A Paz não pode ser uma língua morta

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 19/10/2024)

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A atribuição do Prémio Nobel da Paz à organização japonesa Nihon Hidankyo revela, por entre o “som e a fúria” que varre o mundo, um Comité Nobel ainda capaz de visar o essencial. Os derradeiros sobreviventes japoneses de Hiroxima e Nagasáqui foram escolhidos, não como tributo retrospetivo, mas por serem os únicos seres humanos que já viveram o inferno para onde toda a Humanidade será empurrada se continuarmos por este caminho abissal.

Há qualquer coisa de justificadamente desesperado neste prémio. Ela consiste numa tentativa de revelar ao auditório mundial, pelas consequências, aquilo que ele não parece conseguir apreender pelo conhecimento das causas. E esse auditório não é a massa dos milhares de milhões de seres humanos para quem a luta diária para sobreviver e cuidar dos filhos já é suficientemente épica. Estou a referir-me aos milhares de decisores – por esse Ocidente fora, sobretudo na velha Europa – sentados, distraidamente, nas cadeiras do poder.

O Prémio Nobel da Paz coloca, indiretamente, o dedo na ferida: o maior risco de ocorrência de uma guerra nuclear é de natureza epistemológica.

Muitas das pessoas que se encontram em posições relevantes, nas diferentes etapas do processo de decisão político-militar, aparentam carecer de conhecimento suficiente para evitar uma catástrofe. Sublinho que, mesmo em condições ótimas de competência, o risco de uma guerra nuclear acidental pode ocorrer. Não é isso que está em causa.

Dou alguns exemplos de posturas grosseiras por parte de responsáveis ocidentais. As derradeiras declarações de Jens Stoltenberg, ao sair do secretariado-geral da NATO, e as primeiras afirmações de Mark Rutte, ao assumir essa mesma função, ilustram uma inaceitável ausência de compreensão de aspetos vitais da dissuasão nuclear. Perante a recente revisão da doutrina russa de eventual uso de armas nucleares, suscitada pela possível autorização a Kiev do uso de mísseis ocidentais de longo alcance contra alvos na Rússia, ambos responderam num tom de desafio, acusando Putin de fazer “bluff”.

O risco de vida ou morte que paira sobre milhões de europeus exige estadistas e não jogadores de poker. O mesmo se aplica à multidão de eurodeputados que insiste em bombardear Moscovo (meu artigo DN 28.09.2024, ver aqui).

Desconhecem o preço que pagaríamos pelo que desejam. Se alguma vez a existência da Rússia estivesse em causa por um ataque convencional maciço da NATO, ou se a Ucrânia lhes causasse danos inaceitáveis com armas convencionais Ocidentais, Moscovo daria uma resposta dolorosa aos responsáveis por essas ações.

O mesmo aconteceria com os Estados Unidos, se estes estivessem numa situação semelhante à da Rússia hoje. Imaginemos o que faria Washington a travar uma guerra não só no território do México, mas no seu próprio solo, no Texas, por exemplo! Unamuno, se estivesse vivo, certamente reconheceria que, afinal, a pulsão suicida não é um exclusivo da alma portuguesa…

Quer consideremos ter a Guerra Fria terminado com a queda do Muro de Berlim (1989), ou com a implosão pacífica da União Soviética (1991), percebemos que estamos a uma distância de mais de três décadas. Quase duas gerações passaram, nesta época vertiginosa. Muitos dos políticos e militares de hoje têm uma memória indireta dos 40 anos desse mundo bipolar, vivendo na sombra, simultaneamente, ameaçadora e protetora da dissuasão nuclear.

O facto de a Humanidade ter saído incólume da Guerra Fria, tem uma componente miraculosa (não antecipável concetualmente), mas também uma explicação racional.

Entre 1947 e 1989-1991 foram desenvolvidas várias teorias do uso das armas nucleares (retaliação maciça, resposta flexível, dissuasão do fraco ao forte…). Quando uma teoria militar prevalece num país, transforma-se numa doutrina. Quando potenciais inimigos partilham da mesma doutrina, assistimos à construção de um sistema unificado. A língua comum que permitiu o fim pacífico da Guerra Fria foi o sistema baseado na consensualização da doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD, em inglês): numa guerra nuclear só haveria vencidos. A partir da paridade nuclear entre EUA e URSS e da Crise de Cuba (1962), a diplomacia ganhou vantagem sobre as armas. Só o assassinato do presidente Kennedy (22.11.1963) travou a rápida continuação de passos já tão importantes como o da criação de uma linha de comunicação permanente entre a Casa Branca e o Kremlin – o lendário “telefone vermelho” -, e a assinatura do tratado de proibição parcial de testes com armas nucleares, em 7 de outubro de 1963.

Paradoxalmente, foram as armas nucleares, com o seu potencial infinito de destruição, que, ao eliminarem a categoria de vitória, tornaram a guerra global uma anomalia, abrindo o caminho para um primado obrigatório da política e da diplomacia na resolução de conflitos.

Essa linguagem do imperativo da paz, decorrente do sistema da MAD, não é ainda uma língua morta, mas foi esquecida, quase totalmente na Europa e parcialmente nos EUA, devido ao predomínio da arrogância e frivolidade unipolar dos neoconservadores, que pulula no “complexo militar, industrial e congressional” (Eisenhower dixit). Talvez a fina linha entre o colapso e a continuação da odisseia histórica da Humanidade dependa de uma pequena, mas fundamental, diferença concetual identificada por Clausewitz, no seu tratado póstumo Da Guerra (1832): a guerra tem uma gramática própria, mas esta deve subordinar-se à única lógica, que é pertença exclusiva da política.

António Guterres tinha razão, mas não disse tudo

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 17/10/2024)

Israel nunca teve intenções de reconhecer um Estado palestiniano e a “comunidade internacional” nunca pressionou Telavive a fazê-lo. Mas ninguém se atreveu a criticá-lo com receio de represálias ou de ser mal visto por Washington.


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Numa reunião especial do Conselho de Segurança sobre a crise no Médio Oriente, o Secretário-geral da ONU António Guterres afirmou o óbvio: o evento de 7 de outubro de 2023 não aconteceu no vácuo. A declaração motivou uma reação descabida do embaixador de Israel nas Nações Unidas clamando pela sua resignação. A circunstância do cargo que ocupa impediu-o de ir muito mais longe no comentário.

No entanto, Guterres disse ainda que “o povo palestino foi submetido a 56 anos de ocupação sufocante”, e que “as queixas do povo palestino não podem justificar os terríveis ataques do Hamas. E, esses ataques terríveis, não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”. Apesar destas importantes observações, não explicou as causas profundas do ataque do Hamas.

Há duas causas do 7 de outubro: uma afastada e outra próxima. A afastada relaciona-se com as atrocidades e o sofrimento causado pelos sionistas ao povo palestino durante décadas, nas quais se inclui o êxodo de mais de 700 mil árabes palestinos (Nakba) das terras de Israel, em 1948; e a próxima prende-se com o incumprimento dos Acordos de Oslo.

Sem elaborar extensivamente sobre a primeira – em que muitos acontecimentos tiveram impacto direto no presente – e sem a pretensão de fazer um varrimento histórico profundo, não se pode esquecer o massacre de Sabra e Chatila, perpetrado sob a supervisão de Ariel Sharon, mais tarde primeiro-ministro de Israel, e de todos os que o procederam. A marcha da morte de Lídia e os massacres de Deir Yassim, Kafr Kassem, Quiba, Jan Yunis, etc., para mencionar apenas alguns.

Quando se fala de terrorismo na região, não se pode deixar de fazer um regresso ao passado e à génese terrorista do Estado de Israel, começando em 1920 pelas organizações terroristas paramilitares como a Irgun, a Lehi, a Haganah e a Palmach, que em 1948 se fundiram para criar as IDF – Israel Defense Forces.

Menachem Begin, primeiro-ministro de Israel em mais do que um mandato, foi o chefe do Irgun e responsável pelo ataque terrorista ao Hotel King David, onde morreram mais de 92 pessoas, britânicos na sua maioria. Begin foi denunciado por um grupo de intelectuais judeus, entre eles nomes como Albert Einstein e Hannah Arendt, numa carta aberta publicada pelo “New York Times“, no dia 4 de dezembro de 1948, quando visitou os EUA, em que condenavam abertamente o partido político por si fundado – o “Partido da Liberdade” (Tnuat Haherut) – de ser “um partido político muito semelhante, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazi e fascista.”

Por seu lado, Yitzhak Shamir, também primeiro-ministro de Israel, foi dirigente da Lehi e responsável pelo assassínio do diplomata sueco Folke Bernardotte, enviado das Nações Unidas para a implementação da partição territorial da Palestina, tendo sido o Estado de Israel condenado internacionalmente. Ficaremos por aqui, sem deixar de sublinhar a relevância destes factos para melhor se entender o presente.

Passando à causa próxima. Em 1993, em Oslo, a OLP renunciou à luta armada e reconheceu a existência do Estado de Israel. Nas negociações em 2000, para concretizar o Acordo de Oslo, o então primeiro-ministro Ehud Barak apenas reconheceu a Autoridade Palestiniana (AP), mas não reconheceu a existência de um Estado palestino. Telavive fez tudo o que lhe estava ao alcance para inviabilizar a sua existência.

Com as suas ações, Israel foi corroendo e deslegitimando com sucesso a AP ao ponto de esta deixar de ser um ator credível aos olhos dos próprios palestinos, gerando a sua ineficácia espaço para a emergência e afirmação de outros grupos e grupelhos radicais, que ao não reconhecerem a existência do Estado judaico se tornaram de grande utilidade para Israel.

Quando lhe foi conveniente, Netanyahu apoiou o Hamas e serviu-se da sua aparente cegueira política. Dava-lhe jeito um Hamas forte e sectário para isolar internacionalmente a causa palestina. Por isso, durante muitos anos, as viaturas das IDF escoltaram malas carregadas de dólares, que chegavam ao aeroporto de Ben Gurion provenientes do Catar, até à Faixa de Gaza, onde eram transferidas para o Hamas (embora a transferência não fosse feita direta e automaticamente).

Também por isso, não se pode deixar de estranhar que a organização conhecedora da localização de toda a estrutura superior do Hezbollah, quando e onde se reuniam, não soubesse o que se estava a passar na Faixa de Gaza, em particular, a preparação do Hamas para um ataque a Israel, para o qual se treinavam às claras. Telavive terá sido informada e nada fez para o contrariar. A ser verdade, o Hamas poderá ter aparentemente caído numa cilada.

Em vez de fazer acontecer Oslo, a “comunidade internacional” assobiou para o ar, fingindo estar tudo bem em Gaza e na Cisjordânia. Independentemente do que Israel estivesse a fazer, o importante era que os palestinos não reivindicassem. A conjugação de uma AP mansa, ineficaz, corrupta e geriátrica, sem dar resposta aos problemas do povo – muito conveniente para Israel -, com a expansão sistemática dos colonatos e as humilhações diárias e permanentes gerou a revolta e o aparecimento de grupos como o Hamas, que vieram ocupar o espaço de contestação deixado vazio pela AP.

Afinal, a opção estratégica da OLP se transformar num movimento político e abandonar a luta armada não se traduziu em benefícios para a causa palestina, nos trinta anos que nos separam dos acordos de Oslo (1993) e nos 24 anos da Cimeira de Camp David (2000). A sua colaboração e o seu bom comportamento não foram recompensados.

Pelo contrário, durante a vigência da domesticada AP, o movimento palestino só averbou derrotas, e os progressos na direção do estabelecimento de um Estado foram pírricos. Paulatinamente, Israel ia consolidando o seu projeto de uma Grande Israel, em particular na Cisjordânia, apesar de ter tido de devolver o deserto do Sinai ao Egipto, conquistado na guerra do Yom Kippur.

Foi o sentimento de impotência e injustiça sentidos pelas massas palestinas, que não se sentiam politicamente representadas pela AP, que deu força a quem pensasse ser o regresso à luta armada o único método de alterar o rumo dos acontecimentos. Tinha-se tornado evidente ser inviável construir um Estado palestino apenas através da diplomacia e da luta política.

Oslo não só não falhou em criar um Estado palestino como criou as condições para Israel se expandir e prosperar como nunca na Cisjordânia. Netanyahu mostrava nas Nações Unidas, a quem quisesse ver, sem qualquer pudor e reparo, um mapa de Israel em que a Cisjordânia e Gaza não apareciam. Ninguém parecia importar-se com o problema palestino, que caminhava a passos largos para a irrelevância histórica. No dia 6 de outubro, a causa palestina estava moribunda, quase morta. A normalização das relações com os países do Golfo estava em curso. Teria sido a derrota definitiva se a Arábia Saudita tivesse aderido a esse processo. Israel esteve à beira da vitória.

Mas a resposta selvagem de Telavive em Gaza, onde já pereceram mais de 42 mil almas, na data em que este texto foi escrito, veio reverter desajeitadamente décadas de energias e de esforço para convencer os Estados do Golfo de que a criação de um Estado palestino não podia mais vetar as relações entre Israel e o mundo árabe e islâmico. Veio ressuscitar das catacumbas a causa palestina tornando-a no assunto número um da luta pelos Direitos Humanos a nível mundial. Não só se encontra agora no topo da agenda da justiça internacional, como ganhou uma dinâmica imparável. Os casos em curso no Tribunal Penal Internacional e no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, tornaram-se num movimento sem precedentes no passado recente.

Israel encontra-se agora mais isolado internacionalmente do que nunca na sua história. Como disse David Hearst, “esta guerra despojou Israel da sua imagem de um sionismo liberal”, mostrando a sua verdadeira face de um sionista fascista. “A imagem de Israel de um jovem duro tentando defender-se da sua vizinhança deu lugar à de um ogre regional sem qualquer bússola moral.”

É inegável e sobejamente conhecido o projeto messiânico de uma Grande Israel com o sul do Líbano, Gaza e Cisjordânia incluídas, que Netanyahu ambiciona construir. Israel nunca teve intenções de reconhecer um Estado palestiniano e a “comunidade internacional” nunca pressionou Telavive a fazê-lo. Mas ninguém se atreveu a criticá-lo com receio de represálias ou de ser mal visto por Washington. Se tivesse sido criado um Estado palestino, cinco anos após a assinatura dos Acordos de Oslo, seguramente que não existiriam hoje movimentos como o Hamas. Como também não teria sido criado o Hezbollah, se as forças de Israel não tivessem cometido as chacinas e a matança de libaneses, aquando da ocupação do Líbano, em 1982.

As grandes potências, umas mais de que outras, transformaram a AP numa entidade rentista, mantida em estado vegetativo, em troca do seu silêncio, até à extinção da sua razão de ser. Mas Yahya Sinwar e o 7 de outubro vieram estragar o plano.

Será que Netanyahu e Zelensky fazem parte do projeto neoconservador?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/10/2024)

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites.


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Quando, em 1997, Zbigniew Brzezinski, antigo Conselheiro Nacional de Segurança do presidente Jimmy Carter, escreveu na sua obra de referência (O Grande Tabuleiro de Xadrez) o que deveriam fazer os Estados Unidos para controlar o mundo, prescreveu um programa de ação geopolítica para os EUA que inspirou a ala neoconservadora do establishment político norte-americano, e tem influenciado de modo determinante a política externa norte-americana no pós-guerra fria.

Não será de estranhar o surgimento ainda nesse ano do Project for the New American Century (PNAC), um think tank fundado por William Christol e Robert Kagan, onde se advogava ser o século XXI o século americano, onde o domínio militar dos EUA não só protegeria a segurança nacional e os interesses nacionais dos EUA, mas também estabeleceria uma Pax Americana global. Defendia ainda o PNAC que “a liderança americana é, ao mesmo tempo, boa para a América e para o mundo”.

De entre as muitas ideias avançadas por Brzezinski, pela sua atualidade, uma deve merecer a nossa particular atenção. Dizia ele que o cenário mais perigoso para o projeto hegemónico norte-americano seria uma coligação anti hegemónica constituída pela China, Rússia e Irão. Adiantando que “uma coligação que alie a Rússia à China e ao Irão só pode desenvolver-se se os Estados Unidos forem suficientemente míopes para antagonizarem simultaneamente a China e o Irão.”

Apesar do conselho avisado de Brzezinski, foi exatamente isso que aconteceu. A arrogância das sucessivas Administrações norte-americanas conseguiu alienar os seus adversários ao ponto de se coligarem contra Washington e pugnarem por uma ordem multipolar que desafia o projeto da primazia norte-americana. Não faltaram oportunidades para Washington aproximar Moscovo e Teerão do Ocidente, estupidamente desperdiçadas.

Muito se poderia escrever sobre a alienação da Rússia pelos EUA, desde o alargamento da NATO, apesar das garantias que foram dadas a Mikhail Gorbachev de que a Aliança não se expandiria para leste, à rejeição categórica da ajuda ocidental à União soviética em 1991, que impossibilitou que se produzisse na Rússia um efeito psicológico e político galvanizador semelhante ao do Plano Marshall para a Europa Ocidental no pós II Guerra Mundial, quando Moscovo procurava desesperadamente aproximar-se do Ocidente.

A invasão do Afeganistão pelos EUA foi outra oportunidade perdida para se esquecerem os acontecimentos do passado e aproximar Teerão de Washington. Em 2001, o Irão não hesitou em cooperar com os EUA na luta contra a Al-Qaeda e os talibãs. Teerão forneceu Intelligence e apoiou os EUA na operação de contraterrorismo Enduring Freedom.

Os iranianos estavam ansiosos por ajudar Washington e mostrar-lhe os benefícios estratégicos em cooperarem. No entanto, o comportamento colaborativo de Teerão não foi recompensado. Em 29 de janeiro de 2002, no discurso sobre o estado da União, o presidente George W. Bush incluiu o Irão no grupo dos países do “eixo do mal”, fazendo tábua rasa de toda a colaboração prestada pelo Irão aos EUA. Exauriu-se nesse momento, a possibilidade de se ultrapassarem experiências negativas do passado e encetar-se um novo capítulo nas relações entre os dois Estados.

A ter em conta a prosa prospetiva de Brzezinski, não será de estranhar que os três grandes focos de conflitualidade/tensão da atualidade sejam a Ucrânia, Israel e Taiwan, com os EUA a procurar tardiamente contrariar essa aliança anti hegemónica e a procurar reparar erros de cálculo estratégico passados muito difíceis agora de reverter. Como dizia Mike Pompeo, ex-diretor da CIA e ex-secretário de Estado, enganado telefonicamente por uma brincadeira feita por russos, “a Rússia precisa ser puxada de volta para a Europa, para longe da China.” Tarde piaste!

Há semelhanças evidentes naquilo que levou a União Soviética a invadir o Afeganistão, a Rússia a Ucrânia e o Irão a responder militarmente a Israel. Em todas essas situações, procurou-se, com sucesso, provocar o adversário criando-lhe uma situação psicológica insustentável. Visa-se com essas provocações levá-lo a envolver-se militarmente, utilizando esse pretexto para lhe responder e o derrotar, explorando a sua vulnerabilidade percebida.

No Afeganistão, o sucesso do apoio norte-americano aos Mujahidins que combatiam o regime pró-Moscovo de Mohammad Najibullah; na Ucrânia, a interferência de Washington na política interna de Kiev, o golpe de Estado em Maidan (2014), obra dos neoconservadores instalados na Administração Obama (nunca é demais recordar que a obreira Nuland participou em todas as Administrações norte-americanas desde a primeira Administração Clinton, em 1993), o armamento das fações ultranacionalistas e o iminente ataque às comunidades russófonas ucranianas.

No caso do Irão, o ataque a instalações diplomáticas iranianas em Damasco, os sucessivos assassinatos seletivos de dirigentes iranianos, do Hezbollah e do Hamas, muito em particular o de Ismail Haniya em Teerão, tinham como objetivo provocar o Irão, criar-lhe uma situação insustentável, não lhe dando outra alternativa que não fosse a de retaliar. Encostado à parede, o Irão respondeu à provocação e voltou a atacar Israel a 1 de outubro. O fornecimento de armamento e treino militar a Taipé ainda não colocou a China numa situação insustentável, em que não tenha outra alternativa senão intervir, como sucedeu com a Rússia e o Irão.

A Ucrânia e Israel desempenham papeis muito semelhantes no xadrez geopolítico mundial para os EUA. A primeira para controlar a Rússia, e o segundo o Médio Oriente. Se dúvidas existissem sobre isso, elas foram desfeitas num discurso do então energético Joe Biden ao Congresso norte-americano, em 1986, quando afirmou que “Israel é o melhor investimento que fazemos [EUA], caso Israel não existisse os EUA teriam que inventar um Estado de Israel para proteger os nossos interesses na região, os Estados Unidos teriam de inventar Israel.”

É também à luz disto que se deve procurar entender o comportamento de Washington, mais precisamente da ativa ala neoconservadora. Enquanto o enfraquecido Biden procura limitar a resposta de Telavive à retaliação de Teerão, de 1 de outubro, as fações da administração pública norte-americana trabalham nos bastidores em estreita coordenação com Israel, discutindo os possíveis ataques e “explorando opções de resposta ao ataque de mísseis do Irão contra Israel”, como afirmou o vice-secretário de Estado dos EUA, Kurt Campbell.

Segundo o Politico, ao mesmo tempo que a Administração Biden instava publicamente o Governo israelita a reduzir os seus ataques, “funcionários americanos apoiavam discretamente a ação militar de Israel contra o Hezbollah… figuras de topo da Casa Branca diziam a Israel que os EUA apoiariam o aumento da pressão militar contra o Hezbollah.”

Este comportamento aplica-se igualmente à possibilidade de uma contrarretaliação israelita ao ataque iraniano de 1 de outubro. Segundo o texto de Kenneth M. Pollack (Which path to Persia?) publicado pela Brookings, em 2009, o facto de os EUA afirmarem não querer que Israel ataque as instalações nucleares iranianas baseia-se numa estratégia de manter uma negação plausível enquanto, de facto, ataca o Irão, incluindo as suas instalações nucleares.

Por outras palavras, os neoconservadores instalados no poder querem uma guerra com o Irão, querem destruir a sua indústria de armamento, o seu programa nuclear, a sua economia e derrubar o seu governo, mas não querem ser alvo de condenação e retaliação a nível mundial, pelo que estão a armar/apoiar Israel para o fazer por eles.

Falamos daquilo a que Mearsheimer chamou de buck-passing. Isto é, quando uma grande potência se encontra numa postura defensiva, tentando evitar que os seus rivais ganhem poder à sua custa, pode optar pelo equilíbrio ou intervir, transferindo a responsabilidade de agir para outros Estados, mantendo-se à margem no assento traseiro.

Entretanto, multiplicam-se os apelos aos ataques ao Irão. “De facto, esta é a oportunidade ideal para destruir o programa nuclear do Irão. O tempo que o país leva para chegar a uma bomba é de uma a duas semanas. Não está previsto qualquer novo acordo nuclear. O Hamas e o Hezbollah não estão em posição de retaliar. E a República Islâmica acabou de o pedir. De facto, esta pode ser a última oportunidade para impedir Teerão de ter uma bomba.”

Na mesma linha, o antigo primeiro-ministro de Israel Naftali Bennett veio dizer que se trata da “grande oportunidade em 50 anos, para alterar a face do Médio Oriente, destruir o programa nuclear do Irão, as instalações energéticas terroristas, que se encontra mortalmente incapacitado.” “Temos uma justificação. Temos ferramentas. Agora o Hezbollah e o Hamas estão paralisados, o Irão está exposto. Há alturas em que a história nos bate à porta, e nós temos de a abrir. Esta oportunidade não pode ser desperdiçada.”

De facto, este é o momento indicado para o fazer aproveitando o vácuo de poder na Casa Branca e antes que Trump se possa vir a sentar-se na Sala Oval. Nesta matéria, Trump não é fiável para os neoconservadores, que já os tinha impedido em 2019 de materializar um ataque ao Irão. Os neoconservadores têm de aproveitar esta janela de tempo, porque com Trump no poder, se ganhar as eleições, essa possibilidade pode desaparecer.

Os projetos, as ideias e as ambições pessoais e políticas de Zelensky e Netanyahu só serão concretizáveis se inseridas numa grande estratégia, que lhes é alheia, atuando por procuração e colaborando na concretização da primazia geoestratégica norte-americana abraçada pelos neoconservadores: provocar mudanças de regime em Moscovo e Teerão (como o afastamento do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh, em 1953, que teve a aleivosia de privatizar as petrolíferas) infligindo-lhes derrotas estratégicas.

Nem a Ucrânia, nem Israel teriam conseguido resistir não fosse o apoio político, financeiro e militar proporcionado por Washington. Tanto Israel como a Ucrânia estão a servir interesses norte-americanos, em particular de um poderoso segmento das suas elites. O envolvimento de Taiwan nesse projeto encontra-se, por enquanto, comprometido.

A grande interrogação que se nos coloca neste momento é saber se Teerão tem capacidade para responder à retaliação israelita, como Moscovo está a responder ao desafio geoestratégico colocado por Washington. Teerão já fez saber aos EUA, através do Qatar, que a fase da contenção unilateral terminou. Está para se ver se vai conseguir dar a volta por cima, como estão a fazer os russos.