O pacto com o diabo

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 06/03/2025)


No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.


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No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.

O tema ganhou uma renovada acuidade quando o presidente Donald Trump apelidou o seu congénere ucraniano de ditador. Independentemente do rigor das palavras usadas por Trump importa perceber qual é a verdadeira natureza do regime presentemente instalado em Kiev. Segundo a Varities of Democracy, uma organização de elevada credibilidade académica, que estuda o tema dos regimes políticos a nível mundial, considera a Ucrânia uma autocracia eleitoral, portanto, longe de ser uma democracia plena. Embora não se pretenda com este artigo fazer incursões teóricas no domínio da ciência política, ele apresenta alguns factos que podem ajudar o leitor a fazer uma apreciação do tema mais informada.

Para uma melhor compreensão dos factos e com o intuito de facilitar a sua leitura e sistematização, consideraram-se neste trabalho quatro períodos distintos: desde a independência (1991) até à vitória de Viktor Yanukovych (2010); durante a presidência Yanukovych (2010 – 2014); desde o golpe de Maidan (2014) até à eleição de Zelensky (2019), e desde a eleição deste até aos dias de hoje. Por questões de parcimónia, iremos, fundamentalmente, concentrar-nos no último período.

O aparecimento na Ucrânia, à luz do dia, de organizações ultranacionalistas teve lugar no primeiro período, acelerando após a revolução laranja (2004) e a chegada ao poder de Viktor Yushchenko que, por exemplo, em 2006 reabilitou a organização nacionalista ucraniana OHH UN, responsável pela execução de cerca de 100 mil polacos e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa sequência, em 2010, pouco antes de abandonar a presidência, Yushchenko concedeu o título de Herói da Ucrânia aos líderes da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) Stepan Bandera e Roman Shukhevych (22 de janeiro).

Durante a presidência de Yanukovych houve uma pausa nessa política de estado, com a anulação do título de herói da Ucrânia concedido por Yushchenko. Mas, isso não impediu que esses grupos continuassem a proliferar. Por exemplo, em 2013, nasce a Misanthropic Division, uma rede internacional neonazi cujo dirigente Dmytro Kanuper foi condecorado pelo parlamento dinamarquês, em 2024, como um combatente pela liberdade, o mesmo que tinha o Mein Kampft como a sua leitura preferida; ou, a trasladação (21 de julho de 2013) por ativistas da organização ucraniana Pamiat (Memória) dos restos mortais de soldados ucranianos que combateram na Divisão SS “Galicia”.

O golpe de estado arquitetado pelos EUA no início de 2014 – numa audição no Congresso norte-americano, Vitória Nuland confessou terem sido gastos, desde 1991, cinco mil milhões de dólares em ações subversivas na Ucrânia – foi executado com a colaboração ativa destes grupos. Não é, por isso, de estranhar ver Oleg Tyanibok, um confesso nazi líder do Svoboda, uma organização de extrema-direita, impedido de entrar nos EUA devido às suas opções políticas, ser reabilitado e aparecer ao lado do falecido John McCain.

Em 2014 realizaram-se eleições presidenciais (25 de maio) e legislativas (25 de agosto). Nas primeiras concorreram 21 candidatos e nas segundas 29 partidos, num ambiente de grande hostilidade relativamente às forças não apoiantes do novo regime. O Partido das Regiões que tinha ganhado as eleições em 2010 não teve condições para concorrer às eleições legislativas, apesar de ter apresentado um candidato às presidenciais. O sistema marginalizou e absorveu os partidos pró-russos influentes. Nesse ambiente iniciaram-se as perseguições e o assédio a jornalistas e opositores ao regime.

Petr Poroshenko, presidente, entretanto, eleito, vem dizer, num tom “conciliador” que os “ucranianos terão empregos, eles [os russos] não; nós teremos pensões, eles não; as nossas crianças irão para as escolas e jardins de infância, as deles terão de se esconder em caves.” Iniciam-se os ataques indiscriminados às populações russófonas do Donbass por milícias ultranacionalistas, com a anuência do governo, recorrendo ao bombardeamento intensivo de áreas residenciais. Tornaram-se triviais as procissões destes grupos pela Avenida Moscow Prospect, redenominada Avenida Bandera Prospect, com archotes, em datas simbólicas.

Poroshenko toma medidas para diminuir a relevância social da língua russa e da Igreja Canónica Ortodoxa. Em 2017, foi aprovada uma lei que proibia o uso do russo no sistema de ensino. Em dezembro de 2018, foi criada a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), independente da igreja canónica ortodoxa, alinhada com Constantinopla, cujos sacerdotes não só subscrevem a ideologia dos setores politicamente mais radicais do espetro político ucraniano, como homenageiam publicamente colaboradores nazis, personagens como Stepan Bandera.

Neste período generalizaram-se as punições públicas extrajudiciais dos chamados marauders, uma forma de justiça popular, “em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita-cola, com as calças ou saias baixadas e as nádegas fustigadas com chibatas e varas.” Estas práticas sociais passaram a ser dirigidas contra quem se suspeitasse ser russófilo. Bastava ser ouvido pela “polícia de costumes” a falar russo ao telemóvel. Em 2015, Poroshenko bane o partido comunista, do antecedente, uma força política com uma considerável influência na sociedade.

Em maio de 2019, Zelensky ganha as eleições e assume o poder com a promessa de resolver o problema das províncias rebeldes que dilacerava a sociedade ucraniana havia cinco anos e fazer a paz. Mas fez tudo ao contrário do que tinha prometido. Tendo chegado ao poder escudado num partido – “Servo do Povo” – com uma ideologia libertária, rapidamente se posicionou como um partido russofóbico e pró-americano, navegando num pântano de contradições ideológicas que combinava ideias liberais, socialistas e nacionalistas.

A intervenção na Rada (27 de maio de 2019) de Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário ilustra bem a importância dos referidos grupos na sociedade ucraniana, quando ameaçou Zelensky de morte se “traísse a Ucrânia”, ou seja, se tivesse a aleivosia de implementar os Acordos de Minsk (“que não eram para ser cumpridos, mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia”).

Com a tomada de posse de Zelensky, acelera-se o processo de deterioração das liberdades cívicas iniciado no mandato do seu antecessor, particularmente no que respeita à promiscuidade entre Estado e grupos ultranacionalistas, que aumentam de protagonismo. Completamente alinhado ideologicamente com aqueles grupos, Zelensky vai aprofundar aquilo que Poroshenko tinha iniciado. Os oligarcas seguem-lhe o exemplo.

Um dos principais objetivos do presidente, ex-russo falante, é a completa eliminação da língua e cultura russa. Imediatamente após os protestos de Maidan, o Verkhovna Rada decidiu revogar a lei sobre os princípios da política linguística do Estado, que estava em vigor desde 2012. Em 2017, Poroshenko proíbe o ensino em russo, e a partir de janeiro de 2021, Zelensky dá outra machada na língua russa, ao proibir a sua utilização na administração do Estado.

Foram igualmente proibidos os livros escritos em russo, incluindo os clássicos da literatura russa. Zelensky ordenou a retirada de 100 milhões de livros de autores russos das bibliotecas da Ucrânia. Tolstoi, Pushkin, Dostoievski e Gorky, entre outros, foram proscritos. O mesmo sucedeu aos compositores russos. Tchaikovsky, Prokofiev, Shostakovich, Borodin, Glinka, Rimsky-Korsakov e muitos outros foram também banidos. Espetáculos e quaisquer outras manifestações culturais em língua russa foram igualmente proibidas. O inglês passou a ser a segunda língua na Ucrânia. As minorias húngaras e romenas, que tinham pretensões semelhantes à russa foram igualmente atingidas e objeto de discriminação.

No plano religioso, Zelensky foi mais além de Poroshenko e proibiu a igreja canónica ortodoxa (ICO). Foi penoso ver, em abril de 2023, o cerco ao Kiev Pechersk Lavra (KPL) e os correligionários da nova igreja ucraniana expulsarem os sacerdotes da ICO com a ajuda da polícia. De santuário de referência da ICO, o KPL passou a ser lugar de cerimónias pagãs e de encontros gastronómicos sem qualquer relação com a religião. Por toda a Ucrânia, os acólitos da nova igreja apoderaram-se dos santuários da ICO e expulsaram os seus sacerdotes.

Foi durante a vigência de Zelensky, que se realizaram os maiores ataques à liberdade de expressão no país. No dia 3 de fevereiro de 2021 foram banidos três canais de televisão (ZIK, News 1 e 112 Ukraine). No dia 20 de março de 2022, obedecendo às ordens de Zelensky, o Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia ilegalizou, de uma assentada, 11 partidos políticos por supostas ligações à Rússia. Viktor Medvedchuk, o líder da “Plataforma para a Vida”, o principal partido da oposição, que ocupava 44 lugares no parlamento ucraniano, foi colocado em prisão domiciliária.

Destino semelhante teve o presidente do supremo tribunal. O presidente do Tribunal Constitucional “ausentou-se” para parte incerta para não ter a mesma sorte. Até o antigo Presidente Poroshenko, um adversário político e inimigo de longa data de Zelensky, foi vítima da repressão política e da caça às bruxas “politicamente motivada” promovida por Zelensky, que o acusou de “alta traição” e de auxílio a organizações terroristas. É longa a lista de políticos, jornalistas e empresários mortos, sequestrados ou torturados durante a presidência de Zelensky. Um deles, é Oleksander Dubinskyi deputado na Rada, vítima de duas tentativas de assassinato e preso há mais de 15 meses por criticar a corrupção no país.

Em contrapartida, nenhuma das organizações neonazis foi ilegalizada. O nazismo e as insígnias fascistas normalizaram-se na sociedade e no seio das forças armadas. A suástica, o Sol negro e a caveira de Totenkopf vulgarizaram-se e tornaram-se moda. Zelensky publicou, sem qualquer pudor, fotografias destas insígnias nas suas contas das redes sociais.

A 13 de maio de 2023, Zelinsky visitou o Papa envergando uma camisola preta com o emblema da UNO, uma organização nacionalista ucraniana, e entregou-lhe um ícone com uma silhueta negra de Cristo ao colo da Virgem Maria, o que, de acordo com os cânones da Igreja Católica pode ser considerado satânico. A moda chegou também a outros domínios como monumentos, toponímia e filatelia, utilizados para exaltar figuras prominentes do movimento ucraniano bandeirista, responsável pela morte de judeus.

No dia 1 de março de 2022, de acordo com o decreto assinado por Zelensky, foi criada a “Legião Internacional de Defesa da Ucrânia” que passou a ser integrada na estrutura das Forças Armadas, cujo pessoal incluía mercenários, adeptos de ideias extremistas e terroristas de várias partes do mundo.

Zelensky aderiu e alimentou a fantasia, promovida pelos ultranacionalistas, de um estado mono étnico, monocultural e centralizado. A aprovação na Rada da lei racista e xenófoba sobre os povos indígenas” (13 de dezembro 2022) foi uma materialização desse desígnio. Inserido neste projeto, assiste-se a um movimento de revisionismo histórico com laivos fantasiosos e caricatos. Igor Tsar, autor do livro “Ucrânia – a pátria ancestral da humanidade”, vencedor do Prémio Stepan Bandera, publicado em Lvov alerta-nos para uma imensidão de “factos históricos” desconhecidos (foram as tribos arianas da Ucrânia que fundaram o Irão no 4º milénio a.C. e colonizaram a Palestina. A língua inglesa é proveniente da Ucrânia. Até Jesus era ucraniano).

Nesta análise sobre o regime ucraniano sob a tutela de Zelensky, não podíamos deixar de referir o envolvimento de Zelensky na corrupção que grassa no país, que se encontra devidamente documentada. No outono de 2021, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou os chamados Pandora Papers, onde se incluíam dados das contas offshore de 35 líderes mundiais. Zelensky e os seus parceiros do estúdio Cartel 95 estavam entre eles.

Entre 2012 e 2016, foram transferidos 41 milhões de dólares para a empresa offshore de Zelensky. Num país normal teria sido preso. Uma das múltiplas mansões que tem por esse mundo fora encontrava-se na Crimeia, um erro que lhe custou caro. Foi expropriado e a mansão vendida em hasta pública, tendo o resultado da venda revertido para um fundo de ajuda a combatentes russos.

No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje. O “Guardian”, entre outros órgãos de referência da comunicação social, que antes do início da guerra em 2022 escrevia “bem-vindo à Ucrânia, o país mais corrupto da Europa”, passou depois a considerar que “A luta pela Ucrânia é a luta pelos ideais liberais.” A corajosa reportagem de Mariana Van Zeller sobre grupos neonazis na Ucrânia foi censurada e retirada do canal Disney. Quem desmonta esta e outras falácias (o tema está longe de se esgotar neste artigo) foi acusado de ser propagandista do Kremlin.

O branqueamento do regime instaurado em 2014 é feito com base em dois argumentos: se o regime tivesse a filiação ideológica de que é acusado não teria um presidente judeu; os neonazis não têm expressão eleitoral significativa, por isso o regime é democrático. As questões devem, no entanto, ser colocadas de outro modo. Seria insuportável para as democracias europeias admitirem que estão a apoiar um regime que permite a proliferação da ideologia nazi e protege organizações neonazis.

Por outro lado, omite-se o facto de que muitos desses partidos/grupos ultranacionalistas não concorreram às eleições, e menospreza-se deliberadamente a sua influência na sociedade, sobretudo nas forças militares e de segurança, consolidada no rescaldo do golpe de Maidan. O facto da Ucrânia ter servido de tirocínio de combate a vários grupos neonazis europeus está superlativamente documentado em língua portuguesa (aqui (cap.IV) e aqui).

A farsa completa-se quando Zelensky participou nas comemorações do 80º aniversário da libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz, ou se ajoelha no memorial de Babyn Yar, em Kiev, não obstante a sua adesão incondicional à exaltação histórica dos bandeiristas, os mesmos que perpetraram o massacre lembrado por aquele memorial.

Não podemos deixar de nos questionar sobre a complacência e promiscuidade do Ocidente com as forças neonazis que proliferam na Ucrânia, porque é que se omitiu essa realidade e se tornou um tabu a partir de fevereiro de 2024, apesar de denunciada antes, com o conluio da comunicação social. Os exemplos são gritantes, e são muitos. Os aplausos em pé no parlamento canadiano a Yaroslav Hunka, que durante a Segunda Guerra Mundial serviu na 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen-SS, considerado um “herói” durante a visita do Presidente Zelensky. Por terem sido vítimas da brutalidade destes grupos, os polacos são uma exceção a este unanimismo.

Pelo exposto, pode concluir-se que Donald Trump não anda afinal muito longe da verdade. Pelo andamento da carruagem, não se admire o leitor se um dia acordar e perceber que andou três anos a ser enganado. A possibilidade de isso acontecer já esteve mais distante.

Os Ocidentais e o conflito na Ucrânia

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 20/02/2025)

Os Presidentes Donald Trump e Vladimir Putin (foto de 2018).

A paz na Ucrânia poderá acabar por nada resolver. Esta guerra não foi provocada por uma vontade expansionista da Rússia, como afirma a propaganda atlantista, mas por questões reais. Contentarem-se em reconhecer uma alteração das fronteiras, não vai resolver o fundo do problema.
Esta guerra é a resultante da expansão da OTAN desprezando a palavra dada ; uma expansão que ameaça directamente a segurança da Rússia, cujas fronteiras são demasiado grandes para poderem ser defendidas. Para avançar na Ucrânia, a OTAN apoiou grupos neo-nazis que ela colocou no Poder e que aplicaram as suas leis nesse país. A isso juntaram o ressurgimento de um pretenso conflito de civilizações entre valores europeus e asiáticos.
Não haverá uma paz verdadeira enquanto os Ocidentais não respeitarem a sua própria palavra.


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Os Presidentes norte-americano, Donald Trump, e russo, Vladimir Putin, iniciaram oficialmente negociações para por fim à guerra na Ucrânia. Quaisquer que sejam as soluções territoriais, elas não irão resolver o conjunto do contencioso. Este irá persistir provavelmente para lá da paz.

Nesta questão, há três problemas que se sobrepõem :

1— A expansão da OTAN para o Leste e a doutrina Brzeziński

Quando os Alemães do Leste derrubaram o Muro de Berlim ( 9 de Novembro de 1989), os Ocidentais, apanhados de surpresa, negociaram o fim das duas Alemanhas. Durante o ano de 1990 colocou-se a questão de saber se a reunificação alemã significaria que a Alemanha Oriental, juntando-se à Ocidental, entraria ou não na OTAN.

Ora, quando o Tratado de Aliança Atlântica foi assinado, em 1949, ele não incluía certos territórios de alguns signatários. Por exemplo, não faziam parte os territórios franceses do Pacífico ( a Reunião, a Mayotte, Wallis e Futuna, a Polinésia e a Nova Caledónia ). Portanto, teria sido possível que, numa Alemanha unificada, a OTAN não tivesse permissão para se estabelecer na Alemanha de Leste.

Esta questão é muito importante para os Países da Europa Central e Oriental, que foram atacados pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos das suas populações, ver armas sofisticadas a ser instaladas na sua fronteira era preocupante. Muito mais para a Rússia, cujas imensas fronteiras ( 6.600 quilómetros ) são indefensáveis.

Durante a Cimeira (Cúpula-br) de Malta (2 e 3 de Dezembro de 1989) entre os Presidentes norte-americano e russo, George Bush (o pai) e Mikhail Gorbachev, os Estados Unidos argumentaram que não tinham agido para levar à queda do Muro de Berlim e que não tinham então nenhuma intenção de actuar contra a URSS [1].

O Ministro alemão-ocidental dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), Hans-Dietrich Genscher, declarou : « que as mudanças na Europa de Leste e o processo de unificação da Alemanha não deviam levar a um ataque aos interesses de segurança soviéticos ». Por conseguinte, a OTAN deveria excluir uma «expansão do seu território para o Leste, quer dizer, uma aproximação às fronteiras soviéticas».

As três potências ocupantes da Alemanha, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido, multiplicaram portanto os compromissos de não expandir a OTAN para Leste. O Tratado de Moscovo (12 de Setembro de 1990) implica que a Alemanha reunida não reivindicará território na Polónia (linha Oder-Neisse) e que nenhuma base da OTAN será colocada na Alemanha de Leste [2].

Durante uma conferência de imprensa conjunta na Casa Branca, em 1995, o Presidente Boris Ieltsin qualifica a reunião que acabavam de ter como « desastrosa », provocando a hilariedade do Presidente Bill Clinton. Realmente, vale mais rir do que chorar.

No entanto, os Russos ficaram a saber que o Secretário de Estado adjunto Richard Holbrooke dava a volta às capitais para preparar a adesão dos antigos Estados do Pacto de Varsóvia à OTAN. O Presidente Boris Ieltsin deu, pois, um sermão ao seu homólogo, Bill Clinton, aquando da Cimeira de Budapeste (5 de Dezembro de 1994) da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE). Declarou : « a nossa atitude face aos planos de alargamento da OTAN e, nomeadamente, da possibilidade que as infraestruturas progridam para Leste, é e irá continuar a ser invariavelmente negativa. Os argumentos do tipo : o alargamento não é dirigido contra nenhum Estado e constitui um passo para a criação de uma Europa unificada, não resistem à crítica. Trata-se de uma decisão cujas consequências determinarão a configuração europeia para os próximos anos. Ela pode conduzir a um deslizar para a deterioração da confiança entre a Rússia e os países Ocidentais. […] A OTAN foi criada no tempo da Guerra Fria. Hoje, não sem dificuldades, procura o seu lugar na Nova Europa. É importante que essa abordagem não crie duas zonas de demarcação, mas que, pelo contrário, ela consolide a unidade europeia. Este objectivo, para nós, está em contradição com os planos de expansão da OTAN. Porquê lançar as sementes da desconfiança ? Afinal de contas, já não somos mais inimigos ; agora somos todos parceiros. O ano de 1995 marca o quinquagésimo aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Meio século depois, estamos cada vez mais conscientes do verdadeiro significado da Grande Vitória e da necessidade de uma reconciliação histórica na Europa. Não deveria aqui haver mais inimigos, vencedores e derrotados. Pela primeira vez na sua história, o nosso continente tem uma hipótese real de chegar à unidade. Falhar isso, é esquecer as lições do passado e pôr em questão o próprio futuro».

Bill Clinton respondeu-lhe : « A OTAN não excluirá automaticamente nenhuma nação da adesão. […] Simultaneamente, nenhum país exterior será autorizado a colocar o seu veto à expansão» [3].

Durante esta cimeira, três memorandos foram assinados, entre os quais um com a Ucrânia independente. Em troca da sua desnuclearização, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos comprometiam-se a abster-se de recorrer à ameaça ou ao emprego da força contra a integridade territorial ou a independência política da Ucrânia.

No entanto, durante as guerras da Jugoslávia, a Alemanha interveio, como membro da OTAN. Ela treinou os combatentes kosovares numa base da Aliança em Incirlik (Turquia) e, depois, colocou os seus homens no terreno.

Também, na Cimeira da OTAN de Madrid (8 e 9 de Julho de 1997), os Chefes de Estado e de Governo da Aliança anunciaram estarem a preparar-se para a adesão da República Checa, da Hungria e da Polónia. Além disso, encaram também as da Eslovénia e da Roménia.
Consciente que não pode impedir Estados soberanos de subscrever alianças, mas inquieta pelas consequências para sua própria segurança daquilo que se prepara, a Rússia intervém na Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), durante a Cimeira de Istambul (18 e 19 de Novembro de 1999). Ela faz adoptar uma declaração estabelecendo o princípio da livre adesão de qualquer estado soberano à aliança da sua escolha e a este de não tomar medidas de segurança em detrimento da dos seus vizinhos.

No entanto, em 2014, os Estados Unidos organizaram uma revolução colorida na Ucrânia, derrubando o presidente democraticamente eleito (que queria manter o país a meio caminho entre os Estados Unidos e a Rússia) e instalando um regime neo-nazi publicamente agressivo à Rússia.

Em 2004, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia, a Eslováquia e a Eslovénia aderem à OTAN. Em 2009, foram a Albânia e a Croácia. Em 2017, o Montenegro. Em 2020 a Macedónia do Norte. Em 2023, a Finlândia, e em 2024, a Suécia. Ou seja, todas promessas foram violadas.

Para compreender muito bem como se chegou a isto, é preciso saber o que pensavam os Estados Unidos.

Em 1997, o antigo Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Jimmy Carter, o polaco-americano, Zbigniew Brzeziński, publica O Grande Tabuleiro (no sentido de xadrez mundial-ndT). Nele, ele disserta sobre «geopolítica» no senso original, quer dizer, não da possível influência dos dados geográficos sobre a política internacional, mas de um plano de dominação do mundo.

Segundo ele, os Estados Unidos podem permanecer a primeira potência mundial aliando-se aos Europeus e isolando a Rússia. Então aposentado, este democrata oferece aos seguidores de Leo Strauss — “straussianos” (vulgo neo-cons, ndT) — uma estratégia para manter a Rússia em baixo, sem no entanto lhes dar razão. Com efeito, ele apoia a cooperação com a União Europeia, enquanto os “straussianos” desejam, pelo contrário, frenar o seu desenvolvimento (Doutrina Wolfowitz). Seja com for, Brzeziński tornar-se-á Conselheiro do Presidente Barack Obama.

2- Nazificação da Ucrânia

Monumento à glória de Stepan Bandera, criminoso contra a Humanidade, em Lviv

No início da “Operação Especial” do Exército russo na Ucrânia, o Presidente Vladimir Putin declarou que seu primeiro objectivo era desnazificar o país. Os Ocidentais fingiram então ignorar o problema. Eles acusaram a Rússia de salientar alguns factos marginais muito embora estes tenham sido observados em larga escala durante uma década.

É que os dois geopolíticos norte-americanos rivais, Paul Wolfowitz e Zbigniew Brzeziński, haviam feito aliança com os « nacionalistas integralistas » (ou seja com os discípulos do filósofo Dmytro Dontsov e do chefe da milícia Stepan Bandera) [4], durante uma conferência organizada por estes últimos em Washington, em 2000. Foi nesta aliança que o Departamento da Defesa apostou, em 2001, quando deslocalizou as suas pesquisas de guerra biológica para a Ucrânia, sob a autoridade de Antony Fauci, então conselheiro de Saúde do Secretário Donald Rumsfeld. Continuou a ser nesta aliança que o Departamento de Estado apostou, em 2014, com a revolução colorida do Euromaidan.

Os dois Presidentes ucranianos, Petro Poroshenko e Volodymyr Zelensky, de origem judaica, deixaram desenvolver por todo o lado no seu país memoriais prestando homenagem aos colaboracionistas dos nazis, particularmente na Galícia (junto à Polónia-ndT). Eles deixaram a ideologia do Dmytro Dontsov tornar-se a referência histórica. Por exemplo, hoje, a população ucraniana atribui a grande fome de 1932-1933, que provocou entre 2,5 e 5 milhões de mortos, a uma imaginária vontade da Rússia em exterminar os Ucranianos ; um mito fundador que não resiste à análise histórica [5], com efeito, esta fome atingiu em cheio outras regiões da União Soviética. Além disso, foi com base nesta mentira que Kiev conseguiu fazer crer à sua população que o Exército russo queria invadir a Ucrânia. Actualmente várias dezenas de países, entre os quais a França [6] e a Alemanha [7], adoptaram, por esmagadoras maiorias, leis ou resoluções a validar esta propaganda.

A nazificação é mais complexa do que se crê : com a implicação da OTAN nesta guerra por procuração, a Ordem da Centuria, quer dizer, a Sociedade Secreta dos “nacionalistas integralistas” ucranianos, infiltrou as forças da Aliança. Em França, ela estaria já presente na gendarmaria (que, diga-se de passagem, nunca tornou público o seu relatório sobre o massacre de Butcha).

O Ocidente contemporâneo vê, erradamente, os nazis como criminosos que massacraram principalmente judeus. É absolutamente falso. Os seus principais inimigos eram os eslavos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazis assassinaram muita gente, primeiro a tiro e depois, a partir de 1942, em campos. As vítimas civis eslavas da ideologia racial nazi foram muito mais numerosas do que as vítimas judias (cerca de 6 milhões se adicionarmos as pessoas mortas por balas e as mortas nos campos). Além disso, algumas vítimas eram eslavas e judias, sendo contabilizadas em cada uma das duas contagens. Após os massacres de 1940 e 1941, cerca de 18 milhões de pessoas, de todas as origens, foram internadas nos campos de concentração, das quais 11 milhões, no total, foram aí assassinadas (1.100.000 só no campo de Auschwitz-Birkenau) [8].

A União Soviética, que se dilacerou durante a Revolução bolchevique, só refez a sua unidade em 1941 quando Joseph Staline fez aliança com a Igreja Ortodoxa e pôs fim aos massacres e aos internamentos políticos (os «gulags») para lutar contra a invasão nazi. A vitória contra a ideologia racial fundou a Rússia actual. O povo russo vê-se como exterminador do racismo.

3— O rejeitar da Rússia para fora da Europa

O terceiro pomo de discórdia entre o Ocidente e a Rússia foi criado, não antes, mas durante a guerra da Ucrânia. Os Ocidentais adoptaram várias medidas contra aquilo que simbolizava a Rússia. Tomaram-se, é certo, medidas coercivas unilaterais (qualificadas abusivamente de «sanções») ao nível de Estado, mas também se tomaram medidas discriminatórias a nível da cidadania. Muitos restaurantes foram proibidos aos Russos nos Estados Unidos ou espectáculos russos foram anulados na Europa.

Simbolicamente, aceitou-se a ideia segundo a qual a Rússia não é europeia, mas asiática (o que ela também é parcialmente). Redesenhou-se a dicotomia da Guerra Fria, que opunha o mundo livre (capitalista e crente) ao espectro totalitário (socialista e ateu), para uma oposição entre os valores ocidentais (individualistas) e os da Ásia (comunitários).

Por trás desta derrapagem, ressurgem as ideologias raciais. Há três anos, salientei que o 1619 Project do New York Times e a retórica woke (iluminada-ndT) do Presidente Joe Biden era na realidade, talvez à sua revelia, uma reformulação invertida do racismo [9]. Observo que hoje o Presidente Donald Trump partilha a mesma análise que eu e revogou sistematicamente todas as inovações woke do seu predecessor. Mas o mal está feito : no mês passado, os Ocidentais reagiram ao aparecimento do Deepseek chinês, negando que os Asiáticos tenham podido inventar, e não copiar, um tal software. Certas agências governamentais proibiram-no mesmo aos seus empregados naquilo que não é mais do que uma sugestão de denuncia do «perigo amarelo».

Será preciso censurar Léon Tolstoi (1828-1910), o autor de « Guerra e Paz », como faz a Ucrânia, e onde se queimam os seus livros só porque era russo?

4- Conclusão

As negociações actuais focam-se naquilo que é directamente visível pelas opiniões públicas : as fronteiras. Ora, o mais importante está noutro lado. Para viver juntos, precisamos de não ameaçar a segurança dos outros e temos de os reconhecer como nossos iguais. É muito mais difícil e não envolve apenas os nossos governos.

De um ponto de vista russo, a origem intelectual dos três problemas examinados acima reside na recusa anglo-saxónica do Direito Internacional [10]. Com efeito, durante a Segunda Guerra mundial, o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, e o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, durante a Cimeira do Atlântico, acordaram que, após a sua vitória comum, eles imporiam a sua lei ao resto do mundo. Só sob pressão da URSS e da França é que aceitaram os estatutos da ONU, mas não cessaram de os desprezar, forçando a Rússia a boicotar a organização quando recusaram à China popular o direito de aí ter assento. Mas, o exemplo que grita a duplicidade ocidental é dado pelo Estado de Israel, o qual pisa com os dois pés uma centena de Resoluções do Conselho de Segurança, da Assembleia Geral e de ditames do Tribunal Internacional de Justiça. Foi por isso que, em 17 de Dezembro de 2021, quando a guerra da Ucrânia se aproximava, Moscovo propôs a Washington [11] de a evitar subscrevendo um Tratado bilateral que estabelecesse garantias para a paz [12].

A ideia deste texto era, nem mais, nem menos, que os Estados Unidos renunciassem a um «mundo baseado em regras» e se colocassem ao lado do Direito Internacional. Esse Direito, imaginado pelos Russos e pelos Franceses justamente antes da Primeira Guerra Mundial, consiste unicamente em manter a sua palavra perante o escrutínio das opiniões públicas.

Notas

1] «NATO Expansion: What Gorbachev Heard», National Security Archibves, November 24, 2021.

[2] «NATO Expansion: What Yeltsin Heard», National Security Archives, March 16, 2018.

[3] «NATO Expansion – The Budapest Blow Up 1994», National Security Archives, November 24, 2021.

[4] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.

[5] « L’Holodomor, nouvel avatar de l’anticommunisme “européen” » (extrait de Le Choix de la défaite), Annie Lacroix-Riz (2010). Famine et transformation agricole en URSS, Mark Tauger, Delga (2017).

[6] «Proposition de résolution portant portant sur la reconnaissance et la condamnation de la grande famine de 1932 1933, connue sous le nom d’ » holodomor », comme génocide »», Assemblée nationale, Texte adopté, le 28 mars 2023.

[7] Tendo os serviços do Bundestag realizado, em 2008, um estudo sobre esta aldrabice. Fragen zur ukrainischen Geschichte im 20. Jahrhundert. Die Hungersnot in der Ukraine 1932/33 (“Holodomor”) sowie die Folgen der Resowjetisierung nach Ende des Zweiten Welkrieges.

[8] The Great Patriotic War, The anniversary statistical handbook, Rosstat (2019).

[9] “Joe Biden reinventa o racismo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Maio de 2021.

[10] “Que ordem internacional ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2023,.

[11] “A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Janeiro de 2022.

[12] « Projet de traité entre les États-Unis et la Russie sur les garanties de sécurité », Traduction Roman Garev, Réseau Voltaire, 17 décembre 2021. “Draft Agreement on measures to ensure the security of Russia and NATO”, Voltaire Network, 17 December 2021.

Fonte aqui.

Um naufrágio civilizacional

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 08/02/2025)


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Duas notícias recentes com o fundo das primeiras ações do governo Trump. As notícia de que o partido de extrema-direita de Nigel Farage se encontra em primeiro lugar nas sondagens na Grã Bretanha, que a AfD, o partido de extrema direita surge em segundo lugar nas sondagens na Alemanha, que a extrema direita de Beloni é governo em Itália, que o RN, de Le Pen, está no topo das preferências dos franceses, que a extrema direita atrai largas maioria de votantes nos países mais desenvolvidos na Europa, na Holanda, na Áustria, na Hungria, na Polónia, em Espanha. Neste fim de semana esta girândola de organizações ditas “patriotas” reúne-se em Madrid para concertar estratégias, numa reunião organizada pelo VOX, dos herdeiros do franquismo.

Existem muitas explicações para esta ascensão dos movimentos que ressuscitam o nazismo e surgem crismados com várias designações, direita radical, populistas, nacionalistas, patriotas, que apresentam temas comuns como o mal da sociedade: imigração, segurança, corrupção, direitos de minorias que constituem a cartilha da doutrina neoliberal que teve o seu primeiro ato de vitória com o golpe dos Estados Unidos de 1973 no Chile contra o governo de Allende e tem como finalidade última a instauração de poder oligárquico hegemónico. Um mundo em que uma oligarquia constitua o centro do poder, no mínimo no que hoje passou a ser designado por Ocidente Global.

O neoliberalismo, que também surge designado como neoconservadorismo não tem nada de novo: é a ideologia determinante da História. É a ideologia da História do Ocidente, da luta dos poderosos contra os povos e da resistência destes contra o poder das oligarquias, da minoria dos “ungidos” que assumiram o poder que querem conservar a todo o custo e por todos os meios. Sendo que apenas variam os meios e não os objetivos: o poder.

Os neocons, norte americanos ou europeus, são tanto herdeiros dos nazis, como dos senhores de pendão e caldeira da Idade Média, dos usurários que organizaram o sistema financeiro desde o escudo português, ao peso espanhol, à libra e ao dólar. Os “patriotas” europeus e os neocons americanos, reunidos sob o rótulo de liberais, defendem a concentração de poder numa elite, com todos os direitos, e a colocação da maioria na posição dos seres na posição dos servos a idade média, como propriedade da minoria, com um programa de vida de trabalharem muito e em silêncio, e morrerem cedo.

As novas tecnologias da informação têm servido, como no antecedente as religiões serviram, para obter a “obediência voluntária” da maioria, os servos, daí a utilização por parte destes movimentos caracteristicamente nazis de bandeiras que pretendem impor e cavalgar o medo do outro, do diferente, da igualdade, de explorar o velho princípio de dividir para reinar. De, dado não ser possível calar as multidões, ensurdecê-los com notícias falsas ou manipuladas.

O conclave de Madrid, dos ditos patriotas europeus, do neoconservadorismo imposto como religião oficial do império, faz parte de uma história com final conhecido: um confronto violento, sem piedade. Já estamos a assistir aos seus mais recentes métodos na defesa de velhos princípios nas manifestações no genocídio de Gaza, com o negócio de terras e riquezas naturais que já é publicamente assumida ser uma das causas da guerra da Ucrânia, o desmantelamento dos serviços públicos nos Estados Unidos e do estado social na Europa.

Para estes velhos movimentos elitistas (há quem pretenda iludir as opiniões públicas designando-os por populistas) a promoção de guerras é a finalidade última das suas ações, o meio de conservarem o poder. Não por acaso, a NATO, que é a nata fardada destes movimentos, pretende impor o aumento das despesas em armamento à custa das despesas sociais. O “pensamento ocidental” foi capturado por esta ideologia, assumindo-a como parte de si e como única via para manter o statuo quo, optando pelo imobilismo. A União Europeia defende este tipo de poder e de mundo pese embora a embalagem de democracia e de respeito pela vontade dos europeus com que surge embrulhada da arena do parlamento europeu, ou na sede da Comissão. As crises do subprime de 2008, as decisões sobre Portugal e a Grécia com o envio de cobradores implacáveis, a crise do COVID revelaram a essência do poder da União, concentrado no sacrário do Banco Central Europeu. Perante a crise resultante da emergência de novos centros de poder, a União Europeia promove a concentração da riqueza e do domínio numa minoria e é essa comunhão de objetivos que leva os seus líderes a normalizar os movimentos nazis, num processo de inclusão que é visível desde logo na terminologia que lhes é aplicada e no tempo de antena que lhes é concedido. É essa comunhão que leva a União Europeia a apoiar regimes nazis como o Ucraniano e o de Israel, porque eles servem a finalidade de acusar quem se oponha de ser inimigo da “liberdade”.

Lutar contra os movimentos nazis, com qualquer rótulo que se apresentem, é uma questão de sobrevivência de uma sociedade tendencialmente justa e igualitária.

A normalização destas organizações nazis pelos grandes meios de comunicação de massas faz parte da estratégia de obter a predisposição das vítimas para serem dominadas. E existe uma vertigem das sociedades para seguirem estas falsas estrelas e correrem atrás dos seus tambores de guerra.

Os slogans MAGA, Make America Great Again, servilmente copiado pelos nazis reunidos em Madrid com a fórmula MEGA, são exemplos da falácia em que os seus promotores querem envolver os seus futuros servos. A grandeza da América e da Europa assentou na ocupação violenta de um território, no caso norte americano, e na exploração colonialista, no caso da Europa.

Os ressuscitados movimentos neonazis e neocons, os oligarcas que os promovem, estão a propor que os cidadãos norte americanos e europeus sejam os índios exterminados e os africanos explorados. É esta a nova ordem do mundo que propõem e que impõem através dos seus aparelhos de manipulação. Um naufrágio civilizacional.