 

A desindustrialização da Europa também é causada pela destruição dos gasodutos Nord Stream, mas este acontecimento que destruiu décadas de desenvolvimento industrial caiu num buraco de memória porque os únicos dois suspeitos são os Estados Unidos e a Ucrânia. Além disso, os Estados Unidos oferecem subsídios às indústrias europeias que deixarão de ser competitivas se passarem para o outro lado do Atlântico. Na ausência de narrativas aceitáveis, os europeus simplesmente permanecem em silêncio e não defendem os seus interesses nacionais. A narrativa das democracias liberais unidas por valores e não divididas por interesses concorrentes deve ser defendida contra quaisquer factos inconvenientes.

Diplomacia, neutralidade e a virtude da guerra

A diplomacia não é consistente com o esforço de construção social de uma nova realidade. O ponto de partida da segurança internacional é a competição de segurança na qual os esforços para aumentar a segurança de um Estado podem diminuir a segurança de outro. A diplomacia envolve o reforço da compreensão mútua e a procura de compromissos para mitigar a concorrência em matéria de segurança.

Os construtivistas sociais consideram frequentemente a diplomacia problemática porque “legitima” a competição de segurança que reconhece que a NATO pode minar os legítimos interesses de segurança russos. Além disso, corre-se o risco de legitimar o adversário e de criar uma equivalência moral entre os Estados ocidentais e a Rússia. As elites europeias acreditam que estão a legitimar conceitos ultrapassados ​​e perigosos de política de poder, ao comprometerem-se com a compreensão mútua com a Rússia. A crença absurda de que a negociação é uma “concessão” tornou-se normalizada na Europa.

Portanto, a diplomacia foi repensada como uma relação entre um sujeito e um objeto, entre um professor e um aluno. Nesta relação, a NATO e a UE consideram que o seu papel é “socializar” outros Estados. Como professor civilizador, o Ocidente esclarecido utiliza a diplomacia como um instrumento de ensino no qual os Estados são “punidos” ou “recompensados” pela sua disponibilidade para aceitar concessões unilaterais. 

Embora a diplomacia tenha sempre sido imperativa em tempos de crise, as elites europeias acreditam que deveriam, em vez disso, punir o “mau comportamento” suspendendo a diplomacia assim que a crise eclodir. Encontrar-se com oponentes durante as crises corre o risco de legitimá-los.

Até recentemente, a neutralidade era vista como uma postura moral que mitiga a concorrência em matéria de segurança e permite ao Estado mediar, em vez de se enredar e escalar conflitos. Numa luta entre o bem e o mal, a neutralidade também é considerada imoral. O cinturão de estados neutros que existia entre a NATO e os países do Pacto de Varsóvia foi agora desmantelado e até a guerra se tornou uma defesa justa de princípios morais.

Como podemos restaurar a racionalidade e corrigir os erros do pós-Guerra Fria?

O fracasso em estabelecer um acordo pós-Guerra Fria mutuamente aceitável que eliminasse as divisões na Europa e reforçasse a segurança indivisível resultou numa catástrofe previsível. Contudo, corrigir o rumo exige nada menos do que reconsiderar as políticas dos últimos 30 anos e o conceito de Europa, numa altura em que a animosidade é endémica em ambos os lados. O projeto europeu foi visto como a personificação da tese de Fukuyama sobre o “fim da História” e toda uma classe política baseou a sua legitimidade na conformidade com a ideia de que desenvolver uma Europa sem a Rússia era uma receita para a paz e a estabilidade.

Terá a Europa a racionalidade, a imaginação política e a coragem para avaliar criticamente os seus próprios erros e o seu contributo para a crise atual, ou qualquer crítica continuará a ser denunciada como uma ameaça à democracia liberal?

Notas

J. Borger ‘” hostilidade russa” é parcialmente causada pelo Ocidente’, diz o ex-chefe da defesa dos EUA ,” The Guardian, 9 de março de 2016.

Schimmelfennig, François, 2003. A UE, a OTAN e a Integração Europeia: Regras e Retórica, Cambridge, Cambridge University Press, página 208.

B. Clinton, “ Remarks to the Multinational Audience of Europe’s Future Leaders ”, Missão Diplomática Americana na Alemanha, 9 de janeiro de 1994.

O autor é Professor na Universidade de Sudeste Noruega

Fonte aqui

Será que Netanyahu e Zelensky fazem parte do projeto neoconservador?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/10/2024)

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites.


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Quando, em 1997, Zbigniew Brzezinski, antigo Conselheiro Nacional de Segurança do presidente Jimmy Carter, escreveu na sua obra de referência (O Grande Tabuleiro de Xadrez) o que deveriam fazer os Estados Unidos para controlar o mundo, prescreveu um programa de ação geopolítica para os EUA que inspirou a ala neoconservadora do establishment político norte-americano, e tem influenciado de modo determinante a política externa norte-americana no pós-guerra fria.

Não será de estranhar o surgimento ainda nesse ano do Project for the New American Century (PNAC), um think tank fundado por William Christol e Robert Kagan, onde se advogava ser o século XXI o século americano, onde o domínio militar dos EUA não só protegeria a segurança nacional e os interesses nacionais dos EUA, mas também estabeleceria uma Pax Americana global. Defendia ainda o PNAC que “a liderança americana é, ao mesmo tempo, boa para a América e para o mundo”.

De entre as muitas ideias avançadas por Brzezinski, pela sua atualidade, uma deve merecer a nossa particular atenção. Dizia ele que o cenário mais perigoso para o projeto hegemónico norte-americano seria uma coligação anti hegemónica constituída pela China, Rússia e Irão. Adiantando que “uma coligação que alie a Rússia à China e ao Irão só pode desenvolver-se se os Estados Unidos forem suficientemente míopes para antagonizarem simultaneamente a China e o Irão.”

Apesar do conselho avisado de Brzezinski, foi exatamente isso que aconteceu. A arrogância das sucessivas Administrações norte-americanas conseguiu alienar os seus adversários ao ponto de se coligarem contra Washington e pugnarem por uma ordem multipolar que desafia o projeto da primazia norte-americana. Não faltaram oportunidades para Washington aproximar Moscovo e Teerão do Ocidente, estupidamente desperdiçadas.

Muito se poderia escrever sobre a alienação da Rússia pelos EUA, desde o alargamento da NATO, apesar das garantias que foram dadas a Mikhail Gorbachev de que a Aliança não se expandiria para leste, à rejeição categórica da ajuda ocidental à União soviética em 1991, que impossibilitou que se produzisse na Rússia um efeito psicológico e político galvanizador semelhante ao do Plano Marshall para a Europa Ocidental no pós II Guerra Mundial, quando Moscovo procurava desesperadamente aproximar-se do Ocidente.

A invasão do Afeganistão pelos EUA foi outra oportunidade perdida para se esquecerem os acontecimentos do passado e aproximar Teerão de Washington. Em 2001, o Irão não hesitou em cooperar com os EUA na luta contra a Al-Qaeda e os talibãs. Teerão forneceu Intelligence e apoiou os EUA na operação de contraterrorismo Enduring Freedom.

Os iranianos estavam ansiosos por ajudar Washington e mostrar-lhe os benefícios estratégicos em cooperarem. No entanto, o comportamento colaborativo de Teerão não foi recompensado. Em 29 de janeiro de 2002, no discurso sobre o estado da União, o presidente George W. Bush incluiu o Irão no grupo dos países do “eixo do mal”, fazendo tábua rasa de toda a colaboração prestada pelo Irão aos EUA. Exauriu-se nesse momento, a possibilidade de se ultrapassarem experiências negativas do passado e encetar-se um novo capítulo nas relações entre os dois Estados.

A ter em conta a prosa prospetiva de Brzezinski, não será de estranhar que os três grandes focos de conflitualidade/tensão da atualidade sejam a Ucrânia, Israel e Taiwan, com os EUA a procurar tardiamente contrariar essa aliança anti hegemónica e a procurar reparar erros de cálculo estratégico passados muito difíceis agora de reverter. Como dizia Mike Pompeo, ex-diretor da CIA e ex-secretário de Estado, enganado telefonicamente por uma brincadeira feita por russos, “a Rússia precisa ser puxada de volta para a Europa, para longe da China.” Tarde piaste!

Há semelhanças evidentes naquilo que levou a União Soviética a invadir o Afeganistão, a Rússia a Ucrânia e o Irão a responder militarmente a Israel. Em todas essas situações, procurou-se, com sucesso, provocar o adversário criando-lhe uma situação psicológica insustentável. Visa-se com essas provocações levá-lo a envolver-se militarmente, utilizando esse pretexto para lhe responder e o derrotar, explorando a sua vulnerabilidade percebida.

No Afeganistão, o sucesso do apoio norte-americano aos Mujahidins que combatiam o regime pró-Moscovo de Mohammad Najibullah; na Ucrânia, a interferência de Washington na política interna de Kiev, o golpe de Estado em Maidan (2014), obra dos neoconservadores instalados na Administração Obama (nunca é demais recordar que a obreira Nuland participou em todas as Administrações norte-americanas desde a primeira Administração Clinton, em 1993), o armamento das fações ultranacionalistas e o iminente ataque às comunidades russófonas ucranianas.

No caso do Irão, o ataque a instalações diplomáticas iranianas em Damasco, os sucessivos assassinatos seletivos de dirigentes iranianos, do Hezbollah e do Hamas, muito em particular o de Ismail Haniya em Teerão, tinham como objetivo provocar o Irão, criar-lhe uma situação insustentável, não lhe dando outra alternativa que não fosse a de retaliar. Encostado à parede, o Irão respondeu à provocação e voltou a atacar Israel a 1 de outubro. O fornecimento de armamento e treino militar a Taipé ainda não colocou a China numa situação insustentável, em que não tenha outra alternativa senão intervir, como sucedeu com a Rússia e o Irão.

A Ucrânia e Israel desempenham papeis muito semelhantes no xadrez geopolítico mundial para os EUA. A primeira para controlar a Rússia, e o segundo o Médio Oriente. Se dúvidas existissem sobre isso, elas foram desfeitas num discurso do então energético Joe Biden ao Congresso norte-americano, em 1986, quando afirmou que “Israel é o melhor investimento que fazemos [EUA], caso Israel não existisse os EUA teriam que inventar um Estado de Israel para proteger os nossos interesses na região, os Estados Unidos teriam de inventar Israel.”

É também à luz disto que se deve procurar entender o comportamento de Washington, mais precisamente da ativa ala neoconservadora. Enquanto o enfraquecido Biden procura limitar a resposta de Telavive à retaliação de Teerão, de 1 de outubro, as fações da administração pública norte-americana trabalham nos bastidores em estreita coordenação com Israel, discutindo os possíveis ataques e “explorando opções de resposta ao ataque de mísseis do Irão contra Israel”, como afirmou o vice-secretário de Estado dos EUA, Kurt Campbell.

Segundo o Politico, ao mesmo tempo que a Administração Biden instava publicamente o Governo israelita a reduzir os seus ataques, “funcionários americanos apoiavam discretamente a ação militar de Israel contra o Hezbollah… figuras de topo da Casa Branca diziam a Israel que os EUA apoiariam o aumento da pressão militar contra o Hezbollah.”

Este comportamento aplica-se igualmente à possibilidade de uma contrarretaliação israelita ao ataque iraniano de 1 de outubro. Segundo o texto de Kenneth M. Pollack (Which path to Persia?) publicado pela Brookings, em 2009, o facto de os EUA afirmarem não querer que Israel ataque as instalações nucleares iranianas baseia-se numa estratégia de manter uma negação plausível enquanto, de facto, ataca o Irão, incluindo as suas instalações nucleares.

Por outras palavras, os neoconservadores instalados no poder querem uma guerra com o Irão, querem destruir a sua indústria de armamento, o seu programa nuclear, a sua economia e derrubar o seu governo, mas não querem ser alvo de condenação e retaliação a nível mundial, pelo que estão a armar/apoiar Israel para o fazer por eles.

Falamos daquilo a que Mearsheimer chamou de buck-passing. Isto é, quando uma grande potência se encontra numa postura defensiva, tentando evitar que os seus rivais ganhem poder à sua custa, pode optar pelo equilíbrio ou intervir, transferindo a responsabilidade de agir para outros Estados, mantendo-se à margem no assento traseiro.

Entretanto, multiplicam-se os apelos aos ataques ao Irão. “De facto, esta é a oportunidade ideal para destruir o programa nuclear do Irão. O tempo que o país leva para chegar a uma bomba é de uma a duas semanas. Não está previsto qualquer novo acordo nuclear. O Hamas e o Hezbollah não estão em posição de retaliar. E a República Islâmica acabou de o pedir. De facto, esta pode ser a última oportunidade para impedir Teerão de ter uma bomba.”

Na mesma linha, o antigo primeiro-ministro de Israel Naftali Bennett veio dizer que se trata da “grande oportunidade em 50 anos, para alterar a face do Médio Oriente, destruir o programa nuclear do Irão, as instalações energéticas terroristas, que se encontra mortalmente incapacitado.” “Temos uma justificação. Temos ferramentas. Agora o Hezbollah e o Hamas estão paralisados, o Irão está exposto. Há alturas em que a história nos bate à porta, e nós temos de a abrir. Esta oportunidade não pode ser desperdiçada.”

De facto, este é o momento indicado para o fazer aproveitando o vácuo de poder na Casa Branca e antes que Trump se possa vir a sentar-se na Sala Oval. Nesta matéria, Trump não é fiável para os neoconservadores, que já os tinha impedido em 2019 de materializar um ataque ao Irão. Os neoconservadores têm de aproveitar esta janela de tempo, porque com Trump no poder, se ganhar as eleições, essa possibilidade pode desaparecer.

Os projetos, as ideias e as ambições pessoais e políticas de Zelensky e Netanyahu só serão concretizáveis se inseridas numa grande estratégia, que lhes é alheia, atuando por procuração e colaborando na concretização da primazia geoestratégica norte-americana abraçada pelos neoconservadores: provocar mudanças de regime em Moscovo e Teerão (como o afastamento do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh, em 1953, que teve a aleivosia de privatizar as petrolíferas) infligindo-lhes derrotas estratégicas.

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites. O envolvimento de Taiwan nesse projeto encontra-se, por enquanto, comprometido.

A grande interrogação que se nos coloca neste momento é saber se Teerão tem capacidade para responder à retaliação israelita, como Moscovo está a responder ao desafio geoestratégico colocado por Washington. Teerão já fez saber aos EUA, através do Qatar, que a fase da contenção unilateral terminou. Está para se ver se vai conseguir dar a volta por cima, como estão a fazer os russos.