Trump não é responsável pelo caos. Trump é o caos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/06/2020)

Daniel Oliveira

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É evidente que nada do que está a acontecer nos Estados Unidos é obra de Trump. Não é por causa de Trump que os EUA são uma panela de pressão, sempre à beira de rebentar numa orgia de violência. Não foi Donald Trump que escreveu uma história marcada pela escravatura, que se prolongou na restrição de direitos cívicos até meados do século passado e foi subsistida por uma política penal que criminaliza a comunidade negra. Não foi Donald Trump que criou a ideia de que a melhor forma de uma sociedade se defender é deixar que todos tenham armas, transformando o trabalho das forças de segurança uma caminhada pelo fio da navalha.

Também não foi Donald Trump que fez dos EUA um dos países mais desiguais do mundo desenvolvido. E onde essa desigualdade, contrariando o mito da mobilidade social, é incrivelmente persistente e hereditária. O sonho americano é na Suécia, não é seguramente nos EUA, ouvi uma vez alguém dizer. Não foi Donald Trump que decidiu que uma tragédia como esta pandemia se tem de viver sem serviço nacional de saúde público, gratuito e universal, sem proteção no desemprego, sem os mínimos de segurança. Não foi por causa de Donald Trump que se abriram valas comuns em Nova Iorque. Não foi por causa de Donald Trump que se fizeram filas para a compra de armas. Não foi Donald Trump que criou brutais bolsas de miséria que transformam boas partes dos Estados Unidos em países de terceiro mundo. Não foi Donald Trump que criou a cultura de violência que domina a vida social, cultural e política dos EUA. Em resumo: Trump não é a causa do que vemos, é a consequência.

Tenho um fascínio por tudo o que é dinâmico, contraditório e brutal nos EUA. Não partilho a arrogância europeia para com o novo mundo. Pelo contrário, acho o estilo afetado, aristocrata e altivo dos europeus profundamente maçador. Entusiasma-me bem mais o pioneiro, o emigrante e o refugiado do que colono saudoso do império perdido. Mas sei o que sabemos todos: que enquanto não enfrentarem a sua pornográfica desigualdade os EUA estão condenados ao motim cíclico. E que, em tudo isto, a questão racial é constitutiva da desigualdade estrutural que os domina. Tão profunda que é estranho que haja quem tenha acreditado que a eleição de um presidente negro anunciava uma América pós-racial.

Se não foi Trump que fez nada disto, porque se fala tanto de Trump? Porque Trump explorou o ódio racial para se fazer eleger. Porque deu todos os sinais de impunidade para que a violência policial e o racismo se sentissem livres. Porque se alimentou e se alimenta da violência social e cultural, da incomunicabilidade, da desumanização do outro. Porque mesmo com o país a ferro e fogo, é isso que continua a fazer. Trump vive do conflito. E não do conflito revolucionário, com projeto ou construtivo, de onde nascem sínteses que mudam as sociedades para melhor ou para pior. De um conflito regressivo, que bloqueia qualquer solução.

Trump não colocou os Estados Unidos no beco sem saída em que parecem estar. Trump é o beco sem saída. É a consequência de uma democracia que não se regenerou e não respondeu à injustiça. E escusam os que procuram uma desculpa para o voto irresponsável vir dizer que é um grito de revolta. Esse grito está do lado dos que o combatem. Ele precisa deste beco sem saída porque o impasse é tudo o que tem para oferecer.

Trump não é responsável pelo pé no pescoço de George Floyd. Trump é o pé no pescoço de George Floyd. Cada palavra sua sufoca a América no ódio que sempre lá esteve. Trump não é responsável pelo motim. Trump depende do motim. Porque ele vive do caos. Só no meio do desespero e do ódio as coisas que ele diz podem ser ditas. Só no meio do caos ele pode existir sem ser aberrante.

Quaresma no lugar certo – o da Política

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 07/05/2020)

FUTEBOL – Ricardo Quaresma. Jogo de qualificacao para o Campeonato do Mundo 2018, Portugal – Ilhas Faroe, realizado Estadio no Bessa, no Porto. Quinta, 31 de Agosto de 2017. (EPOCA 2017/2018) (Vitor Garcez)

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Os racistas podem ser os monstros que a memória do século XX não apaga e podem ser figurinhas medíocres, sem convicção, oportunistas do momento. Mas o racismo é sempre assunto sério, é sempre coisa da polis, porque os racistas, os grandes monstros ou os pequenotes anedóticos, comungam no objetivo do apagamento do outro. Discriminar em função da etnia é sempre apagar, é tirar do mapa e esse objetivo é conseguido pelo verbo, pela ação, com pequenos e com grandes gestos.

Pretender que se crie um plano de confinamento específico para a comunidade cigana, devidamente estereotipada e falsamente acusada de comportamentos alucinantes em tempos de pandemia, remete-nos para a máquina jurídico-administrativa que o nazismo montou para que, numa política de pequenos passos, os judeus fossem despojados da sua humanidade com adesão consequente dos alemães “puros” ao novo normal, ao afastamento (apagamento) dos judeus da cidade. Criou-se, também pelo Direito, uma consciência coletiva de obediência ao normativo.

Pretender que haja regras de confinamento para a todos e outras à parte para as pessoas ciganas faz-nos pensar nos tempos que um parlamento aprovou leis para proteger o sangue de um povo idealizado.

Felizmente, a esmagadora maioria das portuguesas e dos portugueses sabe que somos comunidade junta e que o recurso à ciganofobia em tempos de menor atenção mediática é coisa de racista aflito. Mas o racismo é sempre assunto sério e é sempre assunto político. Todas e todos nós temos lugar aí mesmo, na cidadania livre.

Ricardo Quaresma deu um pontapé no racismo de Ventura. Ventura, nervoso, pediu para calarem o jogador, dizendo que não lhe cabe falar de política.

Ricardo Quaresma, na verdade, erguendo-se como pessoa cigana, foi a pessoa livre e responsável que recusou o nosso apagamento e que falando no lugar certo engrandeceu a política.

É racismo ou é racismo no contexto da cultura de violência do futebol?

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/02/2020)

Pacheco Pereira

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É tudo mau, sabemos nós, mas não é a mesma coisa responder de uma forma ou de outra. Porque não é o mesmo. Devo, aliás, dizer desde já que não acho que o episódio de Marega seja, em si mesmo, muito significativo do racismo em Portugal. Preocupam-me muito mais incidentes como os que ocorrem em bairros degradados, onde a maioria da população é de origem africana, e que envolvem a polícia, ou os conflitos com ciganos, ou mesmo incidentes de violência individualizados, como o que ocorreu com uma senhora, um condutor de autocarros e a polícia na Amadora. Dito de outra maneira, onde eu penso que são mais graves os fenómenos de racismo é naquilo que se pode chamar conflitos de proximidade, onde comunidades negras ou ciganas vivem em guetos ao lado de populações brancas, muitas vezes unidos pela mesma miséria, pobreza e exclusão.

Os profissionais políticos do anti-racismo querem tirar os insultos racistas a Marega do contexto em que foram proferidos, porque querem marcar um ponto político que é dizer que “Portugal é racista”, e não se querem meter com o futebol porque, por um lado, o futebol é popular e, por outro, porque dá um contexto diferente ao que aconteceu. Esse contexto não minimiza o racismo, mas diminui o seu valor enquanto acto de racismo.

Os adeptos do Guimarães que insultaram o jogador negro, insultos racistas sem dúvida, vivem numa parte do país onde não há esse racismo de proximidade, e onde incidentes racistas são incomuns e mesmo raros. O racismo não caracteriza a vida de Guimarães, mas a violência no futebol caracteriza, como caracteriza o futebol no seu conjunto, onde este tipo de comportamento existe em praticamente todos os grandes clubes que têm claques, e onde o sentimento tribal é acentuado. É a violência tribal no futebol que leva aos insultos e, como o jogador é negro, os insultos são racistas.

Cântico da Juve Leo

Quando os insultos são à mãe de um jogador, gritados por uma pequena multidão, que urra “filho da puta” quando um guarda-redes está para defender um pénalti, ou ao jogador que o vai marcar, eles são exactamente da mesma natureza dos que que fizeram o jogador negro sair do campo. (Devo dizer entre parêntesis que acho que ele fez bem, quem não se sente não é filho de boa gente, e ninguém deve ter complacência com energúmenos.) São insultos, e quer a mãe do jogador, quer a cor da pele, não têm que ser agredidos por uma turba exaltada e utilitária. Porque a função dos insultos é perturbar um jogador ou uma equipa na sua eficácia em campo e, por isso, são inaceitáveis e sancionáveis. Aliás, uma das coisas que vai passar a acontecer ainda mais é a repetição dos insultos racistas com o objectivo de levar jogadores negros de qualidade a abandonarem o jogo, e assim aumentarem as chances da equipa dos insultantes.

Se há questão no que aconteceu, é mostrar o futebol como um dos reservatórios de violência na sociedade portuguesa e, sendo assim, naturalmente contendo o racismo na panóplia dessa violência latente. Quando os adeptos das claques passeados pela rua como um grupo de animais ferozes, numa operação policial com contornos militares, com o dinheiro dos nossos impostos, passam em frente dos rivais, não só gritam todos os impropérios do dicionário e alguns fora dele, como arremessam o que podem. E o mais grave é que se considera isto normal.

O que é que é mais parecido com o que aconteceu em Guimarães? O que é mais ofensivo, chamar a alguém “macaco” ou “filho da puta”? É a mesma coisa, e significa socialmente a mesma coisa. Pode-se alegar que há uma diferença cultural entre insultar a mãe de um jogador ou a cor da pele. Há. Mas o mais provável é que os insultos sejam intermutáveis neste caso e não mostrem um particular ânimo racista. Claro que, tendo em conta mais um sobressalto de indignação colectivo que se tem passado, com muita gente que está farta de ouvir insultos do mesmo tipo nos campos de futebol sem mexer uma palha, a chorar de hipocrisia e indignação, parece quase um crime, racista claro, dizer isto. Mas para quem não tenha uma agenda política que se centra numa certa concepção político-cultural do racismo, é pouco mais do que bom senso. Até porque este tipo de surtos de indignação só favorecem alguns grupos radicais e prejudicam qualquer combate eficaz contra o racismo real.