Os Ocidentais e o conflito na Ucrânia

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 20/02/2025)

Os Presidentes Donald Trump e Vladimir Putin (foto de 2018).

A paz na Ucrânia poderá acabar por nada resolver. Esta guerra não foi provocada por uma vontade expansionista da Rússia, como afirma a propaganda atlantista, mas por questões reais. Contentarem-se em reconhecer uma alteração das fronteiras, não vai resolver o fundo do problema.
Esta guerra é a resultante da expansão da OTAN desprezando a palavra dada ; uma expansão que ameaça directamente a segurança da Rússia, cujas fronteiras são demasiado grandes para poderem ser defendidas. Para avançar na Ucrânia, a OTAN apoiou grupos neo-nazis que ela colocou no Poder e que aplicaram as suas leis nesse país. A isso juntaram o ressurgimento de um pretenso conflito de civilizações entre valores europeus e asiáticos.
Não haverá uma paz verdadeira enquanto os Ocidentais não respeitarem a sua própria palavra.


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Os Presidentes norte-americano, Donald Trump, e russo, Vladimir Putin, iniciaram oficialmente negociações para por fim à guerra na Ucrânia. Quaisquer que sejam as soluções territoriais, elas não irão resolver o conjunto do contencioso. Este irá persistir provavelmente para lá da paz.

Nesta questão, há três problemas que se sobrepõem :

1— A expansão da OTAN para o Leste e a doutrina Brzeziński

Quando os Alemães do Leste derrubaram o Muro de Berlim ( 9 de Novembro de 1989), os Ocidentais, apanhados de surpresa, negociaram o fim das duas Alemanhas. Durante o ano de 1990 colocou-se a questão de saber se a reunificação alemã significaria que a Alemanha Oriental, juntando-se à Ocidental, entraria ou não na OTAN.

Ora, quando o Tratado de Aliança Atlântica foi assinado, em 1949, ele não incluía certos territórios de alguns signatários. Por exemplo, não faziam parte os territórios franceses do Pacífico ( a Reunião, a Mayotte, Wallis e Futuna, a Polinésia e a Nova Caledónia ). Portanto, teria sido possível que, numa Alemanha unificada, a OTAN não tivesse permissão para se estabelecer na Alemanha de Leste.

Esta questão é muito importante para os Países da Europa Central e Oriental, que foram atacados pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos das suas populações, ver armas sofisticadas a ser instaladas na sua fronteira era preocupante. Muito mais para a Rússia, cujas imensas fronteiras ( 6.600 quilómetros ) são indefensáveis.

Durante a Cimeira (Cúpula-br) de Malta (2 e 3 de Dezembro de 1989) entre os Presidentes norte-americano e russo, George Bush (o pai) e Mikhail Gorbachev, os Estados Unidos argumentaram que não tinham agido para levar à queda do Muro de Berlim e que não tinham então nenhuma intenção de actuar contra a URSS [1].

O Ministro alemão-ocidental dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Hans-Dietrich Genscher, declarou : « que as mudanças na Europa de Leste e o processo de unificação da Alemanha não deviam levar a um ataque aos interesses de segurança soviéticos ». Por conseguinte, a OTAN deveria excluir uma «expansão do seu território para o Leste, quer dizer, uma aproximação às fronteiras soviéticas».

As três potências ocupantes da Alemanha, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido, multiplicaram portanto os compromissos de não expandir a OTAN para Leste. O Tratado de Moscovo (12 de Setembro de 1990) implica que a Alemanha reunida não reivindicará território na Polónia (linha Oder-Neisse) e que nenhuma base da OTAN será colocada na Alemanha de Leste [2].

Durante uma conferência de imprensa conjunta na Casa Branca, em 1995, o Presidente Boris Ieltsin qualifica a reunião que acabavam de ter como « desastrosa », provocando a hilariedade do Presidente Bill Clinton. Realmente, vale mais rir do que chorar.

No entanto, os Russos ficaram a saber que o Secretário de Estado adjunto Richard Holbrooke dava a volta às capitais para preparar a adesão dos antigos Estados do Pacto de Varsóvia à OTAN. O Presidente Boris Ieltsin deu, pois, um sermão ao seu homólogo, Bill Clinton, aquando da Cimeira de Budapeste (5 de Dezembro de 1994) da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE). Declarou : « a nossa atitude face aos planos de alargamento da OTAN e, nomeadamente, da possibilidade que as infraestruturas progridam para Leste, é e irá continuar a ser invariavelmente negativa. Os argumentos do tipo : o alargamento não é dirigido contra nenhum Estado e constitui um passo para a criação de uma Europa unificada, não resistem à crítica. Trata-se de uma decisão cujas consequências determinarão a configuração europeia para os próximos anos. Ela pode conduzir a um deslizar para a deterioração da confiança entre a Rússia e os países Ocidentais. […] A OTAN foi criada no tempo da Guerra Fria. Hoje, não sem dificuldades, procura o seu lugar na Nova Europa. É importante que essa abordagem não crie duas zonas de demarcação, mas que, pelo contrário, ela consolide a unidade europeia. Este objectivo, para nós, está em contradição com os planos de expansão da OTAN. Porquê lançar as sementes da desconfiança ? Afinal de contas, já não somos mais inimigos ; agora somos todos parceiros. O ano de 1995 marca o quinquagésimo aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Meio século depois, estamos cada vez mais conscientes do verdadeiro significado da Grande Vitória e da necessidade de uma reconciliação histórica na Europa. Não deveria aqui haver mais inimigos, vencedores e derrotados. Pela primeira vez na sua história, o nosso continente tem uma hipótese real de chegar à unidade. Falhar isso, é esquecer as lições do passado e pôr em questão o próprio futuro».

Bill Clinton respondeu-lhe : « A OTAN não excluirá automaticamente nenhuma nação da adesão. […] Simultaneamente, nenhum país exterior será autorizado a colocar o seu veto à expansão» [3].

Durante esta cimeira, três memorandos foram assinados, entre os quais um com a Ucrânia independente. Em troca da sua desnuclearização, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos comprometiam-se a abster-se de recorrer à ameaça ou ao emprego da força contra a integridade territorial ou a independência política da Ucrânia.

No entanto, durante as guerras da Jugoslávia, a Alemanha interveio, como membro da OTAN. Ela treinou os combatentes kosovares numa base da Aliança em Incirlik (Turquia) e, depois, colocou os seus homens no terreno.

Também, na Cimeira da OTAN de Madrid (8 e 9 de Julho de 1997), os Chefes de Estado e de Governo da Aliança anunciaram estarem a preparar-se para a adesão da República Checa, da Hungria e da Polónia. Além disso, encaram também as da Eslovénia e da Roménia.
Consciente que não pode impedir Estados soberanos de subscrever alianças, mas inquieta pelas consequências para sua própria segurança daquilo que se prepara, a Rússia intervém na Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), durante a Cimeira de Istambul (18 e 19 de Novembro de 1999). Ela faz adoptar uma declaração estabelecendo o princípio da livre adesão de qualquer estado soberano à aliança da sua escolha e a este de não tomar medidas de segurança em detrimento da dos seus vizinhos.

No entanto, em 2014, os Estados Unidos organizaram uma revolução colorida na Ucrânia, derrubando o presidente democraticamente eleito (que queria manter o país a meio caminho entre os Estados Unidos e a Rússia) e instalando um regime neo-nazi publicamente agressivo à Rússia.

Em 2004, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia, a Eslováquia e a Eslovénia aderem à OTAN. Em 2009, foram a Albânia e a Croácia. Em 2017, o Montenegro. Em 2020 a Macedónia do Norte. Em 2023, a Finlândia, e em 2024, a Suécia. Ou seja, todas promessas foram violadas.

Para compreender muito bem como se chegou a isto, é preciso saber o que pensavam os Estados Unidos.

Em 1997, o antigo Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Jimmy Carter, o polaco-americano, Zbigniew Brzeziński, publica O Grande Tabuleiro (no sentido de xadrez mundial-ndT). Nele, ele disserta sobre «geopolítica» no senso original, quer dizer, não da possível influência dos dados geográficos sobre a política internacional, mas de um plano de dominação do mundo.

Segundo ele, os Estados Unidos podem permanecer a primeira potência mundial aliando-se aos Europeus e isolando a Rússia. Então aposentado, este democrata oferece aos seguidores de Leo Strauss — “straussianos” (vulgo neo-cons, ndT) — uma estratégia para manter a Rússia em baixo, sem no entanto lhes dar razão. Com efeito, ele apoia a cooperação com a União Europeia, enquanto os “straussianos” desejam, pelo contrário, frenar o seu desenvolvimento (Doutrina Wolfowitz). Seja com for, Brzeziński tornar-se-á Conselheiro do Presidente Barack Obama.

2- Nazificação da Ucrânia

Monumento à glória de Stepan Bandera, criminoso contra a Humanidade, em Lviv

No início da “Operação Especial” do Exército russo na Ucrânia, o Presidente Vladimir Putin declarou que seu primeiro objectivo era desnazificar o país. Os Ocidentais fingiram então ignorar o problema. Eles acusaram a Rússia de salientar alguns factos marginais muito embora estes tenham sido observados em larga escala durante uma década.

É que os dois geopolíticos norte-americanos rivais, Paul Wolfowitz e Zbigniew Brzeziński, haviam feito aliança com os « nacionalistas integralistas » (ou seja com os discípulos do filósofo Dmytro Dontsov e do chefe da milícia Stepan Bandera) [4], durante uma conferência organizada por estes últimos em Washington, em 2000. Foi nesta aliança que o Departamento da Defesa apostou, em 2001, quando deslocalizou as suas pesquisas de guerra biológica para a Ucrânia, sob a autoridade de Antony Fauci, então conselheiro de Saúde do Secretário Donald Rumsfeld. Continuou a ser nesta aliança que o Departamento de Estado apostou, em 2014, com a revolução colorida do Euromaidan.

Os dois Presidentes ucranianos, Petro Poroshenko e Volodymyr Zelensky, de origem judaica, deixaram desenvolver por todo o lado no seu país memoriais prestando homenagem aos colaboracionistas dos nazis, particularmente na Galícia (junto à Polónia-ndT). Eles deixaram a ideologia do Dmytro Dontsov tornar-se a referência histórica. Por exemplo, hoje, a população ucraniana atribui a grande fome de 1932-1933, que provocou entre 2,5 e 5 milhões de mortos, a uma imaginária vontade da Rússia em exterminar os Ucranianos ; um mito fundador que não resiste à análise histórica [5], com efeito, esta fome atingiu em cheio outras regiões da União Soviética. Além disso, foi com base nesta mentira que Kiev conseguiu fazer crer à sua população que o Exército russo queria invadir a Ucrânia. Actualmente várias dezenas de países, entre os quais a França [6] e a Alemanha [7], adoptaram, por esmagadoras maiorias, leis ou resoluções a validar esta propaganda.

A nazificação é mais complexa do que se crê : com a implicação da OTAN nesta guerra por procuração, a Ordem da Centuria, quer dizer, a Sociedade Secreta dos “nacionalistas integralistas” ucranianos, infiltrou as forças da Aliança. Em França, ela estaria já presente na gendarmaria (que, diga-se de passagem, nunca tornou público o seu relatório sobre o massacre de Butcha).

O Ocidente contemporâneo vê, erradamente, os nazis como criminosos que massacraram principalmente judeus. É absolutamente falso. Os seus principais inimigos eram os eslavos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazis assassinaram muita gente, primeiro a tiro e depois, a partir de 1942, em campos. As vítimas civis eslavas da ideologia racial nazi foram muito mais numerosas do que as vítimas judias (cerca de 6 milhões se adicionarmos as pessoas mortas por balas e as mortas nos campos). Além disso, algumas vítimas eram eslavas e judias, sendo contabilizadas em cada uma das duas contagens. Após os massacres de 1940 e 1941, cerca de 18 milhões de pessoas, de todas as origens, foram internadas nos campos de concentração, das quais 11 milhões, no total, foram aí assassinadas (1.100.000 só no campo de Auschwitz-Birkenau) [8].

A União Soviética, que se dilacerou durante a Revolução bolchevique, só refez a sua unidade em 1941 quando Joseph Staline fez aliança com a Igreja Ortodoxa e pôs fim aos massacres e aos internamentos políticos (os «gulags») para lutar contra a invasão nazi. A vitória contra a ideologia racial fundou a Rússia actual. O povo russo vê-se como exterminador do racismo.

3— O rejeitar da Rússia para fora da Europa

O terceiro pomo de discórdia entre o Ocidente e a Rússia foi criado, não antes, mas durante a guerra da Ucrânia. Os Ocidentais adoptaram várias medidas contra aquilo que simbolizava a Rússia. Tomaram-se, é certo, medidas coercivas unilaterais (qualificadas abusivamente de «sanções») ao nível de Estado, mas também se tomaram medidas discriminatórias a nível da cidadania. Muitos restaurantes foram proibidos aos Russos nos Estados Unidos ou espectáculos russos foram anulados na Europa.

Simbolicamente, aceitou-se a ideia segundo a qual a Rússia não é europeia, mas asiática (o que ela também é parcialmente). Redesenhou-se a dicotomia da Guerra Fria, que opunha o mundo livre (capitalista e crente) ao espectro totalitário (socialista e ateu), para uma oposição entre os valores ocidentais (individualistas) e os da Ásia (comunitários).

Por trás desta derrapagem, ressurgem as ideologias raciais. Há três anos, salientei que o 1619 Project do New York Times e a retórica woke (iluminada-ndT) do Presidente Joe Biden era na realidade, talvez à sua revelia, uma reformulação invertida do racismo [9]. Observo que hoje o Presidente Donald Trump partilha a mesma análise que eu e revogou sistematicamente todas as inovações woke do seu predecessor. Mas o mal está feito : no mês passado, os Ocidentais reagiram ao aparecimento do Deepseek chinês, negando que os Asiáticos tenham podido inventar, e não copiar, um tal software. Certas agências governamentais proibiram-no mesmo aos seus empregados naquilo que não é mais do que uma sugestão de denuncia do «perigo amarelo».

Será preciso censurar Léon Tolstoi (1828-1910), o autor de « Guerra e Paz », como faz a Ucrânia, e onde se queimam os seus livros só porque era russo?

4- Conclusão

As negociações actuais focam-se naquilo que é directamente visível pelas opiniões públicas : as fronteiras. Ora, o mais importante está noutro lado. Para viver juntos, precisamos de não ameaçar a segurança dos outros e temos de os reconhecer como nossos iguais. É muito mais difícil e não envolve apenas os nossos governos.

De um ponto de vista russo, a origem intelectual dos três problemas examinados acima reside na recusa anglo-saxónica do Direito Internacional [10]. Com efeito, durante a Segunda Guerra mundial, o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, e o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, durante a Cimeira do Atlântico, acordaram que, após a sua vitória comum, eles imporiam a sua lei ao resto do mundo. Só sob pressão da URSS e da França é que aceitaram os estatutos da ONU, mas não cessaram de os desprezar, forçando a Rússia a boicotar a organização quando recusaram à China popular o direito de aí ter assento. Mas, o exemplo que grita a duplicidade ocidental é dado pelo Estado de Israel, o qual pisa com os dois pés uma centena de Resoluções do Conselho de Segurança, da Assembleia Geral e de ditames do Tribunal Internacional de Justiça. Foi por isso que, em 17 de Dezembro de 2021, quando a guerra da Ucrânia se aproximava, Moscovo propôs a Washington [11] de a evitar subscrevendo um Tratado bilateral que estabelecesse garantias para a paz [12].

A ideia deste texto era, nem mais, nem menos, que os Estados Unidos renunciassem a um «mundo baseado em regras» e se colocassem ao lado do Direito Internacional. Esse Direito, imaginado pelos Russos e pelos Franceses justamente antes da Primeira Guerra Mundial, consiste unicamente em manter a sua palavra perante o escrutínio das opiniões públicas.

Notas

1] «NATO Expansion: What Gorbachev Heard», National Security Archibves, November 24, 2021.

[2] «NATO Expansion: What Yeltsin Heard», National Security Archives, March 16, 2018.

[3] «NATO Expansion – The Budapest Blow Up 1994», National Security Archives, November 24, 2021.

[4] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.

[5] « L’Holodomor, nouvel avatar de l’anticommunisme “européen” » (extrait de Le Choix de la défaite), Annie Lacroix-Riz (2010). Famine et transformation agricole en URSS, Mark Tauger, Delga (2017).

[6] «Proposition de résolution portant portant sur la reconnaissance et la condamnation de la grande famine de 1932 1933, connue sous le nom d’ » holodomor », comme génocide »», Assemblée nationale, Texte adopté, le 28 mars 2023.

[7] Tendo os serviços do Bundestag realizado, em 2008, um estudo sobre esta aldrabice. Fragen zur ukrainischen Geschichte im 20. Jahrhundert. Die Hungersnot in der Ukraine 1932/33 (“Holodomor”) sowie die Folgen der Resowjetisierung nach Ende des Zweiten Welkrieges.

[8] The Great Patriotic War, The anniversary statistical handbook, Rosstat (2019).

[9] “Joe Biden reinventa o racismo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Maio de 2021.

[10] “Que ordem internacional ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2023,.

[11] “A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Janeiro de 2022.

[12] « Projet de traité entre les États-Unis et la Russie sur les garanties de sécurité », Traduction Roman Garev, Réseau Voltaire, 17 décembre 2021. “Draft Agreement on measures to ensure the security of Russia and NATO”, Voltaire Network, 17 December 2021.

Fonte aqui.

Um naufrágio civilizacional

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 08/02/2025)


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Duas notícias recentes com o fundo das primeiras ações do governo Trump. As notícia de que o partido de extrema-direita de Nigel Farage se encontra em primeiro lugar nas sondagens na Grã Bretanha, que a AfD, o partido de extrema direita surge em segundo lugar nas sondagens na Alemanha, que a extrema direita de Beloni é governo em Itália, que o RN, de Le Pen, está no topo das preferências dos franceses, que a extrema direita atrai largas maioria de votantes nos países mais desenvolvidos na Europa, na Holanda, na Áustria, na Hungria, na Polónia, em Espanha. Neste fim de semana esta girândola de organizações ditas “patriotas” reúne-se em Madrid para concertar estratégias, numa reunião organizada pelo VOX, dos herdeiros do franquismo.

Existem muitas explicações para esta ascensão dos movimentos que ressuscitam o nazismo e surgem crismados com várias designações, direita radical, populistas, nacionalistas, patriotas, que apresentam temas comuns como o mal da sociedade: imigração, segurança, corrupção, direitos de minorias que constituem a cartilha da doutrina neoliberal que teve o seu primeiro ato de vitória com o golpe dos Estados Unidos de 1973 no Chile contra o governo de Allende e tem como finalidade última a instauração de poder oligárquico hegemónico. Um mundo em que uma oligarquia constitua o centro do poder, no mínimo no que hoje passou a ser designado por Ocidente Global.

O neoliberalismo, que também surge designado como neoconservadorismo não tem nada de novo: é a ideologia determinante da História. É a ideologia da História do Ocidente, da luta dos poderosos contra os povos e da resistência destes contra o poder das oligarquias, da minoria dos “ungidos” que assumiram o poder que querem conservar a todo o custo e por todos os meios. Sendo que apenas variam os meios e não os objetivos: o poder.

Os neocons, norte americanos ou europeus, são tanto herdeiros dos nazis, como dos senhores de pendão e caldeira da Idade Média, dos usurários que organizaram o sistema financeiro desde o escudo português, ao peso espanhol, à libra e ao dólar. Os “patriotas” europeus e os neocons americanos, reunidos sob o rótulo de liberais, defendem a concentração de poder numa elite, com todos os direitos, e a colocação da maioria na posição dos seres na posição dos servos a idade média, como propriedade da minoria, com um programa de vida de trabalharem muito e em silêncio, e morrerem cedo.

As novas tecnologias da informação têm servido, como no antecedente as religiões serviram, para obter a “obediência voluntária” da maioria, os servos, daí a utilização por parte destes movimentos caracteristicamente nazis de bandeiras que pretendem impor e cavalgar o medo do outro, do diferente, da igualdade, de explorar o velho princípio de dividir para reinar. De, dado não ser possível calar as multidões, ensurdecê-los com notícias falsas ou manipuladas.

O conclave de Madrid, dos ditos patriotas europeus, do neoconservadorismo imposto como religião oficial do império, faz parte de uma história com final conhecido: um confronto violento, sem piedade. Já estamos a assistir aos seus mais recentes métodos na defesa de velhos princípios nas manifestações no genocídio de Gaza, com o negócio de terras e riquezas naturais que já é publicamente assumida ser uma das causas da guerra da Ucrânia, o desmantelamento dos serviços públicos nos Estados Unidos e do estado social na Europa.

Para estes velhos movimentos elitistas (há quem pretenda iludir as opiniões públicas designando-os por populistas) a promoção de guerras é a finalidade última das suas ações, o meio de conservarem o poder. Não por acaso, a NATO, que é a nata fardada destes movimentos, pretende impor o aumento das despesas em armamento à custa das despesas sociais. O “pensamento ocidental” foi capturado por esta ideologia, assumindo-a como parte de si e como única via para manter o statuo quo, optando pelo imobilismo. A União Europeia defende este tipo de poder e de mundo pese embora a embalagem de democracia e de respeito pela vontade dos europeus com que surge embrulhada da arena do parlamento europeu, ou na sede da Comissão. As crises do subprime de 2008, as decisões sobre Portugal e a Grécia com o envio de cobradores implacáveis, a crise do COVID revelaram a essência do poder da União, concentrado no sacrário do Banco Central Europeu. Perante a crise resultante da emergência de novos centros de poder, a União Europeia promove a concentração da riqueza e do domínio numa minoria e é essa comunhão de objetivos que leva os seus líderes a normalizar os movimentos nazis, num processo de inclusão que é visível desde logo na terminologia que lhes é aplicada e no tempo de antena que lhes é concedido. É essa comunhão que leva a União Europeia a apoiar regimes nazis como o Ucraniano e o de Israel, porque eles servem a finalidade de acusar quem se oponha de ser inimigo da “liberdade”.

Lutar contra os movimentos nazis, com qualquer rótulo que se apresentem, é uma questão de sobrevivência de uma sociedade tendencialmente justa e igualitária.

A normalização destas organizações nazis pelos grandes meios de comunicação de massas faz parte da estratégia de obter a predisposição das vítimas para serem dominadas. E existe uma vertigem das sociedades para seguirem estas falsas estrelas e correrem atrás dos seus tambores de guerra.

Os slogans MAGA, Make America Great Again, servilmente copiado pelos nazis reunidos em Madrid com a fórmula MEGA, são exemplos da falácia em que os seus promotores querem envolver os seus futuros servos. A grandeza da América e da Europa assentou na ocupação violenta de um território, no caso norte americano, e na exploração colonialista, no caso da Europa.

Os ressuscitados movimentos neonazis e neocons, os oligarcas que os promovem, estão a propor que os cidadãos norte americanos e europeus sejam os índios exterminados e os africanos explorados. É esta a nova ordem do mundo que propõem e que impõem através dos seus aparelhos de manipulação. Um naufrágio civilizacional.

Deve, ou não, condenar-se a glorificação do nazismo?

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 21/01/2025)

Monumento à glória de Stepan Bandera em Ternopil (Ucrânia). Segundo a «Tribune Juive» (Tribuna Judaica-ndT), haveria uma centena de monumentos à glória dos colaboracionistas nazis na Ucrânia. A Rússia exige a sua destruição imediata, enquanto a NATO finge que eles não têm importância.

A Rússia interveio militarmente na Ucrânia para desnazificar o país. Mas, segundo os Ocidentais, não há nazis na Ucrânia. A Rússia deseja sim invadir e anexar esse país. Esta incompreensão reciproca fez degenerar a operação especial russa em guerra aberta.
No entanto, vários factos idênticos, sobrevindos nos países bálticos desde 2005 e no Parlamento europeu desde 2016, atestam que não se trata de uma incompreensão, mas de uma estratégia deliberada da NATO. Esta acaba de mobilizar 53 Estados para se opor à adopção pelas Nações Unidas de uma Resolução tradicional contra a glorificação do nazismo.


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Aquando da Libertação (quer dizer, no fim da Segunda Guerra mundial), os Ocidentais estavam conscientes dos sofrimentos ocasionados pelas ideologias segundo as quais a Humanidade estava dividida em raças distintas hierarquizadas entre si. Todos compreendiam que a afirmação segundo a qual estas « raças » não podiam misturar-se e ter descendência fecunda era desmentida pelos factos e só pode impor-se graças a uma intensa propaganda.
Desde a criação das Nações Unidas e durante toda a Guerra Fria, a União Soviética e a França asseguraram em fazer adoptar pela Assembleia Geral, todos os anos, uma Resolução proibindo a propaganda nazi e a glorificação desta ideologia. Este ritual foi esquecido com a dissolução da URSS. De modo surpreendente, a partir de 2020, não foi possível reformar o consenso em torno desta questão. Assim, em 17 de Dezembro de 2024, opuseram-se à última Resolução nesse sentido 53 Estados, e 10 abstiveram-se.

Com efeito, se durante a Guerra Mundial, os Aliados, tanto americanos (Canadianos, Norte-Americanos), como europeus (Britânicos, Franceses, Gregos, Polacos, Jugoslavos, Escandinavos, Soviéticos etc.) estavam unidos contra um adversário comum, este conjunto foi quebrado mesmo antes do fim do conflito por uma vontade anglo-saxónica (isto é, em simultâneo de alguns Norte-Americanos e de alguns Britânicos) de prosseguir o conflito contra a União Soviética. Foi assim que Alan Dulles, então responsável dos Serviços Secretos norte-americanos na Suíça, e o seu adjunto, Lyman Lemnitzer, negociaram com o General SS Karl Wolff, em 1945, a rendição das forças nazis em Itália para que elas combatessem os Soviéticos ao lado dos Estados Unidos (Operação Sunrise). Esta paz separada não foi posta em prática porque Joseph Stalin se opôs imediatamente a isso e Franklin D. Roosevelt não ratificou o acordo já concluído.

No entanto, Roosevelt, gravemente doente, morreu pouco depois, enquanto Dulles se tornou o Chefe dos Serviços Secretos norte-americanos do pós-guerra, a CIA, e o General Lemnitzer se tornou, mais tarde, o Chefe do Estado-Maior Conjunto do Exército norte-americano. Seguiu-se que a CIA e, em menor escala o Departamento de Defesa, se tornaram abrigos para os antigos nazis. Durante toda a Guerra Fria, eles foram colocados pelos Anglo-Saxões em postos de responsabilidade em numerosos países do «mundo livre» (sic), do Chile ao Irão. Chegaram ao ponto de criar uma internacional do crime, a Liga Anti-comunista Mundial, a fim de coordenar os seus esforços contra todos os movimentos de esquerda do Terceiro Mundo. [1].

Foi preciso esperar por 1977, após as revelações da Comissão parlamentar do Senador Frank Church sobre os crimes da CIA, para que o Presidente Jimmy Carter e o Almirante Stansfield Turner pudessem trazer a CIA à ordem e derrubar as ditaduras no Chile, no Irão e em todo a parte.

Contudo, para lutar contra o rival soviético, o Presidente Ronald Reagan e a Primeiro-Ministro Magareth Tatcher, apoiaram numa nova ideologia, o islamismo, e não hesitaram em desenvolvê-la, primeiro no Afeganistão, depois em todo o Médio-Oriente. Para eles, era o único meio de mobilizar a Confraria dos Irmãos Muçulmanos e os povos árabes.

Finalmente, com a dissolução da União Soviética, em 1991, movimentos racistas anteriormente aliados dos nazis ressurgiram. O Presidente Bill Clinton e o Primeiro Ministro Tony Blair não hesitaram em apoiar-se neles. Foi assim que os « nacionalistas integralistas » [2], adeptos de Dmytro Dontsov e de Stepan Bandera, chegaram ao Poder na Ucrânia.

Tudo começou na Letónia em Janeiro de 2005, enquanto o país se tornava membro da União Europeia, o governo, com o apoio financeiro da embaixada dos Estados Unidos, publicava um livro, História da Letónia : Século XX. Aí, ele garantia, entre outras coisas, que o campo de Salaspils, onde os nazis realizaram experiências médicas em crianças e onde 90. 000 pessoas foram assassinadas, não passava de um um « campo de trabalho de reeducação » e que os Waffen SS haviam sido heróis da luta contra os ocupantes soviéticos. Alguns meses mais tarde, organizou um desfile de Waffen SS no coração de Riga, tal como havia feito durante os quatro anos precedentes, quando ainda não era ainda membro da UE [3].
Em condições normais, toda a União Europeia deveria ter protestado. Mas nada disso se passou. Apenas Israel e a Rússia exprimiram a sua indignação.

Em 2016, a Polaca (Polonesa-br) Anna Fotyga, que era então deputada europeia e se tornará a seguir directora da Administração presidencial polaca, depois um dos pilares da OTAN, apresentou em Estrasburgo uma Resolução tratando das comunicações estratégicas [4]. Tratava-se de fazer entrar a UE na guerra de Informação contra a Rússia e, na aparência pelo menos, contra os islamistas, instituindo um dispositivo montado em torno do Centro de comunicação estratégica da OTAN [5].

Foi nesse contexto que, em 19 de Setembro de 2019, o Parlamento Europeu adoptou uma Resolução « sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa » [6]. Este texto afirma que ao assinar o Pacto Molotov-Ribbentrop, a URSS partilhou os objectivos funestos do Reich nazi e desencadeou a Segunda Guerra mundial. É, evidentemente, completamente errado [7].

Hoje em dia, os neo-nazis, os «nacionalistas integralistas» [8] podem exercer o Poder na Ucrânia sem levantar a menor objecção dos Ocidentais. Não se quer notar que a sua Constituição é a única no mundo a especificar, no seu Artigo 16, que « preservar o património genético do povo ucraniano releva da responsabilidade do Estado » [9].

Não se salienta que Volodymyr Zelensky terminou o seu mandato há oito meses e que ele se mantêm ilegitimamente no Poder sem eleições. Interpreta-se a interdição dos partidos políticos da Oposição e da Igreja ortodoxa [10] como disposições que reprimem a infiltração russa. Ignora-se a “limpeza” das bibliotecas (de livros russos-ndT) [11]. Apenas a custo se começa a tomar consciência do êxodo da população ucraniana e das deserções maciças no seu exército.

Tudo isso não deve espantar-nos no momento em que as mesmas autoridades ocidentais nos explicam com um sorriso que os jiadistas da Alcaida e do Daesh (E. I.), que acabam de ser colocados no Poder em Damasco pelos Anglo-Saxões, não são mais do que « islamistas iluminados » [12].


NOTAS:

[1] «La Liga Anticomunista Mundial, internacional del crimen», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 20 de enero de 2005.

[2] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.

[3] “A Presidente da Letónia reabilita o nazismo”, Thierry Meyssan, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Rede Voltaire, 16 de Março de 2005.

[4] «Resolución del Parlamento Europeo sobre la Comunicación Estratégica de la Unión para contrarrestar la propaganda de terceros en su contra», Red Voltaire , 23 de noviembre de 2016.

[5] “A campanha da Otan contra a liberdade de expressão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Dezembro de 2016.

[6] «El Parlamento Europeo atribuye la Segunda Guerra Mundial a la Unión Soviética‎», Red Voltaire , 19 de septiembre de 2019.

[7] «El día que Occidente prefiere olvidar», por Michael Jabara Carley, Traducción Sophia Vackimes, Strategic Culture Foundation (Rusia) , Red Voltaire , 1ro de octubre de 2015.

[8] Ibid.

[9] Este artigo é muitas vezes interpretado, de forma errada, como tratando das consequências da catástrofe de Chernobyl. No entanto, ele não se refere ao património genético da Humanidade, mas apenas ao que se refere ao « povo ucraniano ». Esquecem-se que Adolf Hitler era vegetariano e ecologista.

[10] “Washington pronto a fazer explodir a Igreja Ortodoxa”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Setembro de 2018. «Kiev prohíbe la iglesia ortodoxa», Red Voltaire , 6 de diciembre de 2022.

[11] “Removidos já 19 milhões de livros de bibliotecas ucranianas”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de Fevereiro de 2023.

[12] “Como Washington e Ancara mudaram o regime em Damasco”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Dezembro de 2024.