O Coelho volta a sair da toca

(Estátua de Sal, 14/08/2016)
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Estive a ver a homilia de Passos Coelho na conhecida festa do Pontal do PSD.
Fiquei a saber que o ano passado, nesta altura do ano, Portugal estava de excelente saúde, a crescer, a riqueza a florir, os portugueses a desmaiar de felicidade e de esperança.
Em oposição, fiquei a saber que, este ano, Portugal está anémico, com febre, e a esvair-se numa depressão profunda. Para provar esta tese, Passos socorreu-se dos números do INE, que dizem que o país teve, no 1º semestre, um crescimento inferior ao do ano passado. Ora, Passos, devia responder a algumas questões pertinentes:
1) Se o País estava em 2015 tão bem como ele pinta, qual a razão pela qual os portugueses, não lhe deram nas eleições a possibilidade de governar? Passos continua sem perceber a razão de tal falhanço eleitoral.
2) Se o país está tão mal como ele pinta, este ano, qual a razão pela qual o PSD que ele lidera está a perder fôlego eleitoral, de acordo com a última sondagem realizada há dias, enquanto o PS e os seus apoiantes à esquerda se aproximam da maioria absoluta? Passos continua sem perceber que as ténues mudanças na política económica que este Governo tem subscrito agrada à maioria dos portugueses, por muito que lhe doa, e que ele ameace com cobras, lagartos e fogos vários, sejam do Apocalipse ou não.
Contudo, esta incapacidade de Passos em perceber a realidade é facilmente explicada se aplicarmos o chamado “teorema Montenegro” que estabeleceu o seguinte postulado: “os países estão melhores quando as pessoas estão piores e os países estão piores quando as pessoas estão melhores”. Á luz da aplicação desta máxima, as pessoas, estando melhores com o Governo Costa, ignoram que o país, está pior e foi esse o grande recado de Passos nesta sua intervenção.
O azar de Passos, é que, quando o país vai a votos, não é o “país” que vota, mas sim as pessoas, e estas tendem a apoiar quem lhes melhora as condições de vida e não quem melhora apenas as estatísticas do INE.
Disse mais Passos: que o país precisa do PSD. Eu concordo, até porque o peso eleitoral e sociológico do PSD não pode ser ignorado ,no quadro do regime parlamentar de onde emanam os governos em Portugal.  Mas o país precisar do PSD não é a mesma coisa que precisar de Passos Coelho enquanto líder do PSD.
Do meu ponto de vista, depois de ter sido quebrado o bloqueio da governação à esquerda depois da formação da geringonça, resta quebrar o bloqueio ao centro. E esse bloqueio ao centro tem apenas um nome e um rosto: Pedro Passos Coelho. Um partido cujo líder não tem capacidade para perceber a realidade e a ela se adaptar para a tentar transformar a seu contento, não será nunca mais um partido de poder ou de governação.
Aliás, parece que já há mais gente, mesmo à Direita que já percebeu isto. As televisões, SICN, TVI24, RTP3 começaram todas com diretos do Pontal. Mas quando chegaram as 22h, a SICN e a TVI24 passaram-se para os programas de futebol dominical, o que só prova que a importância mediática da peroração de Passos já não é o que era, e se calhar, só ele é que ainda não se apercebeu disso mesmo.
De facto, vale mais ouvir o Rui Santos a analisar as táticas do Rui Vitória ou do Jorge Jesus do que ouvir Passos Coelho a anunciar o fim do mundo e a rogar pragas a António Costa.

Espanha: tarde demais para a geringonça

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/06/2016)

Autor

                                Daniel Oliveira

O Partido Popular subiu em deputados em relação às eleições que decorreram há seis meses e, mesmo com enorme aumento da abstenção, de votos. Continua a ser trambolhão em relação às eleições que o levaram ao governo mas, perante os escândalos em que o partido tem estado envolvido, que numa situação normal levariam à sua implosão, não deixa de ser assinalável.

O PSOE afunda-se mais um pouco, afastando-se do PP e deixando que o Podemos se aproxime dele em representação parlamentar. O Podemos não rentabiliza a aliança com a Esquerda Unida e perde muitos votos. Mas no parlamento fica melhor do que estava, aproxima-se do PSOE e deixa o Ciudadanos para trás. Mesmo que hoje este resultado seja apresentado como uma derrota, muito por causa das expectativas criadas pelas sondagens, não deixa de ser extraordinário que uma força acabada de chegar se tenha imposto de tal forma que resiste à pressão causada por seis meses de ingovernabilidade em que o próprio Podemos surgiu como o principal problema. O Ciudadanos saiu do grupo da frente e não pode ambicionar a ser mais do uma espécie de CDS do PP.

Do ponto de vista aritmético, pouco ou nada mudou. O PP e os Ciudadanos continuam a não conseguir formar governo sem ajuda do PSOE, PSOE e Podemos continuam a não conseguir formar governo sem ajuda do Ciudadanos. A diferença principal é política: Pedro Sanchez não teria hoje condições para liderar um governo. E o Podemos não teria a mesma força para fazer exigências. À esquerda o bloqueio ficou maior do que à direita.

A situação estava fadada para ser difícil. O PSOE, já se sabia, não iria disparar. Só à custa de uma subida do Unidos Podemos é que a esquerda conquistaria a maioria. O que, tal como indicavam as sondagens à boca de urna, só seria possível se o Podemos ultrapassasse o PSOE. E aí a aliança seria também difícil.

O PSOE disse duas coisas e, se não quisesse criar um bloqueio, iria ter de rever uma delas: que não apoiaria um governo Rajoy e que Pablo Iglesias não lideraria um governo com um PSOE. Para não haver novas eleições alguma das duas teria de acontecer. E as duas representariam um suicídio para os socialistas. A questão seria saber qual era pior. Neste momento, a pressão para escolher a segunda é enorme. Bons amigos de ocasião, sobretudo de direita, apelam à abstenção sistemática, tornando o PSOE numa inexistência política. Depois de anos a pedir aos socialistas que não o fossem, agora pede-se que não existam. Para acabarem por desaparecer, como aconteceu ao PASOK e poderá vir a acontecer ao SPD.

A situação espanhola retira razão àqueles que consideraram que Costa estava a cometer uma loucura em Portugal. Percebeu que começávamos a assistir aqui a uma transformação eleitoral semelhante à que está a acontecer em vários países do sul, onde felizmente a extrema-direita não consegue captar voto de protesto e são os partidos mais à esquerda que captam eleitores descontentes.

Antecipou-se, apanhando o Bloco e o PCP com força suficiente para ter alguma coisa a perder mas sem força para fazer o que Iglesias fez em Espanha. Entendeu-se com a esquerda a tempo de a liderar. Porque a alternativa seria vir a ser obrigado a fazer o papel que o SPD faz hoje na Alemanha ou que o PSOE pode vir a ser obrigado a fazer em Espanha.

A inteligência de António Costa foi a de mudar a estratégia do PS antes que mudasse o sistema partidário e o PS ficasse numa situação muitíssimo mais frágil. Tomou a iniciativa antes que o contexto o passasse a ser um beco sem saída em que ficou Sanchez. Quem acusa Costa de estar refém do resto da esquerda devia olhar para Espanha e para a situação do PSOE.

As coisas por aí

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 15/06/2016)

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Baptista Bastos

Esta nova etapa do PS, por ser nova, dispõe de inimigos internos e externos.


As boas relações entre Marcelo e Costa desanuviaram, substancialmente, a atmosfera de confronto esquizofrénico mantida e estimulada pelos dois anteriores donos do poder. Não será precipitado determo-nos um pouco acerca das reservas que o futuro consigo trará. Esta “associação” das Esquerdas vai manter-se para as próximas legislativas? E Passos Coelho, com quem se conubiará?, posta de parte, ao que parece, uma nova relação com o CDS. Aliás, as debilidades de Assunção Cristas são evidentes, sobretudo em confronto (queiramos ou não) com o “génio” político de Paulo Portas e a mascarada em que, com ele, a política se transformou.

É muito difícil que o PS, só ele, ganhe folgadamente as eleições. Assim como parece pouco viável que o PSD saia vencedor da pugna. Por outro lado, ante este vazio quase sem saída, uma solução seria, acaso, o reforço do Bloco e a imposição do seu método e dos seus processos a um novo acordo com os socialistas, que, no Congresso recente, sustentaram, com entusiasmo, a estratégia de Costa. E será que os “sociais-democratas” aceitarão um Passos Coelho desprovido de projecto, e envolvido em fatal melancolia.

O PCP possibilitou que o PS fosse governo, e a angústia de muitos dos seus militantes apaziguou-se com os resultados até agora obtidos. Mas os comunistas possuem um ideário, um desígnio e um programa que não abandonam. E desconfiam, historicamente, de um partido que sempre se aliou à Direita. “Isso foi na Guerra Fria”, objectar-se-á. Porém, as coisas não são bem assim. E os traços de uma guerra ideológica deixaram feridas que não curaram. Esta nova etapa do PS, por ser nova e nunca experimentada, dispõe de inimigos internos e externos. Também se aguarda o que vai acontecer em Espanha, com um Partido Popular, ninho de todas as corrupções, estranhamente inamovível.