Cães que ladram muito à porta de casa, mas…

(Carlos Matos Gomes, in Facebook 15/03/2024)

A notícia do dia em termos internacionais é a reunião de um trio europeu constituído pelo presidente francês e os primeiros-ministros da Alemanha e da Polónia para discutirem a ajuda europeia à Ucrânia para esta vencer a Rússia. A História não ensina a decidir o presente, mas pode acontecer que existam antecedentes que aconselhem cautelas. As mais fortes tentativas da Europa Ocidental ir desafiar o urso russo à sua toca foram as de Napoleão em pessoa, no século 19 e a de Hitler, através do seu marechal de campo Ernest Paulus repetirem o desastre no século 20. Napoleão, o grandioso derrotado, repousa nos Invalides, em Paris, Paulus, o triste derrotado alemão, que se rendeu e depois foi julgado em Nuremberga acabou por morrer em casa e está sepultado em Baden Baden.

Nem Macron, nem Schulz, nem Trusk são cromos repetidos. Nem querem atacar a Rússia. A Rússia e o apoio à Ucrânia para a guerra de desgaste da Rússia são apenas pretextos para cada um dos membros do trio jogar os seus interesses. A França quer disputar com a Alemanha o papel de potência líder na Europa, um papel que os Estados Unidos, o mestre do jogo, atribuiu à Alemanha e que esta, queira ou não, tem de representar. A Polónia conhece a fraqueza da França – sempre magnificamente derrotada -, que na Segunda Guerra foi incapaz de cumprir o compromisso de defender a Polónia em caso de ataque alemão. A Polónia conhece o interesse da Alemanha pelo domínio do seu território e da sua economia, e tenta compensar o apetite alemão com a França e, fundamentalmente, com o apoio dos EUA.

Os milhões de euros e os milhões de munições para a Ucrânia são fichas lançadas para a roleta em que a França e a Alemanha estão a jogar. Sendo certo que o dono do casino são os EUA.

O palavreado agressivo contra Putin e as eleições que os órgãos de propaganda utilizam são reveladores da fraqueza dos jogadores. A Europa está a dar muito mais importância à Rússia do que esta dá à Europa, que para a Rússia deixou de contar.

Em resumo, a Europa está reduzida ao papel dos cães que ladram muito à porta de casa e fogem mal são ameaçados.

Quanto aos cidadãos europeus, vão pagar munições que um dia lhes podem cair sobre a cabeça. Para já, têm conseguido enviar as suas máquinas de guerra para serem transformadas em sucata na Ucrânia… O trio dos ponta de lança da Europa quer passar a uma fase seguinte, lutando entre si, fingindo que estão a lutar contra a Rússia…

É um número arriscado para os cidadãos europeus. Os três dirigentes europeus são representantes de três grandes derrotados… Estão como a cavalaria polaca a atacar blindados com uma carga a cavalo de sabre desembainhado…


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Tropas da NATO podem ser destacadas para a Ucrânia? Já lá estão e estão a ser mortas

(Editorial de Strategic Culture Foundation, in Resistir, 03/03/2024)

O Napoleão por procuração…

As ideias de Macron sobre a ida de tropas terrestres da NATO para a Ucrânia podem ser rejeitadas publicamente, por enquanto.   Mas a dinâmica inexorável da última década indica que em breve a ideia pode muito bem tornar-se realidade.


O Presidente francês Emmanuel Macron causou furor esta semana ao especular que as tropas da NATO podem acabar por ser enviadas para a Ucrânia. Calma aí. Elas já estão lá há mais de uma década e foi por isso que irrompeu a guerra naquele país dois anos atrás.

Foi cómico – se não mesmo patético – ver o líder francês a falar alto, tentando projetar uma imagem de duro com os seus delírios de grandeza, como se fosse Napoleão ou De Gaulle reencarnado.

Macron estufou o peito de menino e declarou que a Rússia “não deve ganhar a guerra na Ucrânia”. E, para evitar esse presumível desfecho terrível, sugeriu que soldados ocidentais recebessem ordens de marcha para entrar no conflito. (Note-se a arrogância desenfreada e como a lógica de tais afirmações falsas não ser sequer remotamente explicada ou justificada. É um diktat total).

Contudo, Imediatamente, os seu homólogos americanos e europeus repeliram a conversa de Macron sobre tropas e apressaram-se a negar o seu apoio à vontade macronesca de posicionar ali batalhões da NATO. Nomeadamente, mesmo os britânicos e polacos, habitualmente mais agressivos, rejeitaram rapidamente a proposta francesa.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, estava particularmente ansioso por repudiar a conversa fiada de Macron sobre tropas. Scholz afirmou que não haveria soldados alemães ou da NATO a irem para a Ucrânia.

O chefe da NATO, Jens Stoltenberg – que geralmente fica excitado com promessas de ajuda militar ilimitada à Ucrânia – também rejeitou publicamente a noção de Macron de despachar tropas para combater na Ucrânia.

Pelo seu lado, a Rússia avisou que qualquer envio de contingentes da NATO para a Ucrânia significaria a inevitabilidade de a guerra por procuração se transformar numa guerra mais vasta. No seu discurso sobre o Estado da Nação, esta semana, o Presidente russo Vladimir Putin sugeriu que o destino de tais contingentes da NATO acabaria por ser semelhante ao do Terceiro Reich e de Napoleão. Putin também advertiu que a escalada do envolvimento direto da NATO em combate correria o risco de incitar a uma conflagração nuclear.

Por um lado, o furor desencadeado por Macron saiu pela culatra ao Presidente francês. A reação de rejeição dos aliados da NATO deixou-o exposto e com um ar de tolo. Mais como um pequeno general de província do que como um homem duro.

No entanto, apesar de Macron poder ter parecido isolado por agora, os seus comentários precipitados apontam para a preocupante dinâmica de escalada da NATO desde o golpe de Estado apoiado pela CIA em Kiev, em 2014.

A NATO tem armado e treinado vigorosamente o regime neonazi que se instalou em Kiev desde 2014. Até Jens Stoltenberg e outros responsáveis da NATO admitiram abertamente esse envolvimento de fundo.

A admissão da presença da NATO na Ucrânia ao longo da última década também corrobora o raciocínio da Rússia sobre a razão pela qual foi obrigada a lançar a sua intervenção militar há dois anos. É claro que as potências ocidentais e os seus media servis nunca chegam a admitir isso. Preferem adotar uma posição de duplo pensamento e hipocrisia, afirmando que a ação militar da Rússia foi uma “agressão não provocada”.

Para já, Macron pode ter sido abatido e ter ficado com a imagem de um palhaço pendurado. Mas, como tantas vezes no passado, ideias controversas da NATO são apresentadas e aparentemente rejeitadas de imediato, para depois serem adoptadas. Como Macron salientou, a Alemanha e outras nações da NATO estavam, há apenas dois anos, relutantes em enviar equipamento militar para além de capacetes e sacos-cama. Agora, essas mesmas entidades enviam tanques de combate e mísseis antiaéreos e estão a debater o envio de armas de longo alcance para atacar profundamente o território russo.

O Presidente dos EUA, Joe Biden, comentou uma vez a inviabilidade de fornecer caças à Ucrânia “porque isso significaria iniciar a Terceira Guerra Mundial”. Bem, Biden acabou por consentir o fornecimento de F-16 e o seu colega da NATO, Stoltenberg, afirma que estes aviões de guerra poderiam ser utilizados para atingir alvos russos profundos.

Por outras palavras, por enquanto as noções de Macron sobre a ida de tropas terrestres da NATO para a Ucrânia podem ser rejeitadas em público. Mas a dinâmica inexorável da última década indica que em breve a ideia pode muito bem tornar-se realidade .

O envolvimento da NATO na Ucrânia é uma cunha estratégica para atacar, enfraquecer e, finalmente, vencer a Rússia. O que começa como uma pequena quantidade cresce inevitavelmente para uma eventualidade maior.

O pessoal militar da NATO já está na Ucrânia e tem estado ali desde pelo menos 2014, quando começaram a treinar as brigadas neonazis para aterrorizar as populações de etnia russa na Crimeia, Donbass e Novorossiya.

Muitos destes soldados são posicionados não oficialmente como mercenários ou ostensivamente como elementos de segurança para diplomatas da NATO.

Numerosos relatos atestam a presença de tropas da NATO na Ucrânia, de uma forma ou de outra.

Um ataque aéreo russo perto de Kharkov, em janeiro, matou pelo menos 60 militares franceses que confirmadamente trabalhavam como contratados privados. Outros relatos mencionam cerca de 50 militares americanos mortos em combate na Ucrânia.

Estima-se que cerca de 20 000 militares estrangeiros se tenham juntado aos chamados “legionários internacionais” que combatem ao lado do regime de Kiev contra as forças russas. É justo supor que a maioria destes soldados da fortuna são tropas da NATO temporariamente “retiradas de serviço”.

Esta semana, Scholz, da Alemanha, deixou o gato escapar do saco quando disse que se opunha ao envio para a Ucrânia de mísseis Taurus de longo alcance, porque isso significaria o envio de tropas alemãs para ajudar a operar as armas. Scholz expressou-se mal ao revelar, inadvertidamente, que os britânicos e os franceses já tinham enviado forças especiais para ajudar com os seus sistemas de mísseis, o Storm Shadow e o Scalp, respetivamente.

O mesmo se pode dizer dos sistemas de artilharia HIMARS e Patriot, fornecidos pelos americanos, que têm sido utilizados para atingir centros civis em Donetsk e noutras cidades russas. Não é possível que os soldados ucranianos estejam a operar estas armas sofisticadas sem a assistência de tropas americanas no terreno.

Sabe-se também que as forças americanas, britânicas e outras da NATO estão a providenciar vigilância e logística para permitir ataques ucranianos no Mar Negro contra navios e bases da marinha russa na Crimeia.

Como disse esta semana ao Financial Times um oficial de defesa europeu não identificado, em reação ao alvoroço causado pelos comentários de Macron sobre as tropas:   “Toda a gente sabe que há forças especiais ocidentais na Ucrânia – apenas não o reconheceram oficialmente”.

Tendo em conta o armamento ofensivo que a NATO introduziu na Ucrânia (no valor de 100 a 200 mil milhões de dólares) para atacar a Rússia, bem como os milhares de soldados destacados pelos países da NATO, é bastante académico especular sobre o futuro destacamento de forças terrestres. O facto é que a NATO já está em guerra com a Rússia.

Estamos realmente a falar de uma diferença de grau relativamente pequena. É isso que torna a situação tão perigosa e abissal. A Rússia tem razão em chamar a atenção para o perigo iminente de este conflito se transformar numa catástrofe nuclear para todo o planeta. No entanto, lamentavelmente, quando o Presidente russo mais uma vez advertiu deste perigo nesta semana, os regimes e os media ocidentais acusaram imediatamente Putin de “ameaças nucleares”.

O único obstáculo que impede a catástrofe planetária é o formidável arsenal nuclear e hipersónico da Rússia, que a cabala imperial ocidental sabe que não pode ultrapassar. Na verdade, os belicistas ocidentais são os mais vulneráveis.

É uma vergonha eterna para os chamados líderes ocidentais o facto de estarem a empurrar o mundo para a beira do abismo com a sua arrogância e desrespeito por quaisquer leis. O seu problema, como Putin salientou, é que estes degenerados fantoches ocidentais não têm humanidade ou experiência pessoal de sofrimento e portanto não têm empatia. Eles são psicopatas e sociopatas, condenados pelos seus sistemas políticos falhados, e são levados a iniciar guerras como forma de tentarem salvar as suas insignificantes e patéticas carreiras.

O original encontra-se em aqui

Este editorial encontra-se em Resistir.


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Vítimas de bullying e prisioneiros dos “valores”

(Hugo Dionísio, in Facebook, 11/04/2023)

Se houvesse um instrumento de medição que funcionasse como “pânicômetro”, as galinhas atlantistas rebentariam com a escala. Nem todo o “bullying” saído da fábrica de terror que é a Casa Branca, conseguiria colocar uma ordem na forma como se comporta o galinheiro.

A última “macronada” foi recebida com mais um ataque de pânico em Washington. Ainda atónitos, com o sucesso da cimeira Xi-Putin, e de ressaca incurável pela forma como o mundo além-NATO recebeu as conclusões, Blinken, Nulland e demais cabeças pensadoras, aproveitando a viagem de Macron à China, pensaram: “bem, se eles não nos recebem, talvez possamos instruir Macron a fazer, à China, o que lhe fazemos nós, a ele”, ou seja, bullying. A instrução foi clara, “vais tratar de afastar a China da Rússia”.

Não obstante, face ao histórico narcisismo “macroniano”, os EUA, sempre desconfiados até da sua própria sombra, aparelharam a fiel, leal, missionária e religiosamente crente Úrsula, e introduziram-lhe um algoritmo apenas contendo uma ordem: “vais acompanhar Macron e vais guardá-lo e protegê-lo de si próprio”. Úrsula, preparando-se para uma viagem que claramente não foi planeada, nem pestanejou. “Contas são contas… Ordens são ordens… Leis são leis… Regras são regras e valores são valores…” “O que Deus faz, o ser mortal não questiona”, terá ela pensado, com o seu habitual tom autoconvencido.

Se, depois do que se passou em Moscovo, alguém pensou que uma missionária e um vassalo narcisista seriam suficientes, por muito bullying que fizessem, para levar Xi e o PCC a mudarem de posição quanto ao seu parceiro estratégico… Tiveram a resposta na mesa em que foram recebidos. Uma mesa redonda, de tamanho gigantesco, com as distâncias entre os intervenientes meticulosamente calculadas. Não sendo original (Macron já tinha passado pelo mesmo em Moscovo), sabendo-se do critério, minucia e rigor que caracterizam a actuação chinesa no que toca às relações diplomáticas… Nada disto foi por acaso.

A diplomacia chinesa encarregou-se de mostrar que a distância geográfica entre as duas civilizações é transposta para a sala de reuniões, como que dizendo: “com essa senhora na sala, nem uma reunião presencial vos ajuda a vencer tal distanciamento”. Só esta gente para pensar que um presidente, que leva um país, em 11 anos (de 2010 a 2021), a passar de um PIB de 7,55 para 15,8 triliões (em dólares), ou de 12,38 para 27,1 triliões (em Paridade de Poder de Compra), o tenha feito seguindo a cabeça de outros. E ainda não estão convencidos, porque de seguida já vão para lá Annalena Baerbock e uma delegação da U E. Ou vão para o bullying, ou vão para o beija-mão…

Mas não se pense que a distância simetricamente calculada, entre os três, era equânime. Não! A distância, na mesa, só existe com Úrsula presente. Ou seja, no quadro da U E, a distância é enorme, está a dois oceanos de distância. No quadro nacional, da França, de Portugal, da Alemanha ou da Itália, a distância pode ser curta e nem implicar a navegação por mar. Daí que Macron tenha sido recebido, com proximidade e a sós, com o presidente Xi. Se acham que com Úrsula, a distância era por acaso… então não conhecem a sofisticação da milenar diplomacia chinesa.

Se, na reunião a três –, que a carcereira Úrsula se encarregou de vigiar – só se falou em Ucrânia; já na reunião a dois, a coisa foi diferente. É claro, para a fotografia, a Ucrânia foi um dos pratos principais… mas, na penumbra, no resguardo da intimidade, Macron foi “persuadido” pelos mais gigantescos e magnânimos acordos comerciais, de investigação e cooperação que a sua mente poderia conceber. Todo o “bullying” que a fábrica de dólares consegue produzir, é insuficiente para bloquear os sonhos de quem prometeu “deixar marca na história francesa”. Essa marca depende dos “negócios da China”, local para onde se deslocou o centro da actividade económica mundial. Como disse um Miguel Esteves Cardoso aquando do mundial: “vão para lá com os seus discursos de moral, mas felizmente são corruptos” (qualquer coisa assim).

Os números não mentem: em 1992, ou seja, logo depois do fim da URSS, o PIB europeu era ligeiramente superior ao americano (6,75 para 6,52 triliões); em 1995 já era igual e em 1999, os EUA já nos tinham passado. Dez anos de controlo da Rússia e da Europa de leste e, apesar dos constantes alargamentos, os EUA puderam passar-nos à frente em produção de valor. Talvez um António da Costa da vida não veja a significância profunda destas coisas… Mas, duvido que um francês chauvinista como Macron não o veja. E bem que vê, também, o papel do dólar e do euro no processo.

Três datas chave para a engorda dos EUA à custa dos povos europeus: Tratado de Maastricht em 1993, que introduz um conjunto de critérios orçamentais que visam limitar a capacidade de investimento público, passando os países a dependerem especialmente do investimento privado; a introdução do Euro em 2000, moeda que, como disse Michael Hudson, foi criada para conter as economias europeias dentro e padrões cambiais “aceitáveis” para Washington; Tratado de Lisboa 2009, que reforça os critérios orçamentais e estabelece instrumentos, mais apertados, de controlo central a partir de Bruxelas, totalmente manietada por Washington.

Uma vez mais… os números não mentem: controlando a dívida pública e impedindo, assim, o investimento público (não é “investimento virtuoso”), a distância entre a economia americana e a europeia vai aumentando à velocidade de, mais um trilião de dólares de diferença, a favor dos EUA, a cada 5 anos (em 2000, a U E tinha 11,26, os EUA 13,75, em 2021, a U E 14,68, os EUA 20,53). Os EUA a engordarem também à custa do empobrecimento dos povos europeus.

Se uma personagem como Cravinho, ministro português dos Negócios Estrangeiros (Ministério que deveria ser rebaptizado de Departamento Provincial da NATO) é incapaz de se questionar sobre esta dualidade, em tal nos levando a crer quando diz que “prenderia Putin” se este cá viesse, mesmo sabendo estar a submeter o país a um acto de guerra e conhecendo a forma, conteúdo e natureza da decisão acusatória do TPI; se um dos comentadores mais palavrosos da nossa praça – Marques Lopes de sua graça – agradece a Biden o facto de este ser “um grande presidente”, mesmo arrastando a Europa – e o seu país e povo – para a indigência… Macron, tendo colocado o seu país em chamas, não se pode dar ao luxo de fingir que não vê o extintor económico que o pode salvar!

Os franceses podem ser muita coisa, mas não são servis. E eis que, o mesmo Macron que, com Úrsula ao lado, tanto falou da Ucrânia, foi o mesmo que, chegado da China, disse, a vários órgãos de comunicação, coisas interessantes como: “a Europa tem de resistir à pressão (o bullying, digo eu) para se tornar uma mera seguidora dos EUA”; “o grande risco é a Europa ser arrastada para crises que não lhe digam respeito” … Mas, a melhor de todas, aquela que fez Biden puxar o cordão da campainha de pânico, foi quando ele disse que “a Europa tem de se tornar independente dos EUA e sair da dependência do dólar”!

Ora, não se fez esperar a reacção do outro lado: Marc Rubio, senador republicano pró-guerra, neoconservador, neoliberal e sei lá que mais, não tardou em iniciar o processo habitual: bullying e mais bullying. Marc Rubio questiona: “Macron fala por si, pela França ou pela Europa”?  “É que se fala pela Europa, temos de mudar isso”! Lá vem a “revolução colorida” do costume! Daquelas que a “democracia” americana tão bem prepara… fora e em casa, também!

O que teve mais piada nas declarações de Rubio foi quando ele disse que: “os EUA estão a ajudar a Europa na guerra da Ucrânia”, e que, “vão deixar de ajudar se a Europa não os ajudar em Taiwan”. Esta é das ameaças mais vazias que alguém já fez! Estarem a ameaçar deixar uma guerra – na Ucrânia – que eles próprios fomentaram, prepararam e alimentaram, no seu próprio interesse e contra o interesse dos povos europeus… Seria uma salvação, os EUA, deixarem do nos “ajudar” na Ucrânia. Aliás, tendo em conta as sondagens em Taiwan, parece que a maioria também não quer ajudas que matam centenas de milhares na guerra.

Como se tem provado, em grande parte do mundo, de onde os EUA saem, para se concentrar na “ajuda” ucraniana, os povos desavindos fazem a paz. São vitórias diplomáticas chinesas e russas, umas atrás das outras, ao ponto de, há uns dias, Mr. Burns, director da CIA, ter ido a Riade dar conta do desagrado americano com o reatar de relações com o Irão. Se este acto, por si só, não demonstra o “modus operandi” da Casa Branca, do seu “dividir para reinar…” Já não sei o que é preciso.

Mas se, esta reacção de Rubio é, em si, demonstrativa do estado de espírito da elite que governa os EUA e da forma como usam o “bullying” para resolver os problemas, já a forma como Macron age é também reveladora da posição em que esta gente, que se diz governante, se deixa colocar. Uma total falta de frontalidade; uma total falta de clareza.

Se no caso de Úrsula essa questão nunca se colocaria, afinal, não apenas privilegiou a Pfizer face a empresas europeias no Covid, como negociou acordos de matérias-primas e energia com os EUA nas costas dos povos europeus, e além disso, pagando mais por menos e com menos qualidade, já no caso de Macron ou Scholz, as coisas são muito diferentes.

Gente como Scholz e Macron anda a toque de “bullying”, prisioneiros políticos dos “valores” europeus que, afinal, são americanos – ninguém pode negar o decalque que a comunicação europeia faz a partir das posições públicas americanas. Scholz, mesmo com a carcereira Baerbock no seu governo – financiada por Soros e compincha de Úrsula – é apanhado a negociar acordos no ramo automóvel com a Rússia, a renovar o seguro do Nord Stream e a ir à China negociar a deslocalização de grandes empresas alemãs. Macron, mesmo acompanhado da sua carcereira Úrsula, continua a comprar energia à Rússia, a cooperar com a China, tendo saído da reunião com Xi, com mais um pacote de atraentes negócios entre os dois países.

Lá no fundo, o que estas realidades demonstram é que, os 30 anos seguintes à queda da URSS foram uma prisão para grande parte do mundo. Presos à única alternativa – tão obrigatória como única – que existia, traduzida em danosos acordos comerciais com os EUA e seus apêndices, ou em ruinosos acordos de “restruturação e estabilização macroeconómica” do FMI e Banco Mundial, hoje, o êxodo de fuga do dólar demonstra que ninguém estava contente com o sistema. E, na Europa, não se pense que o movimento de resistência não existe. Apenas ainda não teve condições para se afirmar. Marco Rubio já viu o filme todo, a seguir à França, podem vir outros…

Mesmo um país como Portugal, amarrado que está a esta âncora que cada vez mais nos agarra ao fundo – bem que os “nossos” (deles) governos nos falaram em mar – e que mortalmente nos afoga, poderia – e deveria – começar a fazer contas à vida e assumir, de forma frontal, aquela que dizem ser a sua vocação: fazer de ponte para o mundo. Mas não, os governos da alternância do “vira o disco e toca o mesmo” apenas nos transformam num “digital” beco sem saída.

O facto é que, as nações e povos europeus – leia-se a “Europa” -, deparam-se com uma escolha vital: ou definham com Washington que é quem tem o controlo militar e político; ou recriam-se e crescem com o mundo multipolar. Ou ficam com os “valores” vazios do ocidente colectivo, ou caminham no sentido da concretização dos valores reais, abrindo-se ao mundo, de forma soberana, autónoma e livre de amarras e preconceitos reaccionários, que visam resistir à mudança, ao desenvolvimento, ao progresso e à paz entre os povos.

Esta dicotomia, absolutamente contraditória com o discurso de cartilha feito à medida para ser aplicado em cada revolução colorida, em cada invasão ou em cada guerra por procuração, está, ela própria, bem presente na escolha a fazer. Há uns anos diziam-nos que “a economia é que manda”; quem não se lembra de ouvir Passos Coelho e a sua saída da “zona de conforto”; “o mundo está sempre em mudança”; “temos de aceitar a mudança”, repetiam de forma maquinal. Hoje, rejeitam a mudança, resistem e reagem de forma conservadora, repetindo que, agora, “temos de lutar pelos nossos valores”, “os valores europeus”. É impressionante que nos davam sempre com a Venezuela quando queriam falar de “luta por valores” e nos “EUA” quando se tratava de economia e mudança. Dependendo de para cujos bolsos vão os “valores”, assim mudam eles o discurso.

Enquanto os BRICS se tornam BRICS+ e agora BRIICSS, depois da adesão do Irão e da Arábia Saudita, discutem uma nova moeda, na Alemanha fechou uma siderurgia que já tinha quase 700 anos. Porquê? Porque o gás que têm de comprar aos EUA não presta e custa três vezes mais. E o que vai Úrsula fazer à China? Fazer “bulying” pró Washington e regime de Kiev. E o que faz o nosso governo? Aplaude efusivamente. E há cada vez mais gente a dormir na rua.

Na Malásia celebram-se acordos e propõe-se a criação de um Fundo Monetário Asiático, porque segundo o governo do país – vítima de meses de tentativas de ”revolução colorida” -, “não existem razões para depender do dólar e do FMI”, na Europa e em Portugal, vivem-se crises de habitação, inflação e endividamento… O que faz Úrsula? “Bullying” em nome de Biden contra a China. E Cravinho? Faz coro! E, enquanto isso, mais gente a passar fome, roubada pela ganância da grande distribuição!

Na África do Sul boicota-se a venda de armas à Polónia, porque as manda para Kiev, o México celebra acordos para a BRI que trarão enormes benefícios ao país – a tal da “armadilha da dívida” que todos preferem ao FMI -, por cá somos obrigados a ver a Úrsula a negociar acordos de energia e matérias-primas com os EUA, nas costas dos europeus, a preços muito mais caros do que antes. E o que faz a burocrata de Bruxelas na China? Pois… E o que fazem os daqui? E lá vai mais gente para a sopa dos pobres!

É uma tragédia. Enquanto o mundo se tenta levantar, o nosso insiste em cair. Assistimos, como entusiasmados fanboys num qualquer concerto ou jogo de futebol, a uma caminhada, a qual, a cada passo, mais nos leva ao precipício. Vejam lá que, depois de tanto disparate, agora, nos EUA, está-se a montar uma equipa – tipo mafioso, claro – de “especialistas”, paridos no Departamento do Tesouro dos EUA, “em sanções e financiamento do terrorismo”, que virão para a Europa, “convencer” empresas a deixar o mercado russo e os bancos a não financiarem as que resistirem ao assédio. Ou seja, não contentes, vão dedicar-se a fazer “bullying” às nossas próprias empresas e bancos. “Especialistas americanos”, do departamento do tesouro americano a fiscalizarem “sanções europeias” em países europeus… Quanto mais te baixas…. Já dizia o meu avô!

Muita “liberdade” e “democracia” nos discursos, mas a única coisa a que é dada escolha é a de que ricos mandarão em nós. Serão os ricos “A” ou os ricos “B”? São os ricos, ricos, ou são os pobres corrompidos por ricos? Serão os ricos que já eram ricos, ou serão os pobres que querem ser e estar entre os ricos? No final, é disto que trata a governação por bem comportados e competentíssimos quadros formados nas melhores universidades e colégios que os ricos podem pagar, suportar ou manietar! Passar pela Ivy League (Stanford, Harvard…) leva-te a Bruxelas, ao FMI e à NATO…. É selo de marca. A London Business qualquer coisa, dá-te o Ministério das Finanças ou o Banco de Portugal!

Quanto custará ainda a entender que vivemos numa espécie de “a liberdade de uns é a prisão de outros”. Esta “democracia” que finta a vontade popular, imune as escolhas eleitorais ou mesmo revolucionárias, porque tem natureza transnacional, chama-se “Ordem baseada em regras”. Trata-se de uma “ordem” que nos aprisiona, com “regras” que nos negam a soberania!

E vem gente dizer que “a U E vive de concessões de espaços de soberania” em prol de “um bem comum”! É “comum”, mas não é de todos. Pagamos todos esse “bem comum”, mas ele só é “bem comum” para alguns. Para outros é bullying e prisão!

O próprio povo americano é prisioneiro deste extremismo reaccionário e belicista. É o primeiro a sofrer o bullying e a ser seu prisioneiro!

Haja força para a libertação!


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