A hora da esquerda, algumas viragens à direita e a malapata do centro

(Francisco Louçã, in Público, 12/11/2015)

Francisco Louçã

 Francisco Louçã

Um dos aspectos curiosos da crise que vivemos, desde que as eleições conduziram ao fim do governo de Passos-Portas, é a radicalização da política.

Todos notamos esse processo. Não é só nos ódios que escorrem nas caixas de comentários deste blog ou de todos os outros, sobretudo quando o anonimato protege a bravura do insulto, no acinte de tantos dos comentadores, no frenesim de deputados (“repugnante”, grita Luís Montenegro), nos títulos bombásticos dos jornais. Deixemos isso à sua sorte.

Mas convido os leitores e leitoras a olharem para outro aspecto, porventura mais iluminante: a forma como resvalam para a direita algumas personalidades que cultivavam um lugar ao centro e que disso obtinham relevo social, cultural, comunicacional, exemplos como eram de pensamentos arejados e intrigantes.

Vejamos três casos de pessoas que leio com particular interesse e curiosidade.

Luís Aguiar-Conraria, albergado no Observador, confessa ter votado PS e estar retumbantemente arrependido, assinalando com algum humor como esta revelação o tornou popular entre os cronistas do PSD e CDS (diz ele que tem a companhia de Clara Ferreira Alves). Condecorado pelos próceres da direita como cidadão exemplar, Aguiar-Conraria repete os argumentos mais sofridos contra a mudança de política: o salário mínimo não deve aumentar, mais procura é perigoso, é preciso obedecer ao ditames europeus. Assim, alinha-se sofredoramente com quem entende ser mais coerente com o projecto de “austeridade inteligente”, indignado porque, no acordo PS-BE-PCP, os “orçamentos de Estado serão usados para ‘devolver salários, pensões e direitos’, mas nunca declaram que procurarão fazê-lo dentro do quadro das nossas obrigações europeias.” Supõe-se que as “nossas obrigações” são ortogonais em relação à “devolução de salários, pensões e direitos”.

Clara Ferreira Alves, com mais estrondo, descobre-se “anticomunista”, signifique isso o que significar. Portugal é um problema de atraso cultural perpétuo, conclui ela: “Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição ‘The World Goes Pop’, para ver como Portugal não consta desta revolução”, e nesse limbo do atraso vingou o PCP durante a ditadura. Depois, descobre Ferreira Alves, nada de confusões: “O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.” O centro foi tudo mas agora encaixou-se e está ameaçado pela esquerda, enfim destravada.

Miguel Sousa Tavares, sempre mais directo, acha simplesmente que “dificilmente esta história acabará bem” (o que, consoante o tempo que se lhe dê, será garantidamente um dia verdade e outro dia deixará de o ser), porque “tudo parece girar à roda de quanta mais despesa do Estado será necessária para acolher as benfeitorias que cada um (dos partidos) propõe”. E há temas que o tiram do sério, como o fim dos exames da quarta classe que, como toda a gente sabe, foi a grande inovação do quartel-general cratista da 5 de Outubro para ensinar pedagogia a uma Europa relapsa. Tudo mal nesse acordo do PS com a esquerda.

O que há de comum entre estas três posições, porventura representativas de outras, embora muito especiais como o são os seus autores, é que apoiavam o centro e sem dúvida desejavam a sua vitória. Mas a realidade eleitoral complicou tudo e, perante a pressão desta crise política, um desloca-se para a direita, outra redescobre-se visceralmente “anticomunista” e sente a necessidade de o proclamar e outro bombardeia o novo governo como se estivéssemos no dia do juízo final.

Ora, este é um sintoma do que é algum do centro neste momento. Perturbado com a simples ideia de devolver salários e pensões, depois de nos anos anteriores se ter compungido com os sofrimentos dos pobres trabalhadores e dos velhos, este centro não tolera a prova da escolha. Amedrontado, parece ficar à espera de que não aconteça nada. Melhor com os senhores do costume, habituados que estamos ao fato de Príncipe de Gales do vice-primeiro-ministro e ao canto coral do primeiro-ministro, do que na aventura assustadora do aumento do salário mínimo para 530 euros, isso nunca.

Outros, que há um par de meses eram entusiastas da negociação da dívida, a começar por alguns do PS, preferem hoje que fique tudo esquecido, porque o clima não está para essas coisas, a Grécia assustou as boas almas, vão andando que eu vou lá ter.

Só que, e aí é que está o busílis, falta ao centro a alternativa onde lhe sobra indignação. Há um vislumbre de resposta sobre como gerir as contas públicas? Nada, só o temor reverencial à “Europa”. Há uma palavra sobre como criar emprego ou onde por as fichas do investimento? Nada, os mercados dirão. Há um gesto acerca deste indignante desbaratar de bens públicos ou da teia de interesses entre a banca e a decisão política? Não se espere tanto. Nem se deveria esperar, o centro é o lugar onde não se decide nada, obedece-se à “Europa”.

Porque não tem nada a propor e prefere nada fazer, o centro está a desfalecer. Por isso não me surpreende que alguns dos seus ideólogos ou praticantes se sintam agora forçados a sair para o lado. Só posso elogiar a sua sinceridade e a sua presciência. O que nos estão a dizer é que a esquerda pode e deve enfrentar a direita e que ninguém mais o fará, se não ela.

Obrigado Passos, obrigado Portas. Obrigado Cavaco?

(Estátua de Sal, 10/11/2015)

PAF_AST

Segui com um sorriso nos lábios a retórica que a Direita desenvolveu durante o debate do programa do Governo pafioso na Assembleia da República. A narrativa assentou nos seguintes eixos:

1) O ataque pessoal ao líder do PS, António Costa.

2) O revisitar de discursos antigos sublinhando as dissensões de décadas entre o PS e o PCP com o intuito de reputar de frágeis os acordos alcançados.

3) O acenar com a ameaça da inclemência dos mercados e dos credores perante uma aliança à esquerda.

4) A reiterada falsidade de que ganharam as eleições e que o governo teria toda a legitimidade para governar, designando mesmo por fraude, as moções de rejeição que o derrubaram.

A moção de rejeição do PS, aprovada com 123 votos a favor e 107 votos contra, fez o pleno expectável da arrumação de forças políticas representadas no parlamento, sendo a única surpresa ter tido também o apoio do único deputado do PAN.

Não vou desmontar as falácias contidas nos quatro eixos que nortearam o discurso da direita. Foi o discurso da birra, do autismo, da esquizofrenia, da teimosia em não querer ver a realidade. Foi o discurso da criança a quem tiraram o brinquedo e que bate com a cabeça na parede. Ainda assim, devemos ser misericordiosos e magnânimos com eles. Convém perceber que esse discurso faz parte da medicação de que necessitam para exorcizar os seus próprios fantasmas e para se tentarem recompor do choque brutal que tiveram com a realidade.

E que a Direita reflita. Que medite Passos. Que medite Portas. E que concluam que foram eles os grandes obreiros da aliança à esquerda, esse tabu sempre presente durante quatro décadas na política portuguesa. Foi o seu radicalismo neoliberal, a sua crueldade para com os deserdados, a sua insensibilidade em mais deserdados gerarem, que tornou claro para o país, e para as forças políticas à esquerda, mormente para o PCP, que um governo do PS, por muito mau que seja, por muita austeridade que tenha que fazer por imposição de Bruxelas, será sempre melhor e mais sensível aos problemas dos trabalhadores do que um governo pafioso. Jerónimo de Sousa concluiu afinal que, do mesmo saco, podem sair farinhas diferentes. E essa conclusão foi a pedra de toque necessária para derrubar o governo de Passos.

O poder corrompe, mas o poder absoluto corrompe em absoluto, como disse de forma lapidar John Emerich Edward Dalberg-Acton. A direita teve quatro anos de poder absoluto. Além da maioria parlamentar, teve um Presidente de fação, teve um país de soberania limitada subjugado aos ditames da troika, troika de quem se serviu para justificar as suas políticas de devastação. E nesses quatro anos, a direita, de forma desabrida e impiedosa, tentou mudar o regime e alterar em definitivo os equilíbrios sociais e económicos que o país foi construindo ao longo de quarenta anos de democracia, só esbarrando nos limites da Constituição e nos acordãos do Tribunal Constitucional. O PSD, inoculado pelo vírus liberal do CDS, corrompeu os seus próprios princípios programáticos devedores da matriz social-democrata das suas origens. Era uma nova economia, um novo modelo económico baseado num empreendorismo de salão, era um Estado Social minimalista e assistencialista, era um novo moralismo na legislação sobre as políticas de costumes, era no fundo a desforra da direita do antigamente, acolitada pelos jovens rebentos neocons, os tais para quem todos os males do país se poderiam eliminar através do extermínio da peste grisalha. E na aplicação desse programa de subversão do regime, a direita foi impiedosa e governou contra tudo e contra todos. Não dialogou, não criou pontes, não ouviu as críticas nem os avisos à navegação vindos de gentes do seu próprio reduto.

E foi em função dessa governação, que teve a crueldade como bandeira, que a Direita, apesar da campanha de intoxicação que toda a comunicação social montou a seu favor, apesar das promessas de mansidão para o futuro, apesar de apregoar o oásis ao virar da esquina, ainda assim perdeu 700000 votos nas eleições e em consequência a maioria absoluta na Assembleia da República. Contudo, tal não seria suficiente para que a direita fosse afastada da governação, caso não fosse possível constituir-se uma maioria parlamentar que suportasse um governo alternativo.

Mas eis que essa maioria surgiu, apesar de todas as ameaças, chantagens sobre os deputados, clamores dos jornalistas avençados, medos empolados, lamúrias verrinosas e profecias de todas as cassandras.

O sonho messiânico da direita radical, transformação do país assente num darwinismo social impiedoso foi, para já interrompido, mesmo que Cavaco teime em inviabilizar um governo do PS suportado pelo PCP e pelo BE. Aí sim, aí estaríamos perante um golpe de estado perpetrado pelo Presidente, atentado contra a Constituição e contra a República. É bem possível que Cavaco, esse caudilho, a mão atrás do arbusto do radicalismo da direita, queira prosseguir o radicalismo do governo anterior: de golpe em golpe, de subversão em subversão. Mas, se o fizer, as tensões que irá criar no país, a instabilidade que irá criar na gestão do Estado, os efeitos que tal terá, isso sim, no perfil de risco da República nos mercados financeiros, criará um cenário político de tal forma conturbado que o eleitorado não irá perdoar à direita radical. Até porque não é preciso ser do PS para se ser contra a austeridade e achar positivas as medidas que o seu programa propõe.

E não tenho dúvidas de que, nesse cenário, o comentador Marcelo pode começar a preparar o regresso ao seu espaço dominical na TVI, porque nesse caso o próximo Presidente da República será de esquerda. E, tal como agora agradeço a Passos e Portas o terem contribuído para a existência desta inédita e histórica aliança à esquerda, agradecerei também a Cavaco, com toda a fleuma e ironia, a derrota de Marcelo nas próximas eleições presidenciais.

A clarificação matou o consenso

(Daniel Oliveira, in Expresso, 07/11/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

Francisco Assis é contra um governo de Costa com o apoio dos partidos à sua esquerda. Quer ver o PS a fazer “uma oposição responsável”. O problema é que se o PS se opuser ao governo de Passos ele morre daqui a três meses, com o orçamento chumbado. Como suponho que Assis não quer deixar o país sem governo, o que ele realmente defende é que os socialistas viabilizem e sustentem o Governo de Passos e Portas nos próximos quatro anos. A razão por que não o diz de uma forma clara é evidente: sabe o efeito que tal posição teria junto do eleitorado e da militância socialista.

A chegada de Passos Coelho à liderança do PSD foi aplaudida pelos intelectuais da direita mais liberal como um sinal de clarificação ideológica. Passos confirmou-o na sua proposta de revisão constitucional, na retórica regeneradora de um povo piegas e habituado a viver protegido pelo Estado, na política social e de educação, na estratégia de contração de rendimentos para tornar a nossa economia mais competitiva. A isto temos de juntar o total desprezo que demonstrou pelo “partido da bancarrota”, apontado como responsável absoluto pela crise financeira e económica e dispensado de todos os debates fundamentais. Quando se fala da história de 40 anos de democracia não se pode esquecer o que mudou nos últimos cinco. Mudaram os dois elementos agregadores do consenso ao centro: a Europa e o Estado social. Da Europa já não vêm apenas boas notícias. Já não chega dizer que se é europeísta ao som do ‘Hino à Alegria’. Tem de se explicar que Europa se quer. Quanto ao Estado social, o PSD abandonou todos os elementos que o definem: defende o fim da sua universalidade, bate-se por uma pretensa “liberdade de escolha” que torna as funções sociais do Estado meramente complementares e quer substituir a Segurança Social por instituições de caridade. A ausência de alternativa a este discurso tem resultado em sucessivas derrotas do centro-esquerda por essa Europa fora. Em França e noutros países do norte da Europa os socialistas perdem para a extrema-direita. Em Espanha, Grécia e Portugal perdem para a sua esquerda. O PS só não ficou em primeiro porque BE e PCP tiveram 20%. Costa ou trava esta sangria ou nunca mais o PS governará. Estará destinado a ser a bengala de governos minoritários de direita, como Assis propõe.

Muita coisa mudou nos últimos cinco anos. A construção do Estado social, que mantinha o sistema partidário coeso, entrou em refluxo. A Europa já não é uma promessa de prosperidade. É por isso que o apoio do PS a um governo do PSD se tornou anacrónico e insuportável para a maioria dos eleitores socialistas. É por isso que Costa, Catarina e Jerónimo passaram a campanha a ouvir uma palavra: “Entendam-se!” Não foi Costa que descobriu a pólvora. Não foram Catarina e Jerónimo que repentinamente mudaram.

Sim, houve um contexto — maioria de esquerda com a impossibilidade de dissolver o Parlamento —, mas foi a austeridade que destruiu os consensos que existiam. E quando a sociedade muda os partidos reagem. É por isso que, apesar do espanto mediático, o PS não está realmente partido, o sectarismo não se sente na militância bloquista e comunista e a direita não está na rua. Vivemos apenas as consequências do que aconteceu nos últimos quatro anos.