(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/10/2021)

Há quem, na direção do PS, prefira ir para eleições, porque os eleitores castigarão os partidos à sua esquerda. É provável que também castiguem o PS. Seis fatores: cansaço, sensação de ingovernabilidade, resultado nas autárquicas, novo ciclo na direita, crise energética e preço dos combustíveis e previsível inflação. E mesmo que PS ganhe, precisa de BE e PCP, que perceberam que este sequestro acabará por ser pago. A inutilidade é tão danosa como a crise política. Costa controla as principais variáveis. Desta vez é a sério.
As coisas estão estranhas. As razões do PCP e do Bloco para não quererem viabilizar este orçamento já foram dadas. Do conteúdo a uma história de cativações e não execuções que tornam qualquer compromisso inútil, tudo contribuiu para chegarmos a este risco de impasse. Que só pode ser resolvido com disponibilidade para tentar compensar isso noutra sede. As leis laborais, por exemplo. O BE e o PCP não pedem coisas fora do OE para conseguirem mais, mas para terem a certeza que conseguem alguma coisa.
A decisão de deixar António Costa navegar à vista – e isso é responsabilidade do PCP, que não quis acordos escritos, facilitando a vida ao primeiro-ministro –, associada a uma degradação das relações de confiança, em que João Leão tem um papel central, pode estar a encaminhar toda a esquerda para uma derrota. Como PCP e BE não falam um com o outro e Costa se habituou a confiar na sorte, o OE pode ser chumbado sem que se tenha feito tudo o que podia ser feito para o evitar.
Há uma posição crescente na direção do PS que prefere ir para eleições, porque os eleitores castigarão os partidos à sua esquerda. Podem até castigar. Mas não é certo que não decidam castigar também o PS. Seis fatores a ter em conta: cansaço ao fim de seis anos, que desgasta qualquer governo (e todos saíram ainda mais desgastados da pandemia); sensação de ingovernabilidade que uma crise política num momento pouco óbvio ilustrará; resultado nas autárquicas, que tirou gás ao PS; novo ciclo na direita – ao contrário do que muitos pensam, novas lideranças ainda não escrutinadas saem favorecidas; crise energética e aumento do preço dos combustíveis, que terá efeitos profundos; e, por consequência, previsível inflação, com aumento do preço de bens. Todo este cenário é mau para o PS, sem que ainda tenha usado a “bazuca”.
Mesmo que PS ganhe as eleições, e isso não é seguro, é improvável que não volte a precisar dos outros partidos à esquerda, enfraquecidos e com vontade nula de ficarem amarrados aos socialistas.
Para além do que move o PCP e o BE contra o conteúdo do Orçamento do Estado, que consideram, e na minha opinião bem, não responder ao que o país necessita para a recuperação, comunistas e bloquistas perceberam que este estado de sequestro, que anualmente os confronta com ultimatos em que o seu poder negocial é próximo de zero, acabará por ser pago mais tarde. E podem, não sem alguma racionalidade (perigosa), preferir arrancar o penso de uma vez e pagar por isso, em vez de se deixarem esvair de votos durante mais dois anos. A inutilidade não é menos danosa do que uma crise política.
É António Costa que tem a faca e o queijo na mão. Que não dê ouvidos aos triunfalismos que o levaram ao balde de água fria nas autárquicas. É ele que controla as principais variáveis num Orçamento onde as cedências aos partidos de quem depende para ter maioria são irrelevantes. E noutras áreas onde se recusa a regressar ao pré-troika. Não estou, ao contrário de muitos, nada convencido que o seu ganho com uma crise política seja grande. Pelo contrário, acho que a derrota da esquerda será geral. Outros primeiros-ministros, no passado, acharam que seriam premiados pela indisponibilidade para negociar e perderam eleições. Costa tem poucos dias para negociar. Desta vez é a sério.
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