Os estandartes de Outubro

(Por Joseph Praetorius, in Facebook, 15/11/2017)
prae2

Joseph Praetorius

Sete dias volvidos sobre o Sete de Novembro, recordo a excitação com que aos 14 anos recebi um pequeno busto de Lenine, clandestinamente trazido da URSS e em cuja memória eu admirava o homem que mudara a face do mundo. Percorri boa parte dos 40 volumes das suas obras completas (44 volumes se bem me lembro).
E foi Georges Gusdorff quem me salvou da perspectiva marxista da História e inviabilizou uma adesão cega, que os primeiros impulsos certamente teriam determinado. Conheci o texto pelas fotocópias de minha mãe, que nessa altura decidiu frequentar o ISPA. (Só quinze anos depois me lembrei de procurar aquilo em Paris e foi fácil encontrar, nunca encontrei o texto aqui). Miranda Santos, em História da Psicologia, exigia a leitura daquilo. E eu li também. Em 85 encontrei-o no bar da Faculdade de Letras em Coimbra, onde um acaso profissional me levara. E pude agradecer-lhe essa indicação bibliográfica e a importância que ele teve na minha adolescência. Não falhava uma aula dele. Dois anos depois dessas aulas, nos jesuítas, sistematizei as concepções medievais da periodização da História. Nesse exercício percebi muitas coisas.
Trasímaco também foi importante e por isso estou grato ao bom velho Platão que no-lo deu a conhecer. O reconhecimento da luta de classes não é uma originalidade de Marx. Não é isso que o singulariza. Já o descobri em Filosofia – onde as escandalosas lacunas de formação filosófica e histórica dos professores de Direito me obrigaram a ir – Platão e Gusdorff foram portanto as duas armas de que dispus para o solitário combate às duas barbáries. A das bestas que se imaginavam comunistas e a das bestas que se imaginavam de direita. Pouco mais tarde as minhas inquietações de cristão a braços com a clerezia papista, que me escandalizava em tudo, levar-me-iam à leitura do De Civitate Dei onde descobri um pensamento político radical ancorado nas referências do Direito Romano. A Lenine, só o percebi melhor quando li um dos livros de Michelet das estantes do meu avô. Há uns vinte anos, talvez. A minha mãe tinha-se esquecido de mo passar. Havia coisas que o meu avô sabia e eu ignorava completamente, portanto. Michelet caracteriza a sociedade russa em 1858, data da edição das Légendes démocratiques du nord, pelo “comunismo russo”. Referia-se às comunas de servos cujos pressupostos e teleologia Lenine alterou. mantendo a estrutura, se bem vejo.
Tenho sido surpreendido por uma espécie de euforia dos monárquicos russos. Isto notado, indiquem-me um nome de general monárquico no comando de qualquer dos exércitos brancos. Que comandante branco se bateu pelo trono? E expliquem-me que posição tomaram os brancos face ao número desproporcionado de destacamentos militares que “o ocidente” para ali tinha mandado, com claros intuitos de partilha do território.
É inútil branquear os brancos. Aquilo é completamente pardo. Nenhum deles se batia pelo imperador, embora houvesse uns mais respeitáveis que outros e outros completamente desprezíveis. Koltchac, homem de alguns méritos, proclamou-se Chefe do Estado e assim foi tratado até ser passado pelas armas. O desprezível Krasnov chegou a formar governo e também não se notou ali nenhuma fidelidade a não ser à Alemanha. Entregue pelos americanos a Stalin, suponho que foi enforcado. Denikin era um homem razoável. Burocrata dedicado. E claramente honesto. Muito longe de ser um aristocrata, aliás. Filho de servo libertado no serviço do exército imperial. Aristocratas eram muitos dos bolchevistas. Esses, sim. E os apelidos do Comité Central não enganam, de resto.
Os bolchevistas minaram o esforço de guerra do Exército imperial? Claro. Fizeram-no aliás com o heroísmo de militantes da paz em toda a Europa. Na Rússia também. E pagaram um preço elevado. A guerra foi criminosa. E o crime foi punido com a queda de todos os tronos que a desencadearam, somando o turco que com eles simpatizava. Não é possível deixar de honrar a memória dos que ousaram combater politicamente tal barbaridade. Os bolchevistas, claro. Houve outros?
Todavia tomaram o poder aos traidores de Fevereiro – onde estavam homens em quem o ódio ao Imperador era patente, como Kornilov – esses, em apoio de cujos compromissos a Rússia foi invadida por um milhão de homens em destacamentos militares “ocidentais” (mas Japão incluído) pretendendo erguer padrões nos territórios de que se assenhoreariam durante a guerra civil.
Tal guerra foi desencadeada pelos fantoches de Fevereiro, para serviço dos seus interesses pessoais e alheios, se bem vejo. Não obstante a presença de homens respeitáveis e aos quais ainda hoje os russos mantêm respeito. Denikin é um deles. E por isso repousa finalmente em solo pátrio. A desgraça militar é produto do fraccionamento de intenções, da rivalidade em avidez que fazia deles inimigos uns dos outros. Vinha isto a par de um sentimento de fraqueza de quem exigia ao “ocidente” o suprimento da força que lhes faltava. A coisa confessa-se até num hino – decalcado de uma canção de combate do Exército Vermelho, mas eles dizem que foi ao contrário – que cantavam em francês e aqui deixo a título documental.
O Exército Vermelho venceu a guerra – fazendo apelo ao povo, maioritariamente aos camponeses – sob o comando de não raros aristocratas, que se desincumbiram e bem dos seus compromissos com a integridade do solo pátrio. Salvaram-se as fronteiras. Sem contar com mais ninguém, senão com russos e povos a eles ligados. A história da Paz de Brest – sob a premência política de um momento único – foi antes disto; e mesmo aí os bolchevistas não foram meigos com os alemães.
A reconstrução da unidade em novo quadro jurídico foi também obra dos bolchevistas. Proclamadas as repúblicas nacionais, foram os tratados de adesão à URSS ratificados reconstruindo a unidade dos povos que no Império se tinha materialmente cristalizado.
A pobre família Romanov foi barbaramente assassinada, de modo absolutamente inútil, para mais. E já não era a Família Imperial. É este aliás um dos aspectos da inutilidade. A Revolução de Outubro não se fez contra o Imperador, que este já tinha caído, abdicado e sido preso. A Revolução fez-se contra os de Fevereiro. Foi a tal gente de Fevereiro que o poder foi tomado e bem tomado. Sem isso não haveria hoje Rússia, que aquela corja estava disposta a vender tudo, como de resto o tentou fazer.
O Grão Duque Aleksander Mihailovitch escreveu um depoimento claro. Foi Lenine quem salvou a integridade das fronteiras. E não é seguramente o meu papel discutir com tão qualificada testemunha. Melhor fariam os monárquicos russos – começando pelos que se reclamam titulares – em dirigir contra si próprios as principais censuras. Que fizeram eles para salvar o Imperador de si próprio e dos outros? Não sabiam – e ainda não sabem – que antes do trono cair, devem cair os que o defendem? É esse o sentido da nobreza. O escol é a escolta – quem deixou só o Imperador? Fui eu? Sorte têm eles por não lhes ter sido dito até agora que tais títulos, em razão de tal infâmia, caducaram, i.e. caíram. Também eles. E caíram por indignidade. É um pressuposto elementar da ordem cuja restauração pretendem (de modos muito pouco inteligentes, diga-se de passagem).
Sem querer absolver a estupidez – sempre homicida, como o ensina Platão – recuso-me completamente a absolver a hipocrisia, sempre cobarde, sempre calculista, sempre desprezível. E jamais absolverei o snobismo.
Razão teve – e teve, pobre e nobre homem – o embaixador do Imperador Russo junto do Trono do Pavão, que trabalhou como operário o resto da sua vida, em França, recusando aliás outro destino e qualquer alívio, porque “alguém tinha que assumir a responsabilidade pelo que ocorrera”. Quem no-lo disse foi seu filho (com quatro anos à data do início da rota rumo ao refúgio, do Irão a Paris) príncipe notabilíssimo da Santa Igreja Russa e de uma fidelidade sem quebras ao Patriarcado de Moscovo, refiro-me ao Metropolita Anthony Bloom, médico dos corpos e das almas, cientista e poeta e, por tudo, talvez, teólogo e bispo de excepção.
Independentemente de tudo, a Revolução fez o que o Imperador não quis, não pôde ou não soube fazer. A Revolução de Outubro salvou a Rússia. Antes de mais. E não é pouco.
E perspectivou-se como russa. Isto é, assumindo o compromisso russo e único com a liberdade e a transfiguração do mundo. À sua escala e com as suas referências, não vejo isto muito diferente (embora evidentemente laicizado) do modo como antes se vivia o radical compromisso dos únicos fiéis livres. na Nova Jerusalém representada na Catedral de S. Basílio no Kremlin. A Rússia foi – porventura sê-lo-á ainda – a única fronteira Ortodoxa sem ocupação ou vassalagem. Nada que não se veja com clareza na mais singela das liturgias da mais pobre das paróquias. Creio que Stalin o percebeu. Não sei de mais ninguém que o tenha visto. Mais ninguém além do (dissimulado) poeta georgiano – naquela direcção política – estava suficientemente perto da Igreja para o entender, ou seja, para se entender a si próprio como russo. O resto são equívocos. E há muitos.
Que temos mais? O Czar Nicolau que – como me ocorreu dizer um dia, por sugestão dele, talvez – libertado das práticas pôde subir aos princípios e foi canonizado por isso. Ah e os infelizes – tão nobres, de todos os pontos de vista a começar pelo da bravura – a quem o sentimento do dever forçou a sair do domínio dos princípios para descerem à prática dispersante dos pragmatismos em guerra. Honro-lhes a memória por não terem esquecido nunca, porque lhes estava nas veias, a causa da liberdade do mundo e a necessidade da sua transfiguração.
No Grande Lavra de Saint Petersburgo deambulei entre as campas de grandes vultos cujas sepulturas se distinguiam pelos símbolos. As cruzes, evidentemente. E a foice cruzada com o martelo. Sepulturas unidas no mesmo chão e à sombra do mesmo Sobor. No mosteiro dedicado a Santo Alexandre Nevsky. Eles fizeram a síntese por nós. Uns e outros olham-nos dos Jardins Eternos. E disseram-nos isso em tempo, ao escolherem jazer no mesmo campo sagrado, alinhados diante do túmulo do Príncipe Fundador. Cumpriram as suas vigílias. Repousem em paz.
Resta exigir ao pretensiosismo que não divida o que a terra une, como se fosse possível viver hoje o conflito com os homens de ontem. Ou como se pudesse ter sobrevivido alguma coisa a merecer a continuação, ou repetição, daquele específico combate. Os combates são outros, hoje. E convém travá-los com a bravura que mereça e construa a vitória.
A vitória é a liberdade do mundo. Evidentemente. E a sua transfiguração.
Aqui fica o documento, com o contra-documento já agora

A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

(Entrevista a Fernando Rosas, in Expresso, 04/11/2017)

revolucao_out

O PATRIMÓNIO IDEOLÓGICO E CULTURAL DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO NÃO PERTENCE AOS RUSSOS MAS À HUMANIDADE QUE AQUELA QUIS EMANCIPAR


De que forma se olha cem anos depois para a Revolução de Outubro, dentro e fora da Rússia? Fernando Rosas, historiador, analisa a tentativa de criação de uma memória seletiva da revolução por parte do atual poder russo. Compara Estaline e Putin, mas sublinha que o património ideológico e cultural da revolução não pertence aos russos mas à humanidade. Se a esquerda que tomou o Palácio de Inverno acabou por se burocratizar e militarizar no decurso da guerra civil, a esquerda atual é plural e não acredita em verdades absolutas. Passado o período de refluxo subsequente à queda do Muro de Berlim abre-se a novos campos de luta, desde os direitos das mulheres à defesa do ambiente. Sem esquecer o combate à “desmemória” que quer fazer de outubro de 1917 um mero golpe de Estado dos bolcheviques e não um movimento social. Para Rosas, que esta tarde participa na Universidade Nova de Lisboa na última sessão do congresso “Cem Anos da Revolução de Outubro”, a pior negação da memória é fazer crer que, afinal, nada aconteceu há cem anos.

Na Rússia pouco se comemora este centenário… 

Não é bem assim. A comunidade académica tem total liberdade para se debruçar sobre o assunto. As autoridades, essas, têm diferentes sensibilidades, desde os que acham que a data é para esquecer, aos que ao mais alto nível reaproveitam o que lhes convém, desde a memória da II Guerra Mundial aos símbolos do Exército Vermelho. Criam uma memória seletiva e heroica para legitimar o papel internacional que a Rússia quer continuar a ter. Mas o património ideológico e cultural da revolução não pertence aos russos mas à humanidade. Mesmo após a degenerescência da revolução ficou uma mensagem de esperança que pertence às esquerdas europeias que se reveem nesse ideal, anunciado ainda que não cumprido.

Desde a anexação da Crimeia fala-se numa nova URSS e num novo Estaline. É assim? 

Estaline, que toma o poder após a morte de Lenine [1924], passa de obscuro secretário-geral a um novo czar que retoma em muitos aspetos a estratégia imperial. O Pacto Germano-Soviético [1939] pretendeu esconjurar os efeitos dos Acordos de Munique através dos quais as potências ocidentais tentavam empurrar Hitler para Leste. Tinha cláusulas secretas que previam a devolução à Rússia do leste da Polónia, dos estados bálticos e da Finlândia, ou seja, a anulação das perdas territoriais do Tratado de paz de Brest-Litovsk com os alemães [1917]. Durante a Guerra Fria a estratégia imperial estalinista vai fazer dos partidos comunistas nacionais meros apêndices da política externa da URSS. Bem longe da ideia de 1919 da Internacional Comunista e da revolução mundial. O socialismo num só país era inviável e só podia levar à autarcia. Putin, nos nossos dias representa a reação do nacionalismo russo à implosão da URSS e à perda de território e de peso internacional. Volta a querer estabelecer um espaço imperial de influência com criação de estados-tampão, neste caso junto à Ucrânia e Bielorrússia. A anexação da Crimeia é a sua grande vitória em termos de reconstrução da ideia de influência da Rússia. Do ponto de vista interno há uma condenação de Estaline, mas do ponto de vista externo há uma recuperação da sua imagem como marechal da Guerra Patriótica [II Guerra Mundial] que continua patente nos museus. Se há uma continuidade estratégica entre Estaline e Putin, a legitimação ideológica é que é diferente.

Porque degenerou a revolução? Uns dirão que foram as circunstâncias. Outros que era inevitável devido ao carácter autoritário e antidemocrático do pensamento marxista. Qual é a sua posição? 

Deixemos Marx em paz, que não tem culpa do que se passou. A ideia da inevitabilidade da degenerescência posta nesses termos é um processo de intenções ideológico. Mas o socialismo num só país só podia dar no que deu. A questão é onde se começou a perder o pé. Diria que foi em 1918/22 com a guerra civil. Antes de novembro de 1917, Lenine chegou a admitir que, conquistando os bolcheviques a maioria nos sovietes, que eram democráticos, organizados de baixo para cima e armados pelos soldados da frente, seria possível pressionar o governo provisório e fazer uma transição pacífica. Mas isso não aconteceu. O poder só foi conquistado em Petrogrado e Moscovo, neste último caso com alguma dificuldade. Lenine aceitou a perda de território da paz de Brest-Litovsk com os alemães para salvar a revolução. Talvez não esperasse uma guerra civil, inclusivamente com intervenção militar aliada ao lado dos Brancos. Contra todas as expectativas não se repetiu o que se passara com outras revoluções feitas em nome da emancipação dos trabalhadores e posteriormente esmagadas, como as de 1848 [Primavera dos Povos] e 1871 [Comuna de Paris]. A revolução vence mas à custa de um preço terrível: militarização dos sindicatos e dos sovietes, ditadura do partido, economia de guerra, esmagamento da revolta dos marinheiros de Kronstadt, reaproveitamento de oficiais czaristas e até de instituições do império. Se tivessem podido ler Foucault teriam ficado a saber que as instituições reproduzem a ideologia…No verão de 1917, Lenine tinha escrito “O Estado e a Revolução” onde admitia a possibilidade de uma deliquescência da máquina do Estado através dos órgãos de vontade popular. Deu-se o contrário: militarismo, violência, autarcia. Ao estudar o período de 1918/22, que conhecia mal, verifiquei que Lenine tomou consciência dos efeitos dramáticos da guerra civil. As tendências num partido desde sempre marcado pelo aceso debate interno tinham sido proibidas, a questão das nacionalidades resolvida com brutalidade por Estaline e os revolucionários de Kronstadt esmagados. Então Lenine tentou garantir que não faltasse a comida através da aplicação da Nova Política Económica, com alguma economia de mercado fiscalizada pelo Estado, nomeadamente nos campos. Estaline destruí-la-á, mandando milhares de pessoas para os gulags. Ainda seria possível fazer marcha atrás? Já doente, Lenine escreve que o partido e os sovietes se tinham burocratizado de forma grotesca. Num momento de tensão dramática alerta para os perigos representados por Estaline mas era tarde. Nos anos 30 todo o comité central da Revolução de Outubro tinha desaparecido com as purgas e os processos de Moscovo. Ficaram os ideais que continuam a ser património da esquerda emancipatória, nas suas múltiplas variedades de hoje.

Mesmo depois da queda do Muro de Berlim? 

Depois da queda do Muro e da implosão da URSS vieram a TINA [Frase de Margaret Thatcher, “There is no alternative”/não há alternativa] e a teoria do fim da História com o triunfo do capitalismo. Iniciou-se um discurso de criminalização, não só desta revolução como da própria ideia de revolução. Outubro foi reduzido a um mero golpe de Estado, quando foi o resultado de um processo histórico. Os próprios sovietes existiam desde 1905. Entrou-se num processo a que chamaria de “desmemória”, ou seja, é como se não tivesse acontecido nada… Contudo, à medida que se assistia à falência das políticas neoliberais, voltava a olhar-se para as coisas de outra maneira. Ressurgiam as correntes marxistas. Digo “as” porque não há um marxismo mas vários e a esquerda tem de se adaptar à pluralidade. Conseguiu-se vencer o processo de desmemorização e daqui até São Petersburgo não haverá uma universidade onde não se tenha analisado Outubro.

O espaço tradicional da esquerda não começou a ser ocupado por populistas como Le Pen ou Trump? 

O final do século XX é marcado por um grande refluxo das esquerdas. Era quase preciso pedir desculpa para dizer que se era marxista. Era pouco menos do que ser um terrorista suspeito ou um lunático. O refluxo foi total, sociológico, político e é muito interessante estudá-lo. Houve um refúgio no individualismo. Houve medo, até porque coincidiu com a precarização das relações laborais, falências e despedimentos. As pessoas desindicalizavam-se e deixavam de acreditar no que quer que fosse. Mas os tempos da TINA passaram e as esquerdas recompuseram-se, ainda que de uma forma muito diferente. Passou-se das verdades absolutas à pluralidade e às diferentes aproximações ao ideal emancipatório. O campo das alienações a combater alargou-se. O próprio conceito de proletariado mudou. Um operário industrial pode ganhar mais do que alguém num call center ou até do que um engenheiro acabado de formar. Surgiram novas causas como a situação da mulher na sociedade ou o respeito pelas minorias sexuais. A emancipação é também isso. A causa dos animais também é uma causa ecológica e esta é cada vez mais importante. Entregue a si próprio o capitalismo manifesta uma tendência suicidária e não se autorregula. Veja-se Trump e os acordos de Paris. Estaline, no tempo dele, também devia pensar que os recursos naturais eram infinitos, mas não são.

A solução governativa portuguesa deve alguma coisa a uma nova leitura da Revolução de Outubro? 

Foi antes de mais uma resposta pragmática a um governo de direita que liquidou a economia e a sociedade portuguesa através de medidas brutais contra o trabalho, futuro dos jovens, etc. Havendo uma parte do PS que, contrariando a tendência do resto da Europa, queria combater o neoliberalismo e fazer alguma redistribuição de rendimentos, revogar as medidas mais agressivas da precariedade de trabalho, mesmo de forma limitada, seria suicídio não a apoiar. Se nos anos 30 os liberais conservadores abriram caminho ao fascismo, nos nossos dias a rendição da social-democracia ao liberalismo teve efeitos desastrosos em toda a Europa, veja-se o resultado das eleições na Alemanha, França ou Espanha. As críticas da direita a este Orçamento do Estado que nem sequer repõe a situação pré-troika mostram que não estão arrependidos da governação que fizeram. A nossa direita sempre viveu e explorou à sombra do Estado, mas quando este inverte um pouco que seja esta política gritam que vêm aí os Guardas Vermelhos como em 1917…

 

Os trabalhadores do ocidente foram os únicos vencedores da revolução russa 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/10/2017)

 

Daniel

                        Daniel Oliveira

 

Quem escreve a história são os vencedores e a história do movimento comunista deixou, há muito tempo, de contar com a narrativa dos próprios comunistas. É da vida e a única coisa que lamento é que esta história tenda a ignorar o colossal contributo intelectual das correntes marxistas para o pensamento político e económico. Do próprio Marx a Gramsci, passando por Lukács, Hobsbawm, Adorno, Trotski, Rosa Luxemburgo, Engels, Lenine, Althusser e dezenas de tantos outros. Apesar da cartilha dominante, tão pobre como a cartilha marxista vendida pelo comunismo oficial que ainda sobrevive, poucos serão os movimentos ideológicos com mais extensos, abrangentes e profundos contributos para o pensamento universal. Saber que o pensamento marxista não é hoje objeto de estudo nas faculdades de economia dá uma dimensão do apagão intelectual e histórico que se operou, de forma consciente e premeditada, na nossa inteligência coletiva. É impossível compreender o século XX sem compreender o papel político e intelectual que tiveram as várias correntes marxistas ou pós-marxistas. E quem não compreende o século XX não está apetrechado para compreender o século XXI.

Resumir, como se tornou hábito preguiçoso, a história do comunismo à experiência estalinista e comparar, como se tornou quase óbvio, o comunismo ao nazismo, não compreendendo a profundidade, universalidade e durabilidade totalmente distintas de um e de outro fenómeno, ficando apenas por uma contagem de vitimas, é pura ignorância histórica. Ainda assim, é impossível qualquer debate sobre o movimento comunista que não tenha a experiência soviética como centro da análise. Cem anos depois, o balanço pode ser feito com alguma serenidade.

Para qualquer tipo de julgamento moral da revolução russa é importante, apesar de tudo, ter em conta que ela não corresponde a uma transição de uma sociedade democrática e livre para um regime socialista sanguinário. A revolução russa começou, mesmo com todos os seus crimes, por corresponder a um processo inimaginável de libertação de milhões de seres humanos de um sistema feudal não menos criminoso. Mesmo aos olhos da avaliação mais severa, a revolução russa foi, no momento e no lugar em que se deu, um brutal avanço histórico. Apenas comparável à revolução francesa (também ela recheada de crimes) que a precedeu e sem a qual o próprio comunismo é incompreensível.

Os dados hoje conhecidos permitem ter como certa uma verdade desconfortável para a narrativa oficial dos partidos comunistas tradicionais e de alguns movimentos comunistas críticos do estalinismo: mesmo tendo em conta a natureza revolucionária do poder e a guerra civil que marcou os primeiros anos do poder dos bolcheviques, quase toda a cultura política repressiva, arbitrária e paranoica que marcou o terror estalinista já estava presente em Lenine e Trotsky. O que muitas vezes me tem levado a dizer, a trotskistas, que eles são apenas os estalinistas que perderam. Somam, portanto, dois defeitos.

A experiência estalinista que sucedeu ao período inicial da longa experiência socialista na URSS, uma das mais mortíferas e criminosas que a história conheceu, e os anos cinzentos de normalização conservadora de Kruschev, Brejnev e os coveiros finais, não me merecem o mesmo olhar cuidadoso que empresto ao período revolucionário, sempre mais difícil de julgar. Para os povos que a viveram, a experiência comunista foi uma tragédia humana, social, económica e até cultural. E não há como minorar o rasto de crime de deixou à sua passagem.

Mas há um outro lado da experiência soviética: os seus efeitos nas sociedades industrializadas e colonizadas. A própria ideia de que aqueles que sempre foram apenas objetos do poder pudessem sonhar sequer ser sujeitos desse poder foi esmagadora para alimentar a revolta popular. O efeito colossal que essa vitória teve junto de milhões de trabalhadores explorados até aos limites da sobrevivência em todo o mundo iria determinar as sociedades em que vivemos, marcando o movimento operário nas sociedades industrializadas do ocidente, os movimentos anticoloniais em África e na Ásia e a construção do que viria a ser o Estado Social moderno. Resumir os efeitos da revolução bolchevique ao papel que teve no império russo e nos países que viriam a estar ligados ao bloco socialista é não compreender o papel que esta revolução teve no mundo e na forma como os trabalhadores passaram a olhar para o seu lugar no processo histórico e na sociedade.

Penso não arriscar muito se disser que o Estado Social e grande parte dos direitos dos trabalhadores, tratados como gado no final do século XIX, nunca se teriam generalizado e aprofundado sem a revolução russa e o fantasma do perigo comunista. Serei ainda mais cru: sem a sensação de perigo, até de perigo físico, que o terramoto da revolução russa e as suas réplicas por todo o mundo provocaram nas burguesias nacionais nunca os trabalhadores teriam conquistado os direitos e a liberdade que conquistaram nas democracias ocidentais.

Este legado da revolução russa não será moral e politicamente mais relevante do que os rios de sangue que a experiência comunista fez correr onde chegou ao poder. Mas não pode ser ignorado. Num tempo em que a força do trabalho volta a estar sujeita a toda a arbitrariedade, isto leva-nos a uma dúvida inquietante: sem este medo, estamos condenados a regressar ao paradigma de exploração que nos fará regressar ao início do século XX?

A imposição da lei e da ordem, que leva os mais pobres a não se apossarem pela força dos bens dos mais ricos, depende da repressão e do medo. É o que impede que vivamos numa selva onde manda quem tem mais força física. O susto da revolução russa levou mais longe este medo e os seus efeitos: criou na burguesia, verdadeira detentora de todos os instrumentos repressivos, um medo que só fora experimentado pelos trabalhadores. O capitalismo salvou-se e prosperou na Europa, consciente desse risco e criando condições para partilhar com os trabalhadores uma pequena parte da prosperidade e do bem estar e dando-lhes instrumentos institucionais para desenvolverem a sua luta dentro do quadro legal e democrático.

O fim do perigo comunista e a ausência de uma alternativa devolveram ao poder económico uma sensação de total impunidade. Estamos, no equilíbrio de poder e na distribuição de rendimentos entre trabalho e capital, a recuar um século. E quanto maior é a sensação de impunidade mais arrojado é o seu comportamento. Ainda não vimos nada no caminho para a escravidão. Porque o poder económico sem medo porta-se como todo o poder sem freio.