Fátima Bonifácio, o “Público” e os valores morais dos brancos

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/07/2019)

Daniel Oliveira

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Fátima Bonifácio escreveu, no “Público”, um artigo que teve como ponto de partida a ideia de se criarem quotas para minorias étnicas semelhantes às que já existem para as mulheres. As quotas para mulheres conseguiram, apesar de todas as críticas, romper com o bloqueio que existia à sua representação política e visibilidade públicas. O resultado desta medida desmentiu a ideia de que pode existir uma progressão social meritocrática que ignora relações de poder pré-existentes. As quotas, por natureza transitórias, não são uma forma de ignorar o mérito, são uma forma de derrubar as barreiras do preconceito que se sobrepõem ao mérito.

No seu artigo, Fátima Bonifácio não nega nada disto. Pelo contrário, reconhece os bons resultados conseguidos pelas mulheres. Para depois dizer que isso não seria extensível às etnias. Porque não tenho uma opinião fechada sobre as quotas para minorias étnicas – assim como não tinha sobre as quotas para mulheres até recolher bons argumentos em sua defesa –, estava disponível para ler quem explicasse a diferença entre as duas. Por exemplo: umas e outras identidades serem mais ou menos difusas. Ou o peso destas minorias em comparação com metade da população, que é feminina. Havia muito por onde pegar para abrir um debate difícil. Aquilo com que me deparei é de tal forma abjeto que usá-lo como ponto de partida para qualquer debate corresponderia a um desprestígio intelectual para quem o fizesse. Não cumpre os mínimos. Sobre o artigo de Fátima Bonifácio, que poderia ser sobre um tema interessante e complexo, não há outro tema que não seja a própria existência do artigo.

As generalizações racistas com que somos brindados são precedidas por um postulado geral, escrito, sejamos justos, com uma clareza desconcertante: “As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios.”

Não vou perder tempo com os exemplos que Fátima Bonifácio utiliza, depois desta exuberante afirmação que atira grupos étnicos inteiros para o mesmo saco cultural, para explicar as diferenças entre negros e ciganos, por um lado, e “nós”, por outro. Têm mesmo de ler o texto. O grau de ignorância atrevida é de tal forma avassalador que seria tão difícil manter um diálogo com a senhora como com qualquer troglodita do PNR. Desde unificar os afrodescendentes com religiões e culturas totalmente diferentes num mesmo caldo cultural a parecer ignorar que os ciganos portugueses são maioritariamente cristãos (dantes maioritariamente católicos, agora seduzidos por igrejas evangélicas), ou nada saber sobre a relação do drama da mutilação genital feminina com o Islão ou sobre tradições ciganas, passando por uma sucessão impressionante erros factuais, imprecisões graves, generalizações absurdas e afirmações levianas, o artigo está ao nível da mais primária das conversas de café. É natural que assim seja, quando a colunista baseia alguns dos seus conhecimentos em relação às minorias étnicas na clássica conversa com a empregada doméstica.

Mas há momentos de deliciosa ironia. Depois de dedicar um parágrafo generalizador e racista aos ciganos, passa para os afrodescendentes e aponta-lhes o seu primeiro defeito coletivo: “Odeiam ciganos”. Aliás, “os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou ‘nacionalidades’ rivais”. Para quem possa estar distraído, Fátima Bonifácio é branca. Parece que acontece, excecionalmente, haver brancos que são “abertamente racistas”. Mas não é como nos africanos. Esses são mesmo todos.

Não fosse publicado num jornal, o texto corresponderia às alarvidades que podemos ler nas caixas de comentários aos artigos. A mesma ignorância atrevida, a mesma generalização racista, a mesma imbecilidade doutorada. Na realidade, se lermos as regras que o “Público” aplica (“são intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença”), percebemos que o jornal é mais criterioso na publicação de comentários aos artigos do que na publicação dos próprios artigos.

Como é natural, tendo em conta a natureza abertamente racista do artigo, houve muitas reações. Como seria de esperar, milhares de vítimas do politicamente correto rapidamente se atiraram para o chão. As regras deste tempo são estas: os alarves são livres de escreverem o que querem, de insultarem quem querem, de espalharem o ódio e o preconceito como querem. E quem se atreva a mostrar a sua indignação é um totalitário. E assim, o agressor vira vítima em poucos minutos.

O texto de Fátima Bonifácio não é semelhante a coisas ditas ou escritas por André Ventura. Nunca aquele oportunista se atreveu a dizer ou escrever metade do que lemos no “Público”. O texto de Fátima Bonifácio traça de forma explícita uma linha cultural divisória entre “nós”, os brancos, e “eles”, os outros. Como ela diz, africanos e ciganos não “fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade” e não “descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789”, não tendo “os mesmos valores morais” dos brancos.

Nada do que escreveu Fátima Bonifácio sobre negros e ciganos se distingue do que escreveria um nazi sobre judeus nos anos 30. Nada. É que eles não começaram por defender o Holocausto. Apenas explicaram que entre “nós” e os judeus havia uma fronteira intransponível de valores morais. Sendo os nossos obviamente superiores. O resto veio por arrasto.

Antes que nasça uma nova associação de lesados do politicamente correto, quero deixar claro que não pretendo que Fátima Bonifácio se cale. Só não quero ajudar a financiar a sua palavra, comprando jornais onde ela escreva. Mas defendo o seu direito a escrever e dizer todo o lixo que tenha na cabeça.

Sei que a banalização do racismo tem o perigo de o tornar aceitável, mas prefiro que se perceba de uma vez por todas que o problema de Trump e Bolsonaro não é serem boçais. Que o problema dos seus eleitores não é passarem muito tempo no Facebook. Que eles representam uma rutura civilizacional em que participam sectores intelectuais com peso político.

Acredito na liberdade de cada um escrever e de ler tudo o que quiser. E acredito na existência de jornais que dependem dos leitores. Não sou assinante do “Observador”. Também não sou do “Diabo”. Porque acho que devem ser os que se reveem naqueles projeto políticos e editoriais a financiá-los. Sou assinante do “Público” porque espero que, num clima de pluralismo, cumpra os valores que constam dos princípios editoriais que publicita desde a sua fundação. Defender a liberdade de todos se expressarem não implica eu ajudar a pagar propaganda xenófoba. Um jornal que eu leia é plural, dentro dos tais valores que Fátima Bonifácio julga serem seus mas não de Nelson Mandela. Quem se coloca de fora desses valores deve ter a liberdade de escrever, insultar e no fim ainda se atirar para o chão porque há quem não goste. E eu tenho a liberdade de não lhes pagar por isso.

Se “The New York Times”, “The Guardian” ou “Le Monde” publicassem um texto deste calibre, a revolta ganharia dimensões que o tremendamente tímido e inconsequente editorial de Manuel Carvalho não chegaria seguramente para serenar. A credibilidade demora muito a construir mas destrói-se num dia. Se não houver consequências disto, por pressão dos leitores, é péssimo sinal para o “Público”. É sinal que está morto. E eu não quero isso.

Um festival de “jabardices” e hipocrisia na Queima das Fitas

(Pacheco Pereira, in Público, 11/05/2019)

Vale a pena ir ao Jornal de Notícias e ao PÚBLICO para ver em detalhe o festival de “jabardices” que são as festas das Queimas das Fitas. Neste caso é a do Porto, mas todas as outras, em particular a de Coimbra, são iguais. A Queima das Fitas é um evento da praxe, está associado à mesma cultura estudantil das “jabardices” da praxe.

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Em vários casos ligados à praxe, nos últimos anos, houve de tudo, violações, vandalismo, todos os abusos do catálogo, feridos e mortos. Não é um exclusivo português. Casos muito semelhantes aos que agora geraram mais este escândalo sazonal são comuns, por exemplo, nas “fraternidades” americanas.

No escândalo deste ano encontram-se os ingredientes habituais: bebida, droga, sexo e vídeos. Há um outro ingrediente que devia ser colocado a par destes: negócio. Na verdade circula muito dinheiro na praxe e na Queima, e dirigentes académicos e os seus amigos ganham bastante nestes dias. Há nepotismo, colaboração com empresas de bebidas, venda de publicidade, há mil e um negócios que nunca foram escrutinados. Já para não falar dos negócios ilegais como tráfico de droga que também tem aqui muitos fornecedores e muitos clientes.

Negócio, bebida, droga, sexo e vídeos como pano de fundo das “jabardices” naturais numa cultura do vazio e voyeurismo, que vai muito para além dos estudantes. Tudo isto conta com uma enorme complacência da sociedade, que só tem paralelo com a violência organizada das claques de futebol, trazidas por uma operação militar-policial para os estádios como um bando de mastins que precisam de açaimo. A sociedade, a começar pelos paizinhos e mãezinhas dos meninos e das meninas, fecha os olhos para este festival de abusos da praxe, que faz explodir qualquer lista de causas “politicamente correctas”.

O que é interessante é ver o habitual cortejo de intelectuais que explicam as claques, os carnavais e as saturnálias como uma natural catarse social, mas ao mesmo tempo se preocupam muito com a violência de género, com o racismo, com o sexismo, etc. Meus caros amigos, tirem daí o sentido: não há futebol sem violência, não há Queima nem praxe sem sexismo nem violência de género. Está inscrito no ADN da coisa. Se querem acabar com um têm que acabar com o outro. E convém não esquecer que ambos são um bom negócio.

Mas há pior e mais socialmente perverso. O pior é a hipocrisia gigantesca que acompanha os eventos dos escândalos: este ano, a circulação de uns vídeos na rede de raparigas alcoolizadas ou não a exibirem-se sexualmente para ganhar uns shots numas barracas. As barracas estão lá desde o início, as tabelas de actos por shot também, e duvido que, se não fossem os vídeos – tão inevitáveis hoje como a lei da gravidade –,​ não haveria escândalo. Houve por isso, diz pomposa a Federação Académica do Porto (FAP), que não sabe que estas coisas acontecem no seu quintal, “atentados à dignidade da pessoa humana”.

O comunicado da FAP e alguns comentários de especialistas são exemplos desta gigantesca hipocrisia. Diz a FAP que encerrou “temporariamente” três barracas por promoverem condutas que não são “os valores que estão imputados à Queima das Fitas do Porto”. Deixem-me rir. A FAP depois resvala, está aliás mais preocupada com os vídeos que lhe estragaram a festa do que com os actos: “Depois de observar a captação de imagens de comportamentos indevidos (na sua grande maioria até mesmo indignos)”, a FAP decidiu ainda “proibir que tais situações continuem a acontecer” e decidiu que “todas as barraquinhas que o fizerem serão devidamente sancionadas”.

E fez um acordo para haver um Ponto Lilás onde vão estar pessoas de diferentes organizações, prontas a “prevenir situações de violência sexual”, gerido por um conjunto de organizações muito típicas da galáxia “politicamente correcta”: Kosmicare, o Sexism Free Night, Uni+, Eir Porto e Associação Plano i. Isto chama-se fazer o mal e depois a caramunha, ou seja, dar para os dois peditórios antagónicos ao mesmo tempo.

Se os actos do escândalo sazonal deste ano fossem individuais – cada um faz o que quer desde que não incomode os outros –,​ não vou rasgar as vestes da moral. Querem beber, f… e exibir-se, para outros ganharem dinheiro, muito bem. Mas façam-no longe dos locais públicos e sem dinheiro público, e não obriguem os contribuintes a pagar os custos dos excessos.

Agora não me venham com a propaganda do “valor” deste tipo de actividades colectivas, porque sendo colectivas são uma questão social, económica, cultural e política. E aqui não está em causa qualquer moralismo, mas a defesa de alguma sanidade pública que as democracias e a liberdade precisam.


Os milhares de censores oficiais e as dezenas de milhares oficiosos

(Pacheco Pereira, in Público, 04/05/2019)

O tempo está mau para as liberdades. Não na China onde está péssimo, mas nos EUA, na Europa, em Portugal, onde um crescendo de censura é muito preocupante. Mesmo muito. E a censura sob todas as formas, a começar pela clássica que conhecemos bem em Portugal, está a crescer. E o clamor censório também. À esquerda e à direita.

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O caso do cartoon de António é exemplar. Criticar a política actual do Estado de Israel não é ser anti-semita. Ser anti-sionista não é ser anti-semita. Criticar o par Trump-Netanyahu – uma das maiores ameaças pela sua política beligerante, anti-Palestina e anti-xiita ao serviço do príncipe assassino da Arábia Saudita, ao próprio Estado de Israel – não é ser anti-semita. Estava lá a estrela de David e a kipah na cabeça de Trump? Estava. Mas se fosse uma representação de um muçulmano não estaria o turbante, ou as barbas longas, ou algures o Crescente ou um minarete?

Pelos vistos, o New York Times, como aliás muitos políticos democratas, comporta-se face ao poderoso lóbi judaico americano como os republicanos diante do lóbi das armas, e tem um medo pânico de ficar em qualquer lista negra. As explicações do jornal são indignas de um órgão de comunicação de tradição liberal, no sentido americano. E é confundir tudo misturar o efectivo anti-semitismo que existe nos EUA e na Europa e que ataca sinagogas e vandaliza cemitérios judaicos como podendo ser fortalecido pela imagem caricatural, que bem podia ter os papéis invertidos, com Trump a fazer de cãozinho, e, neste caso, não podia ser um “salsicha”, e Netanyahu a trazê-lo pela trela. Trump podia ter um símbolo qualquer das igrejas evangélicas que o apoiam com hipocrisia absoluta e Netanyahu de kipah. E tenho que ter cuidado, a mais sinistra interiorização do actual policiamento de linguagem, para não parecer ser anti-semita.

Ainda se fosse apenas o cartoon do cego e do cão “salsicha”, mas não é. Todas as semanas a nova polícia de costumes e o seu cortejo de censores indignam-se enchendo as ondas e o papel de “casos”, seja a dupla patetice do CDS de querer fazer em Arroios passadeiras LGBT e depois, no mesmo CDS, achar-se que isso é o fim do mundo ocidental; seja uma partida de mau gosto de uma espécie de situacionistas fora de época contra os brasileiros na Faculdade de Direito. Duplicidade de critérios: quantos exemplos de machismo, racismo, e outros ismos, proliferam na praxe? Vão às moribundas repúblicas de Coimbra e ver as practical jokes, cem anos de tudo o que é politicamente incorrecto. E para muitos que vivem só nas “redes sociais” – e apetece dizer “é bem feito!” – há cada vez maior censura no Facebook a tudo o que pareça ser de extrema-direita como o Info-Wars. Hoje é à direita, depois será à esquerda. Admirem-se, mas eu acho que o Info-Wars é mil vezes mais inócuo do que o Twitter permitir a Trump aquilo que não permite a um cidadão comum. A ele, que todos os dias insulta pessoas, ameaça-as de prisão ou despedimento, e divulga fake news como quem respira, ninguém censura.

Se se querem cometer abusos que são crimes, aumentem-se as penas e acelerem-se os processos. Obrigue-se a que o anonimato seja a excepção muito fundamentada, e proíba-se que Facebooks e outros não tenham identidade registada e verificada na empresa, mesmo que assinem com pseudónimo. Nada tenho a objectar que indivíduos, empresas, Estados e partidos possam ter que pensar duas vezes antes de escrever certas coisas no domínio da calúnia, do abuso da liberdade de expressão, do incitamento ao ódio e à violência, do recrutamento terrorista, da desinformação profissional de serviços de informação estrangeiros, que já são crimes e deviam ter penas, principalmente pecuniárias e de prisão, maiores do que as que já existem. Mas isso não se aplica a quem divulga teorias conspirativas, a quem tem ideias anti-democráticas, sejam fascistas ou comunistas, ou a quem acha que as mulheres são inferiores aos homens ou os brancos superiores aos negros e vice-versa.

Pode ser muito repelente, mas repetirei pela enésima vez que o direito dos outros à liberdade de se expressarem tem muito mais sentido quando se detesta o que eles fazem com esse direito. Têm essas ideias efeitos e consequências? Têm certamente e devem ser combatidas. Mas a censura é pior. Não é eficaz para impedir os malefícios do racismo ou do machismo, mas mata mais coisas à volta.

Por isso mesmo, não acho normal que, por todo o mundo, haja umas centenas de censores numa sala diante de ecrãs, tão anónimos e tão ignorantes como eram os antigos censores, com instruções vagas e discricionárias dadas pelo Facebook, pelo Google, pelo YouTube, pelas várias “redes sociais”, para adequar as “redes” ao politicamente correcto dos dias de hoje. Sabe-se pouco sobre estes homens e mulheres sem experiência da vida e sem conhecimentos, mão-de-obra quase tão barata como a dos call centers e que apagam sites, apagam imagens, apagam textos, punem com a expulsão das redes pessoas que podem ser as piores do mundo e terem as ideias mais nefastas, mas que têm também direito à livre expressão. Estas censuras e exclusões não têm recurso, embora agora o Facebook prometa que isso possa acontecer.

Mas parece uma cena do 1984 de Orwell e é. Estas empresas fizeram o mal e agora fazem a caramunha. A razão é simples, a liberdade nunca foi o seu objectivo, mas sim enriquecer.