Obrigado Passos, obrigado Portas. Obrigado Cavaco?

(Estátua de Sal, 10/11/2015)

PAF_AST

Segui com um sorriso nos lábios a retórica que a Direita desenvolveu durante o debate do programa do Governo pafioso na Assembleia da República. A narrativa assentou nos seguintes eixos:

1) O ataque pessoal ao líder do PS, António Costa.

2) O revisitar de discursos antigos sublinhando as dissensões de décadas entre o PS e o PCP com o intuito de reputar de frágeis os acordos alcançados.

3) O acenar com a ameaça da inclemência dos mercados e dos credores perante uma aliança à esquerda.

4) A reiterada falsidade de que ganharam as eleições e que o governo teria toda a legitimidade para governar, designando mesmo por fraude, as moções de rejeição que o derrubaram.

A moção de rejeição do PS, aprovada com 123 votos a favor e 107 votos contra, fez o pleno expectável da arrumação de forças políticas representadas no parlamento, sendo a única surpresa ter tido também o apoio do único deputado do PAN.

Não vou desmontar as falácias contidas nos quatro eixos que nortearam o discurso da direita. Foi o discurso da birra, do autismo, da esquizofrenia, da teimosia em não querer ver a realidade. Foi o discurso da criança a quem tiraram o brinquedo e que bate com a cabeça na parede. Ainda assim, devemos ser misericordiosos e magnânimos com eles. Convém perceber que esse discurso faz parte da medicação de que necessitam para exorcizar os seus próprios fantasmas e para se tentarem recompor do choque brutal que tiveram com a realidade.

E que a Direita reflita. Que medite Passos. Que medite Portas. E que concluam que foram eles os grandes obreiros da aliança à esquerda, esse tabu sempre presente durante quatro décadas na política portuguesa. Foi o seu radicalismo neoliberal, a sua crueldade para com os deserdados, a sua insensibilidade em mais deserdados gerarem, que tornou claro para o país, e para as forças políticas à esquerda, mormente para o PCP, que um governo do PS, por muito mau que seja, por muita austeridade que tenha que fazer por imposição de Bruxelas, será sempre melhor e mais sensível aos problemas dos trabalhadores do que um governo pafioso. Jerónimo de Sousa concluiu afinal que, do mesmo saco, podem sair farinhas diferentes. E essa conclusão foi a pedra de toque necessária para derrubar o governo de Passos.

O poder corrompe, mas o poder absoluto corrompe em absoluto, como disse de forma lapidar John Emerich Edward Dalberg-Acton. A direita teve quatro anos de poder absoluto. Além da maioria parlamentar, teve um Presidente de fação, teve um país de soberania limitada subjugado aos ditames da troika, troika de quem se serviu para justificar as suas políticas de devastação. E nesses quatro anos, a direita, de forma desabrida e impiedosa, tentou mudar o regime e alterar em definitivo os equilíbrios sociais e económicos que o país foi construindo ao longo de quarenta anos de democracia, só esbarrando nos limites da Constituição e nos acordãos do Tribunal Constitucional. O PSD, inoculado pelo vírus liberal do CDS, corrompeu os seus próprios princípios programáticos devedores da matriz social-democrata das suas origens. Era uma nova economia, um novo modelo económico baseado num empreendorismo de salão, era um Estado Social minimalista e assistencialista, era um novo moralismo na legislação sobre as políticas de costumes, era no fundo a desforra da direita do antigamente, acolitada pelos jovens rebentos neocons, os tais para quem todos os males do país se poderiam eliminar através do extermínio da peste grisalha. E na aplicação desse programa de subversão do regime, a direita foi impiedosa e governou contra tudo e contra todos. Não dialogou, não criou pontes, não ouviu as críticas nem os avisos à navegação vindos de gentes do seu próprio reduto.

E foi em função dessa governação, que teve a crueldade como bandeira, que a Direita, apesar da campanha de intoxicação que toda a comunicação social montou a seu favor, apesar das promessas de mansidão para o futuro, apesar de apregoar o oásis ao virar da esquina, ainda assim perdeu 700000 votos nas eleições e em consequência a maioria absoluta na Assembleia da República. Contudo, tal não seria suficiente para que a direita fosse afastada da governação, caso não fosse possível constituir-se uma maioria parlamentar que suportasse um governo alternativo.

Mas eis que essa maioria surgiu, apesar de todas as ameaças, chantagens sobre os deputados, clamores dos jornalistas avençados, medos empolados, lamúrias verrinosas e profecias de todas as cassandras.

O sonho messiânico da direita radical, transformação do país assente num darwinismo social impiedoso foi, para já interrompido, mesmo que Cavaco teime em inviabilizar um governo do PS suportado pelo PCP e pelo BE. Aí sim, aí estaríamos perante um golpe de estado perpetrado pelo Presidente, atentado contra a Constituição e contra a República. É bem possível que Cavaco, esse caudilho, a mão atrás do arbusto do radicalismo da direita, queira prosseguir o radicalismo do governo anterior: de golpe em golpe, de subversão em subversão. Mas, se o fizer, as tensões que irá criar no país, a instabilidade que irá criar na gestão do Estado, os efeitos que tal terá, isso sim, no perfil de risco da República nos mercados financeiros, criará um cenário político de tal forma conturbado que o eleitorado não irá perdoar à direita radical. Até porque não é preciso ser do PS para se ser contra a austeridade e achar positivas as medidas que o seu programa propõe.

E não tenho dúvidas de que, nesse cenário, o comentador Marcelo pode começar a preparar o regresso ao seu espaço dominical na TVI, porque nesse caso o próximo Presidente da República será de esquerda. E, tal como agora agradeço a Passos e Portas o terem contribuído para a existência desta inédita e histórica aliança à esquerda, agradecerei também a Cavaco, com toda a fleuma e ironia, a derrota de Marcelo nas próximas eleições presidenciais.

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11 pensamentos sobre “Obrigado Passos, obrigado Portas. Obrigado Cavaco?

  1. Subscrevo e revejo-me totalmente neste belíssimo artigo, apenas fazendo um reparo acerca dos “princípios programáticos devedores da matriz social-democrata das suas origens” referindo-se ao PPD/PSD. Ora as origens deste partido estão na “Ala liberal” da Acção Nacional Popular” de Marcelo Caetano e serviram, apenas e só para ajudar a branquear a chamada “Primavera marcelista” através de uma pseudo-acção de “oposição”, oposição tipo “yes-man” e de liberdade devidamente balizada. Dá-se o 25 de Abril e os elementos dessa “Ala Liberal”, apanhados de surpresa e ultrapassados pela direita pelo CDS, entram um pouco em pânico já que não vislumbram espaço político entre o CDS e o PS. Por estúpido esquecimento do PS que deixou “livre”, em termos de denominação política, o conceito da Social-democracia, o inicialmente apelidado de PPD (convinha na altura e para ser “politicamente correcto” inserir o conceito “POPULAR” em qualquer partido que se quisesse de “esquerda”, viu aí a sua tábua de salvação, apoderando-se do conceito social-democrata, inserindo-o na sua denominação e programa e “espremedo-se” entre o CDS e o PS, arranjou o seu espaço político. Mas embora apelidando-se de social-democrata a verdade é que nunca o foi, já que a sua ideologia e o seu ADN são de direita e a prova é que na primeira oportunidade chamou de seu o ultra neo-liberalismo, águas em que ora navega e não precisou da “infecção”do CDS, mas tão só do “casamento” com ele para conquistar o poder.

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  2. Obrigada por um artigo tão de acordo com o meu pensamento. É bom ver as “nossas” opiniões tão bem formuladas e tão claras na sua construção e no seu conteúdo.

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  3. Nem mais. A cada cavadela de Cavaco, mais o inevitável Marcelo se vai sentindo menos inevitável. Aquele que um dia quis regressar à liderança do PSD sem lutar por isso e esperando uma vaga de fundo, vai agora ter que lutar pela Presidência. Só isso já tornou o ar muito mais respirável. E talvez confirme mesmo a regra de que Marcelo está destinado a perder todos os combates políticos em que se mete. Acontece aos melhores…

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    • Não, não acontece aos melhores, acontece ao Marcelo. Seria a segunda vez.
      Os mais velhos bem se recordam que ele mergulhou no Tejo, para confirmar o passeio esperado, quando Abecasis decidiu não se recandidatar (simulando desapego ao poder, sonegando a verdadeira razão, que era a saúde que lhe faltava para mais quatro anos) e depositou no colo de Marcelo e do PSD os votos de toda a direita de Lisboa, para lhe suceder na CMLisboa.
      Marcelo tinha quase tudo para ganhar, parecia, mas esqueceu-se que defrontava não apenas Jorge Sampaio, mas o povo de Lisboa, cansado do voluntarismo de um Presidente (Abecasis) que geria a cidade com improvisos cada vez mais ridículos, como se fosse um “guarda nocturno” (como dizia o vereador da CDU Engº Rui Godinho, que veio a ser o nº 2 do Executivo de Jorge Sampaio).
      Enganou-se Marcelo e por muitos. Disse depois que lhe tinham escondido uma sondagem que lhe era desfavorável. Não acredito. O homem julga-se um prodígio, capaz de dizer tudo e o seu contrário, com a enorme facilidade de comunicador nato, que é.
      Houve, então, uma maioria de esquerda PS/CDU, protagonizada por Jorge Sampaio, laboriosamente construída também por um tal António Costa (onde é que eu já ouvi este nome?). Jorge Sampaio que, num debate memorável, arrumou com o “Dr. Rebelo de Sousa”, na expressão corrosiva a que deitou mão, fazendo rir a plateia à gargalhada.
      Pode ser que Marcelo esteja “destinado a perder todos os combates políticos em que se mete.”
      Mas isso acontece aos melhores e também aos piores, nestes incluídos todos aqueles que contam, passe a brejeririce, “com o ovo no cu da galinha.”
      E vai ter de se esforçar para, se houver 2ª volta, sair a ganhar, porque, em 2ª volta, se a ela não escapar, perderá seguramente. Freitas do Amaral que o diga.

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      • Caro Manuel Silva, Eu estava a ser irónico, falei nos ‘melhores’ porque Marcelo considera que pertence à reserva dos Patrícios da República, e que por isso não tem que lutar pelos votos do Povo. E, como bem assinala Pacheco Pereira, MRS não se importou nada de desenvolver uma relação ‘simbiótica’ com a TVI que só não provoca náusea ao comum dos mortais porque nos habituamos a aceitar que políticos façam, como disse alguém, entretenimento disfarçado de análise política e propaganda política disfarçada de entretenimento. Por essa mancha ética e também pela pertença ao bloco de Direita (não esquecer que MRS foi sempre brando com Passos Coelho, ‘noblesse oblige’) é que é necessário mandar o Professor de regresso à TVI, e assim sendo não se percebe porque é que a Esquerda não é capaz de se entender em torno de um candidato presidencial único…

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  4. Os dias que estamos a passar não estarão a abalar o mundo, mas estão com certeza a abalar, e de que maneira, a direita.
    Diziam certas figuretas da nossa praça que não senhora, já não havia ideologias. Que Esquerda e Direita era tudo a mesma coisa. Que tudo isso eram velharias passadista.
    Que não havia luta de classes. Eramos uma família. Os ”Portugueses” estavam todos irmanados nos mesmos objectivos. A causa era comum. Estava tudo a trabalhar para o mesmo saco.
    Outra que puseram a correr é a de que “eles são todos o mesmo. Não há diferenças”. Assim como assim o melhor é escolher os que já cá estão.
    Mas aí está o espectáculo degradante que essa gentalha está a proporcionar:
    Guincham e grunhem que os comunistas vêm aí! Os comunistas não podem ir para o poder! Têm uma ideologia diabólica porque apregoam que somos todos iguais e que a riqueza deve ser distribuída com critérios de justiça, etc, etc,. Perigo para a Europa! Perigo para a estabilidade! Perigo para a confiança dos mercados!
    Afinal “eles” não são todos iguais, como bem se está a demonstrar.
    O Capital sabe muito bem quem o defende. Sabe quem deve colocar no Poder. Os interesses dos grandes senhores do dinheiro, da terra e das indústrias sabem que é a direita política que lhes serve os interesses.
    Daí os grunhidos que ecoam de outros tempos: Abaixo o Comunismo! O Poder é nosso!
    Uma chamada de atenção: Já todos percebemos que há fortes indícios de que o Cavaco se prepara para recusar empossar o Governo do PS. Os “mercados” agora que se lixem. É necessário estarmos preparados para essa eventualidade.

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