A “fufa de merda” e as linhas vermelhas da democracia

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/04/2019)

Daniel Oliveira

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Isabel Moreira partilhou uma mensagem que lhe foi enviada através de uma rede social: “És uma vergonha, fufa de merda, mata-te…” Podia ser uma das centenas de mensagens que figuras públicas recebem. Sobretudo se defenderem minorias. Sobretudo se afrontarem o preconceito. E sobretudo se forem mulheres. Só que esta mensagem não vinha de um cidadão comum. O seu autor é dirigente do CDS de Barcelos. Como todos os cobardes que se escondem atrás de um teclado para assediar os outros, não teve a coragem de assumir a sua autoria. Veio dizer que a mensagem não era sua. Talvez um hacker apostado em tramar Armindo Leite. Quem sabe Rui Pinto.

Como é natural perante um crime de ódio contra uma deputada, Assunção Cristas veio pedir desculpas pela mensagem enviada pelo seu colega de partido, dizendo que repudiava aquilo tipo de discurso. Não chega a ser motivo de aplauso, mas felizmente o CDS não tem na primeira linha um Fernando Negrão disponível para defender o indefensável.

Sei que o repúdio e o pedido de desculpas de Assunção Cristas foram sinceros. Com todas as discordâncias que tenha, considero Cristas uma mulher civilizada. Nem sequer partilho a embirração que sinto haver à esquerda contra ela. Talvez por ter menos tendência para confundir a natural agressividade do confronto político com o carácter das pessoas. Sou assertivo e espero encontrar pessoas assertivas pela frente. Mas, perante a enorme gravidade desta mensagem, um pedido de desculpas não chega.

O gesto deste dirigente do CDS não foi pessoal. Foi dirigido a uma deputada por razões políticas. E o seu conteúdo, para além de corresponder a um crime, tem uma mensagem política explícita que não pode deixar de vincular o partido de que ele é dirigente. Menos do que um processo disciplinar que leve à sua expulsão não resolve o problema.

Não se trata de perseguir Armindo Leite pelas suas abjetas opiniões. Trata-se de traçar uma fronteira entre a atividade política e a criminalidade política. Aquela mensagem não foi apenas uma manifestação de um ponto de vista inaceitável, foi dirigida a uma pessoa concreta que ainda por cima é uma deputada de um partido a que o CDS se opõe.

É evidente que está a crescer no CDS (e também no PSD) uma corrente que se sente animada pelos ventos que vêm de fora e que fizeram parecer aceitável o que antes tínhamos como impensável. A conversa contra o “politicamente correto” libertou bestas que estavam contidas pela censura social. Os textos e declarações da inenarrável Joana Bento Rodrigues são exemplo disso. Mas esses estão no estrito espaço da opinião e representam, por mais que custe a Assunção Cristas e a Adolfo Mesquita Nunes, uma boa parte da base de apoio do CDS. Isto foi outra coisa. Uma coisa que tenderá a aumentar se a liderança do partido não fizer nada.

Não estou a tentar encontrar um Bolsonaro em cada esquina. Eles sempre andaram por aí assim como sempre andaram pelo Brasil. Agora sentem-se mais à vontade e é natural que estejam em maior número no partido mais à direita do espectro democrático português. Apesar de não ter ajudado a sua neutralidade quando foi a segunda volta das eleições brasileiras, Assunção Cristas não é responsável por isso. Mas terá responsabilidade se não for muito firme quando essas bestas começam a alimentar um clima que tornará o debate político no esgoto em que gente perigosa se sente mais à vontade.

Compreendo a tentação de ficar em cima do muro. Se Assunção Cristas fizer alguma coisa será acusada pela linha mais dura do partido de cedência ao “politicamente correto”. Haverá até quem ache que mais vale não irritar esta gente, não vão eles engrossar as fileiras da extrema-direita. Mas se não houver qualquer consequência para este dirigente do CDS, isto passará a ser visto como uma coisa criticável mas dentro do que pode acontecer em política. Será mais uma linha vermelha que se passará.

Um dirigente de um partido que se apresenta como democrático não pode mandar uma deputada matar-se chamando-a de “fufa de merda” sem que nada lhe aconteça. Compreendo que Isabel Moreira não queira fazer o papel de vítima. Mas o assunto não é sobre Isabel Moreira. É sobre a fronteira entre os partidos democráticos e o lixo. Não chega repudiar para traçar essa fronteira. É preciso pôr para lá dela quem não sabe participar no jogo democrático.


Fernando Pessoa é pornográfico?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 16/01/2019)

tadeu1

Qualquer miúdo ou miúda de 17 ou 18 anos sabe digitar a palavra “porn” no motor de busca do seu telemóvel para garantir acesso, instantâneo, a um mundo de milhões de vídeos de sexo explícito, convencionais ou bizarros, de casais ou em grupos, heterossexuais ou gays, divertidos ou violentos, de todas as variantes possíveis.

A facilidade de difusão massiva da pornografia no mundo de hoje terá certamente efeitos no comportamento sexual e afetivo de grande parte da população. Desconheço se estão apropriadamente estudados no universo académico (desconfio que não) e não me atrevo a escrever tiradas moralistas ou pseudo analíticas sobre a bondade ou a maldade dessa realidade.

Não tenho opinião formada sobre a massificação da pornografia e desconfio bastante de quem tem opiniões muito fortes sobre o tema: normalmente são cérebros com alma de censores.

Mas acho esquisito verificar ser relativamente banal haver casais que trocam mensagens com fotografias dos seus órgãos genitais: até um antigo secretário de Estado foi apanhado a fazer isso…. Usar a fotografia de um pénis como substituição de uma convencional frase de engate deveria, simplesmente, conduzir a um resultado desastroso… mas eu sei lá!

A geração dos meus pais, que lutou pela libertação sexual contra os rigores da moral católica e traficava às escondidas o Marquês de Sade, classificaria, mesmo assim, o ambiente atual de “dissoluto”: afinal, quando tinha 13 anos, tentaram evitar que eu lesse uma das novelas mais insonsas da literatura portuguesa, a “Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Dinis, com receio que o relato das paixões amorosas dos protagonistas me fizesse mal à cabeça de pré-adolescente.

É , portanto, num contexto que há 15 ou 20 anos facilmente, sem que ninguém se risse, seria classificado de “libertino” por vários líderes reverenciáveis da nossa sociedade, que surge, dissonante, a notícia do corte de três versos da Ode Triunfal de Fernando Pessoa, num manual da Porto Editora para alunos do 12º ano – ou seja, para rapazes e raparigas com 17 ou 18 anos de idade.

Os versos em causa são estes: “Ó automóveis apinhados de pândegos e putas” e, mais à frente, “E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o!/ Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada”.

Vejo aqui, entre muitos outros, dois fenómenos particularmente interessantes: por um lado, a desorientação de uma editora (com trabalho mais do que meritório ao longo de décadas) face ao criticismo com que a opinião publicada, provocada e amplificada pela orgia insultuosa das redes sociais, passou a apreciar, todos os anos, os conteúdos dos manuais escolares: desde a condenação dos livros diferentes para meninos e meninas até ao debate sobre o nível de exigência dos compêndios de matemática, tudo é escrutinado à lupa.

Provavelmente foi a antecipação da polémica que levou a Porto Editoria a cair na polémica.

Este é um pequeno exemplo de um efeito provocado pela desproporcionada relevância que os decisores, no Estado ou nas empresas, dão ao que se escreve sobre eles nos jornais e ao que se diz nas redes sociais: dar importância excessiva a tal pressão leva à prática recorrente de uma autocensura com critérios contraditórios e erráticos, castradora, reacionária, paralisante.

Quanto mais desbragado é o debate público, mais convencionais e ineficazes são as decisões dos responsáveis.

O outro fenómeno que queria aqui referir, a propósito deste incidente, é a perceção que me fica de uma tendência também generalizada para a infantilização dos adolescentes, a tentativa de perenizar uma superproteção física e moral que pais, encarregados de educação, pedagogos e instituições educativas procuram aplicar.

Os nossos miúdos, aos 18 anos, são legalmente considerados adultos, têm, para esta gente, maturidade para serem cidadãos autónomos, para se endividarem, para votar mas não estão preparados para enfrentar a mente atormentada de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa que escreveu os 240 versos da Ode Triunfal.

Ah! e ainda há outro ângulo: quantos professores, numa sala de aula cheia de alunos de 17 ou 18 anos, provavelmente desatentos, entretidos com o telemóvel, se sentem com arcaboiço para contextualizar, discutir, analisar e interpretar a Ode Triunfal, dizendo, em voz clara e firme, o verso “Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada”?…

Podemos levar o #MeToo até Neruda?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/12/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

A polémica começa de forma simples: há uma proposta para que o aeroporto de Santiago do Chile (Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez) se passe a chamar Aeroporto Pablo Neruda. A proposta não espanta. O Nobel de 1971 é provavelmente o chileno mais conhecido no mundo. Só que Neruda confessou, no seu livro de memórias, que violou uma funcionária de limpeza na antiga colónia britânica do Ceilão, onde desempenhou funções diplomáticas em 1929: “Era como se ela fosse uma estátua. Manteve os olhos bem abertos o tempo todo, sem reagir de forma nenhuma ao que estava a acontecer. De certo modo, ela fez bem em desprezar-me.” E isto tem feito crescer um movimento de mulheres contra a homenagem ao poeta. Numa estranha “aliança” com muitos políticos de direita e saudosistas da ditadura que, por razões óbvias, não apreciam Neruda e já tinham vetado esta denominação em 2015.

Uma das expressões que mais me irrita da vulgata política e não só é a de que a História julgará determinado acontecimento ou pessoa. A História não julga. Ou pelo menos não julga com Justiça. A História olha para o passado com os olhos do presente. E olhará para o presente com os olhos do futuro, nunca compreendendo plenamente o que hoje acontece. Pode olhar através da lente moral ou da lente política dos vencedores. Mas tem sempre essa distorção. E quando se trata de homenagear figuras do passado, o passado é quase irrelevante. As homenagens que fazemos serve para sublinhar valores conquistados no presente ou no passado próximo. Apenas reivindicamos o passado em nome deles.

Mas este processo tem de ser, apesar de tudo, cuidadoso. Se não devemos erguer heróis ignorando os seus crimes, devemos evitar julgamentos anacrónicos, que esquecem que há valores que hoje temos como indiscutíveis e que não o eram no passado. Mas, acima de tudo, não podemos olhar para as figuras históricas como figuras totais. Elas foram relevantes por alguma razão, não foram relevantes por todas as razões. E é pelas razões que as levaram a ser relevantes que as temos de evocar.

Não faz sentido homenagear um político se foi um tirano. Mas podemos homenagear um político que, apesar de ter sido um grande estadista, plagiou um texto. Não faz sentido homenagear um escritor se foi um plagiador. Mas podemos homenagear um escritor que tenha sido um fascista. Não faz sentido homenagear um padre, que se dedica a pregar a moral, que tenha sido um pedófilo. Mas faz sentido homenagear um cineasta que abusou de um menor. Há, claro, casos de fronteira. Elias Kazan foi um dos maiores realizadores da história do cinema. Mas a sua colaboração com o macartismo fez muito mal ao cinema. Do ponto de vista plástico, Leni Riefenstahl deixou uma obra notável. Mas é impossível separar essa obra – e não apenas a realizadora – do nazismo.

No essencial, o que quero dizer é julgamos um escritor como escritor, um político como político. As biografias podem contar todas as facetas dessas pessoas e isso ajuda-nos a humanizar os heróis e os vilões. Mas cada homenagem que fazemos não é uma beatificação. E não podemos revisitar todos os que deixaram marcas fortes na história do mundo à luz dos critérios morais de cada momento. Houve feministas racistas, houve abolicionistas homofóbicos, houve ativistas LGBT misóginos, houve revolucionários que juntaram tudo isto. Até porque todas as lutas não ganharam a mesma relevância na consciência de todos os que lutaram por um mundo melhor. E houve, entre todos, pessoas que cometeram crimes. Se assim foi com ativistas, com mais aguda consciência política, imagine-se com aqueles que são recordados por razões bem diferentes. Caso a causa animal venha a ser realmente triunfante, imagine-se apagar todas as homenagens a Hemingway ou Picasso porque enalteceram a tourada.

Apesar de todos os riscos neste tempo de indignação fácil, o #MeToo é um movimento globalmente positivo. Todas as injustiças, que nos obrigam a não ser meigos com linchamentos virais, não podem esconder o mais relevante: a voz das mulheres está a ganhar uma força que desconhecíamos. Sendo elas metade da humanidade, os efeitos serão profundos, por vezes assustadores, seguramente revolucionários. Com todos os perigos que estas mudanças trazem sempre, este sobressalto é indiscutivelmente positivo. Mas essa luta não pode ser totalitária. Ela não pode fazer esquecer todas as outras dimensões da história e da vida.

Podemos sublinhar que Neruda violou. E, já agora, que só o sabemos porque ele o escreveu. Mas não podemos, porque não faz sentido, fazer disso o mais relevante do que ele nos deixou. Se todas as personagens do nosso passado coletivo tiverem de passar pelo teste de decência perante as minorias étnicas, os homossexuais ou as mulheres dificilmente sobreviverá alguém.

Com o risco de uma luta para que o futuro seja diferente se transformar num interminável ajuste de contas com o passado que nos encaminha para a amnésia coletiva, sem pontos de referência que sobrevivam à limpeza.