Fernando Pessoa é pornográfico?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 16/01/2019)

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Qualquer miúdo ou miúda de 17 ou 18 anos sabe digitar a palavra “porn” no motor de busca do seu telemóvel para garantir acesso, instantâneo, a um mundo de milhões de vídeos de sexo explícito, convencionais ou bizarros, de casais ou em grupos, heterossexuais ou gays, divertidos ou violentos, de todas as variantes possíveis.

A facilidade de difusão massiva da pornografia no mundo de hoje terá certamente efeitos no comportamento sexual e afetivo de grande parte da população. Desconheço se estão apropriadamente estudados no universo académico (desconfio que não) e não me atrevo a escrever tiradas moralistas ou pseudo analíticas sobre a bondade ou a maldade dessa realidade.

Não tenho opinião formada sobre a massificação da pornografia e desconfio bastante de quem tem opiniões muito fortes sobre o tema: normalmente são cérebros com alma de censores.

Mas acho esquisito verificar ser relativamente banal haver casais que trocam mensagens com fotografias dos seus órgãos genitais: até um antigo secretário de Estado foi apanhado a fazer isso…. Usar a fotografia de um pénis como substituição de uma convencional frase de engate deveria, simplesmente, conduzir a um resultado desastroso… mas eu sei lá!

A geração dos meus pais, que lutou pela libertação sexual contra os rigores da moral católica e traficava às escondidas o Marquês de Sade, classificaria, mesmo assim, o ambiente atual de “dissoluto”: afinal, quando tinha 13 anos, tentaram evitar que eu lesse uma das novelas mais insonsas da literatura portuguesa, a “Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Dinis, com receio que o relato das paixões amorosas dos protagonistas me fizesse mal à cabeça de pré-adolescente.

É , portanto, num contexto que há 15 ou 20 anos facilmente, sem que ninguém se risse, seria classificado de “libertino” por vários líderes reverenciáveis da nossa sociedade, que surge, dissonante, a notícia do corte de três versos da Ode Triunfal de Fernando Pessoa, num manual da Porto Editora para alunos do 12º ano – ou seja, para rapazes e raparigas com 17 ou 18 anos de idade.

Os versos em causa são estes: “Ó automóveis apinhados de pândegos e putas” e, mais à frente, “E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o!/ Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada”.

Vejo aqui, entre muitos outros, dois fenómenos particularmente interessantes: por um lado, a desorientação de uma editora (com trabalho mais do que meritório ao longo de décadas) face ao criticismo com que a opinião publicada, provocada e amplificada pela orgia insultuosa das redes sociais, passou a apreciar, todos os anos, os conteúdos dos manuais escolares: desde a condenação dos livros diferentes para meninos e meninas até ao debate sobre o nível de exigência dos compêndios de matemática, tudo é escrutinado à lupa.

Provavelmente foi a antecipação da polémica que levou a Porto Editoria a cair na polémica.

Este é um pequeno exemplo de um efeito provocado pela desproporcionada relevância que os decisores, no Estado ou nas empresas, dão ao que se escreve sobre eles nos jornais e ao que se diz nas redes sociais: dar importância excessiva a tal pressão leva à prática recorrente de uma autocensura com critérios contraditórios e erráticos, castradora, reacionária, paralisante.

Quanto mais desbragado é o debate público, mais convencionais e ineficazes são as decisões dos responsáveis.

O outro fenómeno que queria aqui referir, a propósito deste incidente, é a perceção que me fica de uma tendência também generalizada para a infantilização dos adolescentes, a tentativa de perenizar uma superproteção física e moral que pais, encarregados de educação, pedagogos e instituições educativas procuram aplicar.

Os nossos miúdos, aos 18 anos, são legalmente considerados adultos, têm, para esta gente, maturidade para serem cidadãos autónomos, para se endividarem, para votar mas não estão preparados para enfrentar a mente atormentada de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa que escreveu os 240 versos da Ode Triunfal.

Ah! e ainda há outro ângulo: quantos professores, numa sala de aula cheia de alunos de 17 ou 18 anos, provavelmente desatentos, entretidos com o telemóvel, se sentem com arcaboiço para contextualizar, discutir, analisar e interpretar a Ode Triunfal, dizendo, em voz clara e firme, o verso “Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada”?…

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3 pensamentos sobre “Fernando Pessoa é pornográfico?

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