Como taxar o Facebook e porquê

(Paul De Grauwe, in Expresso, 21/10/2017)

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A empresa que tem quase o dobro da capitalização da WalMart emprega 1% das pessoas que esta emprega. Uma bomba-relógio de desigualdade.


As novas tecnologias de informação criaram toda uma série de empresas que se tornaram altamente rentáveis. As mais bem-sucedidas estão hoje na lista das dez mais valiosas empresas do mundo. Valioso aqui significa o valor monetário de todas as ações destas empresas; a sua capitalização, como dizem os economistas.

A Alphabet (mais conhecida por Google), a Amazon, a Microsoft, o Facebook, a Alibaba, cada uma delas vale 400 mil milhões (cerca de €340 mil milhões) ou mais nos mercados bolsistas. Não produzem nada tangível. ‘Fazem’ informação. Estas empresas de informação são extremamente bem-sucedidas. E levantam, também, novos problemas.

As características mais salientes das empresas de informação são que o custo marginal da informação que produzem é igual a zero. Para fazer um filme no YouTube tem-se alguns custos fixos, como uma câmara, um portátil e uma ligação à internet. Mas uma vez que o vídeo seja feito, pode difundi-lo sem custo acrescido. Quer tenha dez, cem ou cem mil espetadores, isso não altera nunca mais os custos do produtor do vídeo. O custo marginal (um custo de uma unidade adicional vista por alguém) é zero.

E não é tudo. Quanto mais visitantes o produtor do filme conseguir, mais valioso se torna o seu vídeo. Se ele ou ela alcançar uma audiência de, digamos, um milhão de espetadores, os anunciantes ficarão interessados e dispor-se-ão a pagar ao criador para incluir publicidade no produto. Quanto mais views, mais vontade tem o anunciante de pagar. O produtor do YouTube produz portanto algo que tem um custo marginal igual a zero e uma receita marginal que aumenta com o número de consumidores. Quanto mais pessoas forem alcançadas com o filme, mais rico fica o autor sem ter de fazer nada de especial.

Um modelo de negócio assim cria uma série de problemas. O primeiro é que essa empresa de informação cria uma data de valor económico sem usar muitos fatores de produção. Não são precisos muitos empregados para gerar uma grande quantidade de receita. O Facebook com uma capitalização de mais de 500 mil milhões de dólares (€420 mil milhões) emprega 21 mil pessoas. A WalMart, que tem uma capitalização de 271 mil milhões de dólares (€229 mil milhões), tem 2,1 milhões de empregados. Assim, o Facebook que tem quase o dobro da capitalização da WalMart emprega apenas um por cento das pessoas que esta emprega. Isto significa que um nível muito elevado de valor económico é distribuído por muito poucas pessoas. Uma bomba-relógio de desigualdade.

Um segundo problema tem que ver com o facto de as pessoas que aderem a uma plataforma de informação (o Facebook, por exemplo) dão de graça informação sobre si mesmas. Esta informação torna-se mais valiosa quanto mais pessoas aderirem à plataforma. A montanha de dados de informação privada torna possível colocar anúncios altamente afinados. O sonho de qualquer anunciante.

Portanto, empresas como o Facebook produzem informação que gera uma grande quantidade de receita usando como ‘matéria-prima’ a informação privada que adquirem de graça dos seus utilizadores. São grandes máquinas de fazer dinheiro que geram uma riqueza gigantesca, que não precisa de ser distribuída e pode ser mantida entre uns poucos sortudos nestas empresas.

Tal situação é insustentável. Leva a um contexto em que cada vez mais valor económico é distribuído por cada vez menos pessoas. O que podemos fazer quanto a isto? Eis a minha proposta: o Facebook realizou 26 mil milhões de dólares (€22 mil milhões) em receitas de publicidade em 2016. Esta receita foi de facto possível graças à ‘matéria-prima’ gratuita, a informação fornecida pelos seus utilizadores. O Governo poderia aplicar uma taxa de 50%, por exemplo, assumindo que, pelo menos, metade dessa receita é devida à informação gratuita. O que quer dizer 13 mil milhões de dólares (€11 mil milhões). Existem hoje 1,23 mil milhões de utilizadores do Facebook. Isso significa (arredondando) uns 10 dólares por utilizador e por ano. Parece-me uma boa estimativa do valor anual da informação fornecida por um utilizador do Facebook.

Portanto, a minha proposta é: uma taxa de dez dólares por utilizador paga pelo Facebook. Zuckerberg ficará um bocadinho menos rico depois de pagar o imposto, mas ainda lhe sobrará uma data de dinheiro.


Professor da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica 

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Pormenores de 600 milhões

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 06/09/2017)

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A execução orçamental de 2017, tal como se vinha desenhando, está a beneficiar dos efeitos positivos de uma descida do desemprego mais rápida do que o previsto, de um crescimento económico acima das previsões e da manutenção de um apertado controlo na execução da despesa.

De tal forma que há quem já identifique uma “folga” de 600 milhões de euros na execução orçamental. Já lá vamos, mas por ora convém abrir um breve parêntesis.

600 milhões era também o montante de cortes na Segurança Social que o PSD e CDS se preparavam para fazer se tivessem conseguido formar um Governo com apoio mínimo no Parlamento. E esses cortes podiam mesmo ser cortes directos nos montantes das pensões. Não vale a pena negar essa realidade.

Este não tão pequeno pormenor de 600 milhões de euros acima ou abaixo diz tudo sobre quem vê a solução para o País por via de repor rendimentos e crescer e quem só pensa em empobrecer o País e retirar rendimentos do trabalho enquanto aumenta os rendimentos de capital.

Durante a crise 3,6 mil milhões de euros desapareceram do rendimento do trabalho enquanto a remuneração de capital aumentou em 2,6 mil milhões de euros. Vale a pena relembrar que, como escrevemos aqui no final do ano passado: “É absolutamente atípico, por um lado, que a remuneração do capital (o excedente bruto de produção) aumente em anos de crise e, por outro lado, os dados em causa demonstram de forma cabal o colapso da renumeração do trabalho, que caí a partir de 2010 de forma abrupta quase 10 mil milhões de Euros. Estes dados são corroborados por uma análise qualitativa e quantitativa da receita fiscal.”.

Entre um mundo em que se preparam cortes de 600 milhões nas pensões dos mais fracos, e se manteriam a sobretaxa do IRS e outras medidas do género e este em que estamos, em que a execução orçamental tem uma folga no mesmo montante vão 1,2 mil milhões de euros de diferença.

Mas muito mais importante do que isso, a diferença entre esse mundo e este demonstra três coisas fundamentais: na vida em sociedade existem sempre escolhas alternativas que podemos fazer, colectivamente; solidariedade e melhor distribuição de rendimentos são melhores para o crescimento económico do que deixar crescer as desigualdades e, por fim,mas não menos importante, a política e os políticos são responsáveis pelas escolhas que fazem.

Eles e nós. Não vale continuar a dizer que não vale a pena votarmos, participarmos, discutirmos opções e escolhermos quem as deve executar porque “é tudo igual”. Não é tudo igual. 600 milhões de cortes ou 600 milhões de folga na execução orçamental traduzem-se em em menos pobres, em menos desigualdade, num País um bocadinho melhor. Tudo menos um pormenor.

COMO O GOVERNO PRETENDE “BRILHAR” EM BRUXELAS E A CAMPANHA DO “EXPRESSO” CONTRA OS TRABALHADORES DA AUTOEUROPA

(Por Eugénio Rosa, in a Viagem dos Argonautas, 05/09/2017)

PARA NÃO BENEFICIAR TODOS OS TRABALHADORES E PENSIONISTAS, GOVERNO TROCA NO IRS A ATUALIZAÇÃO DA “DEDUÇÃO ESPECIFICA” PELA ATUALIZAÇÃO DO “MÍNIMO DE EXISTÊNCIA”, E A CAMPANHA DO EXPRESSO CONTRA OS TRABALHADORES DA AUTOEUROPA…

Continuar a ler aqui: COMO O GOVERNO PRETENDE “BRILHAR” EM BRUXELAS E A CAMPANHA DO “EXPRESSO” CONTRA OS TRABALHADORES DA AUTOEUROPA – por EUGÉNIO ROSA | A Viagem dos Argonautas