As atrocidades de Bolsonaro aí estão

(Por Estátua de Sal, 11/01/2019)

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Recebi o pequeno vídeo abaixo, enviado por alguém do Brasil que é “amigo” deste blog no Facebook, pedindo que o divulgasse.

Pois é, a violência já está a propagar-se pelo Brasil e os mais desprotegidos são os que vão pagar com sangue e lágrimas a perversão mental de Bolsonaro e companhia (Ver aqui).

Os indígenas, os que ainda restam, serão exterminados, em nome da prosperidade do agro-negócio e dos interesses dos grandes fazendeiros que ajudaram a eleger a besta. Minorias, mulheres, gentes LGBT, socialistas e comunistas, para o psicopata eleito não são gente, são apenas escumalha para abater.

É este o “irmão” do nosso Presidente e é esta a sua política que, como se vê, já está em marcha. E não digo mais nada, vejam o vídeo. A voz e o rosto que ele mostra falam melhor que eu.

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Quando os povos mergulham na noite

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 14/10/2018)

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No mesmo dia em que o eleitorado brasileiro colocou Jair Bolsonaro à entrada do Palácio do Planalto, foi divulgado um inquietante Relatório Especial do IPCC – órgão da ONU encarregado de monitorizar a marcha global das alterações climáticas. A mensagem é dupla. Primeiro, as alterações climáticas estão a crescer a um ritmo que a ciência, importa confessá-lo, não foi capaz de antecipar. Segundo, o limite antes considerado aceitável de 2ºC para o aumento da temperatura média até ao final do século afinal seria catastrófico, Devemos, por isso, usar a próxima década para mudar aceleradamente o nosso sistema de produção e consumo (de civilização, em geral), de modo a impedir que esse aumento ultrapasse 1,5ºC. Imaginemos Bolsonaro a ler o relatório do IPCC, o homem que quer destruir a Amazónia e que alardeia a sua ignorância e preconceito! O seu problema, como o de Trump, como o de Duterte e de todos os outros tiranetes é que nem sequer têm a literacia elementar para perceberem aquilo que recusam. A política foi inventada, acreditamos, para corporizar a força comum na superação das ameaças que só em comum podem ser vencidas. Se assim é, então, ao eleger líderes ignorantes, moralmente niilistas e semeadores da discórdia e do conflito – que nos levam para o abismo que deveriam evitar – estamos a colocar a antipolítica no lugar da política. De onde se deveria esperar a salvação vem, afinal, o maior perigo…

O que poderá levar os brasileiros a escolher para presidente um homem que fala e se comporta como um delinquente? Ou os norte-americanos a suportarem e, eventualmente, a reelegerem uma criatura totalmente indigna de crédito e confiança como Trump? Quando dizemos que Bolsonaro e Trump são a morte da política, corremos o risco de confundir causas com efeitos, de esquecer o que se passa na cabeça de cada eleitor em favor de um excesso de sociologia política. Na sua obra maior, O Princípio Esperança (1959), o filósofo Ernst Bloch analisava as diferenças entre o “sonho acordado” ou devaneio (Tagtraum) e o “sonho noturno” (Nachttraum). Com razão, Bloch destacava o facto de escassa atenção ter sido dada ao primeiro, enquanto o estudo do segundo até serviu de base para a construção da psicanálise. O devaneio, que não se esgota na idade juvenil, cumpre uma função de antecipação do futuro, constitui uma espécie de ensaio utópico quotidiano à escala individual. É um ato de higiene do espírito, em que, ao contrário do sonho noturno, nunca perdemos o controlo da efabulação nem a identidade própria. O devaneio raramente remete para o passado, como ocorre com o sonho noturno, mas visa o futuro, o mundo concreto partilhado com os outros. Voltando ao início.

Os povos só se entregam à noite dos ditadores e populistas quando os indivíduos deixam de ter capacidade de sonhar acordados. Só entrega o seu destino nas mãos de um monstro certificado como tal quem trocou o sonho acordado pelo medo paralisante e/ou pelo ódio cego que alimenta a violência indiscriminada.

Quando os eleitores desistem de imaginar o seu futuro, trocam a incerta aposta na esperança, que implica sempre um esforço individual, pela inevitabilidade do anónimo e impositivo pesadelo coletivo. No dia 28, os brasileiros vão escolher entre serem cidadãos racionais, capazes de ponderar o gradiente dos interesses e valores em jogo, ou cúmplices imputáveis dum golpe, possivelmente letal, contra a sua frágil ordem democrática.

Professor Universitário

Sobre alguns textos recentes publicados na Estátua de Sal

(Joseph Praetorius, 26/09/2018)

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Joseph Praetorius

Estive a ver a Estátua de Sal e – realmente – é um trabalho militante e meritório esta selecção do que conta entre as opiniões publicadas.

Acreditando na selecção das últimas crónicas o regime está por um fio. O esvasiamento ideológico não podia ser mais radical.

O coiso acha que devíamos ler o 1984, o outro coiso acha que se um juiz fosse penetrado contra vontade diria que tinha sido violado, Sócrates aparece a dizer coisas sensatas e um coronel vem explicar que a prisão do coronel comandante da PJ militar é um absurdo e uma indecência (o que já toda a gente timha visto).

É tudo o que têm a dizer-nos…

Acho que a pretendida não-violação merecia que alguém com olhos na cara tivesse notado o papel indecorosamente instrumental reservado ali à mulher.

Porque quando dois homens tratam assim uma mulher, eles não estão a relacionar-se com ela (que de resto estava inconsciente ou quase, se bem percebi) mas a relacionar-se entre eles a pretexto dela. É bastante pior do que tudo o que foi dito. Ou escrito.

Houve violação, isso parece-me evidente. Em contexto especialmente alarmante, aliás. Não é preciso imaginar um juiz sodomizado contra vontade para fundar tal ponto de vista. Isso é estricto sadismo de cronista.