Os estandartes de Outubro

(Por Joseph Praetorius, in Facebook, 15/11/2017)
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Joseph Praetorius

Sete dias volvidos sobre o Sete de Novembro, recordo a excitação com que aos 14 anos recebi um pequeno busto de Lenine, clandestinamente trazido da URSS e em cuja memória eu admirava o homem que mudara a face do mundo. Percorri boa parte dos 40 volumes das suas obras completas (44 volumes se bem me lembro).
E foi Georges Gusdorff quem me salvou da perspectiva marxista da História e inviabilizou uma adesão cega, que os primeiros impulsos certamente teriam determinado. Conheci o texto pelas fotocópias de minha mãe, que nessa altura decidiu frequentar o ISPA. (Só quinze anos depois me lembrei de procurar aquilo em Paris e foi fácil encontrar, nunca encontrei o texto aqui). Miranda Santos, em História da Psicologia, exigia a leitura daquilo. E eu li também. Em 85 encontrei-o no bar da Faculdade de Letras em Coimbra, onde um acaso profissional me levara. E pude agradecer-lhe essa indicação bibliográfica e a importância que ele teve na minha adolescência. Não falhava uma aula dele. Dois anos depois dessas aulas, nos jesuítas, sistematizei as concepções medievais da periodização da História. Nesse exercício percebi muitas coisas.
Trasímaco também foi importante e por isso estou grato ao bom velho Platão que no-lo deu a conhecer. O reconhecimento da luta de classes não é uma originalidade de Marx. Não é isso que o singulariza. Já o descobri em Filosofia – onde as escandalosas lacunas de formação filosófica e histórica dos professores de Direito me obrigaram a ir – Platão e Gusdorff foram portanto as duas armas de que dispus para o solitário combate às duas barbáries. A das bestas que se imaginavam comunistas e a das bestas que se imaginavam de direita. Pouco mais tarde as minhas inquietações de cristão a braços com a clerezia papista, que me escandalizava em tudo, levar-me-iam à leitura do De Civitate Dei onde descobri um pensamento político radical ancorado nas referências do Direito Romano. A Lenine, só o percebi melhor quando li um dos livros de Michelet das estantes do meu avô. Há uns vinte anos, talvez. A minha mãe tinha-se esquecido de mo passar. Havia coisas que o meu avô sabia e eu ignorava completamente, portanto. Michelet caracteriza a sociedade russa em 1858, data da edição das Légendes démocratiques du nord, pelo “comunismo russo”. Referia-se às comunas de servos cujos pressupostos e teleologia Lenine alterou. mantendo a estrutura, se bem vejo.
Tenho sido surpreendido por uma espécie de euforia dos monárquicos russos. Isto notado, indiquem-me um nome de general monárquico no comando de qualquer dos exércitos brancos. Que comandante branco se bateu pelo trono? E expliquem-me que posição tomaram os brancos face ao número desproporcionado de destacamentos militares que “o ocidente” para ali tinha mandado, com claros intuitos de partilha do território.
É inútil branquear os brancos. Aquilo é completamente pardo. Nenhum deles se batia pelo imperador, embora houvesse uns mais respeitáveis que outros e outros completamente desprezíveis. Koltchac, homem de alguns méritos, proclamou-se Chefe do Estado e assim foi tratado até ser passado pelas armas. O desprezível Krasnov chegou a formar governo e também não se notou ali nenhuma fidelidade a não ser à Alemanha. Entregue pelos americanos a Stalin, suponho que foi enforcado. Denikin era um homem razoável. Burocrata dedicado. E claramente honesto. Muito longe de ser um aristocrata, aliás. Filho de servo libertado no serviço do exército imperial. Aristocratas eram muitos dos bolchevistas. Esses, sim. E os apelidos do Comité Central não enganam, de resto.
Os bolchevistas minaram o esforço de guerra do Exército imperial? Claro. Fizeram-no aliás com o heroísmo de militantes da paz em toda a Europa. Na Rússia também. E pagaram um preço elevado. A guerra foi criminosa. E o crime foi punido com a queda de todos os tronos que a desencadearam, somando o turco que com eles simpatizava. Não é possível deixar de honrar a memória dos que ousaram combater politicamente tal barbaridade. Os bolchevistas, claro. Houve outros?
Todavia tomaram o poder aos traidores de Fevereiro – onde estavam homens em quem o ódio ao Imperador era patente, como Kornilov – esses, em apoio de cujos compromissos a Rússia foi invadida por um milhão de homens em destacamentos militares “ocidentais” (mas Japão incluído) pretendendo erguer padrões nos territórios de que se assenhoreariam durante a guerra civil.
Tal guerra foi desencadeada pelos fantoches de Fevereiro, para serviço dos seus interesses pessoais e alheios, se bem vejo. Não obstante a presença de homens respeitáveis e aos quais ainda hoje os russos mantêm respeito. Denikin é um deles. E por isso repousa finalmente em solo pátrio. A desgraça militar é produto do fraccionamento de intenções, da rivalidade em avidez que fazia deles inimigos uns dos outros. Vinha isto a par de um sentimento de fraqueza de quem exigia ao “ocidente” o suprimento da força que lhes faltava. A coisa confessa-se até num hino – decalcado de uma canção de combate do Exército Vermelho, mas eles dizem que foi ao contrário – que cantavam em francês e aqui deixo a título documental.
O Exército Vermelho venceu a guerra – fazendo apelo ao povo, maioritariamente aos camponeses – sob o comando de não raros aristocratas, que se desincumbiram e bem dos seus compromissos com a integridade do solo pátrio. Salvaram-se as fronteiras. Sem contar com mais ninguém, senão com russos e povos a eles ligados. A história da Paz de Brest – sob a premência política de um momento único – foi antes disto; e mesmo aí os bolchevistas não foram meigos com os alemães.
A reconstrução da unidade em novo quadro jurídico foi também obra dos bolchevistas. Proclamadas as repúblicas nacionais, foram os tratados de adesão à URSS ratificados reconstruindo a unidade dos povos que no Império se tinha materialmente cristalizado.
A pobre família Romanov foi barbaramente assassinada, de modo absolutamente inútil, para mais. E já não era a Família Imperial. É este aliás um dos aspectos da inutilidade. A Revolução de Outubro não se fez contra o Imperador, que este já tinha caído, abdicado e sido preso. A Revolução fez-se contra os de Fevereiro. Foi a tal gente de Fevereiro que o poder foi tomado e bem tomado. Sem isso não haveria hoje Rússia, que aquela corja estava disposta a vender tudo, como de resto o tentou fazer.
O Grão Duque Aleksander Mihailovitch escreveu um depoimento claro. Foi Lenine quem salvou a integridade das fronteiras. E não é seguramente o meu papel discutir com tão qualificada testemunha. Melhor fariam os monárquicos russos – começando pelos que se reclamam titulares – em dirigir contra si próprios as principais censuras. Que fizeram eles para salvar o Imperador de si próprio e dos outros? Não sabiam – e ainda não sabem – que antes do trono cair, devem cair os que o defendem? É esse o sentido da nobreza. O escol é a escolta – quem deixou só o Imperador? Fui eu? Sorte têm eles por não lhes ter sido dito até agora que tais títulos, em razão de tal infâmia, caducaram, i.e. caíram. Também eles. E caíram por indignidade. É um pressuposto elementar da ordem cuja restauração pretendem (de modos muito pouco inteligentes, diga-se de passagem).
Sem querer absolver a estupidez – sempre homicida, como o ensina Platão – recuso-me completamente a absolver a hipocrisia, sempre cobarde, sempre calculista, sempre desprezível. E jamais absolverei o snobismo.
Razão teve – e teve, pobre e nobre homem – o embaixador do Imperador Russo junto do Trono do Pavão, que trabalhou como operário o resto da sua vida, em França, recusando aliás outro destino e qualquer alívio, porque “alguém tinha que assumir a responsabilidade pelo que ocorrera”. Quem no-lo disse foi seu filho (com quatro anos à data do início da rota rumo ao refúgio, do Irão a Paris) príncipe notabilíssimo da Santa Igreja Russa e de uma fidelidade sem quebras ao Patriarcado de Moscovo, refiro-me ao Metropolita Anthony Bloom, médico dos corpos e das almas, cientista e poeta e, por tudo, talvez, teólogo e bispo de excepção.
Independentemente de tudo, a Revolução fez o que o Imperador não quis, não pôde ou não soube fazer. A Revolução de Outubro salvou a Rússia. Antes de mais. E não é pouco.
E perspectivou-se como russa. Isto é, assumindo o compromisso russo e único com a liberdade e a transfiguração do mundo. À sua escala e com as suas referências, não vejo isto muito diferente (embora evidentemente laicizado) do modo como antes se vivia o radical compromisso dos únicos fiéis livres. na Nova Jerusalém representada na Catedral de S. Basílio no Kremlin. A Rússia foi – porventura sê-lo-á ainda – a única fronteira Ortodoxa sem ocupação ou vassalagem. Nada que não se veja com clareza na mais singela das liturgias da mais pobre das paróquias. Creio que Stalin o percebeu. Não sei de mais ninguém que o tenha visto. Mais ninguém além do (dissimulado) poeta georgiano – naquela direcção política – estava suficientemente perto da Igreja para o entender, ou seja, para se entender a si próprio como russo. O resto são equívocos. E há muitos.
Que temos mais? O Czar Nicolau que – como me ocorreu dizer um dia, por sugestão dele, talvez – libertado das práticas pôde subir aos princípios e foi canonizado por isso. Ah e os infelizes – tão nobres, de todos os pontos de vista a começar pelo da bravura – a quem o sentimento do dever forçou a sair do domínio dos princípios para descerem à prática dispersante dos pragmatismos em guerra. Honro-lhes a memória por não terem esquecido nunca, porque lhes estava nas veias, a causa da liberdade do mundo e a necessidade da sua transfiguração.
No Grande Lavra de Saint Petersburgo deambulei entre as campas de grandes vultos cujas sepulturas se distinguiam pelos símbolos. As cruzes, evidentemente. E a foice cruzada com o martelo. Sepulturas unidas no mesmo chão e à sombra do mesmo Sobor. No mosteiro dedicado a Santo Alexandre Nevsky. Eles fizeram a síntese por nós. Uns e outros olham-nos dos Jardins Eternos. E disseram-nos isso em tempo, ao escolherem jazer no mesmo campo sagrado, alinhados diante do túmulo do Príncipe Fundador. Cumpriram as suas vigílias. Repousem em paz.
Resta exigir ao pretensiosismo que não divida o que a terra une, como se fosse possível viver hoje o conflito com os homens de ontem. Ou como se pudesse ter sobrevivido alguma coisa a merecer a continuação, ou repetição, daquele específico combate. Os combates são outros, hoje. E convém travá-los com a bravura que mereça e construa a vitória.
A vitória é a liberdade do mundo. Evidentemente. E a sua transfiguração.
Aqui fica o documento, com o contra-documento já agora
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