O XX entregou-se a Deus

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 06/11/2015)

João Quadros

João Quadros

Cavaco Silva atribuía a Nossa Senhora os sucessos nas avaliações da troika, Cristas pedia aos agricultores para rezarem por chuva, Passos andava de crucifixo em campanha.


Cavaco Silva atribuía a Nossa Senhora os sucessos nas avaliações da troika, Cristas pedia aos agricultores para rezarem por chuva, Passos andava de crucifixo em campanha e, agora, o novo ministro da Administração Interna culpa o diabo pelas cheias em Albufeira. Portugal é uma reunião da IURD com um dízimo ao cubo. Não é por acaso que o principal candidato a Presidente da República fazia homilias ao domingo e que até os comunistas apostam no padre para PR.

A partir do momento em que um ministro da Administração Interna vem atribuir a culpa dos estragos de umas cheias ao demónio, tudo é possível, incluindo o exorcismo da Constituição. O ministro da Administração Interna vai propor presentes a Deus para dominar o temporal. Calvão acha que um presente de 14 milhões de euros é natural e que uma cheia é obra do demónio. Calvão da Silva, decididamente, não acha que o diabo está nos detalhes. Quando o recém-responsável pela Administração Interna diz que “o que aconteceu em Albufeira foi uma força demoníaca”, é uma acusação grave. É verdade que Albufeira é um bocado sinistra, mas parece-me exagerado apontar o dedo ao diabo pelas falhas na construção, ordenamento, etc. Seja como for, não deixa de ser o ministro das Polícias a acusar o Demónio. Já ouvi falar muitas vezes no advogado do Diabo, se eu fosse o Mefistófles, ligava-lhe.

Claro que, do ponto de vista teológico, estas cheias também podem ser atribuídas a Deus. Não era a primeira vez que Ele usava água em excesso; e a destruição foi em Albufeira e o Criador é conhecido como o grande arquitecto. Provavelmente, há uma corrente que, ao contrário da força demoníaca do Calvão, defende que foi um acto divino de arquitectura paisagística.

O que já me parece mais estranho é que o ministro da Administração Interna encomende a Deus as vítimas das cheias. É verdade que este Governo misturou o Ministério da Cultura com a Igualdade e a Cidadania, mas não acredito que este seja um Ministério da Administração Interna das Almas. Ver um ministro encomendar o paraíso para alguém é um passo em frente para este ministério que, com o antecessor, apenas metia cunhas para vistos Gold de residência.

Quando o ministro Calvão da Silva afirma que o senhor de “oitentaianos”, que morreu em Boliqueime, “entregou-se a Deus, com certeza que lhe reserva um lugar adequado”, no fundo está a dizer que o senhor fez o que fez a malta que aceitou o convite de Passos para este Governo de quinze dias. De certa forma, é impossível não ter a certeza que Deus nos reserva um lugar adequado, quando o Sérgio Monteiro vai liderar a venda do Novo Banco. Aleluia!

É preciso que nos não esqueçamos

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 06/11/2015)

Baptista Bastos

Baptista Bastos

Quando o pobre Francisco Assis decide dissentir, os argumentos usados são retirados da poeira da guerra fria. O pessoal já não vai nisso. O Assis e os Assis têm de procurar outras alamedas de justificação.


Chega a ser comovente, por néscio e calamitoso, a gesticulação da direita e da direitinha, em vista de um governo de esquerda. Os preopinantes que, em pelo menos dois diários, choramingam a sua superior ignorância, fazem dó. Atribuem à esquerda todos os malefícios do mundo, desconhecendo (não fingem desconhecer: desconhecem mesmo) o percurso da História e as batalhas estabelecidas pelos homens para que a felicidade seja possível.

São aqueles que um velho jornalista de O Século chamava os “apedeutas”, escarmentando, com essa palavra antiga, aqueles que, sem saberem coisa alguma, punham-se sempre ao lado dos poderosos. Mas não vale a pena estrebuchar: as coisas vão mudar, porque as coisas mudam naturalmente em ciclos que nenhuma obstrução consegue evitar. Não sei se tudo vai melhorar; mas muita coisa vai ser outra.

Nesta união aparentemente espúria, entre o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda, o facto em si só o é porque António Costa, inopinadamente, decidiu interromper as derivas do seu partido, que sempre obedecera às cambiantes da política de apoio ao capitalismo, aliando-se umas vezes ao PSD, outras ao CDS. Há uma fatia larga das questões sociais que é comum àqueles partidos, embora no PS, essa fatia larga, chamada “socialismo” fora colocada na gaveta e esta zelosamente fechada à chave. Tão simples quanto isso. Quando o pobre Francisco Assis decide dissentir, os argumentos usados são retirados da poeira da guerra fria. O pessoal já não vai nisso. O Assis e os Assis têm de procurar outras alamedas de justificação.

É evidente que esta união não é vista com olhos amenos entre muitos militantes comunistas e socialistas. A cultura ideológica entre uns e outros tem sido sempre de hostilidade, animada, estimulada e tantas vezes provocada pelos próprios dirigentes dos dois partidos. Lançar gasolina para a fogueira nunca deu bom resultado. Mas também é evidente que esta situação de agressividade e, até, de desprezo pelo outro, não podia durar eternamente. A própria circunstância de o Muro de Berlim ter sido destruído e a União Soviética ter implodido explicam, talvez, o esmaecimento dos partidos obedientes àquela linha. Penso que a ideia difusa de “fortaleza cercada” e “inamovível” está historicamente ultrapassada. Na batalha dos dois sistemas, o capitalismo venceu, mas nada, em História tem carácter permanente. O que está a acontecer, em Portugal, como em outros países, é significante. Pode a direita e seus sequazes e estipendiados guinchar de susto e desespero, que nada evitará o desenrolar dos acontecimentos. Claro que este avanço das coisas, o chamado “processo histórico”, não será nunca linear e os obstáculos no caminho também pertencem à natureza dos factos. Mas foi aberta uma ruptura, com as decorrentes euforias e as consequentes traições e dissidências. Tudo está previsto.

O PS tem sido uma espécie de respaldo da direita. Os lugares são equilibradamente distribuídos. A “alternância” nunca foi “alternativa” e tudo corria no melhor dos mundos, tanto mais que, com o “socialismo na gaveta”, o caminho estava facilitado. Uns iam para lugares bem remunerados, na administração ou no privado; outros eram chutados para Bruxelas, quando o maná foi aberto; outros, ainda, entravam na “diplomacia”, enfim, o forrobadó. Nem tudo será arredado e a casa nunca ficará totalmente asseada. As raízes da miséria moral são fundas e estão bem regadas, e o silêncio cúmplice é, habitualmente, bem remunerado. No entanto, continuo a crer que a esperança tem muitas vezes razão, e que, neste sentimento, não estou sozinho: milhões e milhões de homens e mulheres caminham a meu lado.

Temos uma larga experiência do sofrimento, da dor e da repressão. E temos, igualmente, um conhecimento largo da luta e da resistência. O nosso património moral, cultural e intelectual é infinitamente superior ao “deles.” É preciso que nos não esqueçamos.

Quem festejou a clarificação ideológica de Passos que apanhe os cacos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/11/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

Tomás Albergaria partilhava na sua página de facebook, ainda no dia 15 de outubro, um vídeo da página “PS – Partido da Bancarrota”. Ativista contra o “governo de esquerda”, deixa neste seu espaço um texto de João Carlos Espada e um vídeo de Assunção Cristas para apoiar a sua posição. 15 dias depois é um dos organizadores do cordão humano que queria juntar as sedes do PS, PSD e CDS. Era isso que tinha anunciado nos seus cartazes mas apenas conseguiu, e mal, unir a Assembleia da República ao Largo do Rato. Uma rua chegou para fazer a festa para umas poucas centenas de pessoas. Não era preciso ir às suas páginas para perceber que estão muito longe de um dos partidos que supostamente querem unir. Aquilo mais parecia uma manifestação dos “Juntos pela vida”. Mas ainda assim, os organizadores queriam que o PS (o tal “partido da bancarrota”) se entenda com a coligação PSD-CDS. Querem “unir o que está dividido”.

Este suposto movimento da sociedade civil, a que várias “personalidades públicas” deram apoio mas “preferiram não dar a cara publicamente”, é apenas a caricatura daquilo a que temos assistido nas últimas duas semanas: os mesmos que nos últimos quatro anos acusaram os socialistas de tudo o que de pior aconteceu a Portugal, que reduziram uma crise europeia ao despesismo PS e o PS ao caso Sócrates, vieram a terreiro explicar o lugar do PS é a seu lado. Nas redes sociais dá para fingir que há uma sociedade civil entre o PS e o PSD a exigir que Costa dê a mão a Passos. Na rua fica mais difícil. Porque essa “sociedade civil”, tirando uma pequena margem do PS, que todos, incluindo os próprios, sabem ser francamente minoritária, não existe. A tal “sociedade civil” que exige ao PS que viabilize o governo de Passos Coelho e de Paulo Portas é basicamente composta por militantes e eleitores da coligação de direita. Haverá a quem a solução de esquerda não agrade. Mas, tirando os que querem manter artificialmente uma maioria política que já não existe, todos compreendem como o entendimento entre o PS e Passos e Portas seria, depois destes quatro anos, um absurdo. Sabem que nunca poderá ser Passos a liderar um governo que dependa do apoio de um partido de esquerda.

A primeira razão é a mais evidente: durante quatro anos Pedro Passos Coelho desprezou, com uma assinalável arrogância, tudo o que pudesse vir do PS. Nem sequer se dava a trabalho de informar os socialistas sobre as suas conversações com a Europa. O PS era o “partido da bancarrota” e tinha de pagar por isso. Durante quatro anos Passos só se lembrou de conversas com o PS para lhe exigir consensos em torno das propostas do próprio PSD. Sobretudo as mais difíceis de vender aos portugueses. Foi o caso da exigência de corte de 600 mil euros na segurança social. Passos decidia onde e o que se corta, ao PS caberia ajudar a decidir como o fazer. Fora isto, restavam os insultos, as recriminações sobre o passado e pouco mais. Apanhados em minoria descobriram o parceiro natural: o “partido da bancarrota”. Passos Coelho a pedir convergência com o PS soa tão bem como Howard Stern a pedir decência na televisão.

Mas esta é a razão mais emocional. O mais importante é aquilo em que se transformou o PSD. Uma das coisas que surge na página do tal cordão de direita para unir o centro é uma foto de Soares com Sá Carneiro. Acontece que aquilo em que acredita Passos Coelho é muitíssimo diferente daquilo em que acreditava Sá Carneiro. Talvez fosse um ar do tempo, mas o PPD de Sá Carneiro ajudou, com o PS e na base de um consenso nacional, a construir o Estado Social que temos. O Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, o serviço de pensões. Aceitou uma ideia basilar do Estado Social: a sua universalidade. Defendeu uma Escola para todos, garantida pelo Estado, e nunca propôs a caridade no lugar do apoio social do Estado. Mesmo Cavaco Silva acompanhou esta matriz que, não se podendo chamar social-democrata, estava alinhada com aquilo a que comummente chamamos modelo social europeu.

Não precisamos de ir a pormenores para descobrir as diferenças. Passos Coelho deixou logo muito claro que não era essa a sua praia. Logo quando concorreu à liderança interna, com uma agenda ideológica que mudava a identidade do PSD. Quando, ainda antes das eleições, escreveu um artigo no “Público” em que comparava o que o Estado gastava em funções sociais antes do 25 de Abril e hoje, afastando-se desse legado perdulário do seu próprio partido. Quando apresentou uma proposta de revisão constitucional que representava uma rutura com o consenso político ao centro. Quando Nuno Crato aumentou as transferências para os contratos de associação com colégios privados, cortou no financiamento ao ensino público e deixou muito claro que um e outro eram complementares. Quando Mota Soares começou o processo de substituição dos apoios sociais públicos para organizações de cariz caritativo e arrasou com o RSI. E poderia continuar parágrafos atrás de parágrafos. Mas todos sabem bem do que estou a falar. De tal forma que foram muitos os que, no PSD, se sentiram traídos quanto à identidade do seu próprio partido.

A vitória de Passos Coelho nas eleições internas do PSD foi aplaudida pelos intelectuais da direita mais liberal. Era um momento de clarificação ideológica. Eram os velhos vícios do estatismo de esquerda que estavam a ser vencidos. Quando apresentaram a proposta de revisão constitucional e quando levaram a cabo a sua agenda ideológica na educação ou na segurança social, e sempre que Passos dedicou ao país sermões sobre as virtudes do risco e da crise, ainda mais vibraram os seus apoiantes. Quando desprezou o “partido da bancarrota”, acharam que foi de mestre. Ao longo de quatro anos Passos Coelho cavou, conscientemente, um fosso entre o centro-direita e o centro-esquerda. E os seus mais próximos acharam que estava a fazer um excelente serviço.

Este fosso não está a crescer apenas em Portugal. A contrarreforma a que assistimos na Europa destruiu um consenso nascido no pós-guerra. Mas em Portugal esta separação fez-se com uma arrogância pouco habitual.

Julgar que quatro anos de tanta agressividade ideológica, política e social, enquadrados num ataque europeu ao legado socialista e social-democrata, deixaria tudo como antes é pior do que ingenuidade. É cinismo. O consenso do centro era o consenso em torno de um determinado modelo social que a esmagadora maioria do país desejava. Foi Passos Coelho que rompeu esse consenso.

Os entendimentos à esquerda nascem de uma pressão dos eleitores de esquerda, que sentiram isso mesmo. Quem festejou a clarificação ideológica de Passos Coelho que apanhe agora os cacos.