A Nova Ordem (de Hitler a Trump)

(Manuel Loff, in Público, 07/01/2026)


A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer.


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Perguntada anteontem se a UE entendia que o ataque militar dos EUA à Venezuela foi “uma intervenção, uma invasão, um ato de agressão, um golpe externo?”, a porta-voz da Comissão Europeia recusou-se a discutir a “terminologia” dos acontecimentos, e criticar ou condenar Trump. “Não creio que isso seja relevante” (PÚBLICO, 6/1/2026 ). O tom foi o mesmo entre os governos da UE, desde o chanceler alemão (para quem a questão legal é “complexa”) até Paulo Rangel, que não só encontra “intenções benignas” em Trump, como, jurista que é, precisava ainda assim de falar com “os seus “homólogos na Europa e os EUA, no sentido de ter uma visão mais completa da situação” para poder definir o ataque à luz do Direito Internacional.

É coerente que Israel, campeão das violações de direitos humanos e da legalidade internacional, tenha “felicitado” Trump “pela sua decisão” e “aplaudido as forças militares estadunidenses que levaram a cabo uma operação impecável” (a expressão é a mesma que tem usado a oposição antichavista e os seus vários porta-vozes em Portugal). A ele juntaram-se Milei, Zelensky e Corina Machado; era inevitável. Mas é patético que Rangel, para quem Portugal “valoriza sempre a legalidade internacional e a Carta das Nações Unidas”, não consiga perceber o que percebeu Guterres e os governos dos maiores países da América Latina ou o de Espanha: que se trata de uma violação descarada de toda a legalidade internacional. E que este é, depois da impunidade israelita na Palestina, um dos atos fundadores da Nova Ordem trumpista. Hitler quase conseguiu impor uma na II Guerra Mundial. Foi o que se viu.

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Mas voltemos à questão da “terminologia”. Regularmente insultados por toda a pandilha MAGA, que os neoliberais que dominam quase todos os governos europeus, em grande parte dos casos de mãos dadas com neofascistas que se sentem vingados por Trump, manifestem tanta falta de vontade em chamar as coisas pelos nomes, quer face a este ato de guerra ilegal contra a Venezuela como em três anos de genocídio em Gaza, diz tudo do processo de degeneração política que o neoliberalismo tem significado desde há já meio século. Esse processo tem um nome: fascização.

Trump reproduz neste século o que Mussolini inaugurou na política de massas de há cem anos: uma “liderança desinibida” e narcísica como lhe chama Wendy Brown em Nihilistic Times (2023). Quando a justiça italiana acusou, em 1925, vários squadristi fascistas do assassinato de Matteotti, um dos deputados socialistas que ainda sobravam no Parlamento, Mussolini, já então à frente do Governo, vangloriou-se de ser o capo do partido dos assassinos e desafiou, mão na anca, quem o quisesse enfrentar: “Fui eu que quis que as coisas chegassem a este ponto extremo”. Chama-se a isto impunidade, e o fascismo é, nos anos 1920-45 como nos dias de hoje, a reivindicação da impunidade do mais forte para fazer valer uma supremacia que julga ter-lhe sido dada pela acumulação de riqueza, pela tradição, por Deus ou simplesmente pela sua capacidade real de desprezar os valores da igualdade e todas as regras da própria constitucionalidade liberal.

A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer. No sistema internacional, deveria ser a ONU e o TPI quem deveriam atuar. Que não o possam fazer agora, e que continuem a não poder fazê-lo no genocídio de Gaza, deve-se exclusivamente aos EUA e aos seus aliados europeus no Conselho de Segurança. E à desoladora cobardia política (e moral) dos dirigentes dos aliados dos EUA na NATO, esse bando de “chamberlains”, como lhes chamou Ana Sá Lopes neste jornal em referência ao estadista britânico que apaziguou Hitler até ele invadir a França em 1940. Já nem sequer é ironia que eles se possam encontrar muito brevemente na mesma posição de Maduro quando Trump mandar invadir a Gronelândia, convencido, como dizia ontem com razão um assessor de Trump, que “ninguém oporá resistência armada aos EUA”. Apostamos em como a primeira-ministra da Dinamarca vai engolir a sua tese de que esse dia seria o do “fim da NATO”?

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

40 anos a exterminar Portugal

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 07/01/2026)


O cenário irá agravar-se nestes dias em que começam a celebrar-se os 40 anos de vida de Portugal em versão União Europeia, uma caricatura de país que arrasta os restos mortais, atacado por uma cegueira suicida.


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Ainda se ouvem os ecos das 12 badaladas, sempre muito enobrecidas pelo «anúncio do ano» em todas as televisões; ainda ressoam os estrondos das despropositadas trovoadas de fogos de artifício e já começaram as escutar-se as vozes de necrófilos e necrófagos que irão alimentar um tétrico coro  durante os próximos 365 dias.

Preparemo-nos para ser avassalados por enxurradas de loas e hossanas aos 40 anos que passam sobre a integração forçada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, depois reciclada em União Europeia para reforço do nível de atrocidades, em especial o desaparecimento da moeda nacional e consequente submissão ao terrorismo do euro.

Integração forçada porque nesta espécie de democracia, a que chamam «liberal» para atacar cada vez mais os interesses populares, não houve o cuidado mínimo de perguntar aos cidadãos se aceitavam ou não que o país fosse integrado numa comunidade internacional, passo esse que tinha como contrapartida a perda de aspectos fundamentais da soberania nacional. Escondidos ou «explicados» com toques épicos de manipulação, mas existentes para quem não estivesse distraído.

Na sequência do golpe reaccionário e estrangeirado de 25 de Novembro de 1975 foram postos em prática vários métodos convergentes para enganar o povo em relação à integração europeia. 

O poder não organizou qualquer referendo ou outra forma de consulta de opinião (que não sondagens)  para dar capacidade democrática de decisão aos cidadãos sobre essa matéria transcendente para a soberania nacional. 

Em relação a esta realidade insofismável, a classe política usurpadora da vontade popular costuma explicar que o assunto esteve implícito nos programas políticos e nas campanhas eleitorais para eleições parlamentares. Refinada mentira: as campanhas eleitorais não são períodos de esclarecimento, são feiras de vaidades, elegias ao bacoco, espectáculos medíocres com a profundidade mental de um talk-show tipo Big Brother ou – com um cariz familiar muito educativo no quadro doutrinário judaico-cristão – «A minha mãe com o teu pai». Por isso, um tema que exigia uma pormenorizada clarificação, honesta e profícua, foi abordado pela rama e em termos propagandísticos, apresentado como a nova árvore das patacas capaz de fazer cada um de nós um rico, no mínimo um desafogado.  

Os métodos usados para submeter o debate à enxurrada de mentiras que intoxica as campanhas eleitorais e para propagar as benesses associadas à integração no melhor dos mundos, foram reforçados por outra prática que se transformou num contexto obrigatório dentro da verdade única do regime: as pessoas ou as instituições que explicam, com factos concretos e inquestionáveis, as consequências nefastas da integração europeia são expostas no pelourinho reservado aos antipatriotas, aos antidemocratas, aos inimigos do progresso, aos totalitários, aos nacionalistas retintos. Esse comportamento assumido pelo regime militar, económico, político e social em vigor, reforçado através da faceta mistificadora, manipuladora e panfletária da comunicação social dominante, tornou-se um dogma que transforma em heréticos todos os que, racional e factualmente, se recusam a dizer ámen ao sagrado europeísmo.

O cenário irá agravar-se nestes dias em que começam a celebrar-se os 40 anos de vida de Portugal em versão União Europeia, uma caricatura de país que arrasta os restos mortais, atacado por uma cegueira suicida. Neste quadro de indigência assumida, a dignidade, a história, a cultura, as raízes e a própria língua de uma comunidade nacional quase milenar foram sacrificadas sem que a aliança de poder neoliberal/fascista pestanejasse. E um país que soube manter-se vivo no fio dos séculos – não discutamos agora alguns dos métodos usados – foi ofertado numa bandeja a um regime estrangeiro para servir de pasto a um sistema militarista, explorador, inculto e ignorante, racista e xenófobo, expansionista, intelectualmente doente e consolidado para usufruto do mercado, do dinheiro e do globalismo desumano – estado supremo do capitalismo neoliberal.

A realidade dramática que destrói o mito

A realidade, porém, é mais forte que o dogma. Daí a necessidade de o regime imposto em Lisboa (e mais 26 capitais) pelo sistema de poder transnacional de Bruxelas esconder a realidade nacional, substituindo-a por uma realidade virtual e paralela fabricada pela propaganda.

Dizer que a soberania de Portugal foi entregue, de mão beijada, a um regime federalista encapotado que se converteu de vez ao militarismo imperial parece não incomodar a generalidade dos portugueses. Uma grande maioria dos cidadãos, na verdade, não conhecem o que se passa e também não lhes é permitido saber que os principais poderes supostamente desempenhados pelos órgãos de soberania nacionais já foram transferidos para Bruxelas, quantas vezes à socapa.

Nesta «democracia liberal» as pessoas votam para um Parlamento, um governo e um chefe de Estado e, na realidade, estes só decidem e executam o que lhes é permitido decidir e executar pelos poderes sombrios que mexem os cordelinhos de instituições poderosas, não eleitas e totalitárias como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Isto é, a maioria vota em pessoas e nas instituições A, B ou C (o «arco da governação», incluindo a tara venturista) enquanto, lá longe, gente com rosto de euro ou dólar decide por elas, como se ninguém tivesse votado. A ditadura deixou, aparentemente, de ser bruta e sangrenta; refinou, tornou-se elegante, sofisticada, até «progressista», embora a arbitrariedade e a exploração continuem a ser poder e o sangue humano não deixe de correr, se necessário, o que parece estar cada vez mais próximo. Até as «esquerdas» fofinhas e bem falantes, perdidas em algaraviadas oportunistas e graxistas para receberem festinhas do poder e da comunicação social, acham o federalismo fixe, capaz de democratizar a União Europeia e de a transformar numa bem aventurança para os cidadãos. Esse reaccionarismo engalanado com floreados de mentiras e propaganda bem construídas atinge, sobretudo, gente que vive nas cidades e se cultiva lendo e ouvindo a casta «de referência» e ama afagar os pobrezinhos sempre que chega o Natal e nos curtos intervalos deixados pelas febres do consumismo e as férias e fins de semana em paraísos exóticos.

Em Portugal existe um mapa informal que corresponde às atrocidades que foram (e ainda são) cometidas em território português pela CEE/União Europeia, com custos humanos e materiais incalculáveis. Esse mapa assinala as feridas ainda expostas e deixadas pelo terramoto arrasador que liquidou o tecido produtivo português e tornou o país refém dos altos e baixos do turismo e consequente transmutação alienante do estilo de vida de vastas camadas da sociedade portuguesa. Além de igualmente refém de importações, chegadas de todo o mundo, de produtos que eram fabricados e cultivados, com altíssima qualidade, em Portugal e pelos trabalhadores portugueses.

A tragédia tornou-se real a partir de 1986, ano da integração na CEE, quando se dizia que chovia dinheiro europeu do qual todos iríamos tirar proveito. O tiro de partida, como atrás se escreveu, fora dado em 25 de Novembro de 1975, mas, militarmente e politicamente, a integração europeia veio reforçar os objectivos do golpe, não apenas para tentar liquidar os desenvolvimentos genuinamente democráticos tornados possíveis a partir de 25 de Abril de 1974, mas também para implantar os mecanismos repressivos e paraditatoriais talhados com o objectivo de impedir quaisquer correcções de rota ditadas pela vontade democrática e popular.

Em sectores de produção considerados essenciais para a sobrevivência dos portugueses, como o dos cereais, a comparação entre os números decorrentes da integração europeia e, por exemplo, os dos tempos da amaldiçoada Reforma Agrária não mentem. Em 1976, depois da Novembrada mas ainda antes da guerra aberta contra a Reforma Agrária, Portugal conseguia produzir três quartos dos cereais que consumia, pelo que importava um quarto do total necessário. Portugal «não era auto-suficiente em pão», dizia-se então, como um libelo acusatório contra uma das maiores conquistas da Revolução de Abril.

No ano de 1986, e apesar das malfeitorias iniciadas nos governos constitucionais de Mário Soares – quando a Reforma Agrária estava muito ferida mas não extinta – Portugal ainda produzia 60% dos cereais que consumia, pelo que importava 40%.

Pois 40 anos depois do início da integração europeia, aplicada a preceito a famosa «política agrícola comum», Portugal consegue produzir cerca de 18% dos cereais que consome. Isto é, tem de importar 82%, pouco menos que a totalidade. Obrigado Soares, Cavaco, Guterres, Sócrates, Barroso, Santana, Coelho, Costa e Montenegro, eis no que transformaram os «celeiros de Portugal», a começar pelo generoso Alentejo, ao rastejarem perante a UE/CEE.

Volta a Portugal em ruínas

Mas há matéria física, imune a qualquer propaganda virtuosa, que exibe os desmandos da integração europeia. Se, por uma vez na vida, o leitor fizer uma viagem em que ponha de lado as belezas, as tradições e as raízes culturais fantásticas do território nacional e procurar o contraponto trágico para a vista e outros sentidos, ficará vacinado de vez contra os mitos, as mentiras e as atrocidades propagandísticas da União Europeia/CEE.

Sabemos que a União Europeia, através da inteligentíssima desindustrialização, que agora precisa de ser invertida, como proclamam os irresponsáveis dirigentes, ficou vulnerável e irrisória, do ponto de vista produtivo e competitivo, perante o resto do mundo. Agora aqui d’el rei que os bárbaros querem destruir o nosso jardinzinho.

Para conhecer, sem sofismas, a imensa chaga deixada no sector produtivo português ao cabo de 40 anos de UE e de federalismo cada vez menos indisfarçado, está disponível uma volta a Portugal em ruínas industriais – e com roteiros bastante diversificados, consoante a vontade do viajante.

Se quiser começar pela capital, visite regiões de Marvila e do Beato, onde se produziam artigos tradicionais de consumo comum, como os prosaicos fósforos, sabões, massas e bolachas, alguns deles agora importados, e detenha-se na enorme ferida que é a Rua do Açúcar.

Adverte-se, desde já, que o panorama geral das ruínas já foi amainado pela museologia da arqueologia industrial e, em várias outras regiões ex-produtivas das margens norte e sul do Tejo, por condomínios privados e de luxo, destinados às riquíssimas minorias nacionais e aos especuladores estrangeiros que podem dar-se a esses luxos.

Depois siga por Mafra e Sintra, mais precisamente Pêro Pinheiro, Montelavar, Maceira e Pedra Furada, e conhecerá as chagas da indústria do mármore, actividade quase artesanal, artística, familiar e desenvolvida em pequenas e médias empresas que colocaram Portugal no topo internacional da qualidade neste sector.

Não se fique por aqui e reserve um tempo para descer até ao chamado anticlinal de Estremoz, também conhecido pelo «triângulo do mármore Borba-Estremoz-Vila Viçosa». Tanto nos concelhos de Mafra e Sintra, como na citada zona do Alentejo, os cenários repetem-se, como maior ou menor densidade: ruínas de fábricas e armazéns, restos e cacos de mármore espalhados nas imediações, esqueletos de máquinas enferrujadas, amplas pedreiras abandonadas, transformadas em lagos insalubres pestilentos. A União Europeia ignorou as pequenas e médias empresas, desprezou a qualidade e abriu o sector à «livre concorrência», isto é, a uma concorrência desleal em que os grandes empórios, sobretudo não-europeus, devoram os lugares onde o trabalho árduo e competente produzia arte. A qualidade do produto importado é muito inferior? Não interessa, os lucros são muito maiores e assim é que deve ser, para todos prosperarmos.

O leitor pode seguir depois pelos caminhos da extinta indústria pesada, onde o escândalo ganha ainda maiores dimensões. As estruturas industriais da CUF/Quimigal, no Barreiro, desabaram em quarteirões imensos mortos e fantasmagóricos; o magnífico e imenso santuário da indústria naval na Margueira, em Almada, admirado pela qualidade do seu trabalho, transformou-se num cemitério tão desolador como revoltante; o alto forno abandonado em Paio Pires, Seixal, assinala a redução à ínfima espécie da produção siderúrgica. Entre Almada e Setúbal, a obra da União Europeia e da respectiva desindustrialização expõe os efeitos de uma guerra contra Portugal da qual resultou a destruição quase total das outrora florescentes indústrias química, metalomecânica, siderúrgica, da reparação e construção naval.

De Lisboa a Vila Franca de Xira multiplicam-se as ruínas daquele que foi o epicentro do magnífico sector da cintura industrial de Lisboa situado na região a norte do Tejo. Vale a pena conhecê-las e admirar os destroços produzidos pelo querido europeísmo.

Requiem pelos têxteis e o vidro

Na região da Covilhã e no vale do Rio Ave pode o leitor testemunhar como a integração europeia exterminou a emblemática indústria têxtil, orgulho de Portugal, a maior concentração operária feminina de sempre e sustento de centenas de milhares de famílias.

Nas margens de ribeiras, tanto na Beira Baixa como através dos concelhos de Santo Tirso, Famalicão, Guimarães, Vila das Aves, Vizela e outros sucedem-se os complexos de fiação abandonados, os restos de naves vazias ou com destroços de máquinas e os bairros operários degradados.

Na Marinha Grande multiplicam-se restos mortais de outro orgulho de Portugal, a indústria do vidro. Vêem-se fornos que além de frios estão em ruínas, mais um cartão de visita da União Europeia a que podem associar-se os destroços industriais nas regiões de Coimbra, Figueira da Foz, das moagens de Montemor-o-Velho e dos bolsões produtivos de Cantanhede, Condeixa e Lousã.

O roteiro das feridas abertas em Portugal ficará mais completo se o viajante não perder de vista os sinais profundos de abandono dos complexos mineiros do Lousal (Grândola), Pejão (Castelo de Paiva) e do desprezo pelos recursos da faixa piritosa ibérica, em Aljustrel, Beja, lugar de intensa, dramática e incansável luta operária contra o fascismo.

Consequência de todo esta actividade produtiva arrasada – e em sentido contrário ao desenvolvimento da utilização do comboio através da Europa – é o abandono de estruturas ferroviárias no território nacional, em especial na Beira Interior, e a continuação da desertificação do país.

Linhas e ramais sem utilização, estações abandonadas, oficinas em ruína entregues à ferrugem e à vegetação invasora, apeadeiros mortos, carris inutilizáveis, enferrujados e soltos – o cenário não podia ser mais desolador, além de ter um âmbito praticamente nacional.

Os  poderes e respectivos apêndices começaram a celebrar as quatro décadas vividas por Portugal no Interior da CEE/União Europeia. A insensibilidade desumana de uma festa no lugar de um requiem: milhões de vidas destroçadas e mergulhadas na pobreza, prejuízos incalculáveis que pesam sobre os cidadãos, um país em extinção e a dignidade nacional perdida – eis o que os nossos dirigentes com responsabilidades nos órgãos de soberania e a comunicação oficial corrompida pela propaganda saúdam alegremente. E lá vão pregando, rindo e mentindo.

Reuniões secretas apontam para um plano interno para derrubar Maduro

(Cody Weddle, in Telegraph.co.uk, 04/01/2026)

Nicolás Maduro chegou a Nova York no sábado, após ser capturado por tropas americanas em Caracas.

Um membro sénior da família real dos Emirados Árabes Unidos atuou como ponte nas negociações entre Donald Trump e o presidente interino.


Numa sala de reuniões em Doha, a cerca de 12 000 km de Caracas, funcionários discutiam o futuro da Venezuela sem o ditador Nicolás Maduro. Um membro sênior da família real dos Emirados Árabes Unidos atuava como uma “ponte” entre o regime e Donald Trump, que estava a construir uma armada para pressionar o líder venezuelano a render-se. Só que Maduro não participou nas reuniões secretas em Doha. Em vez disso, foram a sua vice, a então vice-presidente Delcy Rodríguez, e o seu irmão Jorge, que lideraram as negociações.

De acordo com reportagens do Miami Herald, que tem fortes contatos na América Latina, Rodríguez, que agora governa a Venezuela com a aprovação de Trump, entrou em contato com Washington para apresentar uma alternativa “mais aceitável” ao regime de Maduro. Os detalhes da reunião estão agora a alimentar suspeitas de uma operação interna para destituir Maduro do poder e deixar no poder um presidente que possa gerir uma transição sem desmantelar completamente o Estado e causar agitação e motins.

Delcy Rodríguez, a presidente interina, pediu a libertação de Maduro e de sua esposa.

«Ela está essencialmente disposta a fazer o que achamos necessário para tornar a Venezuela grande novamente», disse Trump aos repórteres sobre Rodríguez, que enfrentou sanções dos EUA durante o primeiro mandato de Trump por seu papel em minar a democracia venezuelana.

Na madrugada de domingo, o ex-vice-presidente da Colômbia sugeriu que toda a operação para destituir Maduro tinha sido uma operação interna liderada com a ajuda de Rodríguez. Francisco Santos Calderón disse estar «absolutamente certo» de que ela traiu Maduro ao permitir que ele fosse capturado pelos EUA sem grande resistência.

Santos, que foi vice-presidente da vizinha Colômbia durante oito anos entre 2002 e 2010 e mais tarde embaixador colombiano nos EUA, disse que “eles não o destituíram, eles entregaram-no”.

“Estou absolutamente certo de que Delcy Rodríguez o entregou. Todas as informações que temos, quando começamos a juntar as peças, levam-nos a concluir que foi uma operação em que o entregaram.

Obviamente, eles têm de preparar o terreno. O presidente Trump diz que Delcy será quem liderará a transição, então Delcy será quem liderará a transição. Ela é muito clara sobre o papel que vai desempenhar e vai tentar ganhar um pouco de independência.”

De facto, a Sra. Rodríguez, uma advogada de 56 anos com ligações à indústria petrolífera, parece ser a candidata perfeita para trabalhar com os EUA.


Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores estão detidos sob acusações de narcoterrorismo.

A Sra. Rodríguez era vice de Maduro desde 2018 e entrou no governo logo após a eleição de Hugo Chávez em 1999, subindo constantemente na hierarquia. Ela atuou como ministra das Relações Exteriores, chefe da Assembleia Constituinte e, enquanto vice-presidente, também assumiu as funções de ministra do Petróleo e das Finanças. na sua última função, Rodríguez conseguiu manter a sua credibilidade de esquerda e, ao mesmo tempo, “tornar-se o rosto de uma relativa liberalização económica”, segundo Geoff Ramsey, especialista do Atlantic Council na América Latina.

Essas políticas favoráveis ao mercado ajudaram a tirar a Venezuela de uma profunda crise económica que durou até 2021, e que levou a uma contração da economia em três quartos e à fuga de quase 8 milhões de pessoas para o exterior. Essa façanha ajudou-a a ganhar a simpatia não só de Maduro, mas também de umaparte significativa da classe empresarial do país  que tem ligações com o governo, segundo Pedro Garmendia, analista venezuelano de risco político e geopolítica.

«Eles passaram a vê-la como uma figura previsível e eficaz», disse ele, referindo-se a segmentos do setor privado que agora veem Rodríguez como uma aliada. Ela pode apontar a história da sua família como prova de crença revolucionária. O seu pai liderou uma operação para sequestrar um empresário americano como parte de um grupo guerrilheiro comunista que acusava o homem de ser um agente da CIA. O seu irmão, Jorge, é outra figura importante no sistema e atualmente preside ao legislativo do país.

Jorge Rodríguez tem desempenhado um papel central nas recentes negociações com os EUA, ao lado do presidente interino.

Ela e o seu irmão, que tem sido uma figura central nos recentes esforços de negociação com os EUA, tornaram-se a «dupla poderosa» do regime, segundo Garmendia.

«Ambos aprenderam a viver e prosperar sob a pressão e as sanções dos EUA», disse ele. Mesmo com essas credenciais, Rodríguez agora enfrenta a tarefa de reunir a coligação e evitar ser vista internamente como “um fantoche dos EUA”, disse Ramsey — especialmente quando há rivais no governo e na área do governo que poderiam usar qualquer fraqueza percebida para se mover contra ela.

«Manter todos unidos não será fácil, mas até agora ela parece estar a conseguir», disse ele. «Mas acho que podemos assumir que nem tudo está bem dentro do partido no poder.»

Trump talvez não tenha ajudado neste sentido no sábado, quando afirmou que Rodríguez tinha falado com Marco Rubio, o Secretário de Estado dos EUA, e se tinha oferecido para fazer «tudo o que fosse necessário». As tentativas de Rodríguez de «gerir a imagem» dentro do país e parecer resistir aos EUA podem estar por trás das declarações contraditórias iniciais entre Trump e Rodríguez, disse Ramsey.

Rodríguez adotou um estilo confrontacional nos seus outros cargos de destaque, sem medo de atacar publicamente os seus oponentes. Após a suspensão da Venezuela em 2016 do bloco comercial Mercosul, ela tentou participar numa das reuniões em Buenos Aires, mesmo assim. «Fechem a porta para nós, e entraremos pela janela», disse ela à uma multidão de jornalistas depois de conseguir passar rapidamente pela segurança e entrar no edifício.

Durante a sua conferência de imprensa no sábado, Trump não especificou por quanto tempo imaginava Rodríguez no comando. «Ninguém vai assumir o poder. Eles têm um vice-presidente, que foi escolhido por Maduro, que atualmente é o vice-presidente e, suponho, agora é o presidente», disse ele.

Trump, fotografado saindo de uma conferência de imprensa no sábado, não especificou por quanto tempo haverá um presidente interino.

Numa entrevista posterior ao New York Post, Trump disse que não enviaria tropas ao país se Rodríguez «fizesse o que ele quer». O que Trump deseja para o futuro da Venezuela ainda não está claro. Se Rodríguez se vai alinhar com os seus desejos pode depender de qual lado da sua identidade política irá prevalecer: a revolucionária leal ou a pragmática negociadora do poder.

A chegada de Rodríguez ao poder foi uma das duas opções apresentadas aos EUA pelos mediadores do Catar, segundo o Miami Herald, citando fontes. Ela era vista como a opção de continuidade, representando uma versão «mais palatável» do chamado «chavismo», a ideologia socialista de Hugo Chávez. A segunda opção era o general reformado Miguel Rodríguez Torres, que se encontra atualmente no exílio.

A Sra. Rodríguez tem uma «relação significativa» com membros da família real do Catar e esconde alguns dos seus ativos no país, o que significa que Doha era uma escolha natural para atuar como intermediária entre ela e os EUA. Durante uma reunião na capital do Catar, um membro sênior da família real reconheceu que eles estavam a atuar como uma ponte entre Caracas e Washington em “questões de inteligência e cooperação económica”, informou o Miami Herald. As propostas para um «madurismo sem Maduro» foram apresentadas à Casa Branca por Richard Grenell, um dos enviados especiais de Trump, que se reuniu com Maduro em janeiro do ano passado.

Um plano inicial apresentado em abril exigia que Maduro renunciasse, permanecesse na Venezuela e desse às empresas americanas acesso ao petróleo venezuelano. Em troca, os EUA retirariam as acusações criminais contra o presidente venezuelano e Rodríguez assumiria o poder.

Venezuelanos residentes no Chile posam ao lado de um retrato da líder da oposição, Maria Corina Machado.

Mas a proposta não avançou depois de Rubio argumentar que os EUA não deveriam aceitar nada menos do que uma mudança de regime. A segunda proposta, apresentada em setembro, também previa a substituição de Maduro por Rodríguez, que lideraria um governo de transição, enquanto o líder deposto buscaria exílio no Catar ou na Turquia.

No final, esta proposta também foi rejeitada pelos EUA, que acreditavam que as estruturas criminosas do regime seriam simplesmente reformuladas sob uma nova liderança. «O ‘Cartel Lite’ não era uma opção viável», disse uma fonte. Os relatos sobre as reuniões entre a equipa de Rodríguez e os americanos silenciaram-se no final do ano. Entretanto, os intermediários garantiram à administração que ela promoveria os investimentos energéticos americanos, tornando-a uma escolha fácil para liderar, pelo menos, uma transição.

«Tenho acompanhado a carreira dela há muito tempo, e por isso tenho uma ideia de quem ela é e do que ela representa», disse um alto funcionário dos EUA ao The New York Times. «Não estou a afirmar que ela é a solução permanente para os problemas do país, mas ela é certamente alguém com quem achamos que podemos trabalhar a um nível muito mais profissional do que conseguíamos com ele», acrescentou o funcionário, referindo-se a Maduro.

No entanto, os funcionários norte-americanos alertaram que a sua relação com o governo interino dependerá do cumprimento das regras por parte de Rodríguez e que poderão tomar novas medidas militares se ela não respeitar os interesses norte-americanos. No sábado à noite, Rodríguez apareceu na televisão estatal e adotou um tom desafiador. «Exigimos a libertação imediata do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, Cilia Flores», afirmou.

A decisão de Trump parece ter marginalizado María Corina Machado, líder da oposição venezuelana que ganhou o Prémio Nobel da Paz no ano passado. Trump disse que Machado não tinha apoio no país, para grande consternação de seus apoiantes. Relatos sugeriram que a sua equipa não conseguiu convencer Washington de que tinha capacidade para assumir o controlo do aparelho de estado, principalmente porque não contava com o apoio das forças armadas da Venezuela.

Fonte aqui

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