Moussa Marega, deixa-me dizer-te uma coisa

(Adriano Miranda, in Público, 17/02/2020)

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A rua do meu bairro era bastante larga para a época. Não era asfaltada. Era de terra batida. E ao fim do dia, depois das aulas, os amigos juntavam-se em redor da bola de futebol. A rua era o nosso campo de futebol. Jogávamos com os nossos ídolos na cabeça. Não existiam camisolas dos clubes com os craques gravados por cima do número. O Eusébio, o Coluna, o Yazalde, o Damas, o Dinis, o Torres, o Simões estavam todos dentro da nossa cabeça. Guardados em sonhos na esperança de um dia sermos como eles. No meio do pó, braços e pernas dançavam ao som das melhores fintas, na proeza da melhor defesa. Estava o filho do bancário e o filho do sapateiro. O branco. O negro. O cigano. Estávamos todos unidos. A bola era o ponto da nossa união.

Como se poderia adivinhar pelo jeito que eu tinha a rematar, o sonho foi-se desvanecendo. Não aprendi a dar mais que três toques seguidos nem a fazer a finta genial. O Damas, o meu herói, fez-me sportinguista. Serei sempre. Mas os miúdos da minha rua ensinaram-me o valor das palavras amizade e solidariedade. O mais importante. Foi o que ficou das “futeboladas” ao final do dia.

Todos os domingos vou ao futebol. Ver o Filipe. Tem 15 anos. Joga desde os seis anos. É mil vezes melhor que o pai. Gosto de ver a sua combatividade. As suas fintas. Ouvir o nome dele na bancada com palavras de incentivo. Gosto. Mas do que gosto mais é quando o Filipe aleija algum adversário e fica junto dele até saber que a dor é passageira. Pede-lhe desculpa. Afaga-lhe sempre a cabeça. Ou quando aconchega algum adversário ou companheiro de equipa que chora com a derrota ou com o falhanço de um penálti. O Filipe já não joga numa qualquer estrada empoeirada. Joga em relva sintética, com chuteiras de marca. Mas o Filipe sabe o valor das palavras que o pai aprendeu: amizade e solidariedade. Ele também já as aprendeu. E isso vale mais do que qualquer golo.

Todos os fins-de-semana os campos de futebol dos clubes mais recônditos enchem-se de pais, treinadores, jogadores e dirigentes assanhados. Violência verbal, violência física. Tudo vale num estado quase hipnótico, esquecendo que na relva falsa estão crianças e jovens a praticar desporto. Tudo vale no chamado “futebol de formação”. Compra de resultados, aliciamento de árbitros, sorteios viciados, fugas fiscais, branqueamento de capitais, apadrinhamentos, ofensas verbais, ofensas corporais e ofensas racistas. Tudo vale e tudo assobia para o lado. Todos os maus exemplos do futebol sénior são implementados no “futebol de formação”. E quem pode acabar com isto de uma vez por todas? O Moussa Marega já lançou a semente.

Na sala, onde damos descanso aos músculos e enaltecemos a preguiça, o pivô deu-nos a notícia. Na televisão com alta definição, vimos, incrédulos, a arena selvagem própria dos tempos de Nero. Marega não me fez chorar pelo golo que marcou. Se fosse do Sporting, talvez chorasse. Chorei ao ritmo da sua indignação, da sua humilhação. Chorei ao vê-lo apontar a sua pele tingida com um cartão amarelo. Note-se que Marega foi o único castigado. Ofendido e castigado. Sinal de que caminhamos a passos largos para uma sociedade sem valores, Marega não teve a amizade e a solidariedade de ninguém. Nem daqueles que têm a mesma cor na camisola. Nem daqueles que têm a mesma cor de pele. A humilhação também era para eles. E o melhor golo da partida era vê-los abraçados a Marega a abandonarem a arena de Nero. E nas bancadas, os homens e as mulheres de bem, aplaudirem de pé os bravos.

Sabemos que o futebol é uma indústria de ódios e fanatismos. Irracional. Terreno lamacento para a extrema-direita se alimentar de recrutamentos e multidões. No jogo entre a Lazio e o Tottenham, numa tarja enorme, podia ler-se: “Auschwitz a vossa pátria, o forno a vossa casa.” São tantos os exemplos. De gente que não é gente. Eles começam a andar por aí. Até nós deixarmos.

Moussa Marega, deixa-me dizer-te uma coisa. Desde domingo que fazes parte dos meus ídolos. Os ídolos que marcavam golos do outro mundo, os que ensopavam a camisola de suor, e agora tu, um ser humano excepcional. O Filipe, o aspirante a jogador, viu-te sair com a indignação no rosto. Aprendeu muito contigo. Aprendeu que somos todos filhos do mesmo chão. Obrigado, Marega. A promessa fica feita. O Filipe, se marcar algum golo, vai tirar a camisola de jogo e vai mostrar outra com o teu nome – MAREGA. Levará um cartão amarelo, até podia levar um vermelho. Que se lixe. Existem valores que falam mais alto. E a luta pela dignidade não conhece castigos.


Por quem os joacinos dobram

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 01/02/2020)

Miguel Sousa Tavares

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Os joacinos dobram por uma esquerda dogmática e intelectualmente arrogante, que se imagina dona da verdade, da moral e da ordem justa de todas as coisas. Os joacinos dobram por uma esquerda refém e aterrorizada pelas modas do tempo, incapaz de reflectir para além delas e pronta a fazer tábua rasa de tudo o que aconteceu antes delas. Uma esquerda doutrinária e doutrinadora, que, sendo hoje maioritária em Portugal, desperdiça cegamente a oportunidade para encontrar os caminhos que separam a nova geração da política e da cultura democrática, empurrando-a irresponsavelmente para o amparo da extrema-direita antidemocrática. Uma esquerda que acredita que a demagogia se combate com mais demagogia e o populismo se vence dando ao povo tudo aquilo que o povo quer. Uma luta condenada ao insucesso, sempre atrás do tempo, atrás do prejuízo, no terreno onde o adversário está mais à vontade. E com as armas dele.

Nunca isto me pareceu tão claro como nestes dias em que todo o establishment da esquerda saiu em defesa da deputada Joacine Katar contra o deputado André Ventura. Mas, antes de ir à questão, um breve resumo sobre a deputada: logo na noite das eleições, na TVI, e logo após elas, aqui, disse que, ou muito me enganava, ou Joacine Katar ia espalhar-se ao comprido na primeira curva e em todas as outras, de tal maneira era evidente a oca vaidade e ânsia de protagonismo de quem se proclamava “negra, feminista radical e gaga” — como se tudo isso fosse um programa político e não apenas uma agenda sobre si própria. Desde o início, o seu objectivo era manter sob coacção, ou mesmo aterrorizados, todos os que ousassem fazer-lhe frente: quem a contestasse ou era racista, ou machista, ou contra os portadores de deficiência. E nisso se esgotava o seu programa político, que, como ela própria viria a esclarecer depois, nem sequer devia nada ao programa do partido pelo qual se elegera. Os votos, o lugar, a subvenção, o programa, tudo lhe pertencia e em exclusivo. Para sua salvação, restava-lhe provar que tinha ao menos alguma competência para a função. Mas, como todos já percebemos sem necessidade de mais provas, a deputada Joacine Katar Moreira é apenas negra, feminista radical e gaga. De resto, é absolutamente impreparada como deputada, incompetente para o trabalho parlamentar e pateticamente errática e primária ao nível das ideias políticas.

Veio ela agora — e por iniciativa própria, sem que nenhum dos supostos interessados tivesse abordado o assunto — levantar a questão da “devolução do património das ex-colónias portuguesas às suas comunidades de origem”. E isto em sede do debate sobre o Orçamento do Estado, o que é, sem dúvida, mais uma originalidade parlamentar da deputada. Sobre isto, começo por dizer que, para mim, Joacine Katar Moreira é tão portuguesa como eu próprio, nem mais nem menos. Essa noção difusa daquilo a que hoje chamamos pátria, se alguma coisa é, é o lugar onde vivemos, onde está a nossa casa, onde temos reconhecidos os nosso direitos e cumprimos os nossos deveres de cidadãos. E gosto de viver num país onde cada vez mais é diversa a origem dos seus nacionais — desde que aqui eles se assumam como portugueses, que é a contrapartida de serem reconhecidos como portugueses. Em segundo lugar, também acho inteiramente legítimo que alguém com dupla nacionalidade ou com nacionalidade portuguesa mas originário de um outro país, como Joacine Katar, preste uma particular atenção, inclusive como deputada, ao seu país de origem. O que já não acho tão justificável é que seja mais exigente com o seu país de acolhimento do que com o seu país de origem. Joacine Katar é originária da Guiné-Bissau, que se transformou num narco-Estado, minado por guerras civis sem fim, golpes de Estado sucessivos e uma cleptocracia governante que tem roubado o país e o povo para se locupletar a si própria. Ela, que agora está preocupada com as eventuais riquezas que roubámos ao seu país de origem, alguma vez se pronunciou sobre isto? E o mesmo em relação às outras ex-colónias portuguesas, com cujo património desviado agora se preocupa e as quais, com a notável excepção de Cabo Verde, seguiram todas idêntico caminho de serem roubadas pelos seus próprios dirigentes? Quando foi, por exemplo, que Joacine Katar levantou a voz para denunciar o continuado roubo de Angola pela cleptocracia de José Eduardo dos Santos? É que, por mais que ela vasculhe os museus e institutos do país, facilmente chegará à conclusão de que, em matéria de riquezas roubadas, o que os portugueses terão roubado em 500 anos de colonização é uma ridícula parte comparado com o que os dirigentes dessas colónias roubaram aos seus próprios povos em menos de 50 anos de independências.

E nem sequer entro na discussão de comparar o que trouxemos com o que deixámos, porque seria absurda: basta ir lá ver. Nós não pilhámos um Parténon, como os ingleses, nem saqueámos o Egipto, como a expedição de Napoleão Bonaparte. Mesmo países cujo passado colonial é praticamente inexistente têm um acervo de obras de arte trazidas de África, América do Sul e Oriente incomparavelmente superior ao que nós temos. A verdade inconvenien­te é esta: nós não temos praticamente nada. Porque não havia nada a que se pudesse chamar arte para trazer e porque, ao contrário de quase todos os outros, fomos para ficar e não para pilhar e voltar. Joacine devia aprender mais sobre a história de Portugal.

O que os portugueses terão roubado em 500 anos de colonização é uma ridícula parte comparada com o que os dirigentes dessas colónias roubaram aos seus próprios povos em menos de 50 anos de independências

Pior que tudo, para mim, é quando na sua proposta a deputada escreve que a comissão que iria fazer o levantamento das “obras de arte” a devolver deveria ser integrada por membros “anti-racistas”. O que é isso de um membro anti-racista? Quem é que está habilitado a passar certidões de anti-racismo? É a deputada Joacine Katar, é o dirigente da SOS Racismo, Mammadou-Ba, que declarava aqui há semanas que nenhum branco pode ser verdadeiramente anti-racista pelo simples facto de ser branco (da mesma forma, presumo, que nenhum heterossexual pode ser verdadeiramente anti-homofóbico pelo simples facto de ser heterossexual e nenhum homem pode ser contra a violência de género por ser homem)? É neste clima de intimidação, de autêntico terrorismo racial, neste ambiente em que a gritaria arrogante de minorias sobrepostas impede um consenso alargado e democrático sobre aquilo que nos deveria unir enquanto nação que a extrema-direita faz e fará o seu caminho, oferecendo-se como única alternativa nacional e consensual.

Nestes dias que passaram, ao ver toda a esquerda diligentemente alinhada cavalgar esta querela e sem pensar lançar-se no tiro ao boneco sobre André Ventura, não tenho dúvida de que fez mais pela sua popularidade do que ele próprio conseguiria se o deixassem em paz. Não aprenderam nada com a desastrada bravata de Ferro Rodrigues e voltaram à carga — para obter o mesmo resultado. Na TV, e como era de prever, André Ventura desfez em pedaços a argumentação de Ricardo Sá Fernandes, deixando-o a balbuciar que a devolução das imaginárias obras de arte às ex-colónias se inseria nas nossas melhores tradições de “multiculturalismo e intercâmbio”, enquanto Ventura avisava o povo de que a seguir nos vão exigir que paguemos uma indemnização pela escravatura e pelos 500 anos de colonialismo. Adivinhem de que lado terá ficado o povo…

2Outro assunto, mas não muito diverso deste… Na TV também José Miguel Júdice, figura de proa (agora retirado) da PLMJ, a socie­dade de advogados no olho do furacão Isabel dos Santos, não podia ter sido mais claro: mexam nisso, mexam, mas está lá toda a gente — Marcelo, Costa, governador, procuradoria, bancos, Sonae, Amorim. Enfim, todo o regime. Júdice tem razão, e é por isso que eu digo que Rui Pinto é um preso político.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Racismo primário – pertencemos todos!

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 30/01/2020)

Este podia ser um texto jurídico. Um texto a explicar que a Constituição rejeita o racismo, que a República quer dizer alguma coisa, que somos mesmo todos e todas iguais perante a lei.

Esqueçam o Direito. Por um instante.

O que temos visto por estes dias por parte de André Ventura é o regresso à essência mais radical do racismo.

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André Ventura usa das palavras – e as palavras têm muita força – para nos devolver ao horror da separação de identidades entre brancos e não brancos. Quem diz identidades diz pertenças. O não branco não pertence, o branco pertence. Daí que lhe saia sem pudor a proposta de deportar a Deputada portuguesa Joacine Katar Moreira, uma não branca que ele faz por identificar como estrangeira, ela que vá para a “terra dela”, eis o apelo aos instintos primários do racismo.

Não consegue o racista André Ventura dizer de mim o mesmo, não consegue sugerir que eu vá para o Brasil, onde nasci, porque não surte efeito. No lodo racista ninguém ousa não identificar-me como portuguesa de origem, natural de gema da terra lusa, enquanto que a pele negra tresanda a estrangeiro.

O regresso de André Ventura à essência do racismo faz dos corpos fronteiras, lugares, este e aquele corpo são ou não daqui consoante a pigmentação, não há cá cidadania no seu discurso fora da lei.

Evidentemente esta jogada monstruosa conta com o racismo presente na sociedade, racismo tão evidente que quando se fala nele salta a indignação em vez de saltar a reflexão.

Portugal é dos poucos países que conheço onde o racismo não é unanimemente reconhecido como um problema sério, estrutural, sendo antes visto como uma “causa” de alguns ativistas que vieram atrapalhar a calma lusa.

Assim sendo, neste caldo, André Ventura avança e adianta que se Joacine Katar Moreira pensa o que pensa é caso para perguntar porque não se vai embora.

La está. Mais uma vez faz de uma deputada portuguesa uma visitante. E faz do racismo um problema das pessoas racializadas. Como se não devesse ser um desconforto ético e moral para qualquer pessoa a existência de racismo, de sexismo, de homofobia ou de qualquer tipo de fenómeno discriminatório, independentemente de se pertencer a uma categoria discriminada. Seria caso para eu fugir do mundo, sendo mulher, por causa do sexismo? Não, mas a resposta é a mesma em relação ao racismo não sendo eu uma pessoa racializada.

A pergunta de Ventura é estúpida mas carregada de intenção. A intenção é a de sempre: gerar divisão, ódio, para crescer nessa onda.

Não é preciso explicar que não se concorda com a proposta x ou y de Joacine Katar Moreira para depois se dizer que estes dias foram alucinantes. As propostas devem ser debatidas com argumentos racionais, em sede própria.

O que não podemos admitir, o que deve merecer a nossa luta feroz, a luta de todas e de todos os democratas, é o racismo primário de Ventura, um cobarde cheio de vergonhas.

Pertencemos todos.