A realidade tem muita força

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 10/04/2024)

Finalmente, no nosso dito “Ocidente alargado”, alguns “pensadores” começaram a abrir a pestana e a usar os neurónios.

Talvez o artigo mais derrotista das últimas semanas sobre as perspetivas do conflito ucraniano tenha sido escrito por Matthew Blackburn, do Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais (NUPI) – ver aqui. E, o que é mais terrível para os simpatizantes da Ucrânia, é que é muito difícil refutar a lógica de Blackburn.

Existe um sério risco de que, em vez de o Ocidente dar uma lição à Rússia e colocar Putin no seu lugar, aconteça o oposto, escreve Blackburn. Porque os passos do Ocidente têm pouco impacto no curso dos acontecimentos. E o que realmente pode mudar a situação não é viável por diversos motivos.

O pior do Ocidente é a sua incapacidade de evoluir. Quando o Plano A da Rússia (ao qual Blackburn se refere como uma operação policial destinada a transformar a política ucraniana) não funcionou, surgiu o Plano B: uma guerra de desgaste na qual a Ucrânia não pode vencer. E o Ocidente não tem plano B.

Os gritos sobre a “incompetência sistémica do comando russo” e as mentiras sobre as “chocantes perdas russas” criaram uma ilusão de superioridade das armas e do pensamento militar da NATO, mas isso apenas levou a uma derrota completa da “contraofensiva”. A NATO está a restaurar a produção de munições com um longo atraso. Embora o exército russo tenha acumulado experiência de combate durante este período, a indústria russa concentrou-se no sector militar e estão a ser introduzidas inovações. Por outras palavras, a Rússia está mais forte do que era.

As previsões baseadas na estimativa do PIB nominal (“A Rússia é mais fraca que a Itália!”) demonstraram a sua total inconsistência. Foi difícil exercer pressão sobre um país que possui os recursos dos quais metade do mundo depende. Em vez de entrar numa recessão, a economia russa cresceu.

Por sua vez, as sanções contra os oligarcas não conduziram a um golpe de Estado em Moscovo, mas antes aumentaram os investimentos na economia russa. Em lugar do descontentamento popular, surgiu uma sociedade solidária.

Apesar de tudo isto (e muito mais), o Ocidente só quer continuar a fazer tudo o que estava a fazer, escreve Blackburn, “para se preparar para uma ofensiva ucraniana em 2025”.

Como poderá a Ucrânia sobreviver ao ano de 2024 se a Rússia ultrapassa o Ocidente mais de três vezes na produção de projéteis e tem mais tropas à sua disposição? Algo deve mudar na próxima fase da guerra”, conclui o analista, e aconselha: “Chegou finalmente a hora de recuperar o bom senso e avaliar realmente o que pode ser alcançado com os meios disponíveis, bem como reavaliar os custos, riscos e benefícios dos diferentes cenários”.


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O que vai mudar na política interna da Rússia após o atentado do Crocus City Hall?

(Raphael Machado in Twitter 27/03/2024)


Depois do horrendo atentado terrorista no Crocus City Hall, perto de Moscovo, há alguns dias, muitos analistas se perguntaram sobre qual seria a reação de Moscovo no entorno internacional, no que concerne países potencialmente envolvidos, dos EUA à Ucrânia, mas sem esquecer os vínculos percebidos no Tajiquistão e na Turquia.

Algumas mudanças já foram detectadas, já que a Rússia bombardeou prédios importantes da inteligência ucraniana, causando um dano em mortos, feridos e perdas materiais que Kiev prefere não divulgar. Algumas articulações internacionais também garantiram a prisão de possíveis colaboradores do atentado em questão na Turquia.

Outros desenvolvimentos nessa direção, inclusive no que concerne retaliações pelos ataques, virão conforme as próprias autoridades russas receberem mais informações sobre os resultados das investigações.

Mas um tema tão importante quanto possíveis mudanças de postura na operação militar especial e nas relações internacionais são as mudanças que têm sido demandadas pelo povo russo após o massacre.

Em primeiro lugar, uma das discussões mais importantes da Rússia hoje é a restauração da pena de morte. A pena de morte não foi abolida na Rússia, sendo prevista no Código Penal para os crimes mais graves contra a vida, como o homicídio com agravantes, o assassinato de servidores públicos e o genocídio.

Não obstante, em 1996 Iéltsin impôs uma moratória “informal” nas execuções com o objetivo de colocar a Rússia dentro do Conselho da Europa. Essa moratória foi formalizada juridicamente pela Corte Constitucional da Rússia em 1999, de modo que há quase 30 anos já não há execuções por lá.

Observe-se, porém, que continua havendo previsão legal para a aplicação da pena de morte. Ademais, a Rússia foi expulsa do Conselho da Europa em março de 2022, de modo que a justificação política para a moratória de execuções não existe mais.

A opinião pública em relação ao retorno da pena de morte é favorável. Uma pesquisa feita por uma agência com vínculos com o Departamento de Estado dos EUA (o Levada Center) apontava em 2019 que 49% dos russos eram favoráveis ao retorno da pena de morte. 19% queriam a sua abolição. É de se esperar que a proporção daqueles que querem o retorno da pena de morte, pelo menos para terroristas e traidores deve ser, hoje, muito maior do que em 2019.

Em atendimento a essas demandas, deputados do Partido Rússia Unidade estão se mobilizando para empreender as mudanças necessárias para reativar a pena capital.

Outro tema abordado é a questão das armas. Em geral, seguranças russos não portam armas. Pelo menos no contexto do atual conflito e das ameaças terroristas, discute-se a necessidade de que os seguranças de locais públicos portem armas para lidar com situações emergenciais desse tipo. É visível que seguranças armados fariam uma diferença significativa nesse atentado.

Quando ao porte de armas em geral na Rússia, ela segue critérios bastante racionais e razoáveis, sendo menos restrito que no Brasil, mas mais restrito que em parte considerável dos EUA.

Existe na Rússia o equivalente ao CAC, mas também a posse de armas para autodefesa, que não obstante deve ser mantida em casa – seu propósito é para defesa do lar, da família, da propriedade, em caso de invasão, roubo ou tentativa de sequestro.

Ademais, para poder adquirir um rifle é necessário ter tido posse de arma mais leve por vários anos sem qualquer tipo de incidente.

O tema mais debatido hoje, porém, é a necessidade de melhor controlar a imigração na Rússia. Não apenas a ilegal, mas a imigração em geral.

Com todos os responsáveis diretos pelo atentado terrorista sendo tajiques que teriam entrado legalmente na Rússia, chama-se atenção para a lassidão da Rússia com suas próprias fronteiras (que são, como todos sabem, imensas).

A Rússia está longe de ser tão frouxa quanto a Europa neste tema, mas é um fato, por exemplo, que nos últimos 2 anos aproximadamente 100 mil tajiques entraram na Rússia por ano. Em geral, a imigração para a Rússia possui natureza temporária, sendo para o exercício de trabalhos temporários, com o migrante tendo que sair do país ao término do visto (o que alguns burlam para ficar ilegalmente no país).

Essas migrações, diferentemente das imigrações na Europa, não possuem o potencial de alterar significativamente a demografia nacional russa, mas pelo pouco controle representam um risco à segurança nacional.

Intelectuais orgânicos da Rússia com influência na sociedade civil, como Alexander Dugin, demandam uma redução drástica e um maior controle estatal sobre esses fluxos, bem como a consagração do caráter essencialmente “russo” do Estado, como núcleo da politeia imperial da Rússia.

Pode-se esperar um aumento nas deportações de imigrantes ilegais, bem como critérios mais rígidos para a concessão de visto e de cidadania, como um maior conhecimento do idioma e um comprometimento explícito com os valores nacionais.


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Podíamos ter seguido outro caminho

(Whale project, in Estátua de Sal, 26/03/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Viriato Soromenho Marques, sobre a decadência da Europa e dos valores do Ocidente (ver aqui). Pela sua atualidade resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 27/03/2024)


Os “valores” ocidentais começaram, logo muito cedo, a ser impostos na expansão europeia dos séculos XVI e XVII. Eram os de civilizar as massas ignaras, muitas delas até canibais, que povoavam o resto do mundo.

Nós íamos levar a luz da civilização, do cristianismo e toda a conversa da treta semelhante. Na realidade, o que se queria era a exploração máxima dos recursos da terra; a população que lá vivia eram tidos como primitivos e brutos, sub-humanos, inferiores e não interessavam nada.

Pelo que, se África e Índia tiveram a sorte de ter climas corrosivos para a população branca – que impediram uma transferência em massa nesses primeiros tempos -, outro tanto não aconteceu na América, Austrália e Nova Zelândia. Aí, as populações residentes foram praticamente exterminadas por valorosos guerreiros cristãos, enquanto os nossos padres discutiam se eles tinham alma.

A população indiana sofreu vagas de fome terríveis, com a imprescindível colaboração de elites vendidas, enquanto os seus recursos agrícolas eram desviados para satisfazer as necessidades e os luxos dos colonizadores. A África sofreu a perda de 20 milhões dos seus filhos para o tráfico negreiro, com a colaboração de bandidos locais recrutados pelos traficantes.

Mas, foi o seu clima pouco ameno que os salvou da campanha de extermínio em massa, que caracterizou a atuação dos colonizadores na América, Austrália e Nova Zelândia. Claro que ninguém os livrou de serem pilhados dos seus recursos – através de capangas locais, e deserdados da sorte, que não se importavam de ir para a África arriscar-se às doenças que por lá havia, porque aqui não tinham nada. Mas, a não ser nas terras mais a Sul, com melhor clima, a transferência massiva de populações europeias nunca ocorreu. E foi isso que os livrou do destino cruel dos nativos americanos.

O problema é que, de algum modo, fomos sempre arranjando forma de achar que os russos eram de bandos de selvagens, não civilizados, a merecer as nossas campanhas civilizadoras – apesar de eles também serem brancos.

O que também lhes valeu foi que, em boa parte do território, o clima também não era bom mas, no Sul e na Crimeia, o caso piava mais fino. Os genoveses foram particularmente implacáveis a criar estações de comércio que compravam escravos aos tártaros da Crimeia e do Sul da Rússia que viviam da pilhagem. A escravidão por terras ocidentais, da Catalunha à Itália, foi o destino de milhares e milhares de desgraçados, enquanto outros iam bater com os ossos no Império Otomano.

Foi para evitar estas razias de pilhagem – de que os ocidentais muito beneficiaram, porque tanto se lhes dava escravizar um negro, que consideravam pagão, como um branco considerado meio selvagem e pagão -, que ditou que a Rússia começasse a achar boa ideia conquistar os territórios à sua volta. O tal pavoroso imperialismo russo.

O problema é que a mentalidade colonizadora, tal como as células terroristas adormecidas, não morreu nem morrerá. Como disse o escritor alemão Gunther Grass “isto nunca acaba, isto nunca acabará”. Podíamos ter seguido outro caminho. O caminho do negócio limpo, honesto, comprar e vender com lisura. Se não temos recursos temos pelo menos indústria, podíamos fazer isso.

A escritora de livros policiais com grande densidade psicológica, Agatha Christie, retratava o que significa, a nível individual, uma mentalidade destas no seu livro “Noite sem Fim”. Um sujeito, em vias de ser executado por assassinato, conta a sua história. Sempre fora adepto de conseguir o que era dos outros, custasse o que custasse. Matando, se necessário fosse. Aos 10 anos matara um colega, afogando-o num lago gelado, para lhe roubar um relógio que cobiçava. Acaba por casar com uma jovem norte-americana, decente e genuinamente apaixonada. Podia aí ter seguido outro caminho, refazer a vida com alguém que o amava, aproveitar os recursos que tinham. Mas optou por, mais uma vez, matar. Acabou, certamente, na ponta de uma corda.

Também nós podíamos ter seguido outro caminho, agora que a tecnologia que temos até nos permite. Temos técnicas de produção com as quais nem sequer podíamos sonhar no tempo das caravelas. A Rússia, até já se tinha deixado disso, de alternativas ao capitalismo.

Mas, tal como o protagonista de “Noite sem Fim” escolhemos outro caminho. Não arrisco prognósticos sobre o destino para onde esse caminho nos vai levar. Mas, tendo em conta o fim de todos quantos até hoje tentaram destruir a Rússia, é capaz de não ser lá muito bom.


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