A absoluta infâmia

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 17/02/2023)

Miguel Sousa Tavares

Ele, D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, lê um texto aparentemente já escrito antes de ouvir as conclusões da Comissão Independente sobre a pedofilia na Igreja Católica portuguesa. O detalhe é revelador: quaisquer que fossem as conclusões, a Igreja já tinha a resposta preparada, fossem 512 os casos documentados, cinco mil os denunciados (“uma ínfima parte”) ou 25 os ainda não prescritos, ou fossem 10 vezes mais, como devem ter sido ao longo dos anos. E a resposta da Igreja era banal e burocrática: sim, pediam “perdão a todas as vítimas” e não há “lugar na Igreja para os abusadores”. Mas sobre indemnizações às vítimas, nada; sobre as responsabilidades dos bispos encobridores, nada; sobre a entrega à justiça ou, ao menos, o afastamento dos suspeitos ainda no activo, logo se irá ver, há procedimentos próprios da cúria a respeitar. Ou seja, e tudo posto a nu, a hierarquia da nossa Igreja Católica confia em que, assente a poeira mediática e prescritos quase todos os crimes, tudo se resolverá com o esquecimento, uns pais-nossos e umas ave-marias e, ironia das coisas, um gigantesco espaço de confissões na próxima Jornada Mundial da Juventude, em que os pecadores serão os jovens e o perdão será concedido pelos padres. Um festival em que as vítimas prestarão vassalagem aos abusadores, representados por algumas centenas de bispos, alguns dos quais, quem sabe, durante décadas participaram na orgia pedófila ou se dedicaram a encobri-la, “fazendo o que era costume” — ou seja, e segundo o relatório da Comissão, registando as queixas recebidas apenas oralmente, de modo a não deixar rastos.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

A Igreja, no seu livre-arbítrio, decidiu que o sacerdócio é exclusivo de homens e que estes devem viver em celibato — o que é um contrato contrário à natureza humana. Mas, se decidiu assim, o preço a pagar por essa decisão não pode recair nos filhos dos outros.

“Deixai vir a mim as criancinhas”, a frase de Cristo, não significa dispor dos filhos dos outros para satisfação das frustrações sexuais de homens castrados da sua natureza por imposição de fé. Os padres nunca tiveram filhos, nunca os viram crescer no útero de uma mãe, nunca os viram nascer, nunca os vigiaram nas doenças, nunca os levaram à escola, nunca brincaram com eles, nunca sofreram por eles, nunca sentiram que dariam a vida por eles, nunca perceberam que pode­riam matar por eles.

O que esses predadores de Cristo andaram a fazer aos filhos de outras mulheres e homens ao longo de décadas e séculos, nos seminários, colégios, retiros e paróquias, está muito para além da capacidade de perdão. Eu olho para a cara de muitos destes bispos e percebo que eles não entendem ou não querem entender, apenas querem apagar a memória da ignomínia — o que é diferente de exterminar a raiz do mal. E é por isso que tantos não aceitam e não cumprem as directrizes do Papa Francisco. Preocupa-os mais a dignidade do altar onde ficarão ao lado do Papa, mesmo que custe milhões, do que o remorso dos crimes cometidos contra milhares de crianças confiadas à sua guarda, a quem despojaram cobardemente de toda a dignidade e inocência. Resta-nos um consolo no meio de tanta podridão, tanta infâmia: por uma vez, uma comissão fez o seu trabalho até ao fim, com persistência e coragem, contra o silêncio e a ocultação. O país deve-lhe isso.

2 Num distante 4 de Agosto de 2014, estávamos muitos de nós de férias, um confiante Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, veio anunciar-nos que tinha decidido ser o primeiro entre pares a lançar mão do mecanismo de resolução de um banco privado: o BES. Fazia-o com a bênção do Governo de então, de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque. Sobre a nebulosa de um banco na iminência de falência, ele, garantiu-nos, iria erguer um banco novo e com todas as condições para triunfar no mercado. Para tal iria injectar nele — provisoria­mente, é claro — €4,9 mil milhões de dinheiros públicos, mas apenas para o lançar na praça. Mas, ficássemos nós descansados, tudo isso o Estado recuperaria até ao último tostão. Uns anos e várias asneiras depois, o Novo Banco foi vendido a uns gordos do Texas com má fama por um preço de aflitos e com o Estado, através do Fundo de Resolução, a ficar responsável por aquilo a que chamaram o “capital contingente”: traduzido por miúdos, os créditos duvidosos. E durante vários anos os créditos de cobrança duvidosa ou de valor garantido — palacetes no Estoril, herdades no Alentejo, seguradoras, Comportas, aventuras do presidente do Benfica — foram vendidos ao desbarato, sendo o saldo, necessariamente passivo, cobrado no final de cada ano ao Fundo de Resolução. Uns exercícios passados e sem conseguir, mesmo assim, disfarçar mais os proveitos do negócio, o Novo Banco começou, enfim, a registar lucros e o processo de resolução foi declarado oficialmente extinto, com o saldo final de €3,4 mil milhões de prejuízo para o Estado. Se a isso somarmos os €4,9 mil milhões da injecção inicial, temos que a aventura da resolução custou aos contribuintes um total de €7,3 mil milhões, abatendo os mil milhões que a Lone Star pagou pelo banco — sem contar com os €4 mil milhões deitados a perder no BESA, quando a “garantia irrevogável” de Angola foi rasgada pela imbecilidade da gestão pública do Novo Banco. Nada mau para o tal banco novo que não nos iria custar um tostão! Carlos Costa goza agora uma reforma dourada e dita livros de memórias sobre intrigas palacianas em que ele foi herói e todos os outros foram vilões; Maria Luís Albuquerque trabalha como consultora para um dos antigos credores da troika que é suposto ter enfrentado como ministra das Finanças, e Pedro Passos Coelho consta que é um desejado D. Sebas­tião para reensinar o país a sair da sua zona de conforto, como ele disse então. E se escrevo isto é apenas porque é preciso dizer que nem toda a gente perdeu a memória. Segue-se a TAP.

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3 Por mais que eu leia e por mais que me esforce para entender de economia — e acreditem que me esforço ainda —, a economia permanece para mim um mistério indecifrável. Com a guerra da Ucrânia, os combustíveis fósseis escalaram todos de preço e nós, consumidores, passámos a pagar preços absurdos, que determinaram uma subida em cadeia da inflação. Os Governos intervieram para mitigar o efeito do preço dos combustíveis nos consumidores e o BCE interveio para conter a inflação, subindo as taxas de juro, mesmo correndo o risco de mergulhar a Europa numa recessão. Tudo isto faz sentido para os economistas, o que não faz sentido para os consumidores são os lucros exorbitantes das petrolíferas neste cenário e, mais ainda, a contestação ao imposto sobre “os lucros caídos do céu”. Entre nós, a Galp acaba de anunciar lucros recorde de €841 milhões e todos os bancos também foram atrás. Mas, contestando o imposto sobre os lucros excessivos dos bancos, o professor de Economia João Duque explicava aqui, no último Expresso, que, ao não pagarem nada sobre os depósitos — uma das fontes de lucro, face aos 4% cobrados nos empréstimos —, os bancos estavam a fomentar o consumo, fonte do nosso crescimento económico. Ou seja, desincentivando a poupança e incentivando assim o consumo, os bancos eram, afinal, os grandes beneméritos da nossa economia — pelo que não havia razão para os taxar por lucros extraordinários, antes para os aplaudir. E eu, que aprendi na faculdade, de outros professores de Economia, que a saúde dos paí­ses estava na capacidade de poupança, com a qual os bancos financiavam os investimentos, que faziam a economia crescer! Estamos sempre a aprender!

4 Perante um desvanecido Parlamento Europeu, Zelensky apelou à urgente entrada da Ucrânia na União Europeia com um argumento que, em boa verdade, lhe foi fornecido pelos próprios europeus: que na guerra contra os invasores russos ele está a defender os valores europeus. Mas não é verdade, assim como não é verdade que, como reza a propaganda ocidental, Putin se tenha oposto à adesão da Ucrânia à UE. Putin opôs-se e opõe-se, sim, à adesão da Ucrânia à NATO, pela razão elementar de não gostar de ver mísseis nucleares do inimigo estacionados no seu quintal das traseiras, tal como Kennedy não os quis ver em Cuba, em 62: tão simples quanto isto. Agora, se, como também reza a propaganda ocidental (e aí eu concordo), é do interesse de Putin ver a UE desmembrada por dentro e reduzida à ineficácia, a entrada da Ucrânia servirá às mil maravilhas os seus interesses. Não se trata apenas da questão de a Ucrânia ultrapassar na adesão países que há mais tempo estão em lista de espera — com o caso extremo da Turquia a embaraçar tudo e todos — ou dos custos astronómicos da sua adesão para o orçamento comunitário, ou da revolução que exigiria na PAC. Esses problemas, que já seriam capazes, por si, de paralisar a UE durante anos, deixariam de fora, porém, o principal deles, a médio e longo prazo: é que, ao contrário do que jura Zelensky, os valores da Europa não são os valores da Ucrânia. Na sua matriz, a UE — e a sua antecessora, a CEE — colheu a inspiração política nos valores da democracia ateniense, depois solidificados por décadas de democracias liberais na Europa Ocidental, embora com excepções (Portugal e Espanha). Mas a Ucrânia, como a Rússia, pertence a outra história, outra civilização e outra Europa: a Europa eslava e autocrática. Não é por acaso que os valores tradicionais liberais da UE esbarraram, após o alargamento a leste, com a resistência autocrática de países como a Chéquia, a Polónia ou a Hungria. Assim como não é por acaso que os dossiês mais complicados que estão a ser negociados entre a Ucrânia e a UE, nesta fase de pré-adesão, sejam assuntos que nem sequer estiveram em cima da mesa quando, por exemplo, Portugal e Espanha negociaram: corrupção endémica das instituições do Estado, falta de independência dos tribunais, insuficiente liberdade de imprensa. Em Bruxelas, a Ucrânia é um elefante no meio da sala. Os democratas europeus sabem-no e Putin também. Um pouco mais de conhecimento da História e de percepção geopolítica e um pouco menos de entusiasmos infantis chegariam para o entender.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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O PR, o cardeal Clemente e os bispos que encobrem crimes

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/10/2022)

O cardeal de Lisboa disse que só havia dois partidos (CDS e Chega) com doutrina de acordo com a da Igreja católica e, numa pulsão censória, considerou «conquistas irrecusáveis […] o direito à vida, à liberdade e ‘à responsabilidade de expressão’ […]», transformando a liberdade em responsabilidade, num lapso freudiano. (Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa – Fonte: DN, 12-01-2015, pág. 14).

Marcelo, depois de ter dito e reincidido o que pensava da pedofilia eclesiástica e de tentar branquear a ocultação do crime público pelos bispos a quem beijou a mão, face ao descrédito que o atingiu, criou um facto novo e fez esquecer o drama de crianças que a violação destruiu, moral e psicologicamente e levam a vida a sangrar por dentro.

Raramente um crime tão grave desapareceu tão rapidamente da comunicação social e, em vez de denúncias das vítimas, aparece o PR a falar do que não lhe diz respeito, já refeito do mal que fez a uma investigação em curso.

Do bispo Ximenes Belo ignora-se o paradeiro, as denúncias de violações pias pararam, e, das investigações, nem o órgão oficioso do M.P. diz se continuam.

O que é preciso é um criador de factos para embrutecer a malta.

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Não lhes perdoeis, Senhor, pois eles sabem o que fizeram

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/10/2022)

Miguel Sousa Tavares

Esperámos tranquilamente um ano pelos resultados do trabalho da Comissão Independente para o Estudo de Abusos de Menores na Igreja e um ano depois, cumprindo o prazo fixado, a Comissão registou 424 testemunhos ao longo de muitos anos, dos quais apenas 17 foram encaminhados para o Ministério Público, por constituírem crimes não prescritos, cujos autores e vítimas estão vivos. Mas a Comissão não se deixou iludir e nós também não: os crimes foram incomparavelmente mais, reflectindo uma atitude “endémica” de abusos de menores dentro da Igreja Católica portuguesa e a sua ocultação a partir de cima ao longo de décadas.

Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, que se precipitou a saudar os números pouco “elevados” apurados pela Comissão — e, com isso, aliviar a responsabilidade da Igreja —, nós percebemos que isto é apenas a ponta do icebergue de uma estrutura sinistra e submersa, que durante décadas guardou dentro de si um segredo vergonhoso, ocultando-o dos fiéis, da sociedade e das autoridades. Protegendo os seus criminosos, como as máfias fazem.

Hoje sabemos que, dentro da hierarquia da Igreja, a nível intermédio e a nível superior, houve homens com responsabilidades que, sabendo de casos concretos, não se limitaram a olhar para o lado: ignoraram as queixas das vítimas, esconderam-nas dos olhares públicos ou, no melhor dos casos, encerraram o assunto com discretos “inquéritos verbais”, que se desvaneceram sem rastro nem consequências. Não têm perdão nem aos olhos dos homens, nem aos olhos de Deus. Mas, sobretudo, não têm perdão aos olhos das vítimas, dos que sofreram às mãos dos criminosos que eles protegeram e de que foram cúmplices no mais ignóbil dos crimes.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Pessoalmente, não consigo conceber nenhum crime que me cause mais repúdio — pela cobardia dos seus autores e pelas consequências para as vítimas — do que o abuso sexual de menores. Que ele, ainda por cima, seja cometido por sacerdotes, a quem a fé de muitos confere uma confiança acrescida para se ocuparem da educação e do acompanhamento espiritual de crianças, torna as coisas particularmente repugnantes. E não é indiferente, antes agravante, que as taras sexuais dos padres se exerçam sobretudo sobre os rapazes à sua guarda e que, no contexto socioeconómico histórico português, tenham sido obviamente as crianças mais pobres a sofrerem as sevícias destes tarados e os seus pais a serem os mais impotentes para enfrentar a cumplicidade da hierarquia católica. Não, não há perdão algum para isto: foram décadas em que milhares de crianças indefesas pagaram na pele e na alma, e para a vida inteira, o preço da absurda regra da castidade do sacerdócio.

Não foram todos os padres ou nem sequer a maioria? Claro que não. Mas duvido muito que, naquele mundo submerso e mais temente às aparências do que a Deus, houvesse quem ignorasse o que se passava ou não desconfiasse o suficiente para abrir a boca. Quando ouvimos o que diz o diletante bispo do Porto, Manuel Linda, percebemos bem o que se passou, como se passou e porque se passou. Quer estivesse a mentir sem pudor, quer revelasse uma indecente ignorância sobre o assunto, quando ele diz que o crime de abuso sexual de menores não é um crime público, o que ele no fundo quer dizer é que acha que não é uma coisa assim tão grave. Como as carícias a crianças do violador e assassino de menores padre Frederico, protegido pelo ex-bispo do Funchal, que “não foram assim tão íntimas”. Fosse ele um governante ou titular de um cargo público, Manuel Linda já teria sido corrido de funções por não dar garantias mínimas de poder desempenhar o cargo com respeito pelas regras de comportamento moral de uma sociedade civilizada. Mas, em vez disso, vai continuar aí, a benzer pontes e a celebrar missas, como se o Deus que invoca lhe tivesse perdoado e o quisesse como exemplo.

Pobre Papa, que tal gente tem!

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2 Terminadas as férias e desaparecido o grosso dos turistas, o Sotavento Algarvio começou a enfrentar episódicos, mas sucessivos, cortes de água nas torneiras. Não se trata de avarias nem de obras em curso, mas de “cortes programados” e anunciados no Facebook, para quem é freguês da coisa. Trata-se de uma situação normal — o novo e futuro normal — quando a seca se prolonga e a barragem de Odeleite, responsável por metade do abastecimento de água ao Algarve, está a 20% da sua capacidade e a de Odelouca, a segunda mais importante, a 17%. O que não é normal é que o Conselho Nacional da Água, reunido pela primeira vez ao fim de três anos de seca, em lugar de se ocupar com projectos de dessalinização ou medidas para poupar água — como reparar as fugas nas canalizações agrícolas, impor a obrigatoriedade de utilização de águas residuais para regar golfes, jardins públicos, etc., ou suspender de imediato a contínua expansão de culturas agrícolas exóticas de alto consumo de água —, tenha optado exactamente pelo caminho oposto: como gastar mais água. Os chamados “produtivistas”, de braço dado com o Ministério da Agricultura, ao contrário de todas as previsões, confiam em que vêm aí grandes anos de chuva, para os quais é preciso estarmos preparados, construindo mais barragens e aumentando a capacidade das existentes. Até lá, querem avançar para a solução espanhola dos transvases de água do Norte para o Sul — com o pequeno contratempo de os espanhóis terem justamente acabado de suspender as descargas de água para o rio Douro.

Há um ponto até ao qual se podem discutir as políticas e, mesmo quando temos a certeza de estar certos ou errados, pode-se continuar a discutir. Mas se estamos a discutir a falta de água e se abrem as torneiras uma e outra e outra vez, e durante 24 ou 36 horas nada jorra, o que há para discutir?

3 Na última Revista do Expresso vinha uma surpreendente história de um casal lisboeta “muito bem”, muito família, muito católico, muito ansioso por “partilhar”, muito empenhado na “excelência do ensino, conjugando a grandeza de Portugal com a tradição cristã”, através dos alunos dos Colégios Planalto, Mira Rio e S. Tomás. Enfim, a fina flor da Opus Dei — uma opção legítima e um modelo para quem se revê nos valores da santíssima agremiação. Mas o que tinha a história de surpreendente? Isto: o casal tem um Van Dyck em casa, que lhe custou “uns milhões não revelados”, a par de uma “importante colecção de centenas de quadros de mestres antigos”. Os quadros estão em casa, mas, obviamente, não lhes pertencem, pertencem a uma fundação, que, essa sim, é deles: um clássico. Surpreendente é que o casal exponha assim as paredes da sua casa: normalmente, estas coisas não se revelam — há os ladrões e o Fisco, apesar da fundação. Então, qual é a ideia? Pois, aqui chegado, o leitor já deve ter percebido, tal como eu logo percebi: o casal não tem onde guardar as suas centenas de quadros dos mestres e espera que o Estado lhe resolva o problema — outro clássico. Lá fora, os verdadeiros mecenas, os verdadeiros coleccionadores, quando se vêem nesta situação, fazem uma de duas coisas: ou oferecem o que querem e lhes sobra a museus já existentes ou fazem um museu a expensas suas e metem lá os quadros. Mas aqui os nossos “mecenas” têm outra solução: eles acumulam e o Estado resolve-lhes o problema, arranjando-lhes instalações e pagando as respectivas despesas de funcionamento — Casa das Histórias Paula Rego, Colecção Berardo, Fundação Saramago, etc. É claro que, no caso concreto, a solução para o problema do casal está mesmo à vista: o Museu Nacional de Arte Antiga, se a colecção valer mesmo a pena. Mas essa, dizem eles, “não é a solução ideal, o grande desafio é mostrar a colecção ao público” (parece que o MNAA não mostra os quadros ao público).

Mais surpreendente ainda, a história terminava com o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, a declarar o “interesse por parte do Estado” em juntar-se a tão comovente história de “partilha”. Com o seu dinheiro, sr. Ministro?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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