O Presidente anunciou a marcelização do regime

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/06/2019)

Daniel Oliveira

Todos os comentadores, quando falam da realidade política, intervêm e mudam essa realidade. Somos todos criadores de factos políticos. Escusamos, portanto, de nos colocar de fora para vir com a lengalenga do “não matem o mensageiro”. O mensageiro, neste caso, produz mensagem, não se limita a transportá-la. Ainda assim, uma coisa é certa: quem ocupa cargos institucionais fala sempre como ocupante desses cargos. Nunca está, quando fala, a fazer análise política.

O Presidente da República não é um jornalista, um analista ou um cientista político. É um agente político, e todas as suas intervenções, do telefonema público para a Cristina Ferreira aos comentários aos resultados eleitorais das europeias, devem ser lidos e ouvidos como atos políticos com um propósito. Não é relevante discutirmos se Marcelo Rebelo de Sousa tem razão quando diz que “há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos”. É relevante discutirmos porque quis o Presidente da República anunciar uma crise política na direita.

Marcelo não adivinha nenhuma crise de regime ou da direita. Anuncia a marcelização do regime. Ele quer ser o tampão popular contra o populismo, o contrapeso à esquerda na crise da direita, o fator de estabilização de maiorias frágeis, tudo o que nos sobra

Não fazendo estes comentários parte do que se espera de um Presidente, resta-nos especular. E parece-me óbvio que o Presidente quer justificar uma maior presidencialização do regime. Não constitucional, mas de facto. Uma presidencialização de que deu sinais quando se atreveu a anunciar que vetaria uma lei ainda sem conteúdo se não tivesse o voto do PSD. Para sermos justos, porque não me recordo de teorias presidencialistas do constitucionalista Rebelo de Sousa, ele quer justificar a marcelização do regime. É o próprio Marcelo que diz que a crise da direita “explica por que é o equilíbrio está como está” e “porque é que o Presidente, pelo menos neste momento, é importante para equilibrar os poderes”. Não podia ter sido mais claro no objetivo.

Anda muita gente a discutir se Rui Rio compreende a crise em que está enfiado ou se nega as evidências ditas pelo Presidente. Não sei se esperam que um líder de um partido se ponha a fazer autoanálise a quatro meses das eleições.

E se acham que Marcelo é apenas um mensageiro, um analista que apenas nos transmite factos, e não um agente político que pensa no seu poder. A notícia não é o que Marcelo disse sobre a direita, é ter dito que a direita que sobra é ele e o que isso nos anuncia sobre o papel que pretende desempenhar depois das legislativas.

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O que Marcelo Rebelo de Sousa explicou à direita é que a única forma de haver um contrapeso à esquerda que ele não deixou de proteger nos primeiros anos de “geringonça” é pôr as fichas todas nele. Marcelo não adivinha nenhuma crise de regime ou da direita. Marcelo faz, como sempre fez, análise para alimentar a sua ambição. A questão que sobra é se ele próprio deseja a crise da direita que o deixa sozinho do palco. Eu diria que sim. A crise da direita e a fragilidade do futuro governo. Tudo em nome da marcelização do regime. Ele quer ser o tampão popular contra o populismo, o contrapeso à esquerda na crise da direita, o fator de estabilização de maiorias frágeis, tudo o que nos sobra. É isso que ele quer que o povo oiça.


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Os quatro piscas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/05/2019)

Daniel Oliveira

(Daniel Oliveira defende que as decisões zigzagueantes do PS podem ser compreendidas à luz das ambições pessoais de António Costa em aceder a um cargo europeu de relevo, eventualmente a Presidência do Conselho Europeu. A ser verdade, e se o conseguir, vai deixar uma multidão de orfãos no PS, e mesmo noutros sectores de esquerda. Sobretudo se o seu sucessor, na liderança do PS, for o truculento Santos Silva como também o Daniel profetiza.

É que, a ser assim, nesse dia o PS entrará irremediavelmente na via da pasokização. As tendências europeias demoram a chegar cá mas acabam sempre por marcar presença.

Comentário da Estátua, 17/05/2019)


A mensagem de apoio de António Costa a Emmanuel Macron não mereceu interesse dos jornalistas. Estamos numa campanha para as europeias e seria um disparate perder tempo a falar da Europa. Costa apresenta a coisa como uma aliança progressista que vai de Macron a Tsipras. Chamar de progressista a uma aliança que junta o mais impopular Presidente da história recente de França, responsável por uma reforma ultraliberal da lei laboral, e o homem que, traindo o voto do seu povo, aplicou um programa de austeridade muitíssimo mais violento do que o de Passos, é obra. O Alexis Tsipras progressista foi aquele que Costa acusou, em 2015, de combater a Europa de forma “tonta”. Este é apenas um náufrago.

No comício de Estrasburgo em que Costa participou através de um vídeo estavam os Ciudadanos espanhóis, o Partido Liberal alemão, o Em Marcha! de Macron, vários partidos de centro-direita, e, da ala mais à direita dos socialistas, apenas o Partido Democrático italiano. Nesta aproximação ao centro-direita, Costa deu um passo inédito: transferiu o apoio ao PS francês, partido a quem o PS deve muito na sua história, para o centro-direita. Mário Soares deve estar a dar voltas na campa.

Costa tem dito que o caminho português é um exemplo para a Europa. E é assim que a esquerda europeia olha para cá. Estranharão que quem se faz exemplo de unidade à esquerda traia a sua própria família política na Europa para se aliar ao centro e à direita. Qual dos Costas se enganou? O europeu ou o nacional? Nenhum deles.

Costa alimentou uma crise com um discurso para a direita, apoia Macron contra o PS francês para ganhar o centro na Europa e canta o “Bella Ciao” para entreter a esquerda. Já não pisca para a direita e para a esquerda, põe os quatro piscas ao mesmo tempo

Há quatro anos, acreditei que António Costa tinha sabido juntar os seus interesses pessoais a um olhar estratégico sobre o futuro dos socialistas, de maneira a dar-lhes espaço para não ficarem dependentes da direita para governar, salvar o PS do destino dos seus congéneres europeus e mudar o rumo da governação, com a construção de um bloco maioritário à esquerda. A fabricação da crise dos professores matou essa ilusão. Muitos olharam para ela pelo seu valor circunstancial – o conflito com a Fenprof – ou pelo seu objetivo tático – conquistar votos à direita.

Mas o objetivo estratégico era mais relevante: romper unilateralmente e de forma não explícita, e portanto sem custos, a geringonça. Costa está a abandonar os seus aliados externos e internos para se deslocar para o centro. E Augusto Santos Silva é o teórico desta estratégia. Acredita que será ele o Tony Blair português, sucedendo a Costa se ele for para a Europa.

António Costa sonha, talvez com excesso de otimismo, com a presidência da Conselho Europeu. Como se viu com Barroso ou Constâncio, a carreira europeia é o sonho dos políticos sem rumo mas com ambição. Internamente, precisa de se descolar da esquerda e, ainda assim, garantir um bom resultado nas eleições. Na Europa, precisa de estar no barco do centro e do centro-direita que não está com o PPE. Não é o escombro dos socialistas que lhe dará qualquer futuro. A solidariedade socialista fica para consumo interno, com a participação do candidato holandês à presidência da Comissão Europeia, Frans Timmermans, na campanha. Como há quatro anos, as alianças têm uma utilidade pessoal.

António Costa alimentou uma crise com um discurso para a direita, apoia Macron contra o PSF para ganhar o centro na Europa e canta o “Bella Ciao”, como hino da candidatura europeia, para entreter a esquerda, que fica apenas com a melodia. Já não pisca para a direita e para a esquerda, põe os quatro piscas ao mesmo tempo.

Estando nós em campanha para as europeias, seria normal que isto estivesse no centro do debate político. Isto, e o facto de Paulo Rangel e Nuno Melo apoiarem, para presidente da Comissão Europeia, Manfred Weber, o homem que pediu sanções para Portugal quando nos reerguíamos da crise. Como a comunicação social é viciada na irrelevância, é possível fazer um discurso cá dentro e outro lá fora. Juntar a esquerda cá dentro e fazer uma geringonça de centro-direita lá fora. Ser patriota cá dentro e apoiar quem nos tentou lixar lá fora. Porque é que ninguém liga às europeias? Porque elas não têm nada a ver com a Europa, com Portugal e com nada.Voltar ao topo

E o Nogueira amuou!

(Joaquim Vassalo Abreu, 14/05/2019)

Mário Nogueira

E é até muito natural que se sinta melindrado. E não recuperará facilmente do tremendo desgosto desta derrota, uma derrota que ainda por cima esteve para ser uma retumbante vitória. Estavam os astros todos alinhados, o solstício ali já na curva, tudo certinho e…que raio aconteceu? Inopinadamente eis que um malabarista e refinado farsante, esse tal de COSTA, não fez a coisa por menos e deu uma “facada” nos seus aliados (o Daniel Oliveira dixit) que, aflitos, se esqueceram do Nogueira.

A coisa não deve estar nada fácil e temo até que lhe advenha uma depressão, uma daquelas cavadas, estão a ver? Não auguro coisa fácil e teremos, assim, um Professor que nunca deu aulas a ir precocemente para a reforma por…depressão cavada!

Os Professores ficarão sem guia e os alunos sem mestre! A Frenprof sem presidente e a Intersindical sem candidato e, ainda, o PCP sem militante ! Para um Professor é de mais! E tudo isto porque o maldito do Costa resolveu desmontar o “teatro” e virou do avesso o guião da peça que tão bem afinado estava. Resultado: os actores desentenderam-se e mandaram a peça para as calendas…

O Miguel (o Guedes), o Daniel mais o irmão Gusmão, a Mariana mais a Joana (as Mortáguas), o Gusmão mais o irmão, uns na mão e outros em contramão, foram unânimes: O COSTA, manipulando todos, montou uma farsa! E só não vê quem não quer…E porquê? Porque estava, e muito bem, diziam eles, em baixo nas sondagens! De ”modos” que eu, tentando decifrar, concluo: então o bom para eles seria que ele estivesse em cima nas ditas sondagens? Alguém percebe?

Mas o Nogueira vive mesmo assim num dilema: é que indo para a baixa (se se quer reformar primeiro tem que ir para a baixa), coisa para ele de protesto último e desesperado e só suplantado por uma greve de fome, tem que deixar de coordenar, de instigar, de negociar, de perorar, de argumentar e de ameaçar com mais uma greve, não dele, mas dos outros, mas chega à conclusão que até nem baixa pode meter pois aquilo não é nada sem ele, pensa ele! E resta quem pense além dele?

Mas ó Nogueirinha eu vou-lhe dizer duas coisinhas, coisas essas que você, infelizmente para si, nunca perceberá! A primeira é a de que , depois de nos idos de 2008, ter levado a Lisboa tudo quanto Professor era ( menos a minha mulher e a minha irmã), em defesa da carreira docente e contra as avaliações, dizia você, mas a história disse-nos que não era nada por isso e sim para depor o Sócrates, o seu fôlego acabou e todo aquele professorado da direita deu por finda a experiência…Nunca mais foram!E não se arrependeu?

Queriam esses professores, que nunca uma greve fizeram, lá saber do tempo de serviço, das carreiras, esses até vão em topos de gama, e até das avaliações? Eles só queriam varrer com o Sócrates! Eles e mais você. E cansaram-se de lutas! Foi uma experiência gira, disseram já ofegantes de tanta luta…E você nada aprendeu?

Nunca aprendeu e agora viu-se: foi utilizado em nome de putativos ganhos eleitorais, tanto pelo PSD e CDS, como pelo PC e BE e, consumada a brincadeira, largaram-no! Até o seu Partido o desprezou.

Você e a sua luta foram apenas um instrumento de guerrilha politico-partidária, uma guerrilha onde tudo valia para se ganhar mas onde, para quem ganhou, o que valia não devia valer! Percebeu? Eu sei que não e agora o seu peso na rua vale zero. E sabe porque o largaram? Porque não foi consequente.

A sua avidez era tanta que nem se deu conta do quão espúria era aquela aliança! E você, estupefacto, em vez de jurar vingança, deu em pedir clemência: façam lá o favor…vocês prometeram…os Professores eram tão importantes para vocês e agora….

Agora amuou! Diz que vai pintar as estradas para a volta a Portugal com o 9-4-2 (mas ó Nogueira, a Volta é só em fins de Julho e Agosto, creio, e aí já não há aulas…) e…aderir ao Livre! Diz que está cansado de Partidos…