A Volkswagen é mais uma vítima mortal da União Europeia

(João Pereira dos Santos, in Facebook, 27/06/2026)


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E isto não é teoria da conspiração. Não é preciso ir buscar um senhor de chapéu de alumínio fechado na cave. Basta ler os relatórios e contas.

A Volkswagen não está em dificuldades, (ver aqui), porque os alemães desaprenderam a fazer carros. Não está a cortar dezenas de milhares de postos de trabalho porque, de repente, em Wolfsburg se descobriu que afinal o segredo da prosperidade era produzir menos, despedir mais e rezar por dias melhores.

A própria Volkswagen escreve, preto no branco, que o ano foi marcado por tarifas, tensões geopolíticas, pressão concorrencial intensa, custos de reestruturação, transição eléctrica e regulação de CO₂. Traduzindo para português: meteram uma das maiores empresas do mundo dentro de uma máquina burocrática, ambientalista e ideológica, ligaram a centrifugação, e agora saiu de lá uma empresa esmagada.

O resultado operacional caiu brutalmente. As receitas ficaram praticamente paradas. A margem operacional ficou miserável para uma empresa daquela dimensão. E, como cereja em cima do bolo, a empresa reconhece centenas de milhões em custos ligados à regulação europeia de CO₂. Isto não é uma opinião. Isto está nos documentos da empresa.

A UE decidiu que o futuro automóvel europeu tinha de ser decidido por burocratas que nunca fabricaram uma dobradiça, nunca venderam um carro, nunca pagaram salários com dinheiro próprio e nunca tiveram de competir com a China ou com os EUA.

Resultado: os EUA inovam, a China fabrica, a Europa regula, e a Alemanha despede. É esta a nova cadeia de produção do planeta, sendo que a Europa está a conseguir ser mais produtiva a despedir do que os EUA a inovar ou a China a fabricar.

A Volkswagen junta-se assim a uma longa lista de cadáveres, semi-cadáveres e marcas transformadas em fantasmas.

Lembram-se da Nokia? A Europa tinha a rainha mundial dos telemóveis. Agora andamos todos com IOS e Android.

Lembram-se da Siemens Mobile? Evaporou-se. Lembram-se da Ericsson? Toda a gente conhece aquele gajo que tinha um Ericsson! Hoje, faz parte dos museus.

Lembram-se da Alcatel? Da Grundig? Da AEG? Da Thomson? Da Olivetti? Da Philips? Lembram-se da Saab? Da Rover? Da Volvo, que acabou nas mãos da chinesa Geely?

E agora seguem-se Volkswagen, Mercedes e o coração industrial alemão. Quem conhece as histórias passadas, consegue perceber o desenlace destes novos dramas. Já vimos este filme.

A Europa está a ser assassinada pela União Europeia e pelos seus governos. A “transição” fez gigantes transitar para o estado de falidos. A “neutralidade carbónica” traduziu-se na transferência de indústria para países que continuam a produzir com carvão.

“Soberania estratégica” agora, é depender da China para baterias, minerais, painéis solares e componentes. A “competitividade” é meter mais custos, mais regras, mais impostos, mais certificados, mais proibições e fazer dos subsidios uma das principais fontes de receita de empresas escolhidas a dedo por burocratas.

É o tipo de génio administrativo que só podia nascer num continente onde um burocrata olha para uma fábrica e não vê trabalhadores nem empresários a precisar de ajuda. Vê “emissões”, “metas”, “conformidade” e “alinhamento regulatório”. Parece uma anedota.

A Europa comporta-se como o maior serial killer empresarial do pós revolução industrial. Mata com a arrogância moral de quem acha que o mundo inteiro imitará a Europa se a Europa se imolar primeiro. Só que o mundo não imita. O mundo vende-nos os produtos que deixámos de conseguir produzir. A China agradece. Os EUA abriram os olhos. A Europa faz palestras.

E depois, claro, aparecem os mesmos iluminados a perguntar porque é que a revolta cresce, porque é que os trabalhadores deixam de confiar no sistema, porque é que a classe média desapareceu, porque é que a Alemanha estagnou, porque é que a França arde, e porque é que os portugueses votam como quem votaria num país em colapso, apesar de nos inundarem de estatísticas a dizer que está tudo bem.

A resposta está em Wolfsburg. Está nas fábricas paradas. Está nos despedimentos. Está na Autoeuropa em pausa. Está na Mercedes a cortar custos. Está nos fornecedores alemães a tremer. Está nos nomes que já foram orgulho europeu e hoje são epitáfios industriais. Está na miséria que se vive em Setúbal, no Vale do Ave, em Aveiro, e no Porto, que vivia de serviços que prestava às indústrias.

A Volkswagen não é apenas uma empresa em crise. É só mais uma. Quando se entrega a economia real a burocratas, a indústria não se adapta. Morre. E quando a indústria morre, não morre sozinha. Leva consigo salários, a classe média, o conhecimento técnico, a soberania, o poder político e o futuro.

Vamos ficar reduzidos a funcionários públicos, a dívida, a subsídios, a imigrantes baratos, a pobres subsidiados, a ricos exilados e classe média inexistente. Caminhamos alegremente para sermos o terceiro mundo. E não é só por causa da cultura que milhões de imigrantes trazem. É também pela cultura de auto extinção que por aqui continua a vencer nas urnas. E isso não é culpa de quem vem de fora.

Mais alvos da encíclica Magnifica Humanitas: a UE e a Palantir

(Bruna Frascolla, in S. C. F., 26/06/2026)


A Magnifica Humanitas é um documento muito importante e complexo que merece ser lido na íntegra.


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Em nossa época, enfrentam-se a ideologia woke e a ideologia darwinista social. A primeira corresponde aos estertores do neoliberalismo, no qual o empobrecimento da população é edulcorado com uma ilusão de justiça social por meio de cotas para empregos de classe média. No caso europeu, onde a população passou por uma experiência profunda de bem-estar social, essa retórica é feita sob medida para disfarçar um sadismo das classes superiores: em vez de serem povo, os europeus são abomináveis homens brancos, que merecem pagar pelos pecados do colonialismo. Podem amargar o empobrecimento, a substituição por trabalhadores ilegais e a disparada da violência.

A União Europeia encarna o projeto neoliberal de Hayek: uma entidade política forjada numa moeda única e numa burocracia reguladora, imune aos riscos da democracia e das soberanias nacionais.

Já a Palantir publicou um manifesto no qual deixa muito clara a sua crença no anarcocapitalismo: é uma empresa privada reivindicando o posto de planejadora social. Coloca-se como vencedora dentro de uma cosmovisão darwinista social, na qual o Estado pode ser facilmente compreendido como uma instituição na melhor das hipóteses defasada – e na qual o cuidado com os fracos viola as leis da natureza.

Na nossa época, portanto, ser de esquerda ou de direita tem, no mais das vezes, esses significados: ser um fã da União Europeia e, portanto, um neoliberal lambuzado num leve verniz humanitarista, ou um fã dos bilionários anti-woke, ou seja, um darwinista social explícito que clama pelo fim da ação estatal. A encíclica Magnifica Humanitas enfrenta essas duas posições ideológicas, pois o princípio da subsidiariedade, por ela defendido, é incompatível com ambas.

A subsidiariedade é o oposto da planificação imposta de cima:

Se cada mulher e cada homem são chamados a ser protagonistas da própria vida e a participar na construção da sociedade, então também a organização social deve respeitar e favorecer essa responsabilidade. A Doutrina social da Igreja denomina ‘subsidiariedade’ o princípio segundo o qual aquilo que as pessoas, as famílias, as comunidades locais e os organismos intermédios podem fazer não deve ser absorvido por instâncias superiores. As instituições de nível superior devem reconhecer, proteger e promover a liberdade e a criatividade das instâncias inferiores, coordenando os seus contributos para que cooperem eficazmente em prol do bem comum.” (Magnifica Humanitas, 68).

No século XX, a propaganda da Guerra Fria nos acostumou a enxergar o centralismo planificador como uma característica especificamente comunista, usando a Gosplan soviética como exemplo. Por outro lado, essa mesma propaganda já lançava as bases para criar uma planificação capitalista: a ideia de ordem espontânea, de Hayek, é concebida como inapreensível pela mente humana; logo, este é um problema sanável por meio de uma mente inumana, a inteligência artificial. Se a Gosplan, segundo a explicação hayekiana, estava fadada ao fracasso porque um gênio das finanças em Moscou era menos capaz de determinar o preço do ovo em Vladivostoque do que um simples vendedor in loco, a tecnologia pode, muito bem, criar canais para que o vendedor de ovos em Vladivostoque informe Moscou do preço pelo qual consegue vender ovos. Com isso, cria-se um modelo central bem informado, capaz de interferir no preço. Vemos isso corriqueiramente em aplicativos de corrida e de entrega de alimentos. E os motoristas e donos de restaurante sabem muito bem que os algoritmos exercem poder sobre si.

A Gosplan provavelmente nunca pensou em vigiar um vendedor de ovos em Vladivostoque. A Uber, por outro lado, tem o smartphone do motorista como uma espécie de escuta superpoderosa, que armazena padrões de comportamento. Segundo matéria do New York Times de 2017, “empregando centenas de cientistas sociais e de dados, a Uber fez experimentos com técnicas de videogame, recompensas gráficas e não-monetárias de pouco valor que podem levar os motoristas a trabalhar mais duro e por mais tempo – e, às vezes, em horários e lugares menos lucrativos para eles.”

O anarquista e pai do software livre Richard Stallman chamou o smartphone de sonho de Stálin, por causa de suas capacidades de vigilância e coleta de dados. Quem tem usado de tais capacidades não é nenhum Estado do mundo, mas sim as empresas capitalistas. Com muita sabedoria, portanto, a Magnifica Humanitas afirma:

Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são atores privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum.” (§5)

Em suas cruzadas contra o Estado, tanto o neoliberalismo quanto o anarcocapitalismo criaram entidades supra-estatais com poderes inimagináveis para qualquer czar vermelho. Diante desse novo cenário, no qual o Estado é hierarquicamente inferior a uma organização burocrática como a União Europeia, ou então inferior em poder e recursos a organizações privadas, defender a subsidiariedade implica defender que o Estado recupere as funções usurpadas por tais entidades. Atualmente, muitos Estados têm entregado dados de toda a sua população às Big Techs. Por isso, no parágrafo 178 Leão XIV afirma:

São estas as novas ‘terras raras’ do poder: informações vitais que, uma vez relacionadas entre si, podem utilizar-se para desenvolver modelos preditivos, orientar estratégias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, selecionar quem e o que importa. Os titulares dos dados de saúde de populações inteiras, hoje frequentemente recolhidos sob o pretexto de ajudar, investigar ou inovar, detêm, na realidade, uma alavanca estrutural em relação ao futuro: podem moldar as necessidades e os mercados.

O Estado tem caminhado, então, na contramão da subsidiariedade, quando entrega os dados dos seus cidadãos a instâncias não-auditáveis que lhe são superiores. Leão XIV pontua:

O princípio de subsidiariedade é particularmente relevante no contexto da revolução digital. Aqui, a instância superior não é o Estado, mas cada um dos grandes atores econômicos e tecnológicos que exercem um poder real sobre as condições da vida em comum. […] A subsidiariedade exige que tais processos não sejam impostos a partir de cima, de modo opaco e unilateral […]. Neste cenário, os Estados e as instituições supranacionais são chamados a garantir regras justas e tutelas efetivas, para que comunidades locais, organismos intermédios, escolas, universidades, entidades eclesiásticas e associativas possam ter voz e contribuir para o discernimento sobre as escolhas que afetam a vida das pessoas: trabalho, acesso a serviços, gestão de dados e ambientes digitais.” (§§71 e 72)

Por aqui, resta muito claro o motivo por que a Magnifica Humanitas é uma encíclica contra a ideologia da Palantir: enquanto esta defende que tecnocratas privados planejem a sociedade por meio de tecnologia da informação, o correto é considerar a informação uma forma de poder e dividi-lo com instâncias inferiores.

No entanto, essas instâncias não se limitam à dimensão estatal ou pública – e aqui entendemos por que a União Europeia também é alvejada pela encíclica. No neoliberalismo, a democracia serve para dar um verniz à gestão tecnocrática da sociedade feita por burocratas, seja num modelo supranacional como o da UE, seja em democracias hiper-reguladas (cheia de “órgãos técnicos” autônomos, como o Brasil). Nessa retórica, a democracia equivale praticamente à salvaguarda das “instituições”, e é tratada como um fim em si mesma. Por isso, as democracias liberais têm usado a mão pesada da censura sem pudor nenhum, impondo como sacrossantos a ideologia woke e o culto às vacinas de covid. Na contramão disto, a encíclica lembra que a democracia não é fim em si mesma:

A busca da verdade é um elemento essencial para a democracia, que é, ela própria, um instrumento de participação no bem comum. Quando a questão sobre o verdadeiro perde interesse e se instaura um pragmatismo que se dá por contente com o que parece útil ou eficaz, a vida democrática enfraquece. Com efeito, ela não se nutre apenas de regras e procedimentos, mas, principalmente, de uma leal relação com os acontecimentos e de uma orientação efetiva para o bem das pessoas e do corpo social. O desinteresse pela verdade leva, lenta mas inexoravelmente, a deslizar para o totalitarismo […].” (§134)

Por mais que se vote e haja direitos no papel, é totalitário um sistema no qual as pessoas são obrigadas a dizer que mulheres têm pênis!

Magnifica Humanitas é um documento muito importante e complexo que merece ser lido na íntegra. O presente texto e o anterior terão cumprido o seu papel se levarem o leitor interessado em geopolítica a procurá-la. De fato, como argumentou o hispanólogo David Souto Alcalde, esta encíclica é mais marcante até do que a Rerum novarum, pois “é uma voz no deserto, que supera em muito as filosofias idealistas contemporâneas que exploram a relação entre democracia e técnica”, enquanto que a célebre encíclica de Leão XIII apareceu depois de uma série de textos influentes sobre a relação entre capital e trabalho. Não se escreveu nada tão importante quanto esta encíclica sobre a relação entre os tecnocratas do Vale do Silício e a organização das sociedades humanas.

N.E – Texto em português do Brasil de acordo com fonte aqui

A Ucrânia e o fim da NATO

(Por Scott Ritter, in Substack, 26/06/2026, Trad. Estátua de Sal)


Fui convidado para falar numa conferência em Istambul sobre “A Segurança Mundial e a Conferência da NATO”, organizada pelo Centro de Investigação da Iniciativa das Civilizações Globais. Estas são as observações que preparei.


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Com o conflito entre a Rússia e a Ucrânia a entrar no quinto ano, é crucial que as nações que compõem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) avaliem a situação e o que ela significa para o futuro de uma aliança transatlântica que dura há cerca de oito décadas.

Os grandes meios de comunicação ocidentais e as suas câmaras de eco nas redes sociais promovem uma narrativa centrada na noção de fadiga russa, resiliência ucraniana e determinação ocidental, e deleitam-se em destacar pontos de discussão baseados num lamaçal gerado pela Rússia que se arrasta há mais tempo do que a Grande Guerra Patriótica de 1941-45.

Esta narrativa é paralela às posições oficiais da maioria das nações que compõem a NATO, o que não surpreende, dada a estreita relação entre os meios de comunicação controlados por empresas e governos que mantêm uma relação de porta giratória com essas mesmas empresas.

Esta narrativa é deliberadamente enganadora, pois não visa refletir a verdade factual, mas sim promover uma ficção que está a ser utilizada para moldar a perceção pública, de modo a que o conflito russo-ucraniano possa ser prolongado até à sua conclusão desejada: a derrota estratégica da Rússia. Este objetivo é a posição formal da NATO e dos seus principais membros constituintes, tendo sido reiteradamente expressa desde a sua primeira formulação em maio de 2022. O conceito assenta em três pilares fundamentais: o colapso económico da Rússia provocado pelas sanções económicas; a exaustão militar da Rússia, resultante de uma guerra interminável financiada pelo Ocidente; e a desintegração das estruturas sociais russas, levando à queda do governo russo liderado pelo presidente Vladimir Putin.

Há um grande problema com este conceito: está a falhar. A economia russa está a crescer, e não a encolher, e conseguiu encontrar um equilíbrio entre as necessidades económicas de uma sociedade orientada para o consumo e a expansão drástica da sua indústria de defesa, ao ponto de a Rússia ultrapassar os seus pares ocidentais na produção de armamento essencial para a guerra. As forças armadas russas estão a fortalecer-se, e não a enfraquecer, e a prevalecer num campo de batalha complexo, apesar dos esforços coletivos do Ocidente para as desgastar através de uma guerra por procuração aparentemente interminável com a Ucrânia. Além disso, o governo do presidente russo, Vladimir Putin, continua a angariar o apoio não só da maioria da população russa, frustrando aqueles que ambicionam provocar um movimento como o Maidan em Moscovo, mas também do mundo para além dos limites da comunidade transatlântica.

Os próprios pilares que o plano de ação da NATO deveria derrubar dentro da Rússia estão, na verdade, a ruir dentro da própria NATO — uma crise energética desencadeada pelo autoimposto isolamento da Europa em relação ao fornecimento de energia russa, e exacerbada pela guerra no Médio Oriente, levou ao quase colapso de várias economias europeias cruciais. A força militar da NATO foi drasticamente reduzida nos anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, ao ponto de não existir uma única nação da NATO capaz de travar com sucesso um combate terrestre em grande escala na Europa, do tipo que está a ser travado entre a Rússia e a Ucrânia. E os custos associados à melhoria das forças militares da NATO para os níveis necessários para enfrentar e prevalecer sobre as forças armadas russas são proibitivos e, como tal, representam objectivos inalcançáveis ​​para a maior parte, senão para toda a Europa, dada a condição geral precária da economia europeia. Por último, as elites políticas e económicas que tomaram e mantiveram o poder na Europa nas últimas três décadas estão elas próprias a cair em desgraça. O Reino Unido teve quatro primeiros-ministros em quatro anos. O governo alemão está prestes a ruir, assim como o governo francês. Em suma, os próprios objectivos que a NATO procurou impor à Rússia estão a ser implementados — inadvertidamente, mas de forma eficaz — entre os próprios membros da NATO.

O que mais choca, na situação atual, é que ela não é o resultado de um erro de julgamento momentâneo, mas sim o resultado de políticas elaboradas ao longo de décadas. Ainda antes da constituição formal da NATO, os Estados Unidos e o Reino Unido já conspiravam para transformar o território da Europa Central — que hoje compreende a Ucrânia — numa «pílula venenosa» para anular a ideia de uma Grande Rússia. Tanto Ialta como Potsdam tinham como objetivo separar o território russo que hoje constituiria parte da Ucrânia em 2021. A CIA conspirava abertamente com antigos agentes e organizações de inteligência nazis para construir um movimento de resistência anti Rússia em território ucraniano, recrutado entre os piores grupos nacionalistas ucranianos do oeste, incluindo os liderados por Stepan Bandera e Andrei Milnyk. Mesmo depois de a União Soviética ter esmagado os últimos restos destas forças pró-nazis em 1954-55, os EUA e a NATO continuaram a alimentar a fantasia de uma frente unida dos elementos sobreviventes do movimento nacionalista ucraniano, com as Forças Especiais dos EUA a planearem a criação de movimentos de resistência locais em solo soviético, enquanto a CIA sustentava a odiosa ideologia do nacionalismo ucraniano através de financiamento direto e apoio ao treino, que continuou sem cessar até 1990.

Com o fim da Guerra Fria, a NATO colaborou com os Estados Unidos para desestabilizar a Rússia, ajudando a instalar governos anti Rússia e pró-Ucrânia em Kiev. A expansão da NATO ocorreu na sombra, com as verdadeiras motivações ocultas do escrutínio público por parte daqueles que viam a Rússia como fraca e susceptível de acreditar em narrativas enganadoras. A NATO contou com a ajuda de várias organizações não-governamentais que canalizaram dinheiro e recursos para um plano mestre concebido para criar a inevitabilidade de uma guerra entre a Europa e a NATO.

Em 1993, George Soros, que investe fortemente em oportunidades de mudança de regime na Rússia, publicou um artigo no qual escreveu sobre a inevitabilidade e a necessidade da violência entre a NATO e a Rússia. Mas Soros reconheceu abertamente que a NATO, enquanto instituição, era incapaz de sustentar qualquer conflito que enviasse centenas de milhares dos seus soldados para casa em sacos para cadáveres. Em vez disso, observou Soros, a NATO necessitaria de fornecer o arsenal bélico a uma fonte de mão-de-obra da Europa de Leste não pertencente à NATO, que combateria a Rússia como representante da NATO.

Este representante sempre foi identificável como sendo da Ucrânia.

A Revolução Laranja de 2004 foi um esforço apoiado pela NATO e financiado por Soros, concebido para substituir o pró-russo Viktor Yanukovych por nacionalistas ucranianos como Viktor Yushchenko, que abraçaram abertamente a ideologia de Stepan Bandera.

E deu certo.

Após o regresso político de Yanukovych, em 2010, a NATO apoiou os esforços dos EUA e da UE para orquestrar um golpe violento em fevereiro de 2014, que depôs Yanukovych e o substituiu por nacionalistas ucranianos, desencadeando, assim, os acontecimentos que levariam à Operação Militar Especial da Rússia em fevereiro de 2022. A cumplicidade da NATO nesta ação é evidente: a NATO estabeleceu instalações de treino na Ucrânia cuja missão era construir um exército ucraniano capaz de se igualar ao exército russo. Esta ação é a manifestação literal da visão de Soros, de 1993, de um exército do leste europeu equipado pela NATO.

E esta é a própria essência da situação militar que existe hoje entre a Ucrânia e a Rússia, onde milhões de vidas ucranianas e milhares de milhões de dólares em recursos ucranianos foram sacrificados para facilitar a guerra não tão secreta da NATO contra a Rússia.

Uma guerra que a NATO está a perder por uma grande margem.

O primeiro Secretário-Geral da NATO, Lord Ismay, observou, de forma memorável, que a missão da NATO era “manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães sob controlo”.

Hoje vemos uma NATO onde os americanos estão a sair, os alemães estão a ressurgir e os russos estão a ser obrigados, contra a sua vontade, a envolver-se num confronto direto com uma NATO que procura ativamente a guerra com a Rússia até ao final da década.

É importante notar que a NATO não tem recursos para construir o tipo de força militar necessária para prevalecer contra a Rússia num conflito direto, e que qualquer guerra entre a NATO e a Rússia conduziria inevitavelmente não só à devastação económica dos países membros da NATO, mas também à destruição física das próprias sociedades que a NATO foi supostamente criada para proteger.

No próximo mês, a cimeira da NATO vai reunir-se em Ancara para discutir o futuro de uma organização que perdeu a sua legitimidade com o colapso da União Soviética e só pode continuar a justificar a sua existência ressuscitando a ameaça da Rússia, provocando Moscovo através da guerra por procuração com a Ucrânia.

Na situação atual, o confronto planeado pela NATO com a Rússia é literalmente um pacto suicida. Levará à derrota da NATO e ao provável extermínio da Europa.

A Cimeira de Ancara poderá vir a ser a última cimeira convocada pela NATO.

A Europa comporta-se hoje como um cão raivoso, e a única forma de uma comunidade se proteger de tal ameaça é abater o cão. A Rússia prepara-se para abater o cão europeu.

A prevenção da guerra deve ser a prioridade da NATO daqui para a frente. Isso exigirá a aceitação da dura verdade de que uma vitória russa sobre a Ucrânia é inevitável e que qualquer esforço da NATO para procurar um resultado alternativo, intensificando o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, só levará a um conflito direto com a Rússia, que a NATO não pode vencer, e, como tal, provavelmente desencadeará um conflito nuclear que terminará para sempre a experiência da civilização europeia.

A NATO está a jogar um jogo perigoso de roleta russa, onde todas as balas da pistola estão carregadas e o resultado é certo. A não ser que pare de jogar. A escolha é clara: a vida ou a morte para a Europa e para a aliança transatlântica. E a decisão será tomada no próximo mês, em Ancara.

Que escolha com sabedoria.

Fonte aqui