As muitas vidas de Ronaldo 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/06/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Quem tivesse dúvidas sobre o jogador que é Cristiano Ronaldo bastaria ter visto o jogo entre Portugal e a Espanha, em que um só homem fez a vez de uma equipa inteira. Mesmo percebendo-se que as comparações entre épocas são difíceis, Ronaldo já suplantou há muito e largamente Eusébio. Ser o melhor do mundo no mais significativo espetáculo global não é coisa pequena. E essa figura ser de um país pequeno dá-lhe, nesse país, um poder simbólico esmagador. Qualquer português que viaje sabe que Cristiano Ronaldo é a única referência que muitas pessoas têm de Portugal. Ronaldo é, em notoriedade, o português vivo mais importante. E entre os mortos não terá muitos rivais.

Na mesma semana em que confirmámos, pela enésima vez, o génio de Ronaldo, ainda por cima a salvar a seleção nacional de uma derrota merecidíssima, aconteceu uma coisa bastante relevante na sua vida: chegou a acordo com o fisco espanhol para se dar como culpado de fraude fiscal, pagar 18,8 milhões de euros e receber uma pena de prisão de dois anos, suspensa. O fisco tinha-o acusado, em quatro casos diferentes, de ocultar rendimentos com os seus direitos de imagem através de empresas situadas em paraísos fiscais. O rombo no fisco corresponderia a 14,7 milhões por pagar e acabaram numa redução para 5,7 milhões. Sem este acordo e com todas as multas e juros o valor que Ronaldo teria de pagar seria muitíssimo superior. Ruinosamente superior.

Os advogados de Ronaldo defenderam-se com discrepâncias de critérios e Ronaldo com a sua própria ignorância. “Não entendo muito disto. Tenho apenas o sexto ano de escolaridade e a única coisa que sei fazer bem é jogar futebol. Se os meus assessores me dizem ‘Cris, não há problema’, eu acredito neles”. O fisco não deixou de recordar a regularização voluntária que fez da sua situação fiscal, quando, em 2014, saíram as primeiras notícias, demonstrando que já então tinha consciência do que fizera. Cristiano é um adulto que reconheceu perante o Estado espanhol uma fraude fiscal. O acordo, que inclui a pena de prisão suspensa, não pode ser tratado como um mero negócio. Isso seria ludibriar a justiça e a ética pública. É o reconhecimento de um crime que constará no seu cadastro. Ronaldo reconheceu que enganou o Estado espanhol, eximindo-se, apesar de ser milionário, do pagamento dos impostos que os simples trabalhadores que o veem jogar no Real Madrid pagam, sem mugir, todos os meses.

O que Ronaldo não pagou ao fisco espanhol foi pago, no lugar dele, por milhares e milhares de pessoas que contam o seu dinheiro ao fim do mês. Fugir ao fisco é um comportamento errado em qualquer pessoa. Quando um milionário que não sabe onde gastar o seu dinheiro o faz é pornográfico. Nenhum dos atos altruístas de Ronaldo, que tantas vezes são tornados públicos pelos seus assessores de imagem, compensa esta falha de cidadania. E pagar a quem o faça por ele, escudando-se na sua ignorância, torna a coisa ainda pior: Ronaldo responsabiliza terceiros pelas suas falhas.

Se Ronaldo fosse um político não duraria um dia depois disto. Se fosse um banqueiro ou um empresário seria humilhado na praça pública. Como é o nosso herói, não ouvi uma voz escandalizada em Portugal. Pelo contrário, um dia depois de se ter dado como culpado por uma fraude destas dimensões e de aceitar uma pena de prisão de dois anos (mesmo que suspensa), era endeusado por todos. Por mim também.

Este é um momento especialmente complicado para escrever este texto. Podemos dizer que um herói nacional é um mau cidadão poucos dias depois de confirmar que é herói? Podemos de devemos. Porque isso sublinha as nossas próprias contradições e não apenas as dele.

E ajuda a explicar o que noutros casos tem sido difícil: um ator pode ser um abusador sexual e não deixar de ser brilhante por isso; um escritor pode ser um traste político e um génio; um político pode ser má pessoa e o mais eficaz governante ou o líder mais inspirador; um futebolista pode ser um herói nacional e um mau cidadão.

Porque nós somos muitas coisas. Nós, os que cometemos erros, e nós, os que os julgamos, perdoamos ou ignoramos. E é por isso que faz pouco sentido fazer de alguém, por ser excelente no que faz, um modelo para a vida. Porque todos somos feitos de muitas vidas.

 

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Imprensa falida

(Por Joseph Praetorius, in Facebook, 26/08/2017)
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Joseph Praetorius

(A qualidade e a análise desassombrada deste texto incita-nos a profunda reflexão sobre a comunicação social, sobre a liberdade de imprensa, sobre a nossa cidadania e, em consequência, sobre as instituições políticas em que assenta a nossa vida colectiva. Perguntei-me se algum orgão da comunicação social tradicional teria coragem e mente aberta para o publicar e, não querendo ser dogmático, estimei que a probabilidade de tal suceder não deveria passar dos 5%, sem esforço ou exagero. É por poderem surgir textos deste calibre que os mainstream tanto se encarniçam contra as redes sociais, já que desmacaram a podridão em que navegam e os interesses que servem. Um abraço e os meus sinceros encómios ao autor.
Estátua de Sal, 26/08/2017)

A notícia de encerramento da Visão é fenómeno quanto ao qual todos querem ignorar um detalhe: a imprensa partilha do desprestígio do inteiro sistema político. Não tem auditório por isso.
Os jornalistas, sem nada a dizer segundo tudo indica, veiculam metades de ideias alheias sobre tudo, como se fossem opiniões próprias. Promovem-se uns aos outros. São analistas. Especialistas. Chefes. Editores. Imaginam até que têm curriculum.
Como o português médio, nasceram para polícias. Querem sê-lo. Foram chantagistas, também. –“Senhor Ministro, se nos der alguma coisa sobre algum dos seus colegas que valha o que temos sobre si, podemos publicar isso em vez disto”. E os ministros do Cavaquismo desfizeram-se uns aos outros. Parecia divertido, até.
Mas instalou a sordidez mais abjecta. Disse-se quase tudo de quase todos. Mas quem falou naqueles termos disse tudo de si próprio, também. Ocorreu aqui o que acontece com os polícias. Fizeram do sórdido a ocupação das suas vidas. E tudo é sórdido, para eles. Inclusivamente eles próprios, “porque não são parvos”. E são, claro. Apenas parvos, de resto.
Andavam e andam todos uns atrás dos outros, dizem e calam o mesmo em todo o lado, quanto a tudo e quanto a todos. (Na pedoclastia do clero papista ninguém tocou ainda). Havia uns lanchinhos na Embaixada Americana, suficientes para explicarem as omissões noticiosas em política internacional, por exemplo. A coisa já tem hoje outras técnicas. Mais automáticas. A independência da imprensa desapareceu.
O público acreditou no que aqui há de evidentemente verdadeiro – nada merece segundo olhar. E como respeitar significa olhar outra vez… O resultado é drástico. Fazem-se reportagens para “arrasar”, ou para “ajudar”. E algumas são até publicidade paga. As Câmaras, por exemplo, pagam “reportagens” sobre as suas terras. E isso será o que de mais inocente aqui ocorre. Quando o jornalista a soldo, directa ou indirectamente, tem uma réstia de sensibilidade até resultam textos úteis de defesa do património histórico, ou do meio ambiente.
Os climas em que os jornalistas trabalham são inenarráveis. A RTP, nos tempos de Moniz, pôs um bordel “no ar”. Quanto ao estilo, pelo menos. Mas quanto ao resto, também. Merecia uma reportagem a Teresa Cruz a descer a rampa dos estúdios do Lumiar com saltos de dez cm. Aquilo teria uma inclinação parecida com a da calçada da Glória. E o resultado estava longe de ser glorioso. Fui, naquela estrutura, assessor jurídico da administração durante quase vinte anos. E suportava mal os espaços ou ocasiões conviviais. Era opressivamente detestável, tudo aquilo. A RTP tinha uma importância social e empresarial muito maior do que pode supor-se. Era a TV Guia a garantir, por exemplo, a maior rentabilidade à VASP, distribuidora de Balsemão. E a VASP sabia bater-se por isso… Estava a estação pública enxameada de pequenos grandes negócios parasitários que apenas se pressentiam. A começar pela publicidade não paga. O arquivo assinalava-a heroicamente, sem transigências.
A SIC livrou-nos do aspecto de meretriz da jornalista-pivot que Moniz e Cerqueira tinham legado. Não vinha nunca a propósito, aquilo. É só um problema de adequação; quando se anui a ver o telejornal com os miúdos, não vem a propósito uma presença daquelas. A normalidade, a serenidade e a maturidade das mulheres tornaram-se, enfim, concorrenciais no jornalismo audiovisual. Assinalável alívio. Mas as cadeias privadas de Televisão vieram a estabelecer outras instrumentalidades – bastantes duras – e nada compatíveis com a independência.
Agora é tudo igual. Quando a RTP não tinha concorrência, havia dois canais. Depois da concorrência passou a haver um só, mais de quatro vezes difundido, não contando com as repetições. Tremenda coisa. Os jornalistas impressionam-se com o “jornalismo cidadão”. Porque o cidadão “não sabe”. Vem isto dito por gente de jornais e televisões que anularam as páginas culturais. Que ridículo. Quantas vezes se deu voz à Academia das Ciências? E à Academia de História? Ao Teatro Nacional? À Sociedade de Belas Artes? À Sociedade de Geografia?… São os cidadãos que não sabem?
As publicações tornaram-se tribunas para as minutas de organizações institucionais administrativas e para os seus funcionários, em regra odiosos mas ingénuos ao ponto de quererem exibir-se à execração pública. O ministério público, a ordem, os polícias, os serviços de informação, (as “grandes sociedades” de advogados, numa radical promiscuidade em todos os lados) os entes da administração pública… e o resto é futebol que uns dirigentes de partidos políticos se aprestam a vir comentar. Devíamos completar a inversão. Já me ocorreu ponderar o eventual êxito televiso de trazer Jorge Jesus ao comentário político…
Há qualquer coisa de grotesco num agente da polícia judiciária transformado em “enterteiner” de velhinhos num programa televisivo da manhã, com um psicólogo e um advogado. Alguém devia fazer o estudo do impacto de tão demencial papel nos velhinhos diante do televisor. É bem capaz de haver ali uma homeopatia sinistra…
As coisas chegaram a tal ponto que o público já não se sente atingido por uma recusa de declarações à câmara de televisão. Antes, o desdém para com a câmara fazia o público sentir-se atingido por essa antipatia. Agora já se percebe generalizadamente que quem recusa declarações não atribui nenhuma importância à antena, ou teme ser alvo da sua deslealdade, ou da impreparação do jornalista. Talvez isso acabe por fazer – ou já tenha feito – o espectador abandonar a antena, também.
O cidadão sabe, com frequência, bastante mais que os jornalistas disponíveis, escreve melhor que eles, informa-se melhor que eles, tem melhor formação universitária que eles e, agora, tem instrumentos que permitem neutralizar a manipulação de informação. Às vezes, o cidadão até já teve estatuto de jornalista. Eu próprio recebi a equiparação a jornalista. Sou filho de jornalista e consigo – por essa feliz circunstância – medir perfeitamente a degenerescência da actividade ao longo dos últimos cinquenta anos.
Não é pelo facto da publicidade se desviar que as publicações vão à falência. A publicidade tem de se render à evidência da inutilidade de publicações sem leitores (em conflito com os leitores e espectadores potenciais, até) sem notícias, sem jornalismo de opinião relevante, sem presença nos eventos de cultura, sem interlocutores para a produção ensaística, sem observadores interessados nas sociedades científicas, sem críticos literários, sem críticos de teatro, sem críticos de cinema, sem críticos de ópera. E sem qualquer actividade na divulgação cientifica, também. Quando não são inúteis é porque são nocivos. Ressalva-se o papel da velha antena dois que – menos bem do que já fez – continua a difundir a Música propriamente dita, com a limitação porventura excessiva das vinculações de gosto e já com a aparição de interesses de protagonismo de uns sabichões a quem o fiasco responderá a seu tempo.
Avizinham-se tempos duros. Mas a actividade continua a ser fascinante. O papel social, importante. E os meios disponíveis, eficazes. Basta só a honestidade imprescindível, a humildade que nunca foi mais do que a autenticidade e a determinação de recuperar o estatuto liberal. Deixem falir os mercadores de publicidade e de influências. E voltem a fazer jornais. Ou televisões…. (Toda a gente pode fazer uma televisão “on line”).

Aqueles que nos ajudaram a sobreviver quando tudo parecia perdido

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 28/08/2015)

Baptista Bastos

  Baptista Bastos

Um país sem memória cultural é um país condenado a todos os gelos. Que livros leram o dr. Passos, o Relvas, o Nuno Melo, o João Almeida, o dr. Cavaco? Que conhecem eles, entre outros mais, de livros, de autores; que poetas frequentam?

Apanho, na Graça, o eléctrico 28 e vou dar uma volta pela cidade, até ao cemitério dos Prazeres. Há muitos anos que não fazia esta bela viagem. Quando morei em Alfama, fi-lo muitas vezes, sempre encantado com os sítios por onde o carro passava. Depois, mudei-me e deixei de percorrer aquele percurso mágico. Houve uma altura em que uma administração da Carris quis acabar com a carreira 28; depois, predominou o bom senso. Antes de apanhar o eléctrico decidi beber um café. As pessoas cumprimentavam-me com simpatia. Vivi por aqueles lados durante muitos anos, e frequentava os cafés da Graça, que ainda hoje entendo ser um dos mais belos bairros da cidade.

Uma vez, há quantos anos?, o Luís Veiga Leitão veio a Lisboa, ele era do Porto, e convidei-o a fazer o percurso do 28. Acabámos, numa taberna, próximo do cemitério, a beber uns e outros. O Veiga Leitão era parente do Miguel Veiga, querido amigo e homem de bem, e levara uma vida aventurosa e de combate contra o salazarismo. Ele, o Egito Gonçalves e o João Apolinário faziam parte de um grupo, “Notícias do Bloqueio”, plataforma de resistência contra o fascismo, contra todos os fascismos.

O Veiga Leitão, entre outros livros admiráveis, publicara um, “Noite de Pedra”, de uma beleza incomum. Passara maus bocados, fora com a mulher, Sofia, para o Brasil, e, lá, chegara a vender enciclopédias, para governar a vida difícil. Era um homem de riso claro e boa disposição. Já ninguém fala nesta gente e o exemplo moral e cultural desta gente não era resgatável. A literatura portuguesa, então, abordava-nos porque fazia parte de nós, mantendo uma tradição que vinha de sempre.

Há tempos no Porto, falei no Veiga Leitão, e poucos sabiam quem era. Está tudo, assim, agora. Um manto de silêncio e de ignorância, como se a nossa identidade própria tivesse sido engolida por um abismo. Gostava de perguntar, a esta gente, quem era este e aquele; mas esta gente não sabe nem cura de saber. E um país sem memória cultural é um país condenado a todos os gelos. Que livros leram e têm lido o dr. Passos, o Relvas, o Nuno Melo, o João Almeida, o dr. Cavaco? Que conhecem eles, entre outros mais, de livros, de autores; que poetas frequentam? Há dias, uma mão amiga fez-me chegar uma página da Revista Ler, de Outubro de 1995, na qual o dr. Cavaco, na altura candidato à Presidência da República, referia “os livros da sua vida.” Ei-los: a “Bíblia”; “Contos”, de Miguel Torga; “Mensagem”, de Fernando Pessoa; Emily Brontë, “O Monte dos Vendavais”; “Jubiabá”, de Jorge Amado; Ruy Belo, “Obra Poética”; Vitorino Nemésio, “Mau Tempo no Canal”; Agustina Bessa-Luís, “Os Meninos de Ouro”; Marguerite Yourcenar, “Memórias de Adriano”; Vergílio Ferreira, “Para Sempre”.

Claro que é uma boa escolha. Mas restará sempre a dúvida se o dr. Cavaco é o verdadeiro autor da lista. Não desejo adiantar mais do que disse; no entanto, deixo ao cuidado do leitor a preocupação de analisar se a bota dá com a perdigota.

A ausência de memória cultural da esmagadora maioria da “classe” política é assustadora. E a resposta da “classe” política é na mesma moeda. De vez em quando, alguns escritores levam uns penduricalhos e ficam muito felizes, mas desacreditados. No tempo do fascismo, havia prémios literários oficiais e vultosos, mas eram raros aqueles que os aceitavam, e os que cediam eram enxovalhados com o desprezo. Estamos na mesma. A pequena vaidade sobrepõe-se à honra e à dignidade da recusa.

O vazio cultural que enreda a sociedade portuguesa é idêntico ao vazio moral. Por vezes, muitas vezes, recordo aqueles que construíram um território de integridade e de decência, no meio da traição e da ignomínia, e o silêncio em torno desses nomes faz parte da mesma estratégia de ignorância e de desapego que viceja em Portugal, porque o exemplo vem de cima.

Ao falar de Luís Veiga Leitão, falo num exemplo, como muitos outros, que nos ajudaram a suportar o insuportável.