Crimes que não têm reparação

(Francisco Louçã, in Expresso, 23/02/2019)

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A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia?


Se alguma das leitoras ou leitores desta coluna alguma vez abriu um livro de David Lodge, e até adivinho que muitas pessoas o fizeram com gosto, terá encontrado a amarga ironia de um casal de católicos ingleses a quem era proibido o uso de contracetivos nos anos de 1950 e de 1960, pelos dizeres das suas autoridades religiosas, aliás contra o que já era norma para a maioria da população, menos exposta a poderes tão fanatizados. A ginástica do registo das temperaturas para tentar adivinhar o ciclo da mulher e a restrição sexual adivinhatória deram a Lodge algumas das suas melhores páginas, mas certamente também muitas frustrações ao longo da vida do casal. Com bonomia e um humor avassalador, o escritor descreve esse mundo de voyeurismo dos padres sobre a sua vida, com as punições, confissões e castigos contra a prevaricação, e de proibição terminante do maior de todos os males, o princípio da tentação, a contraceção.

Ao concentrar tanta da sua energia no controlo estrito sobre a sexualidade dos seus paroquianos, a Igreja Católica chamou sobre si a atenção que agora revela a dupla hipocrisia do crime e da proteção ao crime contra as crianças (e freiras, acrescenta o papa Francisco) que foram sendo vítimas de abusos sistemáticos ao longo de gerações e porventura em todos os países. É para responder a esse manto de crime e de vergonha que se reúnem por estes dias, em Roma, os presidentes das conferências episcopais, forçados a encarar as vítimas.

AI DE QUEM

Citando palavras da Bíblia, o teólogo Anselmo Borges lembra a condenação por Jesus: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era preferível atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. O hediondo destes crimes não é só o acontecimento em si ou a sua repetição, com o cortejo de vítimas que foi deixando pelo caminho. É também o encobrimento que permitiu a sua banalização, ou até o fechamento que manteve o poder de instituições em que a prática do crime era liberalizada. Por isso, é de facto a Igreja Católica que está em julgamento e Francisco assume-o com honestidade.

E é aqui que entra a tristeza escondida no humor de David Lodge. Ele não escreve sobre crimes e abusos. Escreve sobre o mal-estar, sobre a prepotência, sobre a vigilância sexual, um exercício que as regras da Igreja foram indicando aos seus sacerdotes, que as impuseram com devoção aos paroquianos. Ou seja, milhões de pessoas conheceram este tormento da confissão sobre a sua vida sexual e perceberam a obsessão de tantos sacerdotes com esses pecados. Há portanto duas razões poderosas que atualmente multiplicam o escândalo, além do crime contra as crianças e mulheres: a prosápia de pureza que protegia a abominação e a forma como a instituição salvaguardou os seus da acusação de abuso, se é que não criou mesmo uma cultura de culpa para calar as vítimas.

NÃO ESTÁ RELACIONADO?

Com essa cultura, o crime estendeu-se a muitos casos e serão bastantes os padres da Igreja Católica no banco dos réus, até se adivinhando que muitos mais virão a lá chegar. Em Portugal, só duas condenações, incluindo a do ex-vice-reitor do seminário do Fundão, a dez anos de prisão por abuso sexual, em 2013. Mas a pergunta que se impõe é esta: eram só as regras da inquisição no confessionário ou da punição da vida sexual como pecado que levavam a este sentimento de poder por parte de tantos padres?

Anselmo Borges responde que não. Diz ele, numa entrevista desta semana ao “Público”: “Já escrevi, citando um grande sociólogo, Javier Elzo, professor numa universidade jesuíta, que 80% ou mais do clero, padres e bispos em África estão a ter uma vida sexual aberta. Não esqueçamos que Jesus entregou o celibato a uma opção, à liberdade; portanto, a Igreja não pode impor isso como lei. E o abuso das freiras que agora o Papa também denunciou é a prova de que o celibato leva a vidas duplas. (…) Como a recusa da ordenação das mulheres, o celibato não faz sentido. Jesus tinha discípulos e discípulas. A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia? O cardeal D. José Policarpo chegou a dizer isto, simplesmente foi chamado ao Vaticano”. Se assim for, o celibato e a assunção de um poder social que considera as mulheres como subordinadas contribuirá, em muitos casos, para projetar uma vida tormentosa, incapaz de lidar com a pulsão sexual.

Olhando para trás, percebe-se o absurdo destas proibições, como a do celibato, só proclamada mil anos depois de Jesus, no Concílio de Latrão, em 1123, e reafirmada no século XVI no de Trento (mas tinha havido pelo menos um Papa casado entre as duas reuniões). No caso do sacerdócio das mulheres, é “sentença definitiva”, determinava João Paulo II (e Francisco repete-o), é mesmo um dos “delitos mais graves” segundo a lista da Congregação para a Doutrina da Fé.

Bem sei que um ateu que se mete nestes assuntos será maltratado por isto ser exclusivo de quem professa obediência. Mas até onde é que levou a obediência a estas regras?


 O sortilégio da eu-sociedade

O Facebook já inclui 2200 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos, 72% da população entre os 30 e 44 anos usa-o todos os dias (a menor percentagem é dos mais de 65 anos, ainda assim 54%). No mundo, o YouTube é usado por um pouco menos, 1900 milhões, o WhatsApp por 1500 milhões. Em Portugal, usam o Facebook mais de 50% dos residentes entre os 15 e os 64 anos. Ou seja, não é para amanhã, o modo de comunicação entre as pessoas já mudou. Mudou para a política, como se descobriu com o sucesso das campanhas de Trump e de Boslonaro, ou como ainda só começa a ser ensaiado em Portugal, mudou com a Cambridge Analytica a capturar e a usar 90 milhões de perfis em promoções eleitorais, mudou com o uso de exércitos de robôs que criam a ilusão de consenso em torno de notícias e de argumentos, policiando a internet com palavras-chave e tiros de canhão, mudou com a sensação de que, no mundo da mentira, todo o sucesso é possível. A isto alguns têm chamado a eu-conomia, atentos às suas potencialidades para a publicidade, mas é mais a eu-sociedade que se está a construir — só que sem o eu.

Segundo as análises da Common Social Media, a maioria dos adolescentes diz ter sido assediada no FB. Mas do que não se dão conta é do que acontece quando não são ameaçados: vivem uma sociabilidade intensa mas sem relação face a face com outros (em 2012 metade dos jovens entre os 13-17 anos dos EUA preferia a interação direta, agora só 32% a desejam). O que significa que perdem a capacidade de aprendizagem emocional em circunstâncias diversas e perante pessoas, mesmo que comuniquem com perfis, que podem ser verdadeiros ou falsos. Esta é uma sociedade virtual no rigoroso sentido da palavra. Mas há ainda outra consequência: é que estes adolescentes, e mesmo os outros adultos ou idosos que mergulham neste meandro, e são muitos, passam a aceder exclusivamente a um mundo de informações sem qualquer intermediação que não seja a da tecnologia de criar emoção e, portanto, de efabular. Se, em Portugal, um youtuber de sucesso já tem mais visualizações do que o telejornal mais visto, aqui está um incentivo poderoso a multiplicar a emotividade de cada prestação: ela deve chocar e impressionar. Para que esse youtuber mantenha a sua carreira de sucesso, tem de ser espampanante e criar hábito de consumo. Um dos efeitos deste sucesso, aliás, é que alguma comunicação social está a imitar o modelo, e já temos até um programa em canal de grande audiência que segue precisamente este padrão, a que alguns antiquados chamariam populista.

Assim, talvez sem darmos conta, se vai formando uma nova sociedade. Dentro de cinco anos, haverá jovens a chegar à universidade que nunca abriram um jornal nem olharam um telejornal. Mas terão muita comunicação, a do boato, a da intriga, a dos ódios e dos amores de fulano de tal (a coisa é ainda mais complicada, dado não ser seguro que, se costumarem ver alguma comunicação social tradicional, não alcancem o mesmo hábito). Para a economia de mercado, é uma oportunidade de ouro e adivinho que a publicidade vá mudar para narrativas tremendas que formem clãs em torno de produtos. Para a política, é a ameaça da feudalização dos sentimentos. Para a vida, que ainda importa mais, esta economia da solidão é uma fantasia viciante e perigosa. Chama-se mundo novo.

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Portugal – Catolicismo, pedofilia e fisco

(Por Carlos Esperança, 21/02/2019)

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A Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), apesar do pecado da gula, goza da absolvição fiscal do Estado laico, contra a Constituição, e mesmo sem apoio na Concordata assinada por Durão Barroso, bem pior do que a salazarista, que o ditador fascista não rubricou porque era omisso o nome do papa e ele não aceitava ser equiparado a um mero cardeal.

Em Portugal, onde o clero é tradicionalmente casto, só raramente um obscuro padre acaba na prisão. Aconteceu ao padre Frederico, na Madeira, por ter assassinado um jovem por quem teria uma paixão não correspondida, e alguém o ajudou a fugir para o Brasil, onde regressou ao múnus, e ao vice-reitor do seminário do Fundão, condenado por vários casos de pedofilia.

O Diabo não inquieta muito o clero nacional, mas Deus protege a sua Igreja de forma obscena, e a comunicação social está mais empenhada na exploração da luxúria do que na denúncia da gula irrefreável que a ICAR manifesta em Portugal. É mais fácil explorar a homossexualidade de cardeais, bispos e monsenhores do que as nebulosas finanças da sua Igreja. As isenções fiscais e alguns outros privilégios são um segredo mais bem guardado do que o da confissão.

A denúncia da isenção fiscal da Universidade Católica, concedida na lei, em 1971, inadmissível com uma Constituição que impõe a separação do Estado e das Igrejas, foi revogada em 1990, através de decreto-lei, com a insólita exceção da alínea que lhe concedia a isenção, bem como a de taxas municipais e custas judiciais, apesar de cobrar 65 milhões de euros aos privilegiados alunos, e gozar ainda da anómala exceção de o seu reitor ter assento no conselho de reitores das universidades públicas portuguesas.

Resta dizer que o decreto-lei, cuja imoralidade é gritante, foi assinado por Cavaco Silva, Miguel Beleza e Roberto Carneiro, todos docentes dessa Universidade, o que, aparentemente, foi um caso de flagrante nepotismo.

A TVI, cujo alvará foi iniquamente concedido à ICAR por Cavaco Silva, preterindo outros e mais idóneos projetos, denunciou agora a indecorosa situação. Curiosamente, a Comunicação Social prefere a sexualidade dos padres à gula da instituição, e mistura o ignóbil crime de pedofilia às opções homossexuais que só a ICAR considera crime.

É incrível que o caso da U. Católica tenha morrido logo, tal como o caso da rede de corrupção dos autarcas do PSD denunciada na Visão. O condicionamento da opinião pública não é aqui mera suspeita, é uma evidência clara. Deus é pouco exigente e a ICAR recusa dar a Centeno o que os leigos pagam.

A Universidade Católica, tal como os colégios privados, não deve ter privilégios. Os governos receiam a ICAR, e cedem às suas exigências. Temem ver um cardeal, com docentes e discentes da Universidade Católica, a descerem a Av. da Liberdade com coletes amarelos.

Que desçam! A subida é mais difícil. Quanto à subida ao Céu é apenas uma metáfora em que nem os padres acreditam. As sotainas não têm asas e os padres não voam.

A confrontação dentro da Igreja com o Papa Francisco

(António Abreu, in AbrilNovoMagazine, 17/09/2018)
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O arcebispo Carlo Maria Vigano pediu há dias ao Papa Francisco que renunciasse, por ter encoberto na Igreja dos EUA o caso do cardeal Theodore McCarrick. Mas fê-lo já depois deste ter renunciado no mês passado e após ter sido comprovadamente denunciado por pedofilia. Vigano negou, vários dias depois, ter sido motivado por vingança pessoal. De facto, tinha sido referido na imprensa italiana que a sua não ascensão a cardeal poderia ter estado por detrás dessa sua inusitada intervenção.
O arcebispo fez publicar a declaração inicial através do blogue de um jornalista da televisão italiana, Aldo Maria Valli, quando há dias o Papa estava na Irlanda e fazia a crítica da pedofilia no clero, pedindo, às vítimas e ao mundo, perdão. Vigano não incluiu nenhum documento comprovativo da sua contundente declaração, limitando-se a referir que os encobrimentos na Igreja estavam a assemelhar-se a «uma conspiração de silêncio não muito diferente da que prevalecia na máfia».
No avião de regresso da Irlanda, Francisco não se quis pronunciar sobre a declaração de Vigano. E pediu aos repórteres que o acompanhavam: «leiam o documento cuidadosamente e julguem por vós mesmos».

O que move o arcebispo Carlo Vigano?

Para quem conhece os meios do Vaticano, outra das afirmações do arcebispo Vigano, ex-embaixador do Vaticano em Washington, de que decidira falar porque «a corrupção atingiu os níveis mais altos da hierarquia da Igreja», só se pode compreender como querendo desconsiderar uma luta que Francisco estava a travar, desde o início do seu mandato – tal como acontecera com Bento XVI –, contra essa corrupção e outros fenómenos muito negativos em que está envolvida boa parte da Cúria, pelo menos desde o papado de João Paulo II.
Dois sacerdotes do Vaticano acusaram posteriormente Vigano de não ter tido consciência do impacto do encontro com uma activista contra o casamento entre homossexuais, que organizou sem prestar contas disso, quando da visita do Papa a Washington. O único encontro marcado que Francisco esperava ter era com um ex-aluno, homossexual, e o seu parceiro. Atitude que é perfeitamente coerente com a sua declaração, de há poucos dias, sobre a aceitação nas famílias e na Igreja dos jovens homossexuais.
Vigano afirmou que Bento XVI referira a Francisco, em 2013, a condenável conduta sexual de McCarrick, a quem tinha imposto sanções. E referiu que Francisco o ignorara. Ora no período em que ele referiu que McCarrick estaria sancionado, o «sancionado» acompanhara em actos religiosos Bento XVI, o que revela uma falha da narrativa de Vigano…Mas sobre isto, nada disse.
Está hoje claro que Vigano1 se escondeu por detrás de meios de comunicação conservadores para publicar a declaração, onde chega a dizer que existe no Vaticano «uma rede homossexual» que promove os homossexuais na Igreja…

As eminências do conservadorismo e a «demissão» do Papa

De acordo com as leis da Igreja Católica, os Papas podem resignar mas por decisão própria. Foi o que aconteceu com Bento XVI quando, ao chegar aos 85 anos, concluiu que já não tinha forças bastantes para o desempenho do papado. Nunca ninguém o levou a resignar, o que torna esta declaração de Vigano duvidosa.
Não se percebe como poderia o Papa renunciar livremente quando existem pessoas a fazer campanha para isso. Não existe no Direito Canónico algo semelhante ao impeachment. Mesmo que a pressão psicológica sobre ele se tornasse insuportável ele não a aceitaria. Face a uma inesperada aceitação, muitos a entenderiam como resultado de uma coacção.
No entanto existem eminências do conservadorismo na Igreja que entendem que o Papa é um bispo como os outros que poderia renunciar «por causas justas ou graves». Outros entendem que os Papas Bento XVI e Francisco foram mal aceites e confundiram os fiéis e a fé.
No último encontro mundial de bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais, expressou a ideia de que o Papa se aproxima da heresia. E em Setembro do ano passado 62 católicos descontentes, nos quais se incluem um bispo já retirado e um antigo director do Banco do Vaticano, publicaram uma carta aberta em que apontam a Francisco sete acusações específicas de ensinamentos heréticos.
Edward Peters, um conservador canonista de Detroit, disse no seu blogue que Francisco não deve ser considerado de forma diferente de outros bispos que, segundo a lei canónica, podem renunciar por causas justas ou graves e que o Papa também é bispo (de Roma)…

Um papado popular e que desagrada aos poderosos

A modéstia e humildade que Francisco transmitiu desde o início do mandato conferiram-lhe grande popularidade entre a generalidade dos crentes mas também fúria contra ele, inicialmente dissimulada, por parte dos sectores mais conservadores das hierarquias, nomeadamente em alguns países da Europa Central e nos EUA, acabou por vir à luz do dia.
O facto de ser o primeiro Papa não europeu agradou a todos os que não se conformavam com uma Igreja apenas dirigida por papas europeus, que ignorasse os sinais dos tempos, e a necessidade de dar resposta a novas e não tão novas questões, como a opção pelos pobres e a condenação do capitalismo global, as crescentes desigualdades sociais, a pompa e ostentação da riqueza no Vaticano, a continuidade do combate à corrupção e criminalidade no seio da Cúria e outras estruturas eclesiásticas, o divórcio entre casais católicos e o dificultar da sua normalização de direitos e deveres no seio da sua Igreja, o acolhimento na Igreja e na família dos homossexuais, a exigência do apoio dos estados ao fenómeno, que se acentuou dramaticamente, da imigração clandestina.
Francisco imprimiu acções práticas nas orientações para a Igreja. E também houve gestos simbólicos, mas que falaram por si, como conduzir um Fiat, transportar as próprias malas, pagar a conta em hotéis, receber um casal homossexual no México ou lavar os pés a refugiadas muçulmanas.
Como é evidente, o Papa não está a introduzir alterações revolucionárias, de ruptura, na Igreja. Por exemplo, em quase todo o mundo, os casais que se divorciam e voltam a casar têm acesso à comunhão apesar de ainda haver padres ultraconservadores que o recusam a fazer. Noutras questões há uma crescente abertura no seio dos fiéis e do clero.
«No último encontro mundial de bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais, expressou a ideia de que o Papa se aproxima da heresia»
A discussão conduzida pelos sectores mais conservadores está inquinada. Para eles, as reformas cautelosas de Francisco põem em causa a crença de que as verdades da Igreja são intemporais. E que assim continuam, porque se não são, então qual o seu valor? Para eles, a doutrina afirma que o Papa não pode estar errado quando se pronuncia sobre questões centrais da fé, e que, portanto, se está errado, não pode ser Papa. Por outro lado, se este Papa está certo, todos os seus antecessores têm de ter estado errados. É uma pescadinha de rabo na boca alimentada por uma teologia dogmática mas que não colhe significativamente entre os fiéis e boa parte do clero.
Esta intervenção do Papa nas chamadas «questões difíceis» pode levar à abertura de outra – que em rigor nunca tem estado fechada – a do celibato dos padres. A não-aceitação do casamento de padres. Se outras intervenções se dirigem mais para a abertura perante a sociedade, esta tem seguramente a ver com o pretendido aumento das vocações sacerdotais e a própria sobrevivência da Igreja.
«[o Papa Francisco] compreende por que estão as pessoas frustradas com a globalização»
Austen Ivereigh, New York Times
Em matérias internacionais, não seria de esperar de Francisco uma confrontação clara com os EUA e outras potências ocidentais, mas foi quebrada a santa aliança de João Paulo II com Reagan e Tatcher na guerra conjunta contra o comunismo. A nomeação do Cardeal Woytila como João Paulo II ocorreu na sequência da morte de João Paulo I, estranha pelas muitas dúvidas que ainda hoje suscita. João Paulo I identificava-se com as causas dos países emergentes e mais pobres, mais caras a Paulo VI.
A condenação da continuidade da guerra da Síria, pelo Papa Francisco, em Fevereiro deste ano, foi dirigida a todos os responsáveis intervenientes no conflito. Depois, em Abril, fez referência a que as populações devam ter acesso às ajudas de que têm urgente necessidade e apelou à cessação imediata da violência, para que seja dado o acesso à ajuda humanitária – alimentos e remédios – e se retirem os feridos e os doentes, nas situações de combate com os terroristas sitiados. Foi o caso presente de Idlib.
Em Bari, em Julho passado, promoveu uma cimeira ecuménica pelo Médio Oriente, com vários responsáveis cristãos, perante os quais recordou o «grande sofrimento» dos fiéis cristãos na Terra Santa, temendo a eliminação desta sua presença histórica.
No que respeita ao processo de reunificação da Coreia, afirmou, em mensagem do final de Março, que na Coreia se vive um processo de distensão após dois anos de escalada da tensão provocada pelos testes nucleares e balísticos da Coreia do Norte. «Que os que têm responsabilidades directas actuem com sabedoria e discernimento para promover o bem do povo coreano e para gerar confiança na comunidade internacional».
Ao falar sobre o Iémen, país devastado por três anos de guerra de agressão saudita, pediu «diálogo e respeito mútuo». Francisco citou, ainda, a Venezuela, país ao qual desejou uma saída «justa, pacífica e humana» para a crise política e humanitária.
O presidente russo e o líder da Igreja Católica, em Dezembro de 2016, tinham trocado pareceres «sobre a proteção dos cristãos na área de conflitos regionais e a importância do diálogo inter-religioso construtivo para preservar a base ética das questões de paz». Falaram ainda das relações entre a Igreja Católica e a Igreja Cristã Ortodoxa, dominante na Rússia.
Em Maio deste ano, o New York Times citava Austen Ivereigh, autor de The Great Reformer: Francisco and the Making of a Radical Pope (Francisco, o grande reformista e a realização de um papado radical), como tendo dito que as opiniões de Francisco se formaram na Argentina, influenciadas por uma vertente do nacionalismo latino-americano mais voltada para a resistência às forças multinacionais, e não para uma nostalgia europeia ligada a um passado de pureza mítica. «Ele compreende por que estão as pessoas frustradas com a globalização».2
Francisco tem tido a capacidade, no quadro de uma de uma situação geoestratégica hoje muito mais policentrada, de fazer pontes para que a paz possa progredir entre muitos actores. Não se lhe pode pedir, porém, que seja outra pessoa e trabalhe com outro Vaticano.
Na minha opinião, o seu papel tem sido construtivo para se atingir a paz em várias situações muito graves.
  • 1. Uma sucinta biografia do arcebispo Vigano e das suas controvérsias pode ser encontrado em «Who is Archbishop Carlo Maria Vigano?», National Catholic Reporter, 28 de Agosto de 2018.
  • 2. Ao contrário, a direita populista, pela voz de «Steve Bannon – ele próprio católico – gosta de chamar a Francisco “comunista”, pela sua política econômica». Em «Pope Francis in the wilderness», New York Times, 29 de Abril de 2018.

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