O efeito de verdade

(António Guerreiro, in Público, 03/03/2017)

Autor

António Guerreiro

Se lermos a História da mentira, traçada por Derrida, numa conferência de 1997, percebemos que a noção de “pós-verdade” não dá a conhecer nada de novo, não tem qualquer valor epistémico. De Platão a Kant, de Santo Agostinho a Hannah Arendt, de Montaigne a Rousseau, Derrida identifica e analisa as estações obrigatórias do conceito de mentira e as rupturas no interior de uma tradição. Uma dessas rupturas é aquela que Hannah Arendt localizou na nossa modernidade, época em que a mentira teria atingido o seu limite absoluto.

Novos são apenas os meios de amplificação colossal de que a mentira hoje dispõe para atingir os seus objectivos, que são sempre da ordem de uma razão moral. No que diz respeito aos media tradicionais, é no espaço da “opinião” que a mentira (e tudo o que, não sendo imputável à mentira, é falso: o erro, a ignorância, a falta de informação, o preconceito) se aloja com mais frequência e mais facilmente.

Vejamos um exemplo. Na edição do Diário de Notícias da passada segunda-feira, o director Paulo Baldaia assinava um artigo de “opinião da direcção”, com um título veemente: “Com base na mentira não há opinião, há mentira”. Aí, referindo-se ao facto de haver quem tenha dito que a notícia do PÚBLICO sobre os 10 mil milhões transferidos para os offshores não fez mais do que retomar uma notícia de Abril, para silenciar o escândalo da CGD, Paulo Baldaia escreveu: “Não lhes ocorre informarem-se para perceber a diferença entre os dez mil milhões de euros que foram notícia em Abril por fazerem parte da estatística e os outros dez mil milhões que foram notícia por terem passado ao largo”. Eu, que nada sabia dessas especulações baseadas numa reclamada repetição manhosa, dez meses depois, da mesma notícia, registei as palavras de Paulo Baldaia. Mas ao fim da tarde do mesmo dia li um artigo de opinião, “O offshore da pós-verdade”, de Henrique Raposo, no Expresso, que começava assim: “Parece que Belém ou São Bento […] ressuscitaram esta notícia já antiga para folgarem as costas da chibata da Caixa”. Sem mais informações sobre o assunto, perante as duas afirmações contraditórias sinto-me um leitor desprotegido, entregue à intuição, às minhas próprias crenças e ao teor de confiança que o colunista do Expresso, o director do DN e o próprio Público me suscitam (isto é, entregue a tudo aquilo que me incita muito mais a propagar mentiras do que a ler jornais). Ou o pressuposto factual de que partia Henrique Raposo era falso e todo o seu artigo de “opinião” não tinha qualquer legitimidade (por uma destas razões: ignorância? Incompetência? Má-fé? Impostura? Fraude? Calúnia?), ou Paulo Baldaia estava errado no exemplo que deu para defender a sua tese e devia pedir desculpa aos alvos das suas invectivas. Mas a confusão, mesmo para um leitor treinado no exercício indiciário de detective, aumenta quando lemos na mesma edição diária, online, do Expresso, um artigo de Nicolau Santos. O pressuposto factual da sua argumentação, o de os 10 mil milhões, ou parte deles, não “terem sido tratados pela Autoridade Tributária”, (“segundo noticiou o Público”, acrescenta com prudência) desmente toda a base factual de que parte Henrique Raposo: “Estes dez mil milhões de euros foram declarados ao fisco”. Pelo princípio da não contradição, temos de concluir que algum ou alguns destes intervenientes fizeram afirmações falsas. Por falta de informação (mas isso não desculpa a produção jornalística da contra-verdade) ou para produzir um “efeito de verdade” – essa coisa bem antiga a que agora se deu o nome de pós-verdade. É preciso mais para percebermos que a “opinião” é a coveira do jornalismo

A propósito de mentiras

(In Blog O Jumento, 17/02/2017)

 

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A mentira está na ordem do dia. A direita vê petas em todas as esquinas. Mas esquece que o record do mundo da modalidade ainda não foi batido e vai continuar de pé, acredito que por largas décadas ainda. Pertence ao atleta Passos Coelho que o conquistou com grande gabarito e mérito. Aqui deixo alguns exemplos do alto nível que este português distinto conseguiu alcançar, conquistando centenas de medalhas e levando o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo.

Estátua de Sal, 17/02/2017


Compreende-se que Passos Coelho evite expor-se neste debate da CGD, não só está promovendo uma guerra suja e quer poupar a sua imagem, como sabe que em matéria de mentiras é um campeão na história da democracia portuguesa. Enganou tudo e todos, mentiu ao parlamento, enganou os portugueses, mentiu aos militantes do seu próprio partido. Passos tentou impor uma revolução económica digna de Pinochet sem que nenhuma das suas medidas constasse de qualquer proposta eleitoral.

Mas o grande campeão da mentira foi Passos Coelho. Aqui ficam apenas algumas das suas muitas mentiras, uma recolha que se refere apenas aos s«primeiros meses do seu governo, não consta aqui a promessa feita na campanha eleitoral de que as receitas fiscais estavam a correr tão bem que os idiotas iam receber um reembolso de uma parte significativa da sobretaxa do IRS.

  1. “A haver algum ajustamento fiscal será nos impostos sobre o consumo” (Bruxelas, 24-03-2011) [Expresso]
  2. “Em Miranda do Corvo, Pedro Passos Coelho admitiu que a população local «ficou a ver comboios» e prometeu que o «comboio vai voltar», muito embora tenha lembrado que «não há condições para nos comprometermos nesta fase com esta obra».”(Miranda do Corvo 31-05-2011) [TSF] O pessoal de Miranda do Corvo já anda de comboio?
  3. “O PSD chumbou o PEC 4 porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento.”  [Twitter] [DN]
  4. Perguntou a estudante: “Vai tirar os subsídios de férias aos nossos pais?“, respondeu Passos Coelho: “Eu nunca ouvi falar disso no PSD. Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate” e acrescentou: “isso é um disparate” (Vila Franca de Xira81-04-2011) [TVI24]
  5. “Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate.”  [Twitter][DN]
  6. “Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro” (30-04-2011) [JN]
  7. “Quando digo que estou preparado para construir um Governo com não mais do que 10 ministros, falo evidentemente da possibilidade do PSD ter uma maioria absoluta e poder responder por esse resultado” [CM]
  8. “Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos.” Promessa feita no Facebook. Cumpriu?
  9. “Nas despesas correntes do Estado, há 10% a 15% de despesas que podem ser reduzidas.”.  [Twitter][DN]. Cortou?
  10. “Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português.”. Quantos mandou para a mobilidade com vista ao despedimento?
  11. “Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas.” [Twitter][DN]
  12. “Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado.” [Twitter][DN]
  13. “”Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Se as coisas não estiverem bem temos que dizer que os que têm mais terão que ajudar os que têm menos em Portugal” (Oliveira de Azeméis 1-07-2011)  [Público]
  14. «Passos Coelho prometeu até final deste mês apresentar “um programa ambicioso” que passará por “acabar com institutos públicos fundações”, aquilo a que se chama a “gordura do Estado”. O plano de acção, garantiu, “até final de Outubro estará em grande medida concretizado”.» (Festa do pontal, 15-08-2011) [Público]. Alguém viu o famoso plano ambicioso?
  15. A cereja em cima do bolo das mentiras de Passos Coelho foi a famosa fraude eleitoralista conhecida por reembolso da sobretaxa. Recordemos o que o traste de Massamá dizia:

    “Reiterando que não se trata de um “anúncio” sobre a devolução da sobretaxa, Passos Coelho lembrou que todos os meses as pessoas podem fazer uma simulação de quanto vão receber no próximo ano. “O mês passado apontava para 25%, este mês para 35,7%, mas não é um valor fechado. Não é uma promessa, não é um anúncio para as eleições. A minha expectativa dada a evolução é ter fechado até ao final do ano um valor de devolução muito significativo”, afirmou.” [Público]

    Pois, não só se limitou a reembolsar um corno e a ponta do outro como foi o Centeno que teve que suportar os custos das fraudes na contabilização das receitas fiscais promovidas por Passos. Aliás, umas das razões que levavam Passos a ter esperança num segundo resgate estava nas vigarices fiscais que fez.

Nenhuma destas mentiras justificariam a demissão, isso apesar de o próprio ter em tempos escrito no Twitter que “Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?”. Mas o mentiroso Passos Coelho nunca mentiu aos deputados de uma Comissão parlamentar e, como se sabe, uma coisa é mentir aos idiotas dos portugueses e outra, bem mais grave, é mentir a essas sumidades “parlamentícias”.

Só é pena que Lobo Xavier não tenha tido acesso aos SMS trocados entre Portas e Durão a propósito dos submarinos, entre Portas e Passos acerca da irrevogabilidade da sua demissão, entre Maria Luís e Carlos Costa sobre a contratação de Sérgio Monteiro para caixeiro-viajante, ou entre a Maria Luís e Passos Coelho a propósito dos seus negócios com swaps.

Já que estamos em tempos de voyeurismo tenho de confessar que tenho gostos bem diferentes dos de Lobo Xavier, não aprecio os SMS entre gajos com barba. Mas , enfim, cada um tem as suas preferências em matéria de curiosidade mórbida.

O “ almeidinha” !

(Joaquim Vassalo Abreu, 11/02/2017)

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Com letra pequena, de propósito. Para que não haja confusões, e desde logo, com o enorme respeito e admiração que tenho para com os verdadeiros “Almeidas”, esses que tratam de recolher as folhas para que elas não entupam as sarjetas, para que as águas corram e fluam livremente, escorram comodamente e, isso fazendo, evitem que o lixo as entupa.

Os que limpam os jardins, as bermas das estradas e passeios, e que fazem das nossas aldeias, vilas e cidades, lugares limpos e aprazíveis para se viver… E embora seja palpável a evolução do civismo das nossas gentes (seleção de lixos vários, departamento dos mesmos, cuidados educacionais que são visíveis e não o sendo são, de imediato, alvo de crítica…), claro que no bom sentido, subsistem sempre, como em todas as profissões, os bons e os maus profissionais.

E, por isso, vos vou falar de um “almeidinha” que, mesmo sendo “Almeida”, não demonstra ser um verdadeiro. Porquê? Porque este não é um exemplo de profissional, não é perito em varrer ruas, em limpá-las com aquela vassoura própria, e porquê? Porque, em vez de limpar, faz mais lixo! Não remove resíduos, nem limpa sarjetas: atafulha-as de lixo! Não trata das condutas: entope-as!

Mas em nome de quê, boquiabertos me perguntarão, em nome de quê, afinal? Da transparência! É mesmo: ele faz lixo, ele conspurca, ele entope, ele suja, mas tudo em nome da transparência, ou seja, da verdade. Que não da mentira. Da limpeza da mentira. Isto é: ele suja para que depois se limpe. E limpa ele o “almeidinha”, mais outros “almeidinhas”, seus comparsas!

Mas este “almeidinha”, de primeiro nome Joãozinho, coitadinho, tem uma conduta de vida de transparência feita. Reparem e relembrem só naquilo (que todos estão fartos de saber, eu sei) que ele disse, há uns tempos, quando era candidato a deputado por Aveiro, pelo seu CDS, ou PP, ou lá o que é. Disse ele: “SEM MENTIR NÃO SE GANHAM ELEIÇÕES”! Eu até diria mais: muitos nem a lugar algum chegariam, mas isso é outra conversa…

Querem mais limpeza? Mais transparência? Pela coragem demonstrada ( não é qualquer um que assume assim de ânimo leve que, mesmo sendo “almeidinha”, não limpa, antes suja), a de confirmar um pecado, para ele um simples pecadilho, eu sei, um pecadilho que dizem a todos pertencer mas que ele, assim dizendo, o concentra em si, manifestando assim, e à saciedade, o verdadeiro “Cristo” que há em si: Um “Cristo” mortificado pela dor de todos. Que coisa mais altruísta! Que exemplo!

Muitos o seu exemplo seguiram e, desde logo, o Coelho! O que ele não prometeu, Deus meu! E não é que venceu? Esse dito foi também uma luz para o Paulo e uma boa nova para a Maria de Anunciação. Assunção, perdoem!

E o nosso “almeidinha” (isto soa a qualquer coisa de árabe, não soa?), de primeiro nome Joãozinho, coitadinho, talvez coberto por uma aura divina, um manto diáfano que o protege de qualquer contaminação, tal qual qualquer Marques Mendes desta vida, em tendo seu pecado, ou pecadilho confessado, e assim estar perdoado, trata agora de expurgar todo o arremedo de mentira que para aí possa existir. Como zelote das boas maneiras e costumes. Como se fosse um bom “almeidinha”.

E então, como “almeidinha”, faz o seu serviço sim, mas com uma característica própria: Em vez de limpar, faz lixo! E faz lixo para depois tentar reparar o dano por si feito. Que o lixo cresça, tudo entupa para ele, depois, o vir limpar.

É isto que o nosso “almeidinha” e toda a sua comandita têm vindo a fazer. E ele sempre ali estará, pronto a limpar o lixo por si e seus comparsas feito, mas sempre de barba limpa e aparada, de cabelo redondo e acentuada menelha, de lábios rosados por croissants e café com leite e um manequim esculpido em suadas sessões de sauna…como deve de ser! Ai…

Ele é um “almeidinha” dos tempos novos, assim do tempo dos seus comparsas “bombeiros pirómanos”, também dos novos tempos: ateiam os fogos para depois os irem combater e apagar. Com aviões “granadeiros”, com helicópteros pagos a peso de ouro e para justificar o lugar: o de limpadores e de apagadores, dos maus vícios, do assomo ao consumismo, do quererem ter direitos, de arautos da segurança e donos de tudo e, principalmente, da verdade e da mentira.

Mas sucede que este “almeidinha” é a antítese, como disse, dos verdadeiros “Almeidas”: este, em vez de desentupir, entope! E torna-se ele próprio na sarjeta, entupida e nauseabunda, cheia de excrementos e lama. E é na lama que este “almeidinha” se dá bem. É um projecto de “Almeida”…é um garoto!

Outros da comandita poderia referir e logo, e em primeiro lugar, o Coelho, mas este, quando acha conveniente, resguarda-se na sua lura e manda aquele monte de coiso negro para a lide e ele, qual imperador romano, limita-se a erguer ou baixar o polegar. E aquele monte de coisa negra, qual leão no coliseu, investe, tenta romper, sempre de focinho erguido e apontado, mas sempre dirigido àquele esterco de que se alimenta…o da sobrevivência!

Por fim, mas não para acabar, eu também estava convencido, e nisso ia pegar, que a Maria de Assunção também ela era “Almeida”. Mas não, enganei-me, é “Oliveira”! Ora oliveira dá azeitonas, as azeitonas dão o azeite e ela será, portanto, uma “azeiteira”! É que ser “azeiteiro” não é só privilégio masculino, que diabo!

E, agora finalmente mesmo, parafraseando uma velha e conhecida canção do Paco Ibañes, também poderei dizer: Estes “almeidinhas” são os excrementos da nação…

Fui violento? Qual quê? Como dizia Bretch “ O rio é violento? Violentas são as margens que o comprimem…”. Ao que eu acrescento: Violento, eu? E quem agride, assim de forma deliberada e soez, a minha inteligência e capacidade de pensar? O que será?

Perdoai-lhes, Senhor e AMEN! Ou “À MAN”, como se diz em estrangeiro….


Fonte aqui